sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Sinta

Eu cresci ouvindo que eu devia ser forte. Mulheres fortes cuidam de si mesmas. Sozinhas. 
Eu entrei no mundo e já fui recebida por uma lista de atitudes que todos esperam de mim, e que, se eu não as cumprisse, me trancariam em mim mesma porque há algo de errado comigo.
Uma delas é ser forte, mas não é qualquer tipo de força. É ter a força de ser passiva. Eu deveria sentir o que quer que sentisse, ouvir o que quer que fosse, e me manter calada. Mulheres fortes lidam com as coisas sozinhas.
E assim foi. No começo, eu sabia cuidar de mim. Vivi anos com a companhia mais negativa que se poderia ter, com aquela que te tira de si, que te deixa irreconhecível. Vivi tudo sozinha, e saí de lá sozinha também. Mas mulheres fortes devem cuidar de si mesmas.
Eu me livrei dela. Do sentimento sufocante. E me tornei vazia: maravilhosamente feliz por fora, mas sufocando tudo dentro de mim. Até que eu me perdi de novo.
Eu não vou mais ser vazia. Eu quero existir. Quero poder sentir e emanar meus sentimentos. Quero poder pedir ajuda. Quero chorar quando sentir vontade. E quero que as pessoas entendam. Que olhem, não com pena ou estranhamento, mas com normalidade.
Não há nada mais intrinsecamente humano que a consciência do sentimento. O problema é que criou-se o estigma de que não deveríamos sentir. É maluco aquele que ousou olhar para dentro de si e trazer para fora o que encontrou.
Eu não vou mais ser vazia. Vou me conhecer tão bem que posso sentir o que for, sem jamais ter vergonha de mim. Vou dizer ao mundo, ao meu mundo, tudo o que sinto. E vou existir da maneira mais leve que se pode existir: sendo sincera. Vou parar de me sufocar. 
Só há uma forma de se lidar com os sentimentos: sentindo.

Sylvia Plath

Medos, Sonhos e Coragem

Quando criança sonhei em ser presidente do Brasil. Afirmava a mim mesma que eu entraria para a história por revolucionar esse país. Me desiludi rapidamente. O medo de ser contaminada é maior que tudo, admito. A opinião pública me fez acreditar que eu só seria mais uma na fila do pão da corrupção. Mas olhei no espelho e pedi que eu não desistisse ali. Pedi que minha considerável honestidade não se perdesse no meio do caminho. E foi me olhando no reflexo turvo que me descobri jornalista.
Escolher fazer jornalismo é um ato de coragem. É preciso preparo psicológico (e eu não to falando sobre o salário). O jornalismo me faz questionar tudo. Me faz questionar a frase que acabei de digitar. Me faz ser esse paradoxo ambulante. Ser jornalista é ter que abandonar as nossas maiores crenças e escutar um pouco de tudo o que a gente nunca quis escutar. É perder a fome no almoço de família quando os discursos generalistas e preconceituosos são despejados sobre a mesa. É se moldar, se incomodar, se preocupar. É abdicar de tudo o que o senso comum representa e se dedicar à justiça.
Tenho muito medo de não ser precisa. Medo de me deixar levar pelo frenesi e não ser imparcial o suficiente. Medo de ser uma aspirante a jornalista que escreve textos engajados com a militância no Facebook e no dia seguinte questiona o conhecimento futebolístico de uma mulher. Tenho medo de ser hipócrita. Eu quero ser justa e corajosa. Essa é a minha utopia.

Lady Murphy

Senso machista



Pela definição do dicionário senso comum é o modo de pensar da maioria, noções comumente admitidas pelos indivíduos, e nós, mulheres, somos vítimas desse senso comum. Culpar a vítima do estupro é senso comum. Mulheres ganharem menos por engravidarem é senso comum. Sexualidade feminina como tabu é senso comum. Sexo frágil é senso comum.
Machismo é senso comum de uma sociedade arcaica de pensamentos ultrapassados, que se prende ao passado e recusa-se a andar para frente.
Em um país que a cada 11 minutos, 1 mulher é estuprada*, e homens se sente à vontade para ejacular em mulheres nos transportes públicos, o senso comum é opressor.
Aos que não pesquisam e cismam em seguir o pensamento de massa, não há sexo frágil e a culpa nunca é da vítima. Do short à burca, nunca será.
Pelo desejo de senso comum se tornar respeito a cima de gênero. Mulheres, sejamos fortes e sejamos o quisermos ser.
*De acordo com os boletins de ocorrência registrados e o levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Serena Amado
                                                                                                   

Porquês sinceros



Quanto mais eu vejo, menos eu sei. O tempo me mostrou que as coisas não são como sempre achei saber e tomei como verdade. Vivo em uma sociedade condicionada a pensamentos e atitudes que não são questionados por comodidade. A maioria da minha família, pessoas mais velhas, tem uma única ideia do mundo e das coisas, e tem uma extrema dificuldade em se libertar dela. Essas ideias foram reproduzidas a mim e a muitos, tomei como verdade. Se essas pessoas mais vividas dizem isso, deve ser verdade. Porém, nem sempre experiência causa sabedoria, não quando se vive numa bolha.

