sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Paisagemnós

Paisagem... É, quando surgiu esse tema eu confesso que pensei logo nas nuvens que vejo agora, no céu azul, nas aves que voam. No sol que brilha nesse momento, nas montanhas e no Cristo Redentor que está lá no topo. Talvez os prédios que embelezam a cidade ou os estádios de futebol que nos trazem um misto de sentimentos. Mas, e as pessoas? Sem as pessoas tudo seria vazio, sem cor. Como aqueles filmes de faroeste. Então podemos concordar que as pessoas também fazem parte dessa paisagem. Vejo alguns trabalhando no sinal, limpando vidros. Outros nos seus carros, ouvindo meu podcast, uma mina gata que sentou aqui do meu lado no ônibus. Vejo pessoas sorrindo, outras tristes. E isso tudo nos trás um misto de sentimentos, eu passando pelo centro vi um parceiro beijando uma mina é meu sentimento foi de felicidade. Soltei um "boa 06" por dentro. Por outro lado vi um homem sentado na cadeira de rodas acompanhado de sua esposa, ambos chorando. E aquilo me comoveu, me trouxe tristeza. É meu amigos, sem as pessoas, nada adiantaria o céu azul, as aves voando, o mar lindo, as plantas, os estádios. Pois iríamos ser solitários, tristes. Então, podemos colocar 50% da paisagem para nós. Vamos viver, amar, nos respeitar, fazemos parte dessa beleza natural, dessa linda paisagem.

DJ Rogerinho Do querô

O pôr do sol sempre foi meu espetáculo favorito

Esse é o lugar dos meus encontros. Todas as vezes que pude sentir a grama, dar lugar ao pôr, eu tive um encontro. Lembro do verão passado, você ainda lembra das nossas tardes? Dos nossos passeios, sentir o cheiro de sal e calor que transpira nas pessoas quando elas por dentro são verão, eu não esperava que todas as metáforas e comparações fizessem sentido, só gostava muito de sentir, aqui, o encontro. 
 É sobre como eu gosto daqui e em como esse lugar dá sentido a pessoa que me tornei, e acredite, quando digo que tudo é bonito é aqui. Tudo é infinito. Nos dias em que pesava ser eu, me encontrava aqui. Eu, ela, nós. Nossos olhos cansados se imploravam, e esse sempre foi nosso lugar. O sol começava a cair rasgando o azul de véu branquinho, e eu bordava sua boca na minha enquanto a natureza cantava coisas doces em nossos ouvidos.  
Talvez, eu tenha me esquecido de voltar. Mas, um dia, ainda marco esse reencontro.  

Lua Cortes

PELO OLHAR ALHEIO

Tu já parou pra pensar na vida das pessoas que já passaram por você?
Seja na rua, no trânsito da ponte, na barca, no estádio de futebol, no seu bairro ou até mesmo
naqueles rolês aleatórios que tu dá de maluco - e eu sei que tu dá - pelos cantos da cidade pra
não ficar em casa, tá ligado?
Se não, então eu que sou doidão mesmo.
Mas na moral, para pra imaginar o que se passa ou pode estar passando em cada vida perto de
você.
Aquela senhora no supermercado, onde provavelmente tá levando a janta pra casa.
Da moça apressada e tagarela do outro lado da calçada, pode ser pelo trampo dela, namoro que
tá tendo algum caô ou só por ela ser ansiosa pra caralho que nem eu.
Da mina saindo com os amigos da faculdade chorando, por perceber que nesses próximos anos
vai ser foda andar tranquilo e sem temer o fim da democracia que até esses dias já não tava lá
essas coisas.
Ou aquele moleque com os amigos, jogando bola na rua, gol de chinelo mesmo, com cada
menor ali, carregando o sonho de ser jogador de futebol.
Cada pessoa tem uma história, assim como você tem a tua.
Claro, tu não é obrigado a saber, mas se prestar um pouco mais de atenção pode ver que
qualquer um ali pode estar precisando apenas de um simples ato de gentileza, jogar conversa
fora, um consolo ou só mais um pra completar o time.
Não subestime a vida alheia.
Até por que, vai que uma delas seja quem você procura.
Fica a dica.

Almirante

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Um dia de chuva qualquer

Ontem a noite fazia calor, mas hoje, hoje chove. Chove daquela chuva fina, que quando
venta forte parece que nem molha, só machuca. Nosso herói se levanta cedo, ainda na
penumbra. O mundo está taciturno. Os pássaros não ousam cantar nem as ondas bater.
Pode-se ouvir apenas Zéfiro, anunciando a chegada de um novo tempo, o tempo de
desabrochar as flores e aos poucos transformar em cerne, aquilo que era alburno.
Mesmo derrotado pela noite passada, o herói marcha até o forte e sauda a bandeira. Suas
pálpebras estão pesadas e sua mente incapaz de proferir um simples bom dia. Ainda
assim, quando lhe perguntam se deseja servir a pátria, a resposta vem em alto e bom
tom:

-Não. “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé.”

O general de 10 estrelas que fica atrás da mesa com o cu na mão sorri e o libera. O
jovem está finalmente livre para ir de encontro ao seu destino. É então que, ao chegar na
Orla do Gragoatá pela primeira vez e sentir a luz do Astro Rei que rasga o céu
monótono lhe atingir, ele se dá conta. Ele já não é mais aquele herói e esse já não é mais
o seu show. Afinal, como poderia um homem que já não é mais ter seu próprio show?
Aquele medo, aquela ansiedade, já não era mais. Era agora esperança, era agora
vontade. Aquele que pensava ser Sol finalmente percebeu-se como Lua e hoje em dia
fica sempre a espera de sua estrela. Aquela estrela que não brilhára no primeiro dia,
sempre atrasada, como as manhãs durante as noites de insônia. Aquela estrela que
escondeu-se no brilho das outras, tímida e resguardada, como são os maiores tesouros.
Aquela estrela que guia o beduíno durante sua peregrinação pelo deserto, levando-o ao
oásis sem lhe pedir nada em troca, nada que não seus olhares e a sua companhia. É o
brilho dessa estrela que o nosso novo herói busca refletir.

