sexta-feira, 14 de junho de 2019

DREAM A LITTLE DREAM OF ME

Subversor justamente quando não é, o Cinema me captura pelos olhos, pelos ouvidos, pelos poros, pela ponta do pé: meu primeiro Nike veio daquele clássico do Tom Hanks, meu penteado é uma imitação barata do galã de ocasião, enxergo através de planos americanos, me visto de peça de marketing. Sinto que estou sempre em cena, sou um homem-cartaz, não pertenço a mim. 

Vivo como num filme de Chaplin, que é surdo em vez de mudo: eu sou capaz de capturar sons, os espectadores é que não. A maior força dessa simbiose reside na impossibilidade de viver qualquer cena sem trilha sonora mental, cadência dos meus passos.

Boas trilhas são chicletes de sucessos. Grandes trilhas são remakes eternos. Trilhas para a vida são sinestésicas. Quem me acorda é a sinfonia de Wagner, triunfo a Darth Vader. Porque músicas odiosas é que despertam, as sublimes fazem cafuné; em seguida, vou ao banheiro com o hit de Missão Impossível - cena censurada; meu Nescau tem gosto de Tim (-tim!): é chocolate que eu quero beber, dizia o merchan; sou Gene Kelly, quando tem água quente no chuveiro; o suor que me esbarra nas barcas exala o hino novelístico de Zé Ramalho; se eu chapasse, seria com os meninos de Liverpool e Lucy; e cada linha aqui é um degrau subido por Rocky Balboa. Como ele, qualquer dose homeopática de talento é potencializada por cavalares de afinco.

Troca a música, pois essa noite Ella veio me visitar. O elenco do quase ménage somos eu, Ela e de vez em quando uma discreta Norah Jones - voyer de sussurros. Entro fora do tempo, Ela diz que estou acima do tom, mas nada grave. Finalmente, entramos no compasso. Dedilho até ganhar aplausos do público. Eu que também assisto o solo. Brincamos à capela no refrão. Venero o clímax de seus agudos, até que peça bis. Nesse show de realidade, não há competição, apenas um dueto. Nessa guerra de saliva e papilas, não há vilões ou derrotados.

E é disso que trata a sinestesia: um híbrido entre erro cognitivo e percepção transcendental. Assim, toda noite recebo sua visita sem que suspeite. Os sopros d’Ella sempre trazem ventos D’Ela. Conheço tua textura através de notas. Sinto sem ter vivido. Que dó: não passa de um pequeno sonho de mim mesmo que assisto toda noite. Até que a música vai se esvaindo, sobem os créditos dos meus olhos sonolentos e novamente tenho que lidar com o fato de que não há som que se propaga no vácuo da solidão.
João Cadeado

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