Eu sempre me questionei, desde pequena não entendia certas coisas, não entendia porque um dia teria que me casar, porque eu tinha que escolher apenas uma profissão pro meu futuro, ou porque devíamos seguir regras de um livro sem provas de quem escreveu mas diziam ser sagrado. As pessoas me davam respostas rasas como: é assim que funciona, você precisa ter seu dinheiro um dia, você precisa de uma companhia e filhos, ele existe e todos sabem disso, as coisas são assim. Mas por que!? Essas respostas apenas me geravam mais perguntas. Minha fase de porquês não era apenas bobeira de criança, eu realmente queria uma resposta! Queria respostas simples e claras, mas essas respostas não existem.

Por sorte minha conhecia alguns questionadores que não julgavam meu ato como errado. Por isso continuava sem entender ou aceitar algumas imagens que me passavam, mas, ainda assim, as lições eram intensas e eficazes, a sociedade conseguiu me fazer condescendente e reprodutora de seu discurso por um bom tempo. Até me encontrar em uma geração empática e desconstrutora que abriu meus olhos novamente. Nos livrarmos das superficialidades de nossas crenças é um processo trabalhoso e confuso, mas um vez que nos livramos dessas construções, nossa visão se torna mais clara, nossa vontade de saber só aumenta e percebemos o quanto sabemos pouco. Esse é um processo esclarecedor, mesmo que não pareça. O complexidade do mundo e da vida é algo bonito e hipnotizante. Você sempre quer conhecer mais, entender mais, e isso é ótimo, pois, como disse Shakespeare, existem mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia. Portanto force-se a abrir os olhos, questione-se, reprograme-se. E apesar de tudo, lembre-se: a única mente que você tem o poder de controlar é a sua.

Marie Brown

Em uma sexta-feira 13

Mel sempre foi a minha companheira de todos os anos. Aos 4 anos, ganhei ela ainda filhote e, desde então, crescemos juntas. Seus olhinhos dourados quando me encararam pela primeira vez, fez eu querer ser mãe de uma gatinha aos 4 anos. Seus pêlos negros como meus olhos, reluziam na luz do meu quarto. Mansa, dócil, silenciosa, e aconchegante, me ouvia sempre que o mundo me calava. Quando menor, ela brincava de se enfiar na minha gaveta de roupas e me deixava desesperada pensando que ela tinha escapado. Ela foi ficando grande tão rápido e eu ainda tão pequena... Parecia que era ela que cuidava de mim. Nunca fui de ter muitos amigos na escola. Sempre muito sozinha, eu aguardava o momento de chegar em casa e ser recebida toda feliz pela minha gata. Eu sentia que ela era a única que me queria no mundo. A forma que ela pulava no meu colo e se embalava nos meus braços, me fazia esquecer todos os motivos pelo qual eu não queria existir. Vi nela uma forma de escapar da minha solidão. Conforme ia crescendo, minha companheira de todas as horas, foi ficando mais saidinha. Porém, ela sempre voltava. Eu contava algumas horas e ia esperar por ela na janela do meu quarto. Enquanto esperava, olhava as estrelas, observava a lua, não pensava em nada e nem conseguia. Minha mente era uma bagunça, mas assim que via duas bolas de gude me encarando na noite, eu me acalmava. Quando eu era pequena, ouvi minha mãe conversar por telefone com algumas amigas, e ela dizia que a gata estava sendo meu melhor remedio. Eu não entendi na época, mas agora, passado os anos, eu entendo com mais clareza. Em um dia, por volta dos meus 11 anos, em uma sexta feira 13 , voltei mais cedo da escola  por ter brigado com uma menina que havia me batido. Na época, fiquei atordoada, e só conseguia pensar em desabafar com Mel. Cheguei em casa procurando por ela desesperada. Vim o caminho todo quieta, enquanto minha mãe tentava conversar comigo. Abri a porta de casa e minha gata não estava por la. Olhei dentro da gaveta, olhei de baixo dos móveis, e ela não estava lá. Mamãe me tranquilizou, e disse que ela deveria ter ido dar uma volta. Então, como de costume, esperei na janela até o cair da noite. O sol desceu e as estrelas subiram e nada da minha bebê aparecer. Eu que já não tinha minha mente muito clara, esperei por muitas horas. Mamãe me chamou pra comer, pra ver televisão, pra brincar, mas não queria sair de la. Mel podia chegar a qualquer momento e se sentir triste por não recebe-la como ela faz comigo todas as noites. Mas depois daquele dia, ela nunca mais voltou. Fiquei por mais uma semana, aguardando todas as noites por um retorno que nunca aconteceu. Não derramei uma lágrima. Nem podia, nem tinha como. Depois daquele dia nunca mais fui eu mesma. Só fui descobrir que ela havia sido morta alguns anos depois, por um grupo de pessoas doentes com superstições de gato preto. As vezes, por egoísmo e ignorância, as pessoas fazem coisas que ferem as outras e, nesse caso, seres tão inocentes. A falta de senso, levou naquele dia, a minha companheira, e com isso, minha vontade de ser mãe de algum ser novamente.