Eric Cleptomaníaco

NAVIOS QUE LEVAM SÃO NAVIOS QUE TRAZEM

  É incrível como certas situações podem nos definir, podem descrever, sem uma
palavra sequer, uma parte de quem somos.
  Estou sentado na grama da orla da faculdade, na beira do mar, olhando alguns
navios atracarem e outros partirem. Essa cena se repete há muitos anos. Engraçado
perceber, por exemplo, que toda vez que chego à praia, passo os olhos pela linha do
horizonte procurando um vestígio seu, mesmo sabendo que não vou encontrar.
Escrevendo esse texto sobre você, escuto aquela música que cresci ouvindo no rádio do
seu carro, que cantamos até hoje como se fosse a primeira vez escutando juntos.
  Mais um navio entra na baía de Guanabara. Não sei se pode ser você, mas hoje
já me acostumei com a espera da sua volta. Hoje aprendi a lidar com suas partidas.
Agora eu sei guardar as novidades para depois. O entrar e o sair dos navios na baía
define uma parte de mim. Nos define. Toda vez que for para o lado de lá, do lado de cá
eu vou estar te esperando voltar. O mar que nos separa é o mesmo que te traz de volta.
  Olho o calendário no celular. Logo vou receber uma ligação sua avisando que
chegou. Quando eu atender vai ser a hora de contar tudo que guardei para depois. Que
bom que o depois sempre chega. Que bom que você sempre volta. Já posso ouvir sua
risada alta quando eu contar o que meu irmão aprontou no último final de semana. Já
consigo sentir o cheiro do seu feijão de domingo. Já consigo te escutar tocando violão
na sala logo cedo e acordando a casa toda. Já posso me permitir sentir sua falta.
  Que nossas despedidas sejam um eterno reencontro.

Edmundo Pevensie

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

A natureza une, a natureza ensina

Dizem que pontes representam a união. Porém, para um tempo no qual pontes cada vez
maiores vêm sendo construídas, nunca estivemos tão isolados uns dos outros. Não, não
estou falando do encontro físico, isso aí a globalização já se encarrega de fazer. Falo
aqui sobre a relação emocional, sobre a construção de laços interpessoais; voltamo-nos
tanto para os nossos sentimentos e preocupações que esquecemos o próximo. Não
conseguimos lembrar nem dos nossos vizinhos, olha que absurdo.
A partir disso, não posso deixar de refletir sobre a verdadeira harmonia, presente na
natureza. A orla do Gragoatá se transforma em uma grande tela, em que podemos
assistir ao show do pôr do sol tocando as sofridas águas da Baía de Guanabara. Ao lado,
a ponte de 14 km leva à cidade maravilhosa, todavia a maravilha já se encontra bem ao
meu redor. As aves que sobrevoam a região, os ventos que sopram as folhas verdes das
árvores, tudo em perfeita cooperação, deixam a experiência corrida de um universitário
um pouco mais prazerosa. Tais elementos naturais estão interligados intrinsicamente, se
completam. É isso que falta entre nós, seres humanos, olhamos muito para o nosso
umbigo, não pensamos no todo, entende? Estamos fisicamente próximos, como animais
enclausurados, mas nossas mentes estão em desarmonia, meu caro leitor.
Enfim, deveríamos aprender um pouco mais com o meio ambiente. Não foi à toa que o
poeta John Donne nos mostrou que “nenhum homem é uma ilha, completo em si
próprio; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo”. A natureza
representa, na sua beleza, a manutenção da paz por intermédio da conciliação legítima e
plena entre seus componentes. Assim, logo quando notarmos tais ensinamentos, não
precisaremos de pontes maiores, apenas mais rígidas, firmes, pois a essa hora já
seremos, de fato, unidos, de fato, felizes.

Rômulo Zaragoza

domingo, 11 de novembro de 2018

Thoughts

A reação química que explica a evaporação de água da água do nosso corpo quando estamos debaixo daquele Sol de rachar a cuca. Gosto da sensação que qualquer sopro trás o orgasmo instantâneo, que dura aproximadamente 3 segundos.

Venho querendo sentir essas gramas que estão distantes de serem as mesmas que meus pés tocaram até então.Meus passos acompanham qualquer que seja o ritmo que meu aleatório me propõe para aquele momento.

Acho que Deus está dando uma de DJ e organizando minha playlist. Esse momento é muito perfeito para não envolver o divino.

Quem me dera essa baía não ter o apelido de Chernobyl… Muito mais feliz estaria se pudesse colocar meus pés nela. Mas a brisa não recua. Essa felicidade é constante e me sinto um poeta que procura viver para representar em sua arte todo o êxtase que é estar. E talvez eu de fato seja um artista.

A conexão com a natureza é de fazer o c* sair da bunda. Eu me sinto parte de algo.
Fecho os olhos. Me encontro.
Abro os olhos.
Viva!

Alaska Pett

Sentado no gramado

Sentado no gramado, olho para a ponte.
Penso em como eu sou privilegiado de ter essa oportunidade.
Estudar numa faculdade e ainda de graça.
Tanto jovem trabalhando feito um desesperado.
E eu aqui, um burguês mimado.
Ocupando a vaga de quem não tem um centavo.
Sei que não é errado.
Me esforcei muito por esse espaço.
Lembro que um ano atrás eu sonhava com isso.
Entrar numa federal e cursar jornalismo.
Consegui e foi merecidíssimo.
Confesso que eu mesmo não acreditava.
Mas agora sentado no gramado, vejo que tudo isso é verdade.
Olhar para a ponte me mostra isso.
Percurso diário de milhares de universitários.
A ponte Rio-Niterói representa uma vitória diária.
Triste pensar que também me lembra de uma derrota.


