quinta-feira, 21 de setembro de 2023

20 de agosto

 Sentado neste quarto tomado pela penumbra de uma madrugada silenciosa, após um dia cansativo que durou mais do que deveria, penso em minhas dores. Feridas da alma que ainda não se fecharam e quase permitem que eu escape de mim mesmo. 

Existem eventos traumáticos em nossas vidas que permanecem à espreita, aguardando o momento oportuno para se manifestarem novamente. A fazer com que reconheçamos nossa fragilidade. Expondo que não estamos curados, apenas distraídos.

No dia 20 de agosto me senti minúsculo. Como se não houvesse uma barreira que separava a minha existência do resto do mundo. Uma criança perdida nas ruas de uma cidade grande demais para ela, a chamar por sua mãe. Esta, por sua vez, embriagada demais para reconhecer sua voz, tropeçava em suas próprias pernas e desmaiava no concreto gélido. 

Naquele domingo, voltei a ter 8 anos. Vivi todas as brigas novamente, ouvi seus gritos como se nunca houvessem cessado, lavei seu sangue como se jamais tivesse estancado. Meu coração acelerou da mesma forma que acelerava há uma década atrás, e eu chorei como se não tivesse envelhecido um dia sequer.

No entanto, não me calei como de costume. Esbravejei. Da minha boca saíram palavras profanas das quais não me arrependo, enquanto  – diferente do que meu eu indefeso costumava ouvir da sua – você se desculpava.

Disse, com sua língua embolada, que eu era o único acerto de sua vida e que precisava do meu perdão para continuar existindo.

Não perdoei. 

A carreguei por quatro lances de escada com dificuldade. Troquei suas roupas sujas. A coloquei na cama e esperei até o sono (ou álcool) dominar seu corpo por inteiro. Me sentei, ao lado da cama, para checar sua respiração a cada dez minutos.

Naquele dia, prometi duas coisas a mim mesmo: não vou me perder como minha mãe se perdeu; Vou carregar suas dores quando suas pernas fraquejarem, para não procurar escapes destrutivos.

Vou ajudar a curar quem me traumatizou.

- Dante

Cobertura no bolo cru

Até onde o medo, o receio, as angustias podem levar alguém ao limite?, seus comentários e suas ações intimamente ligados ao ponto do fio que liga ambos enrijecer? Fora nítido a mim e as minhas ações que estava cego diante de minhas dores, preocupações, receios do abandono de pais, amigos e da própria existência. Que soube entender o mínimo aceno de cabeça como um sinal de irrelevância para os outros, de sentir um punhal cortando veias e artérias do coração imaginário das nossas emoções, passados quase dez anos da minha juventude, vejo que minhas ações não são tal qual diferentes do eu de onze anos de idade, e sim a versão madura das mesmas ações, antecipando tudo o que se pode fazer para evitar o máximo trauma do abuso que o pequeno menino viveu sob uma literal chuva de pedras por outros moradores da mesma rua apenas por ser “incomum”, sob esses detalhes, vivo que ando a colocar a cobertura sobre bolos crus, a antecipar coisas que desejo que aconteça para evitar a parte ruim da convivência humana, a ansiedade social de ser um estranho em algum local, a sensação do vazio, estando cercado por tantas futuras memorias.

- Charles Jr.

Oitava

 14 de fevereiro de 1996, nunca esquecerei do dia em que você partiu, simplesmente partiu, virou as costas para sua responsabilidade, para quem devia receber a sua atenção, para o que devia receber o seu amor. Você preferiu a covardia, ser o vilão, o meu vilão, num mundo onde não existem heróis, existe apenas coragem e arrependimento, coisas que você jamais poderá entender o que são.

9 de agosto de 2006, meu aniversário de 12 anos, uma década desde que você me deixou, tinham seu endereço, me perguntavam se eu queria te encontrar, se eu queria te ver pela primeira vez, pelo menos para eu guardar teu rosto em minhas memórias, decidi que não, eu não precisava de você, nem ao menos sabia quem você era.

12 de maio de 2007, como uma boa criança curiosa, eu vasculhava por caixas e mais caixas em minha casa à procura de lembranças gravadas no mundo físico: fotos, documentos, o que for. Numa caixa velha no fundo de um armário, acho um envelope, tem seu endereço, uma foto sua e um nome gravado.

