quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Demais

 Sempre foi certinha, notas boas na escola, bons amigos, pais presentes e compreensivos, um cenário bom de se olhar de longe. Tinha suas duas amigas, com pensamentos iguais e gostos iguais. Vivendo todos os dias com essas mesmas amigas, mesma rotina, mesmo ela, mesmo ar, mesma energia, mesmo tudo.

Suas amigas eram tudo pra ela, eram seu porto seguro no meio de todo aquela confusão que era ser uma adolescente cheia de hormônios. Eram amigas que a apoiavam, que a ajudam, que choravam e riam juntas. Sempre juntas. Entravam em confusão juntas, recebiam elogios por serem lindas juntas, aprendiam tudo juntas... Juntas! Juntas?... Ai, juntas demais.

Grudentas demais.

Tudo isso começou a cansar. Era muito monótono muito feliz, haviam outras pessoas pra se relacionar pra se descobrir, pra experimentar. E aquele outro grupinho de amigos, que tinha muitas pessoas e que vivia sentado no meio do pátio da escola descolados, chamativos, mais velhos, mais legais, mais espontâneos, mais interessantes, mais tudo, parecia a resposta certa.

Achou que era aquilo, resolveu inovar. Não faz mal né?!

Largou tudo e se juntou ao outro grupo de amigos e não dava mais atenção pras amigas de antes, as que sempre estiveram do seu lado. Foi um corte de laços abrupto. Se divertia com esses novos amigos mesmo que eles não escutassem seus problemas, mesmo que eles não a considerassem como ela começou a considera-los, mesmo que não houvesse reciprocidade ali. “Não faz mal né?!” “Todo mundo faz isso, não sou a única que troca de amigos”, mantinha isso em mente ao máximo.

Mas então, suas antigas amigas vieram conversar, elas se sentiram traídas, abandonadas, descartadas. Brigaram. Teve choro no final, teve desculpa, teve explicação. No meio de todo aquele caos uma das amigas solta a frase “Você trocou qualidade por quantidade” Ela sentiu dor ao ouvir aquela frase. Conseguiu cair em si, foi como uma epifania do grande erro que tinha cometido, viu que quase perdeu suas amigas de verdade. Viu como foi má com elas, viu que não tinha problemas, não era monótono. Era real.

Caiu em si e foi a melhor queda possível.


                                                                                                                   Gato de Chita

Desculpa

 Ir pro centro da cidade toda terça feira, depois de um dia inteiro de aulas, e subir até o quinto andar daquele prédio antigo. Já conseguia sentir o cheiro de tinta e solvente no meio do caminho nas escadas. Eu amava. Entrar na sala, buscar meu material na estante, e muitas das vezes, conversar enquanto tentava terminar uma tela, ouvindo as mesmas músicas de sempre no CD do rádio. Foram dois anos completos de risadas e broncas porque eu nunca anotava a mistura certa das cores (agora entendo a importância da autonomia que era tão cobrada). 

Olhando para trás, fico feliz por ter me inscrito no curso, mesmo sem ter nenhuma referência dele, e ter ido na primeira aula sozinha morrendo de vergonha. Certamente, é uma das coisas que as pessoas diriam: “era pra acontecer”. Aconteceu e me salvou, principalmente de mim mesma. Passei a ver que sim, eu poderia fazer coisas bonitas, mesmo estando imersa no auto-ódio. Poderia ser boa em algo que eu amo fazer. Ao descobrir o que eu gosto de pintar e reparar o jeito que fazia isso, sempre tentando deixar perfeito até o que não era, também foi sobre autoconhecimento, por mais clichê que isso possa soar. Quando eu me perdia na vida, me perdia nos temas das telas, pintando o que não combinava comigo (e o professor sempre notava). 

O sentimento de que eu estava sendo quem sempre quis ser e de ter me encontrado (finalmente), não se fez mais presente em mim fora da sala de aula. Ali, onde era só eu, a tela e minha consciência, sem os incentivos externos de colegas de sala, me lembrando de confiar no processo e me ajudando a lidar com ele, encontrei apenas minhas inseguranças, que me acompanham desde sempre. Não me sentia boa ou capaz de fazer o que fazia quando tinha disponível os seus conselhos, professor. 

O medo de “não dar certo” me impediu de continuar pintando, aquilo que me fazia sentir viva. E isso foi a pior coisa que eu poderia ter feito comigo. 

A verdade é que fazer sua arte exige coragem, e eu não tive. 

Acho que te devo desculpas, professor. 

Ou a mim mesma? 

                                                                                                               Estela Lia

Dessa vez, não

 Deitada em sua cama, a jovem de 17 anos enchia a pasta de salvos, no Instagram, com posts motivacionais voltados para os estudantes que iriam prestar o Enem. Ao mesmo tempo em que aquilo a encorajava, ao ver que não só uma, mas milhares de pessoas passavam pela mesma situação, também a fazia sentir que não importava o quanto ela se dedicasse, ela não conseguiria passar.  

