Vamos. O jogo já começou. Essas pessoas não pagaram para ver dois jogadores renomados parados na quadra de saibro. Vamos. Essa bola não vai sozinha para o outro lado. Você tem que agir logo. Vamos. Estão todos à sua espera. Quica uma, duas, três vezes. Olha para o seu adversário: ele está do lado direito. “Devo jogar na direita? Ou tentar um ace pela esquerda?”
Vamos. Decida. O tempo está passando. Direita ou esquerda. Azul ou vermelho. Cachorro ou gato. Matemática ou História. Montéquios ou Capuletos. Biscoito ou bolacha. Vamos. Estados Unidos ou Cuba. Impeachment ou golpe. Nacionalismo ou multiculturalismo. Conservador ou liberal. Meritocracia ou democracia. Legalizar ou não. O que está esperando?
Vamos. Por que a demora? Ih, sua camisa é vermelha. Petralha, comunista, volta para Cuba! Ah, seu patrocinador é a Coca-Cola. Coxinha, capitalista opressor, vai pra Disney! Vamos. Ataca o cachorro porque ele está com lenço vermelho. Ataca o movimento alheio porque não concorda. Ataca mais ainda porque foi atacado também. Ataca o outro! Vamos! Vamos.
Joga a bola para o alto e bate a raquete nela com força. Em qual direção jogou? Bem, não, importa, parou na rede. Não tem problema, vamos de novo. Só cuidado para não cometer dupla falta. Vamos. Prepare-se. Não hesite. Escolha. Direita ou esquerda. Direita ou esquerda.
Vamos. Você já escolheu. Eu sei que já. Mas por que está hesitando? É, realmente é complicado. Depois que você se posicionar não tem mais volta. Ou você joga para a direita ou para a esquerda. Ou você é oito ou você é oitenta. Ou você vai para o céu ou para o inferno. Ou você defende um movimento sem questionar ou você é contra. Ou você é capitalista ou você é comunista. Vamos. Olha esse Muro de Berlim sendo levantado na sociedade brasileira.
Vamos. Direita ou esquerda. Escolha. Jogue. Não é tão difícil. Quica uma, duas, três vezes. Olha para o seu adversário: ele ainda está do lado direito. Joga a bola para o alto e bate a raquete nela com força. Passou da rede na diagonal e foi para o canto esquerdo. Ace? Não, o adversário correu. Rebateu. Bate, rebate, bate, rebate. Esse jogo de direita e esquerda tem muito bate e rebate.
Enquanto isso, as pessoas estão sentadas na arquibancada virando a cabeça de um lado para o outro. Direita e esquerda. Direita e esquerda. Elas pagaram caro pelo ingresso. E vocês dois, jogadores, ficam nesse eterno bate e rebate. Está quente. O sol da tarde está diretamente sobre a cabeça dos espectadores. Eles assistem aflitos, torcendo por um dos lados. Direita ou esquerda. Às vezes gritam umas palavras de apoio, que logo são caladas para o bate-rebate principal.
Vocês ganham milhões. Eles pagam milhões. E nesse falso jogo de direita e esquerda, quem sai ganhando são vocês. Bate, rebate, bate, rebate. E o jogo continua a entreter o país. Bate, rebate, direita, esquerda. E o jogo continua a dividir o país.
Amelie Poulain