Sentado no gramado, olho para a Baía de Guanabara.
Penso no caminho que faço quando vou de barca.
Andar da Praça XV até a estação da Carioca, nem é muito trabalho.
Eu com a minha mochila de marca e minha blusa cara.
Vejo garotos sem nada, tentando vender bala.
Temos mais ou menos a mesma idade.
Por que eu estou indo para faculdade e ele está vendendo bala?
Meritocracia é o caralho.
Esses garotos nunca tiveram uma oportunidade.
No Brasil isso é piada.
Eu estudo e você trabalha.
Eu vou nas choppadas e você leva porrada.
Eu arrumo um emprego, enquanto você entra em desespero.
Isso que fode.
Sentar no gramado e olhar a paisagem?
Realmente uma bela oportunidade
Infelizmente não é nem pra metade.

Oswaldo do Jae

Peixe fora dágua

Pô, relacionar paisagens e as pessoas foi mais complicado do que havia imaginado.

Bora lá. Lembrei de uma história numa pescaria na Baía de Guanabara embaixo da Ponte Rio Niterói.
Era um dia normal, nem muito calor, nem muito frio. Tava em casa combinando com meus primos de ir ao Maracanã, quando meu pai tem a brilhante ideia de dar uma de torcedor raiz. Fala pra gente ir pescar e escutar o jogo no rádio. Relutamos, mas cedemos.

A ida já foi exaustiva. Com meu primo mais novo vomitando no caminho e um acidente na ponte
causando um congestionamento da porra. Que maravilha. Bauman tava certo. Ocupamos um mundo
pautado pelo agora e ninguém liga pra tal da perfeição. Nos dias atuais, a pressa é uma aliada insana do ser humano. Partiu passar pelo acostamento, porque é urgente. Preciso chegar logo, seja lá pra aonde for.Acostamento, aliás, que já teve até pedido de casamento. Só uma curiosidade.

Mas vamo falar da pesca. E vocês podem me chamar de hipócrita. Ou então, aquilo que a gente fala de processo de evolução. Ao mesmo tempo que fico nessa de chamar a atenção dos indivíduos afobados e desfrutar de uma generalização, tava eu puto pra cacete porque não pegava peixe nenhum e já tinha passado quase duas horas. Juro por Deus que eu nunca havia ficado tão entediado na minha vida. Duas horas de cara pra água, parado. Só faltava eu meditar. Reclamei com geral no barco e todo mundo pedia calma. Calma! Mole falar isso. Além de mim, ninguém ali era novato na pesca, tirando o meu priminho. Isso só podia ser sacanagem.

Enquanto isso, meu tio metia uns papos que podem parecer bobeira hoje, mas pra cabeça de um garoto de treze anos assustava. Era cada estória. Esse barco é velho, vai virar. Cadáveres gerados pela ponte, e a ditadura escondeu muitas das mortes. Ah, mas a ditadura não era tão ruim assim, olha essa ponte. Tamo bem embaixo da ponte, não tem mais Médici, tem Dilma, a ponte vai cair. Opa, por falar em cair, o Vasco tava perdendo. O jogo tinha evaporado da minha mente. Ali perto, no Templo do Futebol, o Fluminense ganhava de 3-1.

Conclusão de uma atividade. Peguei o grande total de zero peixes e tive que ouvir várias abobrinhas domeu tio - vascaíno que tava meio bolado -. Ah, mas pelo menos o Fluminense ganhou, tamo feliz né? Porra nenhuma, deixei de ver os gols do Fred no Maraca pra isso. Pra piorar, meu primo vomitou de novo, dessa vez em cima de mim. Juro que não tô de caô. Taquei o foda-se e caí na Baía. Relação líquida.

Eu poderia formular uma frase de efeito e meter uma moral da história épica sobre a pressa do ser
humano, citar Modernidade Líquida de novo, falar que não há espaço para a preocupação com o futuro e sobre a ridicularização dos esforços a longo prazo. Mas o verdadeiro moral da história é: Meu pai sugeriu alguma coisa? Furada. Nem pro velho chamar a gente pro Pão de Açúcar. Se bem que se a gente fosse no bondinho, meu tio ia começar a falar que a gente ia cair...É, esquece.

Já tinha terminado o texto, porém, pensando aqui, nessa época meu tio falava da Ponte Rio Niterói como se fosse o símbolo da ditadura. Mas pô, ditadura era algo distante. Agora é 2018.

E o Fluminense ganhava do Vasco. Caralho. Depois dessa, tô metendo o pé, fui.

Peter Luís

PREFÁCIO

escrevo-lhes
por na vida sempre haver um pois
escrevo-lhes dessa caverna que é meu quarto
em decesso quiçá eterno
pois sou poeta
(e para bom poeta creio que o amor seja sombra)

escrevo-lhes pelos inacessíveis caminhos do pois
pois explicar é uma pílula a essa irremediável sociedade
pelos intangíveis arranhares das pregas vocais
que a vosotros transmite a voz
escrevo
pois escrever é preciso
quando já não é possível navegar frente às tempestades
(e sou água em enorme parte)

os ares pontiagudos vêm como mães
a pentearem os delicados fios de cabelo das árvores
e o vento é pai
a disciplinar os infindos caminhos das aves

tu
sentado à grama
ainda podes ser criança
por permitir-se o infinito de uma última dança
por pôr nos olhos vidros
por ainda ter coragem de sair da cama

sentem-se mancebos
e ouçam essa triste história
não tardará que tirem-lhes os espelhos da escama
sentem-se sem medo
ouçam à história de um amor que nunca existiu
mas que já foi embora
quando da vida nada se leva, senão pequenos anseios
ou lapsos da memória

ouvi dizer que da lua as estrelas eram véu
por acreditar em romances perdi esposas muitas
à procura do amor nas pequenas nuances
e resolvi sair pelas ruas, apreciando o céu
a lua
sua forma imprudente de expor-se nua
e despi-me também
tirei o capuz
deixei de lado o pudor
inalei um punhado de ar e existi
como nunca antes pude
espirrei
pois espirrar é ratificar da vida o perfume
amei
pois amar é como pro solo o estrume
e cobri-me dessa merda que é “amar”
dos “poises” não me libertei, pois

é tudo tão complicado por aqui
preciso-lhes explicar!

