terça-feira, 1 de novembro de 2016

Quem me pertence?
Quando os vi pela primeira vez, várias vidas eu vi, várias histórias, várias personalidades. Cada um com sua peculiaridade. Quando eu olhei seus rostos, decorei cada olhar, cada sorriso, cada fio de cabelo, cada janelinha no sorriso que se formava quando um dente de leite ia embora. Eu os vi crescer, eu os fiz crescer. Eles cresceram ao meu redor, aprenderam matemática, português e ciências. Jogaram futebol e queimada enquanto eu os observava. Deram o primeiro beijo atrás dos meus muros, tiveram o coração partido pela primeira vez no meu pátio e choraram como se mundo fosse acabar nos meus banheiros.
            Quando os vi chegar, eram nada mais que bebês recém-saídos dos colos dos pais e quando os vi partir, eram jovens preparados para enfrentar minha prima. E toda vez é assim, eles chegam pequeninos e vivem, crescem, comem, choram e sorriem dentro do meu ser, eles trazem suas histórias para mim e vão embora com as que construíram comigo. Mas eles voltam. Numa dessas voltas, não foi para sentar nas cadeiras das salas de aulas e aprender sobre artigos indefinidos ou números compostos, foi para sentar na minha quadra e resistir.
            Algumas pessoas queriam cessar com todas as discussões que dentro das minhas paredes ocorriam, queriam fechar meus portões, queriam me amordaçar. Queriam me tirar de quem eu pertencia. Mas aqueles que eu ajudei a criar, voltaram para lutar por mim. E aqueles que eu estou criando agora, juntaram-se a luta. Agora eles sentam na minha quadra e discutem política. Eles sentam na minha quadra, e os alunos ensinam os professores e os professores ensinam os alunos. Eles sentam na minha quadra e resistem, ocupam, vivem, lutam. Eles sentam na minha quadra para que outros possam ser criados por mim, assim como eles foram e são. Eles sentam na minha quadra para que não me amordacem, não me calem, não me fecham. A quem eu pertenço? Eu pertenço aos alunos. Aos que vieram e já se foram, aos que vieram e voltaram, aos que ainda estão aqui. Pertenço àqueles que me pertencem.
            Eles sentam na minha quadra, para que outros após eles possam sentar nas minhas cadeiras.

Afrodite

15 comentários:

  1. Gostei mt de como a autora desenvolveu seu pov para se adequar à temática exigida. A questão antropológica de luta estudantil para garantir seus direitos e os direitos e quem ainda estar por vir foi mt bem trabalhada em uma linguagem simples de se ler. Parabéns.

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  2. Gosto do trabalho psicológico da POV de uma escola. Interessante a forma como os relatos podem se conectar a diversos leitores e trazer uma nostalgia à tona. No final acho que tem algum erro de concordância (fecham ou fechem?), dê uma observada.

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  3. Li esse texto num tom bem nostálgico, me fez refletir e lembrar do meu colégio. Achei muito original abordar o ponto de vista da própria escola, bem criativo.

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  4. Como já foi abordado, o pov escolhido é o que marca nesse texto. A estratégia narrativa da repetição, no penúltimo parágrafo, deu um tom de afirmação ao que estava sendo abordado, gostei. O texto também causa empatia no leitor.

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  5. o POV escolhido é surpreendente. Até quase o fim eu achava que era um professor quando você me descreve traços que subentendo ser a escola. Boa estratégia. Além disso, é de provocar comoção em quem lê, mexendo com os fatores psicológicos do leitor.

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  6. Criativo e fácil de se identificar, traz uma sensação boa e nostalgia ao leitor. Parabéns!

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  7. De cara é fácil amar esse texto. Acho que não preciso nem dizer que o POV ter sido o da escola foi uma sacada muito inteligente, e que deixou o texto muito interessante e que cativa a gente. As repetições no final também foram muito boas, reforçando o que foi dito, assim como a última frase, que terminou a crônica de maneira forte. Parabéns!

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  8. Eu adorei a forma como vc conduziu o texto. Leve porém impactante, trazendo um sentimento de esperança e resistência. O POV da Escola, saindo da ideia de apenas uma instituição, é brilhante!

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  9. Incrível! Trouxe vida a instituição escola, que acredito ser a principal ideia das ocupações.

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  10. Gostei muito do uso do POV! Passa uma sensação de relação maternal entre os alunos e a escola, exatamente o que pude sentir na fala da Ana Júlia também. Adorei!

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  11. Toda a construção do texto deu uma ambientação muito boa, eu já tava me imaginando nas escolas por onde passei, nas salas, nos banheiros, as experiências. Como falaram, dá uma sensação de nostalgia, que na verdade, não sei se foi o objetivo, mas é bem gostosa. E, ah, que ótima escolha de POV! Foi uma sacada e tanto, e você conseguiu desenvolver muito bem.

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  12. Parabéns pelo POV! Gostei muito do texto, bem desenvolvido.

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  13. Parabéns, muito bom mesmo! A utilização do POV aliada com a excelente escrita e a crítica implícita no decorrer fo texto proporcionaram uma leitura excelente. Mais uma vez parabéns pela criatividade.

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  14. Clodoviu viu um excelente POV, porém achei a leitura um pouco cansativa por conta de tantas repetições que realmente necessitam de uma maior atenção do leitor

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  15. Muito bom texto! Um dos melhores sobre a essa temática

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