sexta-feira, 15 de julho de 2022

 A agonia da existência 


Nossa última crônica. A última dose da droga que me mantém vivo, meu último suspiro de existência, a última vez que verei meu nome em uma tela ou serei lido por alguém que verdadeiramente me conhece.


A linha entre o bem e o mal é uma corda bamba em um circo de horrores, meu caro leitor. Gostaria de dizer que alguém pode ser composto apenas por bondade ou por maldade, mas a verdade é que somos uma confusão. Uma vitamina horrível de atitudes e impulsos, com um toque de razão para aqueles que são sortudos o suficiente. 


O arrepio na espinha que corresponde ao medo da existência é o perfeito trauma para um estado de espírito de tortura. Um posicionamento político, um número na balança, a cor de pele no espelho, o gênero da pessoa com a qual você se relaciona. Esse é o impacto que faz com que uma máscara nasça. Quantas vezes é preciso respirar fundo antes de se sentir seguro em ser você mesmo? 


Ser um guerreiro. Enfrentar batalhas particulares como um soldado na esperança de vencer a guerra, sentir os estilhaços das palavras impensadas sob a pele com os olhos voltados para o céu. Alguma divindade suprema seria capaz de trazer a aceitação embrulhada em papel de presente? 


O cansaço das notícias, dos ataques e dos assassinatos. Não é tarde demais para desistir da humanidade que já desistiu de si mesma. Um suicídio coletivo, lento e gradativo. Milhões de máscaras espalhadas, o mundo não está pronto para descobrir a quantidade de sangue que ele já derramou. Você não está pronto para descobrir a quantidade de sangue que estão nas suas mãos. Você já me feriu. Você já feriu a si mesmo.


Quebrados, insuficientes e tóxicos. A selvageria de uma geração que aplaude a violência. Pessoas podem ser cruéis e a beleza pode maldosa, o final nem sempre é feliz. Eu prometo que mesmo instável, continuarei aqui. Esperando a oportunidade de ouvir meu nome sendo chamado outra vez, um clamor de uma alma perdida em um vazio dramático de uma crise existencial. O que eu sou?


Meu nome pode ser vários, companheiro. Pedro, Larissa, Maria Eduarda, Luiz, Marcos, Silvia, Samuel, Kelly, Jhonny, entre tantos outros. No dia 9 de julho, me chamei Marcelo Arruda. A luta para existência, para sobrevivência, para resistência.


Aqui, eu sou interpretado por uma graduanda de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense, a mini Jajá ficaria ainda mais orgulhosa. A Jamile Rezende de hoje foi forte o suficiente para usar a máscara da Odile e da Odette, nós aguentamos bastante juntos. Quando ela me deixou ir, percebi que minha missão estava completa. Não houveram mortes. Nós acabamos por aqui.


Até um próximo chamado. 


Com carinho e um saudoso adeus, 

Shaolin, o matador de porcos.

Por Shaolin, o matador de porcos

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