NA ORLA

É o verde que nos excita menina. São as cores. O brilho. Os motores. A noite cai sobre teus cachos louros e misteriosos, o silêncio toma a tua fala. Servem de lençol as folhas secas, o chão frondoso é cama frente às invisíveis cercas. Mas meu amor não da brecha às secas, não seca, não peca, não falha. Não te erra meio ao beijo à carne mutilada. Não me aflige a pele fina e arrepiada que me entregas de mãos dadas. É como lavanda o toque de teus pelos quase que desertos a subirem pelos perigosos caminhos de tuas infinitas pernas. Percorro sob essa lua que mingua para os amantes da quarta tuas trilhas tácitas de prazer. Teu desfazer súbito de qualquer barulho deixa-me o quase que inaudível marulho. O verde leva ansiedade qualquer que possa-nos dar no pé. O não tocar dos celulares acende a retina de teus globos oculares que me olham fartos e castanhos. Tua fala, como um bêbado que caminha, balbucia, trepida, me vem de forma desengonçada, em momentos de negação da fala, de negação de tudo que não nos converse como conversa a mão no desfazer de laços em tua malha. São teus lábios entreabertos que me conquistam pela noite fria que passamos à beira mar, ainda que silenciosos, dialogam com meu eu-lírico de apegos insólitos. E te olho. E me olhas. E te molhas. A grama rasteira é pouca para o prazer imediato, debruçado no desabrochar de cada beijo que se forma. O vento sopra leves rajadas redondas, sem pontas, a pentearem as bagunçadas mechas do amor. Os óculos começam por atrapalhar a visão próxima no trocar de informações ainda mais próximas, que me forçam a aproximar-me ainda mais de teu rosto, que se aproxima ainda mais de meu rosto, e me faz sentir o gosto; e os óculos são muros inseparáveis de visões curtas e incompreendidas. Os óculos são muros. Cegam. Despencam da ponta de nossas faces, suaves, como as folhas que fremem sobre nós em compassos regulares de brisa marítima. E a noite é fria para os que não se encontram aqui na orla, ao teu lado, à minha cia. Teu corpo dispensa flanelas, moletons, malhas, linho, mil fios. Teu corpo dispensa minhas flanelas, meus moletons, minhas malhas, meu linho, meus mil fios. Teu corpo me intima a despir-me de tudo, de todos, do nu. Teu corpo me veste, como vestem no inverno as mães corujas, que não habitam esta noite fria, que é nossa e, por ser nossa, é quente. E por ser quente ferve. E porque ferve, molha. E porque molha, é ósculo. E faz pingar. E porque beija, seca. E porque seca estremece, canta, agita, balança. E cantas. E cedes. Não te aguentas às minhas intransponíveis parábolas de saliva. Não te aguentas aos meus pelos cultivados em adolescência. Tuas falas renunciam ao passar das mãos em tua pele. As luzes refletem nos franzidos e úmidos lençóis, sobre os quais descansa aquele grande navio. E se flutuas em minhas mãos, em minhas coxas, em meus olhares castanhos; sou cais. E te atracas em minhas palavras de poeta. E te entregas a meus ideais pouco estetas. Já que não reivindicas, já que não protestas. Já que me concedes infindos caminhares de festa, te deixo palavras curtas de um desprazer imediato que me vela o corpo. A noite é fria novamente. A posse é curta e sem graça. É tão fácil ‘amar’ quando amado. Queria eu que se fizessem quentes todas essas noites de inverno que passarei na cia do fumo aqui na orla.

Zé Zepilim

sábado, 10 de novembro de 2018

Sobre florescer

Já estava quase escurecendo. O céu ficou com tons azuis arroxeados. A grama pinicava minha coxa e sua cabeça repousava no meu colo. Olhei para o relógio, são 17:43, a próxima aula começa às 18 horas e eu pouco me importo. Só consigo pensar em traços. Os seus traços. Bochechas rosadas por causa do calor e sobrancelhas grossas acima de olhos azuis escuros, feito a água da Baía quando vista da parte Orla que estamos.
Meu coração acelerado faz o mesmo barulho de quando atravessamos a ponte de carro. As rodas giravam cima dos vincos dela que, suavemente, nos erguia e nos baixava.        O cheiro da grama se funde ao cheiro da água e ao seu cheiro. Uma mistura de todos eles entram pela minha narina e me deixam em êxtase.
Eu encosto minha boca na dele, nossos olhos tremem com o beijo. Suas mãos se cruzam nas minhas costas, me falta a ar e minhas pernas começam a formigar. Eu não consigo te soltar.
Silêncio. O céu está escuro, sem estrelas. Mas ele emana uma certa luz, e eu me guio por ela. Você faz questão de me olhar nos olhos enquanto passa sua mão pelo meu pescoço. Abaixo a cabeça e olho o relógio, 20:45. Parece que me enraizei nessa terra escura e meio molhada. Sou incapaz de falar. Ouço de fundo a água batendo nas rochas e o vento balançando as folhas, o mesmo vento que bate em minha espinha e me faz arrepiar. Deito meu corpo no chão, acomodo-o na aspereza da grama e sinto as flores a minha volta com as mãos. E nesse momento, só consigo pensar em como ele consegue fazer sempre comigo, o que a primavera faz com as flores.

Cigana Oblíqua e Dissimulada 47

Ponte Rio-sem herói


Asfalto, pneu, fumaça, queima, queima, queima.... queimamos nossos pneus no asfalto.
Passo pela ponte, ao mesmo tempo quantos estão passando ?
Para onde estão indo ? no final a verdade é que nós não nos importamos.
O pedágio interrompe minha travessia, está escrito Roberto no guichê do homem que recebe meu pagamento. Roberto não quer saber meu nome.

