domingo, 11 de novembro de 2018

Sentado no gramado

Sentado no gramado, olho para a ponte.
Penso em como eu sou privilegiado de ter essa oportunidade.
Estudar numa faculdade e ainda de graça.
Tanto jovem trabalhando feito um desesperado.
E eu aqui, um burguês mimado.
Ocupando a vaga de quem não tem um centavo.
Sei que não é errado.
Me esforcei muito por esse espaço.
Lembro que um ano atrás eu sonhava com isso.
Entrar numa federal e cursar jornalismo.
Consegui e foi merecidíssimo.
Confesso que eu mesmo não acreditava.
Mas agora sentado no gramado, vejo que tudo isso é verdade.
Olhar para a ponte me mostra isso.
Percurso diário de milhares de universitários.
A ponte Rio-Niterói representa uma vitória diária.
Triste pensar que também me lembra de uma derrota.


Sentado no gramado, olho para a Baía de Guanabara.
Penso no caminho que faço quando vou de barca.
Andar da Praça XV até a estação da Carioca, nem é muito trabalho.
Eu com a minha mochila de marca e minha blusa cara.
Vejo garotos sem nada, tentando vender bala.
Temos mais ou menos a mesma idade.
Por que eu estou indo para faculdade e ele está vendendo bala?
Meritocracia é o caralho.
Esses garotos nunca tiveram uma oportunidade.
No Brasil isso é piada.
Eu estudo e você trabalha.
Eu vou nas choppadas e você leva porrada.
Eu arrumo um emprego, enquanto você entra em desespero.
Isso que fode.
Sentar no gramado e olhar a paisagem?
Realmente uma bela oportunidade
Infelizmente não é nem pra metade.

Oswaldo do Jae

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