19 de julho, ainda em 2007, faltavam 21 dias pro meu aniversário, você sabia, né, Frederico? Eu me perguntava se você ainda lembrava do dia que eu nasci, hoje eu sei que não tinha o porquê de imaginar isso, você escolheu me esquecer, eu tentava te esquecer também, mas não conseguia, você era como uma parte faltando de mim.

30 de novembro de 2012, meu último dia como estudante, o primeiro dia do resto da minha vida, eu desejava todos os dias que você fizesse parte dessa vida, eu desejava que você estivesse lá, que dissesse coisas como “Parabéns, filho”, “Estou orgulhoso de você” e “Hoje começamos sua jornada”. Eu queria que você me amasse.

25 de janeiro de 2019, meu primeiro emprego na área que eu sempre sonhei, era apenas um estágio, mas eu não me importava, eu agia com paixão. Coincidentemente, também era a sua área, quem diria que eu seria a cara de meu pai, porém eu não morreria sozinho com meu rancor, eu não estava predestinado a ser um merda.

6 de outubro de 2021, foi o dia em que eu decidi começar a escrever pra você, usei o endereço que achei com meus 12 anos, escolhi as cartas pois foi o que eu achei em 2007: uma carta com lágrimas. Escolhi os anos e os dias, lembrei do que pude, tudo o que eu queria era te informar sobre o que eu vivi, sobre o que eu passei.

2 de março de 2028, lembro exatamente do momento em que recebi o telefonema, uma mulher, voz rouca, chorosa, perguntava se eu era quem eu era, ela precisava me contar. Me deu cada detalhe, me disse tudo sobre o momento de sua morte. Escrevo para ti a oitava carta, mesmo sabendo que você nunca vai ler, contando do meu filho, Fernando, fui o pai que nunca tive pra ele, não cometi os mesmos erros, vivi a vida com ele, auxiliei, não virei as costas, amei. Hoje, 13 de março, eu entrego a última carta, ela será colocada em seu caixão junto das outras, você correu de mim no início de minha vida, porém ficarei com você no fim da sua.

- Abebe Sant'Clair

Reflexos do Passado

  Para se saber da beleza da vida, tem que se conhecer suas escuridões. Ao contrário de quem tenta de todas as formas escapar das incertezas e tristezas que passamos de tempos em tempos, eu prefiro passar por essas dificuldades sempre pensando no que as mesmas podem me ajudar a ser mais forte no futuro.

              Na teoria, essa linha de raciocínio pode ser muito madura, porém nada que planejo acontece exatamente igual como eu espero. Não se consegue prever o amanhã e muito menos controlar o que um dia sentimos e não lembramos, mais conhecido como gatilhos.

             Ele se manifesta de diversas maneiras, mas certamente uma de suas piores formas é a convivência com a pessoa que te traz essa sensação ruim. E  como no meu caso, esse indivíduo ser do núcleo familiar só torna as coisas mais difíceis e me encaminha para o costume com algo que nunca me fez bem. Natal, aniversários, redes sociais, festas. Tudo se torna um caminho para aflorar tudo que eu já sofri no passado, porque hoje mais maduro consigo controlar a convivência já mencionada.

              Porém, nada apaga a total desatenção e falta de carinho que só essa pessoa conseguiu me demonstrar sem motivo algum. Desde o meu nascimento até a adolescência eu era apenas um número para esse parente. E tudo se torna mais evidente e triste quando o tratamento com os outros integrantes do meio familiar é exatamente o oposto e que em questões de segundos uma áurea de violência psicológica se torna uma ação em palavras. E com um detalhe chave : sempre quando ninguém vê.

                O medo toma conta e a ameaça para que não se saiba disso acabava sobressaindo no meu psicológico, já que eu ainda não entendia o que realmente eram essas falas agressivas sem motivo algum. Ao longo dos anos, entendi o jogo mental praticado e ameaças não ocorrem mais, porém certas palavras nunca vão ter mais o mesmo sentido para mim.