Ninguém perguntou meu nome, ninguém se interessou em saber o nome de Roberto.
Onde foi parar a nossa humanidade, no trânsito não possuímos nossa própria identidade.
Não me chamo Roberto, Robson, Airton ou Lucas. Me chamam aquele corsa prata, civic, astra, sandero ou logan. Homens máquinas, transformados e trancados dentro de nossas caixinhas. Caixinhas de aço, corremos a ponte, carregando em nossas caixinhas toda nossa pequenez, insensatez, insignificância e todo o ódio que exalamos apertando o centro de nossos volantes.

A ponte que passamos também não atende por seu nome. A rio-niterói veste a sua fantasia. 
A ponte se chama general Costa e silva, mais um entre milhares de tiranos, ainda os homenageamos. 
Nossa sociedade tem sua tara por repressão. Gostamos de homenagear assassinos, são nossos heróis de estimação.

O trânsito parou na ponte costa e silva, 3 pistas fechadas, apenas uma liberou a saída.
Buzinas tocam e tocam e tocam... pisca alerta ligado, cabeças para fora do carro
" VAMOS!! O QUE ESTÁ ACONTECENDO ? QUERO CHEGAR EM CASA !!"
Mensagens no grupo de carona não param de disparar.
"A PONTE ESTÁ TODA FECHADA, SE CONTINUAR ASSIM NÃO VAMOS CONSEGUIR CHEGAR EM CASA !!"
Todos não param de buzinar, preocupados em chegar em suas casas.
Passo pelo tumulto, a ponte parou, um homem estava planejando se jogar. Ninguém se importou, quem ele era, sua história ou porquê ele estava querendo se jogar. Apenas queriam chegar, chegar logo em suas casas para deitarem a cabeça e descansar. Essa noite, mais um quis se deitar, pena que sua casa não era onde ele queria chegar....

De carro, quantos costas e  quantos silvas passam pela ponte de mesmo nome. 
seriam costas e silvas uns dos responsáveis pela morte de tantos silvas ?
afinal ninguém liga, no final, é sempre só mais um silva....
pieerrot                  

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Recomeços

Pareço presa a frente dessa imensidão de mar
Está baía separa o que nos enlaça
Os sentimentos saltam do peito
Por que então tantos desejos?

Desejo de ser nua e sua
Desejo amar sem amarrar
Desejo além de tudo ser minha

Deseja-me como tua
Deseja-me mais que nua
Deseja-me num lar

Quero mesmo é dançar
Sou rua e nunca sua
Sou um pássaro, livre a cantar
Sentimentos como uma onda do mar
Tão intenso quando as luzes do céu
Mais brilhantes que os carros a atravessar

Por quê então meus sentimentos parecem uma imensidão?
Talvez do tamanho desse céu ou deste mar
Me rodeiam igualmente sem parar
Deixemos o tempo dançar
E quando ele resolver parar de bailar
Talvez seja nossa hora

Mas agora, deixo o vento me tocar
Tocar minha face e minha alma
Brincar em meus cabelos com demora.

Apenas Lispector 


Plurais

Seu sorriso tem sido minha companhia constate.
Tanto que já nem lembro como era antes.
Sei que tens suas fases, seus ciclos, suas várias idades e seus mais particulares plurais. Porém existe um brilho comum todas elas.
Nos teus olhos vejo a esperança, uma energia e uma aspiração por um futuro melhor.
Vejo também o cansaço, a luta do dia a dia, a resistência ... E como tem sido resistentes nesses últimos dias. Como tens sido forte diante de todos acontecimentos. É como dizem, né? Enverga mais não quebra.
Sinto os teus sonhos, que se misturam aos meus.
E por mais uma vez, me pego pensando nos teus constrates. Essas esses morros ao seu redor. Essas que moram por lá, essas que vendem balas pela Universidade, será que um dia terão essa oportunidade?
E eu que nunca me senti assim, ao te  olhar me sinto  privilegiado por estar entre seus prédios, transitar entre seus blocos, ter a sombra de suas árvores, olhar pro seu mar e a cada dia descobrir um território à ser conquistado.
E assim você me conquista todos os dias porque a ânsia de permanecer é maior que a dificuldade de chegar.
Chegar e poder sentar a beira mar, relaxar e ouvir o som que o silêncio faz. 
Imaginar que a vida poderia ser tão mais fácil, mas que talvez se fosse não seria tão prazeroso estar onde estar.
E imaginar pra onde se vai. Já experimentou sonhar com o que estar por vir diante de um por de sol desses? Faço esse exercício todos os dias, de maneiras e sabores distintos. 
Na orla ou em sala, construindo esse futuro esse dia após dia. Porque eu sou você! E vice e versa. E no fim, tudo isso somos nós!

CastroADez

Marina

Estava distraído quando encontrei essa foto: você com olhos fechados pelo sol e nuvens ao
fundo. Tudo é azul, inclusive, seu vestido. Você me pediu para ver o mar naquele dia e te fiz
andar pela orla até reclamar de cansaço, mas ainda continuava a rir. Ria em contraste da vida
árida do interior tão diferente da gente do litoral. O vento que oscila a ponte cheia de
motoristas apreensivos para chegar ao trabalho com delicadeza movimenta a barra do vestido
costurado por ti. Apesar do coração devoto, com a língua atravessada pergunta quantos click
click da máquina faltam para podermos sentar. Pelo costume obedeço de imediato. Agora,
vemos o outro lado sem filtros. O movimento dos pássaros. O barulho dos carros. Os
aposentados e seus animais no calçadão. O ritmo da cidade em compasso com as ondas. Você
tem esse olhar infantil daqueles que herdarão o céu e em silêncio absorvo cada palavra da tua
história. Lembro o guardar das lágrimas na certeza da repreensão por fazer drama que para
você sempre acaba em xaréu. Não faço ideia do significado, mas acredito. E nesse misto de
maresia e saudade seguem as memórias de uma vida inteira. A senhora é gente humilde que
existe junto a terra e tem como escola o trabalho das mãos. Nutre em si força como as águas
que nos cercam capazes de se conformar aos espaços, mas também de os modificar. A doença
não tirou tua quentura, mas a estadia na cidade é só pelos exames, pois à sua espera estão a
casinha e o companheiro de todos os anos. Um outro Manoel – não o seu – mas também
poeta disse que o nome empobreceu a imagem, mas você de modo irreverente o provou
errado. Marina é aquela que vem do mar, tornando esse momento imenso. Click. É a última eu
prometo.

