quinta-feira, 13 de junho de 2019

É bonita?

A história que eu vou contar é sobre como eu e minha mãe, juntas, na hora do parto, ganhamos vida. E a vida o que é? Diga lá, meu irmão! 
Naquela época, era, literalmente, a doce ilusão de que tudo seria mais fácil: nove meses de gravidez, enxoval comprado, bercinho já posicionado, família ansiosa pela chegada da quinta neta. Tudo certo. Até que chegou a hora. A bolsa estourou. Era o momento. Tudo começou às nove e meia da manhã, no Hospital Geral do Rio de Janeiro. Colocaram minha mãe no soro para aumentarem as contrações. Mas ficaram fortes demais. É o tipo de dor que só quem sente, de verdade, consegue explicar.  
_ Vem desde o início das costas e vai se espalhando pelo corpo todo, parece que a criança vai sair pela tua goela. 
Ela é maravilha ou é sofrimento? As dores do parto são normais, toda mulher que põe um bebê no mundo passa por isso. Mamãe só teria que aguentar um pouco mais: a médica não seria a mesma que nos acompanhou durante o pré-natal, não queriam liberá-la para a sala de parto por julgarem não ser a hora certa. E pergunta se eu queria esperar? Contrações e mais contrações, a dor que se reverbera pelo corpo crescendo, a vontade de me colocar pra fora cada vez maior. Vem a enfermeira. 
Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo. Aquela mulher era uma dessas pessoas. “Quem te enganou que, pra ter filho em parto normal, não dói? Hahahaha Coitada...” Disse a cínica, olhando pra cara de alguém que delirava de dor, pensando que perderia um serzinho que foi tão planejado. Minha mãe gritava, sangrava, se agarrava nas grades da cama, suplicava, pelo amor de Deus, para que alguém salvasse a sua criança. Quando dizem que é luta e prazer, não evidenciam que lutar é tão difícil. Felizmente, a salvação veio. Literalmente, um divino mistério profundo em forma de médica.  
Doutora Patrícia, com sua pele branca e seus traços padrões, foi quem conseguiu, aos poucos, ir trazendo nossa força de volta. Mais de quatro horas já tinham passado. Era a única chance que tínhamos de nos salvar. Luta, mamãe! Por mim, por você. Sempre desejada, lembra? E foi assim: desejada, na raça, com as mãos agarradas nas grades e duas enfermeiras deitadas na barriga que minha mãe se lembrou da nossa música. 
EU FICO COM A PUREZA DA RESPOSTA DAS CRIANÇAS. É A VIDA. É BONITA. VIVER. 
E, de uma só vez, ela conseguiu. Depois de quase cinco horas. Ela, que nunca perdeu a beleza de ser uma eterna aprendiz, com sua generosidade absurda, me trouxe pra esse mundo. Eu, você, ela e até o Gonzaguinha (lá de cima) sabemos que a vida devia ser bem melhor. E minha mãe sempre faz de tudo para que, realmente, seja. 

Repetindo quantas vezes forem necessárias que é bonita, é bonita e é bonita,
Heloísa Dandara Pires

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