terça-feira, 24 de maio de 2016

Diário de um detento

Rio de Janeiro, dia 3 de maio de 2016, 8h da manhã. Aqui estou, mais um dia. Sob o olhar sanguinário do vigia. Mas esse vigia não usa farda, nem arma (quer dizer, arma até tem, mas não é um revólver, e sim um controle remoto). “Já estava acordada tão cedo?” – pensei. Vesti meu paletó, tomei o último gole do café. Era mais um dia rotineiro em minha vida, em nossas vidas e nem um “Bom dia” recebo, nem um abraço ou um beijo na bochecha. Não vem de hoje tamanha frieza, qual a última vez que andamos de mãos dadas por aí? Quando foi a última vez que saímos pra jantar fora? Ou que comemoramos aquele simples “mêsversário”, que ela fazia questão de lembrar a data? Sinto-me encarcerado, mas não tem jaulas aqui, apenas um “até que a morte nos separe” ditos a 30 pessoas numa simples capela que me prende, esse contrato vitalício do qual me arrependo de assinar. Bom, tirei um dia a menos ou um dia a mais, sei lá... Tanto faz, os dias aqui são todos iguais.  
Chego a casa, o mesmo olhar distante, sem me encarar, olhando para o nada. Nem precisamos trocar três palavras para perceber que está tudo errado entre nós. Ela sabe o que eu desejo, sabe o que eu penso. Um não suporta mais a cara do outro, o outro não quer mais sentar ao lado de um, nem sequer respirar o mesmo oxigênio. O dia tá chuvoso, o clima tá tenso, o yin dela não mais coordenava com meu yang, não dá mais. Eu quero mudar, eu quero sair, não aguento mais esse silêncio ensurdecedor. Ah sei lá, não sei mais o que pensar. Acendo um cigarro, vejo a noite passar. Mato o tempo para ele não me matar. 
Um novo dia, mas o resto sempre igual.  Quer dizer, nem tudo, por que hoje é meu aniversário, mais um outono de vida, será que ela vai ao menos dar os parabéns? É, vou ter que saber pelo jeito mais difícil, vou perguntá-la. “Lívia, minha querida, sabe que dia é hoje?” – perguntei. Ela me olhou com toda a certeza do mundo e retrucou: “Claro né, hoje é o dia que vence a conta do banco, seu imbecil”. Peguei minhas coisas e fui direto ao trabalho, nem tomei o meu café sagrado de todo dia, fiquei com tanta raiva com aquela cena que esqueci totalmente de mim. Além de todo aquele clima frio como a Cordilheira dos Andes, ainda ousa esquecer o dia do meu aniversário? Ah, é hoje que essa história acaba de uma vez por todas, essa pena em cárcere privado acabará neste 4 de maio, sem volta. Assim que chegar em casa, falarei com ela, não aguento mais essa pressão em meus ombros, tantas brigas, tantos dias sem amor, um casamento não pode ser uma prisão, estou me sentindo preso nessa vida. Deixa pra lá, isso só vou resolver em casa, encararei mais essa jornada de trabalho até resolver esse dilema.  
Mais um dia de trabalho terminado, despachei todos os processos que tinha, preenchi todos os fichários, é hora de ir. A decisão mais difícil em minha vida, mas inadiável, vou acabar com ela e ir embora daquela casa no mesmo dia, estava decidido. Entrei com o carro na garagem, abri a porta, tudo escuro. Acendo o interruptor para poder assistir um pouco de TV, mas assim que a luz se acende, vejo a imagem da minha mãe, meus irmãos, sobrinhos, primos, todos estavam lá cantando “Parabéns pra você”. Impossível não desmoronar de alegria e cair no choro, lá ao fundo está ela segurando o bolo repleto de velas – 32, pra ser mais exato. “Achou que eu ia esquecer, bobinho?” – respondeu me dando um beijo. Tão simples, mas o mais singelo beijo de todos, acho que posso ficar detido. Quem sabe por mais um ano, três meses e uns dias?! 
Dia 4 de maio, diário de um detento

Régis Júnior

14 comentários:

  1. Nossa, que critividade! Gostei de verdade do texto. A escolha das palavras, expressões, como conseguiu estabelecer uma analogia com uma prisão e mesmo assim não assumir um caráter bruto sobre o tema. A respeito da estrela de sete pontas, acredito que foi um texto muito perene, possui uma visão ampla da realidade, superou o cotidiano e, na minha opinião, não foi superficial. Sem dúvidas, casais de todos os tempos conseguem se identificar com a carta em questão! Não consegui notar todas as pontas da estrela - como por exemplo a parte que potencializa o discurso jornalistico - mas de qualquer forma, parabéns!! (Valentina)

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  2. Também achei bem criativo! E conseguiu realizar, pelo menos em mim, uma quebra de expectativas. Estava esperando por uma briga no final, levando até ao divórcio... Enfim, sobre a estrela: consegui ver o caráter atemporal e aprofundado dos relatos, assim como uma ampla visão da realidade, superando também o cotidiano e o rompimento com as correntes do lead. Porém, assim como a Valentina, não vi a potencialização dos recursos do jornalismo, nem o exercício de cidadania. Mas gostei bastante do texto!

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  3. Achei surpreendente! A quebra da expectativa no final do texto foi um recurso muito interessante, consegui sentir toda a frustração e negatividade do personagem sendo aliviadas pela simplicidade daquele gesto afetivo. Embora não tenha percebido todas as sete pontas da estrela, a narrativa deixou clara uma visão ampla da realidade, ultrapassando os limites cotidianos, a preocupação com os detalhes, própria do Jornalismo, e também a perenidade do texto. Muito criativo!