Brás Cubas 171

LE CIEL DE LA LIBERTÉ.

Hoje eu quero fugir. Quero fugir de mim mesma e me encontrar em algum lugar que não seja em meio à todo caos existente no momento. Não só no mundo lá fora, mas também dentro de mim. Eu preciso me encontrar, me conhecer e me reconstruir. Quero intimidade, quero liberdade! O céu está em uma paleta azul pastel contrastando com o laranja, e se eu forçar os meus pequenos olhos, consigo ver ao longe o “pequeno” monumento de Jesus Cristo. A grama que não é tão verde, mas serve de consolo para qualquer alma descolorida. O céu parece infinito para qualquer alma feliz, qualquer alma carente, qualquer alma distante, qualquer alma presente. O ambiente é como a cura de um corpo cansado e uma alma aflita, não precisa de muito para que o cenário seja transbordado por gente. Gente como eu, gente como ele, gente como ela, gente como a gente. É este o lugar? Era essa a calmaria que eu queria para estar em dia com minha paz de espírito? Sentada aqui nessa mesma grama que compartilho com tanta gente, sinto minhas mãos limpas e meu coração leve. Encontrei um lugar de libertação; onde a brisa é leve e passageira, tanto quanto os poucos raios de Sol que vão se despedindo de mais um dia. Não só quero minha liberdade, quero libertos aqueles que fazem o conceito de liberdade deste lugar para continuar vibrando sob o céu infinito e o mar que nos divide.
Billie Jean.

#NoFilter

Olha pra paisagem.
Pode olhar.
Olha, gente! Tô falando com vocês que tão ouvindo a crônica. Aprecia.
Tu que tá lendo, também.
É uma graça, né?
Uma ponte grande pra porra, uns morros internacionalmente conhecidos... Paisagem que já passou no Instagram de 70% dos alunos do Gragoatá.
Uma graça.
Afinal, o que escrever sobre o que já se foi escrito exaustivamente?
Acho que, no fundo, não me interessa a paisagem. Me interesso mais pelos pontinhos miudinhos que se escondem nela.
Me interessa menos o Pão de Açúcar e mais aquele bondinho. Não a estrutura, mas o cara que o opera. Será que é uma moça? Será que ganha bem? 
Sei lá. Mas se fosse pra fazer uma crônica sobre ele ou ela, faria um deboche com os gringos. Imagina: viver horas diárias de trabalho vendo um monte de gente falando um monte de língua e ostentando um monte de nota, mas todos tirando a mesma foto? E da mesma paisagem.
Gringo é gringo. Pode vir da super desenvolvida Noruega, mas na hora de tirar foto, vai sair do mesmo jeito que a nossa. Tudo bem que a dele vai pra Museu, e a nossa vai pro Instagram, mas no fundo, no fundo, elas têm o mesmo valor.
Me interessa aquele cara (e esse certamente é um cara), com seu carrão importado, achando que o veículo é a extensão do próprio pau, dirigindo a 120 por hora pela ponte e sem medo de multa, porque tá atrasado pra sauna que frequenta antes de chegar em casa, afinal, é preciso relaxar "no sigilo". Se a mulher não ficar sabendo, a família brasileira ainda tá de pé.
Pois é. Quem disse que nossos personagens sempre nos dão orgulho?
Também me interesso pelo Instagram daquela pessoa que acabou de comprar a maçã mais atualizada do mercado, quer estrear a câmera nova e lembra que "ih, eu tenho aula exatamente na hora que o sol se põe", mas foda-se, "feed organizado é portfólio".
É, pessoal. A gente faz dez crônicas no semestre porque nem todo mundo nessa universidade tá com a vida ganha.
Na moral mesmo? Eu me interesso é pela gente. Você que lê, vocês que escutam, eu que escrevo. 
Já pararam pra pensar em todas as paisagens que criamos desde o início dessa disciplina? Isso significa que temos muito a dizer, mas nem sempre existe espaço pra sermos ouvidos. Uma aula como essa serve pra mostrar que, afinal, nós damos aula.
Nós, os pontinhos miudinhos que ilustram essa paisagem aqui. O cartão postal é a gente.
Vão tentar poluir nosso rio? Para, né. Dá licença. Olha onde a gente tá: Baía de Guanabara. Já tâmo poluído até o talo. Se olharamos pra paisagem e o visual não estiver bonito, a gente escreve outra. Somos personagens e autoras dessa ficção. Somos semente e, até última ordem, faremos a festa na fresta.

