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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Bifurcações

 

Era tarde da noite. Saíra da casa dos meus pais logo após o jantar mesmo com toda insistência da minha mãe para passar a noite lá. “A estrada é perigosa!” Ela disse várias vezes durante o meu trajeto até o carro, mas nada poderia me oferecer mais conforto aquela noite do que minha cama. A estrada de fato era perigosa, escura e com grande número de acidentes. Conferi meu cinto muitas vezes antes de sair e deixar a casa que cresci para trás mais uma vez.

No meio do caminho, logo após de passar pelo último posto em funcionamento, comecei a me sentir sonolenta. Pensei em voltar, dizer para minha mãe que ela estava certa e receber de bom grado a cama do meu antigo quarto, mas a distância até o meu apartamento era a mesma então continuei a viagem. O rádio que tocava uma música qualquer parou de funcionar assim que cheguei à bifurcação. O caminho da esquerda, que eu sempre seguia, não me pareceu uma boa ideia, estava muito cansada e dormiria se seguisse por ele. Em contrapartida, o da direita era mais curto, se eu acelerasse um pouco mais chegaria em casa antes que o planejado. Por fim, decidi seguir pela direita, o caminho mais fácil.

            Nos primeiro quilômetros a ideia me pareceu fantástica e me perguntava o porquê de nunca ter passado por esse caminho, mas após poucos minutos de viagem comecei a entender as minhas antigas escolhas. Passei pela entrada de uma fazenda, não consegui ler o nome, mas me atentei na escuridão que cercava aquele terreno, as árvores eram mais densas e escuras e consegui ver ao fundo uma luz bem fraca, parecia uma grande fogueira. Ao olhar para frente tinha um grupo de pessoas no meio da estrada, bem próximo ao carro. Freei o carro bruscamente e acabei saindo da pista.

            O carro parou e desci rapidamente. Me deparei com uma pequena família. Todos estavam bem vestidos e pareciam decididos em adentrar a mata, não conseguiam me ouvir e eu não os entendia. Voltei para o carro decidida à seguir viagem, mas algo fez com que eu descesse novamente do carro e seguisse a família.

            Estava andando do meio da mata há alguns minutos e ainda não os encontrara. A cada passo que eu dava a noite ficava mais escura e as árvores mais fechadas. Foi quando avistei a luz, a mesma que tinha vista na estrada. Segui em sua direção e constatei que era uma grande fogueira, cheia de pequenas famílias como a que tinha visto na estrada. Reparei que conversavam muito e discutiam sobre o futuro dos que estavam presentes. Falavam de prisões, dinheiro e de uma pessoa que atrapalhava os planos deles. Ao me aproximar mais um pouco alguns senhores me viram e vieram na minha direção. Eram os mais bem vestidos ali. Terno, sapatos brilhosos, cabelo cheio de gel e incontáveis seguranças enormes.

            Me virei rapidamente e corri em direção à floresta. Tentei achar em minha mente informações que levassem mais rápido para o meu carro, mas ao chegar na estrada não o encontrei. Tentei correr até a bifurcação, mas tudo que via era grandes árvores na beira da estrada. Parei depois de alguns minutos correndo e me dei como perdida. Não sabia onde estava, não encontrava meu carro e não queria voltar para a floresta.

            O dia começou a amanhecer e ouvi movimentações nas árvores. As pequenas famílias que estavam na fogueira passavam por mim sem me ver, como seu eu não existisse. Comecei a segui-los e no meio do caminho encontrei o meu carro. As portas estavam abertas, tudo havia sido remexido. Adentrei no veículo e segui viagem o mais rápido possível.