Ela via todo mundo apostando nela, dizendo que ela era inteligente, e que iria conseguir. Mas ela não conseguia enxergar dessa forma. Muitos a diziam que era só estudar. Parecia tão simples. Aquelas publicações que ora a ajudavam, também a fazia se comparar com aqueles demais candidatos. Eles pareciam tão avançados, e ela, estagnada. Ela sabia que precisava se dedicar, mas ao mesmo tempo pensava que seria em vão, então não queria tentar e se frustrar, afinal, ela não se frustraria sozinha, estavam apostando nela.

 Sentava-se para tentar estudar, e logo se via chorando. Poucas vezes ela conseguia estudar com ânimo. O medo de não dar certo a tomava. O sonho de entrar em uma faculdade pública parecia muito distante. Ela se sentia incapaz, e isso a desanimava, então, muitas das vezes ela só queria evitar pensar no futuro. Sem esperança, o tempo passava rápido para ela, e quanto mais ele passava, menos ânimo ela tinha. 

O dia da prova chegou mexendo não só com o seu psicológico, mas com o seu corpo também. Com menos de 4 horas para realizar a prova, a jovem passava tão mal, que por vezes chegou até a pensar que se faltasse, seria mais fácil, e no fim, a culpa não seria dela. No final, ela conseguiu ir realizar a prova, entre choro (literalmente).

Na espera dos resultados a mente dela continuava a sabotar. Ela já tinha decretado seu fracasso desde o começo, mas agora esse sentimento vinha mais forte. Era uma mistura de sentimentos, não dá para decifrar. Quando o resultado saiu, ela não acreditou. Como poderia ter conseguido passar? Era só isso que ela pensava. Foi um choque. Inacreditável que apesar dos esforços de sua mente para convencê-la que ela não conseguiria, ela conseguiu. Dessa vez sua mente não venceu; porém ela já está em um novo projeto: a faculdade.


                                                                                                              Jane Austen


Eu sabia que era capaz

 Eu queria ir e não fui!

Eu queria arriscar, mas faltou coragem!

Naquele dia eu não consegui dançar, não consegui fazer uma das coisas que mais gosto, não consegui ganhar com meu grupo e tudo isso, só por não me sentir boa o suficiente e só conseguir imaginar o pior dos cenários: eu errando todos os passos, não recebendo votos ou até mesmo nossa apresentação ser a pior por minha culpa.

Eu sabia que era capaz!

Eu ensaiei e ajudei a montar a coreografia e quando chegou o dia minha mente resolveu me paralisar e eu deixei.

O que me restou depois de tudo foi assistir e ver todo mundo fazendo bonito inclusive meu grupo que eu tanto ajudei, mas no final abandonei tudo.

Malditos pensamentos negativos!

Se tem uma coisa que eu aprendi com esse dia, é que eu jamais devo desacreditar de mim e se eu errar tudo, pois no final ver meu grupo ganhando o segundo lugar e eu não estar no e meio da comemoração por pura falta de coragem, doeu mais do que se eu caísse no meio da apresentação.

                                                                                                                         Sol e Luz 

Sabotagem líquida


                                                                                                      
        Ela conferiu os cabelos e a profundidade do decote no espelho embaçado do elevador. Sua presença naquela festa não tinha como objetivo a diversão, mas tirar um nó da garganta embolado ali havia meses. Não sabia se nutria alguma esperança de que aquele nó seria desfeito e preencheria o vazio de seu peito ou se permanecia com as expectativas baixas para evitar um impacto mais intenso do que o discurso repassado mentalmente no chuveiro.

Ele chegou tão despretensiosamente alegre, mal sabia que, durante um trivial abraço de cumprimento, milhões de hipóteses e possibilidades rondavam a mente dela. Porém, o sorriso largo do garoto trocou de foco mais rápido do que o processamento das informações na cabeça dela.

Ela sabia que ninguém ali podia, e nem queria, ajudá-la. Ligou para quem conseguiu mas nada impedia que o nó a aproximasse vagarosamente da asfixia. O sufocamento, apesar de emocional, doía tanto ou mais que uma glote bloqueada.

Ele, naquela noite, parecia mais distante, os olhares e risos habituais não estavam sendo compartilhados. Será que a angústia que ela lutava tanto para disfarçar estava nítida em seus olhos? Concluiu, assim, que o que precisava era de coragem para cortar o mal pela raiz.

Ela secou as mãos suadas na calça na mesma proporção de vezes que sentiu a garganta arder. Apenas 16 anos, mas a borda do copo plástico cheio de bebida barata já estava manchada de batom escuro. 

Ele nem sentia as horas passarem, apreciou aquele momento como a juventude devia ser vivida: com leveza e fervor. Cada pequeno prazer formava memórias doces que, dali em diante, seriam assunto e nostalgia numa mesa de bar ou numa troca de mensagens.

Ela, no entanto, achava que os ponteiros do relógio não andavam mais. Já estava certa de que as lembranças seriam mais amargas que o álcool, mas se convencia que ele a engrandeceria ao descer. Então, com a visão já turva, cambaleou ao encontro dele.