Alcione 77 

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Quando o mestre relatava o tema, a paisagem que iríamos trabalhar nessa crônica, logo
veio à cabeça as descrições da consagrada Baía de Guanabara e da Ponte Rio-Niterói,
mas usou das sábias palavras para quebrar nossa expectativa. O foco dessa vez são as
pessoas, àquelas que por ali passam, nos ônibus, nas barcas, recheadas de esperança de
um dia melhor, mas também repleta de desgastes físicos e emocionais.
Aqui estou eu, nessa manhã de quarta-feira, com a barriga roncando na espera pelo
almoço e torcendo para ser bife com batata frita. Apesar das necessidades fisiológicas,
dentro de mim existe um turbilhão de sentimentos que não vale aprofundar, mas vale
citar: Amor, raiva, angústia, ciúmes, alegria, ansiedade, curiosidade, gratidão, medo,
entre outros. Me diz você, vai dizer que não tem nenhum desses que se faz presente hoje
dentro de ti? As pessoas, essas que citei, passam pela nossa paisagem carregadas desses
sentimentos e aflições perante o seu trabalho, seu estudo, sua vida amorosa, sua relação
dentro de casa, mas mesmo assim seguem os seus planos das obrigações diárias,
tentando dar o melhor de si.
Com frequência com todas as atividades da rotina e esse caminhão de obrigações nos
consumindo, esquecemos de dar bom dia para o trocador no ônibus lotado de manhã
cedo, esquecemos de falar como o tempo virou com a senhora simpática que puxou
assunto, esquecemos de perguntar para os nossos entes queridos um simples “tudo
bem?” ou um “como foi seu dia?”. A vida é corrida, e se você não correr junto você fica
para trás, mas não podemos deixar que isso atrapalhe a relação humana. As pessoas são
as coisas mais importantes do mundo, assim como nessa crônica o foco deve ser nelas.
O foco é no seu amigo da faculdade, no amigo de infância, na sua mãe, no seu pai, nas
pessoas. O dia que formos embora, nada de material ficará, o que fica são as pessoas, os
sentimentos, a saudade da pessoa que você era e das relações maravilhosas que você
construiu. Me despeço fazendo-lhe um pedido: Vá até aquele ente querido e dê um
abraço, fale algo, puxe assunto. Tenho certeza que a resposta será positiva, e mais do
que nunca você vai estar valorizando a relação e sendo valorizado, simplesmente pela
pessoa que você é.

Mim Acher Descubra

Impróprio para banho

Ela me deixou no meio do inverno.
A chuva caía serena e molhava o gramado da pequena orla do Gragoatá. Não era a orla
mais bonita, assim como ela não era a moça mais bonita que eu poderia encontrar. Mas
só quem já sentiu o vento da imensa baía soprar, a ponto de esquecer todas as provas
que a uff nos dá, entende porque me doeu tanto quando ela quis me deixar. Ela era toda
a baía de Guanabara, ela era toda a ponte rio Niterói sob as minhas águas. Ela era mais
do que uma poça, fiz dela meu oceano. Incontáveis vezes quis trazer ela aqui. Pra lhe
beijar e fazer piada com nossos planos. Ir ao parque da Cidade, viajar no carnaval.
Dormir juntos, lhe usar como modelo pra minhas fotografias, pros meus textos, pra
minha vida. Hoje, nosso amor não tem o mesmo cheiro. É poluído, cheio de plástico, é
engarrafado, caótico, revoltado. É Icaraí comemorando a vitória do Bolsonaro. Nosso
amor não é mais cidade sorriso, nosso amor são os dentes caídos do homem cachorro de
Niterói.
Hoje, é primavera. O vento que sopra tem outro gosto. Desatei os nós da garganta,
aliviei o trânsito nas ruas da minha lembrança, sequei as inundações que estragavam
toda a minha esperança. Os carros passeiam livres, as motos cortam os ônibus, as
embarcações seguem seus planos, e eu não te amo mais. Gragoatá me parece mais
bonito, esses dias trouxe um novo sentido pro gramado batido e sentei atrás do Bloco H.
Não pensei em você ao lembrar que ninguém pensa na baía de Guanabara, quando se
tem o Rio Nilo.
Nas tuas águas eu não me afogo mais.

Ricardo Reis

Viagens de família

-Olha mãe, olha... Quantos barcos!
-Senta aí menina, e olha sentada.
Era impossível disfarçar minha alegria quando a gente passava pela ponte Rio-Niterói, eu
nadaria de costas nas águas da baía de Guanabara de tanta felicidade, ainda mais com toda a
família reunida. Lá em casa, nós acordávamos bem cedo, e mesmo assim nos atrasávamos,
meu tio sempre nos apressava e ameaçava ir sozinho, mas ainda assim, esperava. O meu pai
sempre bem pronto pra gastar só em passagem nos 4 ônibus, o dinheirinho conquistado
durante o final de semana, no bico que fazia de segurança. Mas mesmo assim, ficavam todos
bem sorridentes e animados para o Natal.
-Olha! ali era onde o seu avô trabalhava, na manutenção dos aviões, não era mole não!
Trabalho pesado.... E ali ó, foi onde o seu avô segurou minhas mãos pela primeira vez, e bem
mais pra lá, lá pra baixo mesmo, foi onde ele me deu o primeiro beijo na testa. Dizia a minha
avó apontando pra qualquer lugar do Rio de janeiro que podia ser visto pela ponte, mas ela
parecia estar bem convicta da localização.
Ela sempre fazia questão de contar todos os detalhes das histórias da juventude dela no Rio, e
tinham muitas, até Jacarepaguá ia ter papo... E a gente amava ouvir, meus irmãos, meus
primos e eu, e claro, rir. Os passeios sempre eram muito divertidos, e só a viagem de não sei
quantas horas já valia muito. Hoje eu percebo como era a situação de verdade, sinônimo de
simplicidade deveria ser a família “Young” viajando pro Rio final de ano, com malas e
mochilas da escola, sacola plástica de supermercado para colocar os tênis sujos do meu
irmão, e o que não podia faltar... O saco de papel, por que ele sempre vomitava em algum
momento da viagem.
-Mãeee, tô com fome!
-Toma aqui, eu trouxe um lanchinho.
Eu perguntava na esperança dela dizer que íamos descer no chinês para comprar um italiano,
mas ela tirava um potinho com cream cracker amanteigado, já amanteigado, acredita?
Quando a gente chegava na casa da nossa tia-avó, era a maior festa, o meu primo já tirava a
bermuda para tomar um banho no chuveirão de cueca, e eu ficava irritada por que ainda tinha
que colocar o biquíni. Privilégios né...
Depois de toda a tour que já era de costume pelo condomínio chique, e a competição de
corrida na quadra, nossa tia já imaginava o que estávamos aguardando, nos acostumou mal...
-SORVETEEEE! Gritava o meu primo.