            Quando cheguei em casa, liguei a televisão no jornal da manhã, peguei meu computador e digitei coisas aleatórias sobre a tal fazenda e seus arredores. Fiz um café bem forte e decidi telefonar para os meus pais para avisar que tinha chegado em casa bem mais tarde que o planejado quando me disseram que há duas semanas eu não ia visita-los. Levei um susto enorme ao ouvir isso e quando olhei para a televisão reconheci um dos senhores que vi de terno na noite passada. Ele era chamado de presidente. Peguei o meu computador e fiz uma pesquisa rápida sobre a fazenda. Nada estava no mapa, aquela estrada não existia, as pessoas que vi não existiam e mesmo assim tudo ainda era muito claro na minha cabeça. Paralisei, lembrei da noite passada mas não consegui me lembrar de mais nada. Foi como se tudo fosse um sonho. Um sonho de como as coisas se perderam no meu pais. Um sonho sobre uma mudança de caminho.

 

Mônica do Legião

domingo, 5 de junho de 2016


“Enquanto a esquerda
sonha com o futuro,
a direita vive
presa ao passado.


A esquerda
quer igualdade geral,
a direita aceita
que a desigualdade é natural.


A esquerda precisa
da coletividade,
a direita
quer individualidade.


A esquerda
encara o problema,
a direita quer
qualquer solução.


A esquerda 
quer progresso,
a direita 
reação.


É difícil viver 
em tanta contradição 
dentro
de uma só organização.


É difícil 
tomar uma posição geral 
após uma paralisia parcial 
gerada por um derrame cerebral.”

Spencer Reid

A Destreza de um Zurdo

Graças a Murphy, a gasolina do meu carro terminou logo no trajeto menos movimentado da minha viagem. Deixei o veículo para trás, seguindo a pé pela estrada de terra. Alguns quilômetros depois, quando o sol a pino fazia suor escorrer por minha testa, alcancei uma bifurcação Y que dava caminho à estrada de terra e a uma nova passagem, de solo arenoso.

– Qual caminho você escolhe? – escutei uma voz atrás de mim. Virei-me na hora, e surpreendi-me ao avistar um homenzinho com feições infantis e cabelos dourados como trigo. Alguém normal fugiria – mas eu não sou normal. Então perguntei aonde levava o caminho de solo arenoso e ele me contou sobre seu lar – pequeno, com vulcões inativos e baobás gigantescos:

– Lá tem um pôr do sol lindo! Mas tenho que voltar logo, passei muito tempo fora. Minha rosa deve estar preocupada; não que ela admita isso, claro. – ele deu uma risadinha. – Quer ir comigo? – ofereceu-me, mas apreensão tomou-me ao imaginá-lo sozinho em meio a rosas, vulcões e baobás, então lhe perguntei quem era o responsável por lá. – Ninguém. Autoridade pra quê? Cuido da minha rosa, ela cuida de mim. Sempre cabe mais um; quer ir comigo?

Fiz que não com a cabeça e agradeci mesmo assim; recebi em troca um mero aceno do homenzinho antes de ele seguir pelo seu caminho. Fui pela estrada de terra sem olhar para trás – verdade seja dita, eu estava olhando para lugar nenhum: a conversa me desnorteara; eu não conhecia mais o meu rumo. Nem me assustei ao ouvir uma voz súbita:

– Não dê mais um passo sequer. – era uma menina com longas madeixas loiras, sentada sobre uma pedra às margens da estrada. Ela apontou para o buraco à minha frente, que me passara despercebido. – Confie em mim quando digo que você não quer cair aí. – Ela logo se explicou: – Lá embaixo é cada um por si. Todos estão sempre com pressa porque tempo é dinheiro; estão sempre atrasados. Num instante você é gigante, é bem sucedido e todos te conhecem; noutro, você é menor que um grão de poeira, é um ninguém porque perdeu tudo.