Ele e ela, diametralmente opostos. Um copo caiu. Lágrimas também. A bravura líquida -deveras covardia e sabotagem materializadas- misturou-se com o nó, agora cego. Ao invés das palavras ensaiadas só saiu espanto: um grito silencioso, o pouco que tinha no estômago e o muito que tinha no fígado. Qualquer chance que ela tinha agora não existia mais. Enquanto a boca dela ficara marcada na garrafa, a boca dele, agora, estava manchada com o vermelho de outros lábios. 


                                                                                                        Glen Coco


Será que algum dia estarei realmente preparado?

 Tudo começou quando eu entrei na faculdade dos meus sonhos. Estava lá super disposto a aprender tudo que eu pudesse e já de início as oportunidades apareceram. Fui convidado a colaborar em um blog sobre política, assunto que sempre me interessei muito. Mas naquele momento disse não, não estava preparado o suficiente, havia acabado de ingressar na universidade. Ok, na próxima vai!

O tempo passou e agora eu já estava no quarto período, recebi outro convite, dessa vez, para uma página no Instagram. Eu estava quase decidido a aceitar, mas vi que trabalharia com um especialista no assunto e me senti apreensivo de não saber tanto quanto aquela pessoa que era uma referência para mim. E se eu errasse e recebesse muitos comentários negativos? Acabei dizendo não mais uma vez porque (novamente) precisava estar mais esperto.

Por que eu fiz isso?  Por que me permiti arruinar uma oportunidade que só iria me fazer crescer pessoal e profissionalmente? É problema de autoestima? Mas eu sempre achei que a minha estivesse em alta. Admiro a pessoa que estou me tornando, mesmo com meus defeitos, aprendi a olhar para eles com outra percepção, eles fazem parte de mim tanto quanto as minhas qualidades. Ok, isso ainda não responde a minha pergunta e, como se não bastasse, logo surgem outras.

Por que o ser humano faz isso? Será que é tão insuportável assim a ideia de que às vezes as coisas estão indo bem na vida simplesmente porque sim, porque é assim que deve ser, sem explicações complexas e densas? Talvez estejamos tão acostumados com o sofrimento em tantas esferas da vida que acabamos internalizando isso e reproduzindo inconscientemente ao longo das nossas experiências.

Uma vez li em algum lugar que o frio na barriga pode ser o empurrão que precisamos para enfrentarmos aquele tão esperado desafio. Não é fácil, o caminho da autossabotagem é bem mais simples e parece estar sempre à espreita só esperando o momento de dar o bote, mas sejamos mais fortes do que ele, ou pelo menos, que estejamos mais atentos quando ele ousar aparecer. Eu preciso e quero dizer sim. Agora só me resta esperar a próxima oportunidade.


                                                                                                              Incenso de Baunilha


O pior é que eu sei

 Será que eu deveria estar escrevendo sobre esse tema? Acredito que seja no mínimo hipocrisia.

Autossabotagem não é um conceito do qual estou me familiarizando agora, na verdade é quase uma filosofia de vida já que uma das formas de se autossabotar é adiar ou até mesmo não fazer algo por receio do resultado, posso dizer que nisso eu profissional.

Se eu me orgulho disso? Nem um pouco, mas o que eu posso fazer? É muito mais fácil assim, ou pelo menos parece ser.

Na verdade, eu nem queria estar escrevendo essa crônica, não queria me colocar nessa situação. Por que eu iria querer? Isso aqui me deixa exposta, exposta a críticas, a julgamentos, exposta a avaliações, e com isso eu sou obrigada a dar o meu melhor.

Mas me digam, como que de repente eu me forço a dar o meu melhor em algo se durante anos tudo o que eu faço é justamente tentar não mostrar o meu melhor?

Faz sentido? Não acredito que faça.

Mas parece menos doloroso lidar com o fracasso se eu puder usar a desculpa “ah, mas eu não me esforcei o suficiente”, ou “eu nem queria isso mesmo”. É menos vergonhoso, pelo menos para mim.

Tento evitar a todo custo que as pessoas sintam o mínimo de pena de mim, quando no fundo sou eu quem mais sente pena de mim, essa é a única explicação para esse comportamento imbecil.

Eu prefiro não tentar. É isso.

E sim, eu percebo o quão estúpida eu estou sendo só de ler essas poucas frases que escrevi, eu percebo que esse modo de viver é burro e destrutivo, mas eu escolho acreditar que dessa maneira eu me machuco menos. Até porque existe uma diferença bem grande entre perceber que está sendo idiota e de fato tentar mudar suas ações. Ainda não sou capaz disso, talvez precise de um pouco mais de amor próprio antes.

Enquanto isso eu sigo me esquivando, sigo tentando evitar a tristeza ( só tentando), sigo adiando minha felicidade. Sigo tentando me blindar de algo que já me atingiu há muito tempo e só eu não aceitei.

Talvez essa crônica não tenha uma conclusão, até porque isso é muito mais do que só palavras. Isso são as minhas confusões e angústias diárias. Só terá final quando eu finalmente tiver capacidade de mudar, se tiver. 

Ah, e mesmo doendo admitir, eu realmente me esforcei para escrever esse simples texto.


                                            

                                                                                                     Princesa Consuela B. Hammock