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  4. SENSACIONAL ! A quebra de expectativa no final do texto foi um recurso muito bem utilizado. Além disso, muitos casais conseguem se identificar com esse texto, talvez não com o texto inteiro, mas certamente com alguma parte dele. Sobre a Estrela de sete pontas consegui notar a visão ampla da realidade, a perenidade e, óbvio, ultrapassou os limites cotidianos. As outras eu acho que não ficaram muito claras no texto, mas mesmo assim está de parabéns, foi espetacular o texto !

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  5. Achei esse texto tão bonito! AMEI a comparação do casamento com uma cadeia (o que, infelizmente, é algo que muitos sentem) e o final, com a recontagem dos dias e a quebra da expectativa, mexeu muito comigo. Parabéns! Você narra com profundidade o cotidiano de um homem, algo bem marcante e necessário nas crônicas. Nada de especial acontece, tirando a festa surpresa, mas você conseguiu transformar a rotina dele em um belo texto. Realmente não vi a potencialização dos recursos jornalísticos, nem o exercício da cidadania, entretanto percebi agora também que nem meu texto tem isso, já que são pontas mais difíceis de quebrar mesmo. Amei!!!

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  6. Achei a analogia muito boa, pois ela ganha força aparecendo em detalhes da estruturação do texto. Me lembrou de um trecho da poesia de Camões, que diz que o amor "é um estar-se preso por vontade".
    Consegui prever o final da festa surpresa, e achei muito bom pra ilustrar como a prisão do amor tem momentos de alívio e felicidade.
    Algumas pontas da estrela são mais notáveis, como potencializar os recursos do jornalismo e romper as correntes do LEAD (pela estrutura criativa do texto).

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  7. Achei a analogia muito boa, pois ela ganha força aparecendo em detalhes da estruturação do texto. Me lembrou de um trecho da poesia de Camões, que diz que o amor "é um estar-se preso por vontade".
    Consegui prever o final da festa surpresa, e achei muito bom pra ilustrar como a prisão do amor tem momentos de alívio e felicidade.
    Algumas pontas da estrela são mais notáveis, como potencializar os recursos do jornalismo e romper as correntes do LEAD (pela estrutura criativa do texto).

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  8. Um dos meus favoritos!!!! Amei seu texto e a criatividade quando você se considera como um detento. Creio que evitou os definidores primários, teve um visão ampla da realidade - principalmente na analogia casamento/prisão -, é perene ao relatar um sentimento que é de fácil identificação pelas pessoas e rompe com o lead.

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  9. TEXTO IMPECÁVEL! Achei muito legal a quebra de expectativa no final do seu texto. Dentro da Estrela de Sete Pontas, o seu texto ultrapassa o cotidiano, mostra inegavelmente uma perenidade ao representar uma situação que muitos já podem ter estado, rompe com o lead e não se apresenta nem um pouco superficial. Parabéns pelo excelente trabalho! Abç

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  10. Este texto é de uma profundidade incontestável. Mostra a realidade de muitos casais hoje em dia. A narrativa é envolvente, de modo que me fez querer chegar logo ao desfecho. A quebra de expectativa foi feita perfeitamente. De fato, não há exercício da cidadania, o que é difícil no tema proposto. Todavia, é extremamente perene, rompe com o LEAD, e ultrassa o cotidiano de tal forma que caracteriza o objetivo de uma crônica. Eu realmente gostei muito, parabéns pela criatividade.

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  11. Ótimo texto, Régis! Achei muito interessante o uso das rimas, especialmente pelo fato de o texto não ser um poema, a exemplo do trecho "Tanto faz, os dias aqui são todos iguais." Tal artefato dá um efeito melódico ao texto que é extremamente bem-vindo. Ademais, o texto conta com uma quebra de lógica no final que levanta o moral do leitor bem no final do texto, o que difere o texto de muitos outros que abordam a mesma temática de maneira unilateral.
    Quanto à estrela, a profundidade dos fatos é uma das pontas que mais me chamou a atenção, junto com o fato de ele proporcionar uma visão ampla da realidade amorosa de muitos.

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  12. Adoro essa música haha E também achei incrível sua criatividade, é extremamente difícil fazer um texto desse tipo sem parecer um plágio e você conseguiu com maestria. A forma como lidou com casamento como um mero contrato formal foi de uma clareza muito bacana. Acho que conseguiu proporcionar uma visão ampla da realidade, exercer com a cidadania e romper as correntes burocráticas do lead.

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  13. Olá amigo Régis! Primeiramente gostaria de lhe dizer: QUE TEXTO SENSACIONAL! A comparação feita entre casamento/prisão casou muito bem com o seu texto. Você conseguiu transformar uma rotina monótona para o personagem algo que simplesmente me prendeu a história, sem falar do final que me surpreendeu! Sobre as sete pontas, não consegui identificar todas em seu texto. A visão ampla da realidade, a perenidade e a ultrapassagem dos limites cotidianos foram as que percebi claramente no texto. Parabéns pelo trabalho!
    Beijos perfumados de sua querida Maria Antonieta.

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  14. Régis, achei incrível a analogia entre o casamento e a prisão e, também, essa quebra de expectativa no final. O texto cumpriu exatamente a proposta do título, porém de uma forma inesperada. Quanto às pontas da estrela, identifiquei diversas, como profundidade, perenidade, exercício de cidadania, além de proporcionar uma visão ampla da realidade, pois contextualiza a história de forma bem abrangente. Parabéns.

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