Eu não sabia o que dizer – por sorte, ela era solícita e me poupou de falar algo tolo ao me indicar como desviar do buraco para seguir em frente. Agradeci pela sua ajuda e lhe dei um tchau quase inaudível – o encontro com o homenzinho tinha sido certamente mais agradável. Depois disso tudo, prossegui com grande cautela – principalmente após alcançar uma parte em que a estrada fora pavimentada com tijolos amarelos. Dessa vez, vi a estranha primeiro:

– Está sem rumo? – a menina de cabelos castanhos e trançados perguntou, e eu logo assenti. Indaguei o que eu encontraria se seguisse aquela estrada, e ela me deu um sorriso desanimado: – Não há muita coisa. Nosso líder é um mentiroso, diz que ajudamos uns aos outros, mas só alguns cidadãos vivem em boas condições de fato. Faça algo de errado e o exército desaparecerá com você. – seu semblante abatido me comoveu. – Você quer seguir em frente? Não sabe seu destino ainda? – para frente não vou, foi meu único pensamento diante da sua pergunta. Alheia à minha reflexão, a menina tirou seus sapatos prateados – Sei que isso é estranho, mas não me questione, ok? Faça o que eu pedir. Vista esses sapatos, você parece precisar deles mais do que eu. Certo, isso mesmo. Agora feche os olhos, pense aonde você quer ir e bata seus calcanhares três vezes. Adeus. – e tudo ficou preto.

Encontrei-me na passagem arenosa que dá caminho ao lar do homenzinho de antes, e me senti contente com esse destino, com esse rumo – afinal, autoridade pra quê?

Cora


Sonho real


Véspera de feriado, tempo bom, decido fazer uma viagem. Pego meu carro e saio do Rio de Janeiro em direção a Santos. Após algumas horas de estrada, me sintocansado e decido parar em um posto. Chegando lá, me dirijo ao frentista:

- Fala amigão, boa tarde, tem alguma pousada aqui perto ?

- Tem sim senhor, só seguir um pouco mais adiante que vai ver uma a sua esquerda – responde ele. 

- Obrigado !

Sigo minha viagem mais alguns quilômetros e chego na pousada. Já era fim de tarde, então pedi um quarto pra passar a noite e partir na manhã seguinte. Neste breve descanso tenho um sonho, o qual jamais esqueci. 

No sonho eu estava em lugar onde o governo era muito conservador; tradicional. Os mais poderosos, de elite, é que estavam no poder, lembrando até um tempo Absolutista. A desigualdade social era evidente e cada dia uma nova privatização era anunciada. Eu era um trabalhador, vivia em uma situação mediana, mas torcendo por uma mudança, pra poder viver em um lugar onde o governo lutasse por uma sociedade mais igualitária, pelo direito dos trabalhadores e contra o conservadorismo. 

Talvez, por ser um sonho, esse meu desejo dentro do sonho, tornou-se realidade. De um dia para outro, o governo mudou, havia tido uma revolução e a oposição estava no poder. Agora haviam promessas de que o mais pobre poderia viver em uma situação melhor, de que aconteceriam reformas, de que o Estado seria forte economicamente e não dependeria das privatizações. Enfim este lugar em que eu vivia ia crescer.

Realmente, durante algum tempo neste sonho dentro do sonho, o lugar conseguiu prosperar, o nível da miséria diminuiu, o ensino público melhorou e os trabalhadores ganharam mais força. Infelizmente foi só por um tempo, depois voltou-se a estaca zero. 

Enfim, acordei. Foi apenas um sonho. 

 

Severo P.