-Nada de encher a colher de modos feio em. Ele falava bem sério pro meu irmão, mas nem
ele mesmo respeitava.
E é claro, eles comiam tudo, quem é que deixa um pote de Nestle de napolitano na mão de
crianças?
Esses eram sem dúvidas, um dos melhores momentos do ano, a família reunida, a mamãe e o
papai juntos e felizes rindo das nossas graças, nenhuma criança desejaria nada a mais, a
família estava completa!!! Mas aí ela acabou. E hoje, quando olho pra ponte, são desses
momentos que eu lembro.

Alasca Young.

Mar de Diamante

tempo sugando toda a tranquilidade de si mesmo
espelhado em sua própria queda
através da brisa fria que empurra nuvens pesadas
deixando o sol entrar em cores alaranjadas
uma dança quase mórbida
junto com todas as formigas
indo e voltando
presas em uma fazenda psicológica
me torno onisciente à dissonância de seus passos
entre as luzes fluorescentes e artificiais
quebrando minha própria realidade
apaixonado pelas águas que carregam meu próprio ser, existir
entre as curvas de niemeyer
entre os chamados de uma cidade que não pertenço
é como resgatar a sobriedade
olho em seus olhos pra ver
homens que se perdem
dentro de um mar de diamante


Julian Castella

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Um último recado

Lembranças me martelam como peões de obra ao erguerem alicerces, sempre batendo,
porém nunca abrindo mão da construção. Vou pegar emprestado os termos da obra para
elucidar que os pensamentos são como tijolos prestes a serem construídos pela reflexão.
Meus amigos me acham esquisito: “Esse moleque mistura Bob Esponja com o viés
nietzschiano” Sim, misturo, meus compadres sem convicção, Nietzsche dizia de crenças
culminaria no caos social. Deve ser por isso que o Bob Esponja ama tanto fritar seu
hambúrguer de siri. Por propósito, por fé. A falta de fé no diálogo colocou o despreparo
e a truculência na presidência. Fez o povo achar que o medo das minorias é sinônimo de
teimosia e demência. Falta de fé é falta de ponderação. Cabeça vazia, oficina do diabo,
já avisava minha avó. A fé anda de mãos dadas com a razão e isso nunca irá mudar.
Assim, professor Pena, você que me faz lembrar o trauma, o sonho maldito, o coiso, ah
o coiso... Melhor não falar nada, o cara está no Planalto; você me permite refletir,
existir. Isso tudo, meus leitores, é porque as lembranças que me martelam me
possibilitam enxergar o mundo pelas lentes da lucidez, me fazem ser que eu sou. Essas
lembranças, as quais presto minha homenagem, são vida. Fica aí a reflexão.

Rômulo Zaragoza

7 cronicas e 15 comments

NADA, OU QUASE TUDO

Escrever é crer, porque se creio posso entender, ou creio entender, porque escrever é entender que não é preciso crer para saber. Ou algo parecido. Porque ser ou não ser talvez nem seja uma questão, já que aquele tal de Shapskere (acho que é assim que fala né?), por falar em Shapskere, jantei há pouco e o aipim que acompanhava as almôndegas estava uma delícia. Ah, o aipim... Não, calma, me lembro agora que o ano é 2018. Já faz 2 anos que a democracia foi golpeada. Sinto falta da falta de lógica e conteúdo. Hoje percebo como o ruim é relativo e o bom não existe. As anacronias da minha mente desenham um futuro em PB, essa Porra de Brasil sem cor; se o verde e o amarelo já se confundem com o vermelho, imaginem o preto e o amarelo e o vermelho, e é preto o novo laranja. Pois é, nada tem feito muito sentido ultimamente. Pois é, nos dias recentes que se passaram a universidade já não tinha tanta cor, os beijos gays já não eram tão molhados e o colorido da bandeira que aquela menina de cabelo rosa carregava já não chamava tanta atenção - as cabeças andam baixas. Talvez essa falta de coesão que tenho vivido seja um grande devaneio do irreal. Ouvi dizer que os sonhos são flashes disparados pelas sinapses enquanto dormimos e que não duram mais de 3 segundos. Não acreditei muito, mas achei a informação válida para o início de lapsos dialogosos e polêmicos que travo na minha busca por socialização. Não sou fã dos clichês mas creio que nem Freud explica a conjuntura brasileira. Enfim, voltando ao coiso de que falava antes. Digo, à coisa, o onírico tem se tornado bem mais real do que imaginaria. Os pesadelos têm perambulado pelos escuros de nossa pátria, enquanto mães saltam das paredes para pegar um copo d’água - e o escuro assusta. Por falar em escuro vai aqui uma interpretação desse imaginário. Pode ser que a arma seja a materialização do pau. Se até no apelido ele é objetificado, vai ver seu governo consista numa grande coisificação da impessoalidade vigente. Vai ver a coisificação do sexo seja o estupro. Vai ver Maria do Rosário seja um ’isso’. E por falar em estupro, talvez esse sequer seja o trauma que mais vá incomodar os canários mudos nos anos que seguem. A punheta assusta mais. Enfim, não sou ‘isso’, nem palpável - não me deixo consumir pelas superfícies de meus palácios. Tenho levado uma vida leve, sido pena. Aliás, o estresse com o imutável não vale a pena. E seria uma pena se não houvesse no caminho um Pena para fazer-nos flutuar no léxico. Crendo ter-me estendido por demasiado, escrevo para concluir que o Brasil tem se mostrado desses que prefere comprar uma bicicleta nova a trocar os freios. Talvez fosse melhor deixar essa merda bater. Vai que dava PT?

Zé Zepilim