- Cronista de Niterói

O telefonema

 Existe aquele telefonema que as pessoas odeiam ter que dar, mas odeiam mais ainda receber. Pensam nas melhores maneiras de amenizar, procuram os mais diversos eufemismos possíveis, mas, na maioria dos casos, não foge muito de “seu/sua”, o parentesco e o famoso “se foi”. Seu avô.
     E é assim, depois de uma curta ligação que o mundo se torna infinitamente mais pesado. É mais difícil prestar atenção no que falam contigo. É mais difícil segurar o copo d’água ou digitar no celular sem esbarrar em outras teclas pela tremedeira. É mais difícil se imaginar saindo daquela situação. É mais difícil sorrir sem sentir culpa. Tudo por causa de uma chamada telefônica. 
     Dormir se torna uma tarefa impossível. A mistura de sentimentos aparece: vontade de ver o rosto da pessoa pela última vez e o medo de ver o rosto da pessoa que você sabe que nunca mais verá. A única solução possível é travar uma batalha contra o sono até não poder mais, e o medo se tornar realidade.
     E é neste momento, ao deitar a cabeça no travesseiro para dormir, que você se lembra. A sensação volta como um arrepio pelo corpo. Minutos antes da ligação, a “mão” que cuidadosamente deslizou pelo seu ombro. A “mão”, aparentemente sem dono, que te fez imaginar que era coisa da sua cabeça o sentimento de despedida. A “mão” que traz aquela sensação de conforto e empatia. A “mão” que finalmente te faz conseguir pegar no sono, depois daquele terrível telefonema. A “mão” que nunca existiu fisicamente, mas que confortou seu coração nos piores momentos.

- Isadora Carvalho

Plath

 “Se ela fizer isso de novo é direto para a ala psiquiátrica”. Essa foi a primeira coisa que ouvi naquele dia, depois de acordar em um sala toda branca com luzes fortes. Nesse dia pensei em Sylvia e sobre como não queria mais viver sendo lentamente cozida em uma redoma de vidro, sobre como existiam diversos figos que eu nunca poderia comer, sobre a vida que eu mesma criei pra mim. Traumas são presentes na vida de qualquer pessoa, mas nunca soube lidar com os meus não soube lidar com o fato de crescer com uma mãe doente e um pai exigente. Via os dois presos sob suas próprias redomas, vi os figos de minha mãe apodrecerem enquanto ela cuidava de mim e nunca pude evitar de me sentir culpada por deixar isso acontecer. Já os do meu pai, assim como os meus, foram desperdiçados, poderiam ter sido usados, mas graças aos nossos problemas nunca nos achamos dignos deles, então apenas deixávamos que eles caíssem diante de nós.

Minha figueira passou anos escondida atrás das outras, vivi uma vida para agradar e ajudar as outras pessoas a colherem seus figos e saírem de suas redomas, mas nunca sai da minha. O constante medo de decepcionar não deixou, se eu saísse daquele cozimento eu poderia começar a tirar notas baixas e decepcionar meu pai, minha mãe poderia me odiar ainda mais e despejar mais de seus problemas em mim, eu estaria exposta a desaprovação das outras pessoas. Então comecei a me fechar, minha redoma já não me incomodava mais e lá eu estaria segura dos julgamentos. Mas um dia o ar começou a queimar as narinas e a sufocar, não conseguia mais ficar lá dentro, criei um ambiente hostil para mim mesma e não tinha como sair de lá. A solução mais plausível era, talvez, respirar o ar que saia do forno e assim como Sylvia me cozinhar, porém não mais no sentido figurado.


- Carrie Grant

 

 Confesso que tenho dificuldade de entender a morte, em principal, a sua. 

A sensação que tenho é de que você saiu e já vai voltar, portanto, costumo não me preocupar ou pensar sobre a demora. 

 

E de quem é a culpa? 

Sua? 

De suas escolhas?

Ou de um “Presidente” incapaz de lidar com a realidade e seriedade de uma doença? 

 

As vezes sinto seu cheiro, uma mistura de cigarro com velhice.

Suas “bugigangas” ainda estão espalhadas pela casa e fazem parte da nossa vida.  

Você ainda é mencionado nas conversas de família como personagem de alguma história. 

 

Reafirmo, com alguns exemplos simples, minha dificuldade de entender sua partida repentina, uma vez que involuntariamente você continua aqui.


- Aurora Boreal