É TUDO UMA ARMADILHA



     Quando eu entrei no ensino médio, conheci um mundo conferido aos adultos. E ainda sem entender muito bem, me colocaram num ponto com dois caminhos e me disseram que eu precisava escolher um para poder configurar a visão de mundo que eu teria em breve. Na sucinta descrição, entendi que um lado tinha gente má que só pensava em si mesma, e no outro, um pessoal que era oposição e lutava pela igualdade. Era basicamente como escolher entre céu e inferno. Qualquer pessoa meramente inteligente faria a escolha certa. 
     Em seguida, estudei uma revolução que me explicou a origem dessa tão aparente divisão. Era qualquer coisa relacionada a uma pirâmide, dois terços para um lado, um terço para o outro. Ok, talvez a proporção não seja bem essa, nunca fui boa em matemática mesmo. O fato é que tinha um cara lá que eles chamavam de rei, e duas patotinhas se juntavam pra puxar o saco dele. Eles se achavam, e não gostavam de se misturar com a outra galera, então sentavam do lado direito do cara com a coroa. Para os outros sobrava o esquerdo, o que, pensando bem, nessa era dos documentos em word, não vai demorar pra essa tarefa de diferenciar os lados ser uma missão impossível. Talvez já seja. 
     A questão é que, a partir daí, comecei a tentar entender esse mundo. Sabia que os ditos conservadores, que preservam a moral e os bons costumes estabelecidos por concepções tradicionais e religiosas, e acham o liberalismo maneiro era de direita. Esse sistema gera uma opressãozinha, mas se organizar direitinho ninguém percebe. Eles são exclusivamente cristãos, mas descartam aquela passagem que o líder deles disse para "amar o seu próximo como a ti mesmo", visto que eles só se amam mesmo. Já a esquerda é justamente o povo oprimido, que acha que o Estado tem sim que intervir na economia, querem desconstruir a base da sociedade (segura que tá desmoronando) com todas as suas tradições e paradigmas, e pregam a solidariedade sem precisar justificar com o cristianismo.
     Simples? Também achei. Mas eu moro na terra do pau-brasil. Aqui essa divisão nem sempre faz sentido. Aqui, as pessoas que governam precisam adquirir características de animais. Precisam ser raposas, águias, cobras... Aqui oprimido apoia opressor, aqui a esquerda admiti proposta de direita pra não ter que sair da cidade planejada. Isto porque, em um lugar onde a História não é estudada, a ignorância é propagada, as contradições não são percebidas e poucos são privilegiados. 
     Entretanto, a verdade é que esses dois lados são muito singulares para definir esse mundo. O nome desse mundo é política, e ele é uma armadilha.


Maleficent000

Bifurcação


Demorei mais que o normal durante o percurso que já me era rotineiro. Não que estivesse engarrafado ou que algo extraordinário tivesse rompido a bucoliada minha viagem diária ao trabalho, a mudança fora em mim.

Chega um certo momento em que a estrada é bifurcada, embora qualquer um dos caminhos vá me levar ao local pretendido. No automático, sempre escolhi a direita. É um ritual: ligo a seta, para sinalizar meus outros companheiros motorizados, viro o volante, pago o pedágio e sigo, sem ao menos olhar o que é deixado na paisagem que me cerca. Nunca julguei que fosse importante, afinal, estava sempre apressada demais para chegar ao escritório. Trabalho na Bolsa e, portanto, cada segundo conta. Não sou como os que seguiam pela esquerda: sem pedágio, porém sempre engarrafada, dispondo de todo o tempo do mundo para não fazer nada de útil à sociedade.

Não sei ao certo quem ou o que me levou a fazer essa associação, só sei que acreditava e a repetia todos os dias, assim como papai fazia. Mas me parecia bem justo, não queria fazer parte dos atrasos que uma via esburacada como aquela representava para mim. Foi um amigo do meu antigo cursinho, talvez, quem me disse pela primeira vez que havia pegado o caminho errado pelo fato de seu chofer ser novo na cidade, o que o forçou a olhar para fora da janela e identificar onde estava. Não lembro direito, mas ele mencionou que a vista era até agradável para um lugar tão descuidado como aquele. O que me fez pensar em tal relato naquele que seria só mais um dia normal não será explicado nunca. Só sei que me fez parar por alguns minutos para pensar antes de simplesmente virar o jogo do carro e entrar na via sinalizada.

Fui pelo mesmo caminho de sempre: segui à direita. Mas dessa vez, olhando ao meu redor. Achei estranho quando percebi o estado dos trabalhadores que serviam a mim e aos outros carros que passavam. Havia gente, muita gente. Que parecia, inclusive, ainda mais preocupada com o tempo do que eu mesma. Tinham cara de quem acordou às 4 da manhã; e eu, de quem levantava de um cochilo da tarde. E, mesmo que trabalhassem na manutenção daquela estrada, de asfalto negro e curvas bem sinalizadas, não pareciam ter condições de pagar sua entrada para se deslocar com a família, tendo que seguir pelo outro caminho, que no dia seguinte eu visitei. E lá não era como aqui.