Capitu Fiel

Senso comum?



Minhas piores escolhas foram fruto do meu olhar deficitário do senso comum, no que se refere as minhas decisões e planejamentos de vida. E a maioria dessas escolhas não pude me beneficiar.
A minha melhor escolha daquilo que achei correto, talvez tenha sido um antagonismo daquilo que estava determinado ao senso comum.  Aconteceu completamente tudo errado. Tudo.
Com meus seis aninhos de vida, confesso que fui um demoniozinho. Uma criança bastante inquieta, ciente da minha agonia de ser um caçula e alvo de questionamentos familiares.
Fui um diabinho fugido do inferno. Que atentou muito meus avós, primos e tios; com a certeza que estava agindo como um santinho.
A gente, desde os mais remotos tempos de moleque, acha que o bonito é fazer muita merda, e tome porrada para aprender. E o que achamos certo é que todos irão bater palmas a toda gracinha, as mais fúteis que conseguimos fazer para agradar e ser aplaudido. Mas o tempo passa, e os valores que antes nossos pais nos ensinaram continuam valendo, será mesmo?  Quem poderá afirmar?
Passam os anos e ao chegarmos ao amadurecimento, vemos que a “banda não toca como achamos que devia”. Nossa polícia, o superego, nos controla a todo instante, nos algema e retira de nós a primitiva vontade de transgredir de ir contra a maré, e essa maré é tremendamente covarde. Desproporcional a todas as nossas vontades incrustadas no nosso inconsciente.
Agimos conforme a polícia, os políticos e toda a ordem social estabelecida. Assassinamos os nossos melhores desejos em detrimento de uma resposta convincente, aceitável em nome desse senso, que não é comum, nem popular. É hipócrita.
 Imaginar que a nossa vontade seja a mesma de todos, sem questionamento é simplesmente aceitar o comum o normal. Não me convenço disso.
Nessa ordem mundial, sem o rascunho do “não-ser” nos torna escravos de nosso pequeno mundo interior. Em nome dessa ordem racional, moral e ética quebrei a cara. Os anos me mostraram isso.
Quem somos nós para agir de acordo com essa maioria absurdamente escrava de uma opinião que se encaixe no agrado de todos?
Seres humanos são seres incrivelmente inteligentes e criam seus costumes através do tempo, desconstroem mitos, criam tabus e buscam suas possibilidades de erro a zero.
Perpetua-se na sociedade o bem e o bom como “metapragmática” do certo e nunca do errado.
Nossos desejos, errados ou certos são julgados por uma academia sem mestres, um tribunal sem juízes em nome da coletividade, em nome da maioria.
Minhas escolhas em nome dessa consciência coletiva, escravizou meus atos ao longo dos anos e me fizeram crer que o tempo, inexorável em sua magnitude, me desse outro respostas a essas ações na qual me tornei cúmplice. Atingi metas de acordo meu próprio pensamento.
Esse senso comum que me persegue, desde a infância, mostra um panorama irreal de minhas experiências passadas. Um comportamento abstrato, uma reação ufanista de que um dia haverá de surgir o “mau senso” e dar equilíbrio a toda e qualquer interpretação da maioria e oxalá se possa crer que a certeza do melhor julgamento seja a minoria burra.

Julinho Adelaide