terça-feira, 24 de maio de 2016

Central Perk ou Maclaren’s Pub

Existe casal e existe ele e ela. Ela quer acordar cedo e caminhar com a brisa da praia às seis horas da manhã. Ele quer acordar às duas da tarde e ligar o ar condicionado. Ela quer os dois juntos cozinhando durante a tarde de domingo. Ele quer ir ao bar ver o santo futebol. “Você pode vir também.”

Ela quer um pouco de romantismo, um cartão ou um buquê de flores de vez em quando. Ele não entende pra que isso se apenas um “eu te amo” basta. Ela quer deitar no sofá em um dia de frio e ficar enrolada no cobertor junto a ele. Ele quer se esquentar de outra maneira. Ela prefere Friends. Ele, How I Met Your Mother.

Ela quer sair de casa e aproveitar toda a beleza natural que o mundo oferece. Ele quer ficar em casa e aproveitar toda a beleza artificial que os jogos oferecem. Ela quer se arrumar, passar horas escolhendo roupa e maquiagem perfeitas. Ele abre a gaveta e veste o que vier, sempre com o chinelo Havaianas no pé. “Coloca um sapato, amor. Parece até um largado.” Ela diz. “Só você vai estar arrumada demais. Como sempre.” Ele diz.

Eles brigam pela escolha do melhor personagem de um livro. “Você não entende, ele é muito mais do que isso.” Eles não entram em consenso sobre o filme a ser visto. “Esse tem violência demais.” “Esse tem romance demais.” (Acabam vendo um aleatório que, um tempo depois, é indicado ao Oscar.) Eles discutem pelo comportamento com a família. “Você discute demais com eles.” “Você os deixa decidirem o rumo da sua vida.

Mas ela não entende o impedimento no futebol. Ele explica pacientemente duas, três vezes por jogo. Ela só perde dinheiro no poker de todo domingo. Ele a deixa vencer mesmo tendo um Full House na mão. Ela tem pavor de insetos. Ele acha engraçado, mas mata todos por ela (e acaba virando o herói).

E ele não sabe escolher o tipo de roupa mais adequadapara um casamento. Ela o ajuda, dobrando as mangas da camisa que combina com os olhos dele. Ele não tem paciência com nada e ninguém. Ela o acalma e tenta fazê-lo enxergar ambos os lados da situação. Ele não sabe qual série começar a ver. Ela escolhe a que mais combina com o estilo dele e acompanha, para que os dois vejam juntos.

Eles riem juntos de piadas bestas. Eles gritam juntos no plot twist de O Sexto Sentido. Eles choram juntos com a morte de seus personagens favoritos. Eles cantam juntos as músicas dos Beatles. Eles montam juntos um avião de lego. Eles aprendem juntos a tocar um novo instrumento. Eles bebem juntos. Eles comem juntos. Eles dançam juntos. Eles saem juntos. Eles dormem juntos. Eles vivem juntos. Eles se amam juntos.

Existe casal e existe ele e ela.


Amelie Poulain

9 comentários:

  1. Gostei do texto. Acho legal como várias pessoas conseguiram abordar esse mesmo tema das divergências entre o casal, mas com colocações distintas e todas muito bem feitas. Realmente, essas diferenças estão presentes em todo e qualquer relacionamento, mas apesar delas o casal não deixa de presenciar juntos os momentos mais importantes do dia a dia. Gostei da forma que você ultrapassou o cotidiano, além de notar que você demonstrou uma visão ampla da realidade e que não utilizou-se do lead.

    ResponderExcluir
  2. Que texto legal!! Você mostra a individualidade dos dois, mas também a união deles como casal. Demais! Vejo que rompe com as correntes do lead, evita os definidores primários - quando mostra um ponto de vista diferenciado sobre os casais - e também a perenidade, pois não é superficial e abre portas para uma reflexão ampla sobre as relações pessoais e com outro alguém.

    ResponderExcluir
  3. O texto me conquistou de cara pelo título com referências das minhas séries preferidas <3 acho muito importante essa ideia de que o casal é composto por duas pessoas que tem suas próprias individualidades e, para estarem juntos de forma saudável, não tem que abrir mão delas.
    O único problema foi que percebi que, em alguns momentos, o texto acaba reforçando estereótipos de gênero, como: só o homem gosta de futebol e só a mulher cobra mais romance. Dependendo da forma como é lido, isso pode ser problemático. Mas o texto no geral está ótimo e contempla várias pontas de estrela.

    ResponderExcluir
  4. Concordo totalmente com Lucy in The Sky, até na parte de me chamar atenção pelo título! Amei como o texto começa e termina com "Existe casal e existe ele e ela", dá uma ideia de fechamento e conclusão bem legal. Você não usou o lead, mostrou a realidade de forma ampla e foi além dos acontecimentos do cotidiano. Só acho que poderia ter explorado mais os recursos jornalísticos! Mas parabéns!

    ResponderExcluir
  5. Muito legal! Gostei de como é contado e como vai além dos acontecimentos do cotidiano, e que rompe com o LEAD, além de ser um relato perene e profundo. Parabéns!

    ResponderExcluir
  6. Me lembrou muito o texto "Aquilo que nos une", do Severo. Essa abordagem da antítese, da dicotomia do casal, que em meio as diferenças, um se dedica a entender e conhecer o outro, parece muito um relacionamento que tive, éramos eu e ela, não apenas um casal kk. Enfim, sem mais detalhes, a respeito da estrela de sete pontas, foi perene ao mesmo tempo profundo, ultrapassou as barreiras do cotidiano. Muito bom!

    Um aperto de mão do amigo Régis Jr.

    ResponderExcluir
  7. Como o Régis disse, me lembrou o texto do Severo e eu gosto bastante desse estilo de texto, dessa abordagem. Observei o rompimento com o lead e com os limites do cotidiano - por trabalhar de uma forma tão particular as rotinas de um relacionamento - e a perenidade pois inúmeros casais podem se identificar com as referências citadas. Parabéns!

    ResponderExcluir
  8. Gostei bastante. O texto fala do universo de cada um e também da união deles, o que é extremamente essencial num relacionamento; estarem juntos porém cada um com suas particularidades. Quanto às pontas da estrela, identifiquei ampla visão da realidade por ser bem contextualizado, rompimento com o LEAD e profundidade. Parabéns.

    ResponderExcluir
  9. Olá amiga Amelie!
    AMEI SEU TEXTO! As referências, as descrições, as citações e tudo mais nos traz uma intimidade com o texto. Concordo com nossa companheira Lucy, dependendo da interpretação o texto pode trazer uma problemática ao leitor. Notei o rompimento do lead e dos limites do cotidiano e uma visão ampla da realidade. Parabéns pelo trabalho maravilhoso!

    Beijos perfumados de sua querida Maria Antonieta.

    ResponderExcluir