Na esquerda, mesmo que cansadas, as pessoas pareciam seguir por um bem comum. Sem os recursos que a direita com sua concessão pública dispunha, faziam o que podiam para que o caminho fosse o melhor possível, e que todos pudessem igualmente transitar. Havia ciclovia, calçada de pedestres, rampa para deficientes. Nada parecido com a pobreza observada na direita.

Foi aí que parei para pensar que a minha riqueza não gerava mais do que um conjunto de misérias. A intelectual e emocional de quem tinha meios para refletir, estudar e reverter a situação que perdurava; e a econômica de quem era simplesmente ignorado no caminho.

A partir daquele dia, resolvi abandonar pelo menos a minha miséria intelectual. Agora, além de atentar ao que me circula, sigo sempre à esquerda.

Pandora.

Um Chocolate na População


Em um dia desses, eu estava conversando com o meu primo Francisco Everardo. Ele não é daqui. Mora num país meio longe. Nem me lembro o nome. Ele tava me contando que lá na terra dele existe uma grande rivalidade no ramo de fabricação de chocolate. Dois fabricantes polarizam essa disputa: de um lado Jair Bolsonarcor e de outro Wyllys Wonka. 

Wyllys possui a seguinte metodologia quando o assunto é fabricação de chocolate: prefere uma forma mais nova de se fabricar chocolate.  Gosta de chocolates coloridos e defende que estes têm que ser aceitos pela sociedade. Usava como mão de obra os umpa-lumpas, que tinham um grande sonho na vida: serem aceitos pela sociedade. Possuíam como característica notável a intransigência com quem não concordava com seus pensamentos.

Já Bolsonarcor defende firmemente a manutenção dos chocolates tradicionais. Para ele, a população não tem que achar totalmente normal gostar dos chocolates fabricados por seu “inimigo” nem incentivar as crianças a provarem o doce. Seus trabalhadores eram os minions, caracterizados pelo ideal de que deve ser respeitado o que eles acreditavam ser a “ordem natural do consumo de chocolate”. Também eram consideravelmente intolerantes com os defensores de visão oposta.

Francisco me dizia que no país dele parecia que as pessoas não raciocinavam direito quando o assunto era esse. Se você não apoiasse um dos lados, você era considerado alienado.

Meu primo resolveu entrar nesse meio. Pareceu-me totalmente sem sentido. Ele era palhaço de circo e não tinha uma formação intelectual das melhores. Até tinha boas intenções, mas todos sabem que é muito difícil acabar com a grande corrupção e essa “máfia” existente nesse ramo de chocolate 

Todo esse panorama me parece muito fantasioso. Algo muito distante da realidade aqui do Brasil. Não só com relação à questão do chocolate, já que o pessoal por aqui nem liga muito pra isso. Digo no sentido dessas rivalidades e ódio com quem não compartilha das mesmas opiniões. Aqui a galera respeita o que os outros pensam além de praticamente não existir os defensores dos pensamentos extremistas. Ainda bem né...


                                                       Júnior West

O jogo da vida


A vida é um jogo. Nem sempre ganhamos, nem sempre perdemos, mas aprendemos a jogar. Em nossas vidas, escolhas são tomadas todos os dias. Nem sempre certas, elas também podem ser erradas e às vezes, quase sempre são. Entretanto, uma coisa é verdade sobre as escolhas em nossas vidas, é melhor quando nós temos o poder de decisão, já que não é sempre que isso está em nossas mãos. Então, faça as suas escolhas, não se omita evamos jogar?

Arrume-se e ande. Siga adiante. Sempre em frente. Mas quando houver uma bifurcação, vire à esquerda ou à direita? 

Você virou à direita, retrocedeu dez passos e se acomodou. Reproduziu o machismo, o racismo, a homofobia e outros (pré) conceitos enraizados na sociedade. Levou para si muitas causas que não suas, mas que são vendidas como se fossem suas. Aceitou a desigualdade e acreditou na meritocracia como verdade pra sua vida. E, agora?

Pare! Você acha que deu certo? Reflita. Você tem mais uma chance nesse jogo. Agora, vire à esquerda. Ok? 

​Ao virar à esquerda, perceba que também há tudo isso que já foi visto. No entanto, há algo a mais. Veja que existe luta, existe questionamento. Assim, você pode se libertar de amarras muito antigas e profundas, como os casos de preconceito, intolerância e desamor. Você consegue. Não se deixe acomodar por medo de mudar. Toda transformação quebra barreiras. Sim, será difícil quebra-las, no entanto, tudo é possível.

O seu jogo terminará e você verá que buscar a liberdade foi o melhor. Viver de forma livre é pensar sobre política, é pensar sobre a sociedade porque só assim, você terá condições de ter a sua liberdade respeitada.

Chris

Na ponta do lápis


Dizem que tudo na vida tem dois lados e que eles merecem ser levados em conta. De fato, dá para perceber essa dualidade até em situações mais banais no cotidiano. Agora, estou escrevendo com a mão esquerda, por exemplo, mas sei que, de certa forma, isso não me impede de um dia escrever com a direita. Acho que depende de qual jeito eu me sinto mais confortável... Sigamos. O mundo sempre pareceu dividido e polarizado, em um contexto - bastante visível na contemporaneidade - de pró e contra. Quem escolhe um lado frequentemente julga o outro como "errado", pois é se posicionando em uma direção que você automaticamente contraria a outra. Na atualidade, ou você é destro ou canhoto - a sociedade sente muita necessidade de um posicionamento definido. Bem... É que, com a esquerda, sinto que me vêm as melhores ideias, meus melhores argumentos, as razões e soluções mais sólidas. É quando escrevo com ela que meus textos ficam mais coerentes e mais sociais também. Ela me ajuda a pensar nos direitos das minorias e dos mais pobres; ajuda-me a promover o bem estar coletivo e a participação popular dos movimentos da sociedade; com ela, é fácil debater sobre justiça social.

Diferente do meu costume, tem a mão direita. Não sei explicar ao certo, mas quando decido usá-la, me sinto muito limitada. Parece que as palavras nem sequer chegam ao meu pensamento para sair no papel. É a tradicional falta de inspiração que me é causada. Minhas lutas mais bem defendidas sobre avanços na legislação em direitos civis - em temas como aborto, casamento gay e legalização das drogas - não foram escritas por ela. Estranho, não? De qualquer forma, por essas e outras, deve ser por isso que prefiro ser canhota. Tem mais a ver com minhas aspirações na vida e meu objetivo ao escrever para que leiam meu ponto de vista. 

Então, termino deixando claro que existem muitos destros e muitos canhotos entre nós. Cada um deles vai escrever de um jeito; o que irá fazê-lo se expressar melhor. A mão é a grande metáfora de nossos pensamentos. Por meio dela que achamos nosso lugar no mundo e que podemos nos unir a pessoas similares a nós para lutar por causas em conjunto. Acho válido que influenciemos no presente e no futuro de nossa sociedade. Creio que escreverei com a esquerda ainda por muitos anos... Quem sabe você não prefere meus textos assim?!

 

 Lia Mendes

Quando caminhei só pela primeira vez, me vi de frente a uma escolha. Direita ou esquerda. Virei à direita.

Meu pai havia dito que o caminho pela esquerda era mais longo e perigoso. Perguntei o que havia de tão perigoso. A resposta que recebi não foi nem um pouco satisfatória: o pai dele falava o mesmo para ele, e o avô dele falava o mesmo para meu avô e assim seguia. Nenhum deles havia se atrevido a passar pelo outro caminho e nenhum sabia o que realmente existia por lá.

Então, contra a minha vontade, virei à direita, e me perdi. Não era minha intenção parar naquele lugar com casas bonitas e famílias aparentemente felizes vivendo suas rotinas basicamente idênticas, exatamente como a minha. Conheci pessoas, nenhuma realmente disposta a me ajudar, a não ser que eu tivesse algo a oferecer, exatamente como eu conhecia. Eu queria mais, queria conhecer outra realidade, uma onde existisse uma perspectiva de futuro diferente da vida robotizada que estávamos vivendo, todos com um só objetivo. 

Parei numa esquina e pensei que talvez pudesse achar o que estava procurando se tivesse feito o outro caminho, mesmo que esse fosse mais longo e difícil. Nesse breve momento de reflexão, resolvi que não era tarde demais para me arriscar. Dei meia volta, virei à esquerda e me encontrei.

Peter Parker

Todo dia um 7 x 1 diferente


Quer reportagem na TV que dê mais o que falar do que as que falam dele? Não consigo imaginar outra. É delicado falar desse tema quando é o motivo que causa mais brigas, mais discussão e, inclusive, violência entre os brasileiros. E quando tem crise? Sem chances de não estampar a capa do jornal, isso sem contar quandoacontece um protesto da torcida – vale de tudo, até panela e buzina. Toda situação é pretexto para discórdias, atémesmo pedaladas. 

Durante o ano inteiro, é um atacando e o outro defendendo, tem até aqueles que não aceitam a escolha dos demais. O jogo continua e existe quem defenda o moderno e, por outro lado, quem proteja o conservador. Como eu já falei, tudo é razão para rivalidade. Mesmo noBrasil, ele sofre interferência do que acontece no mercado estrangeiro. E como! 

Eu sei, sempre tem um que não dá atenção, não lê sobre a questão, não liga a TV e acaba não tendo o que falar na mesa do bar. No entanto, por um outro ângulo, acho que pode imaginar a quantidade daqueles que se atualizam, veem e gritam ao extremo – os famosos torcedores doentes. 

É conflito dentro e fora de campo – nas ruas e na internet. Quando a penalidade é máxima, tem que ter textão no Facebook. Patrocínio por fora? Textão. O presidente não é competente? Textão. Impedimento? Textão. E vale a pena ler. É difícil acompanhar a mídia de forma consciente quando ela trata do assunto de uma maneira que não é imparcial. Constantemente tem jornalista que ignora a neutralidade dos fatos. 

Eu te garanto que não estou falando de futebol, e sim, do governo. A esquerda luta pelo bem-estar coletivo, a direita batalha pelo individual e isso dá briga que chega a dar inveja a qualquer torcida organizada. 

Acho que comecei a concordar que a política virou mesmo um Fla x Flu. E se é que virou, prefiro me tornar um torcedor fascinado do ilustre América – RJ.

Valentina

E o jogo continua


Vamos. O jogo já começou. Essas pessoas não pagaram para ver dois jogadores renomados parados na quadra de saibro. Vamos. Essa bola não vai sozinha para o outro lado. Você tem que agir logo. Vamos. Estão todos à sua espera. Quica uma, duas, três vezes. Olha para o seu adversário: ele está do lado direito. “Devo jogar na direita? Ou tentar um ace pela esquerda?”

Vamos. Decida. O tempo está passando. Direita ou esquerda. Azul ou vermelho. Cachorro ou gato. Matemática ou História. Montéquios ou Capuletos. Biscoito ou bolacha. Vamos. Estados Unidos ou Cuba. Impeachment ou golpe. Nacionalismo ou multiculturalismo. Conservador ou liberal. Meritocracia ou democracia. Legalizar ou não. O que está esperando? 

Vamos. Por que a demora? Ih, sua camisa é vermelha. Petralha, comunista, volta para Cuba! Ah, seu patrocinador é a Coca-Cola. Coxinha, capitalista opressor, vai pra Disney! Vamos. Ataca o cachorro porque ele está com lenço vermelho. Ataca o movimento alheio porque não concorda. Ataca mais ainda porque foi atacado também. Ataca o outro! Vamos! Vamos.

Joga a bola para o alto e bate a raquete nela com força. Em qual direção jogou? Bem, não, importa, parou na rede. Não tem problema, vamos de novo. Só cuidado para não cometer dupla falta. Vamos. Prepare-se. Não hesite. Escolha. Direita ou esquerda. Direita ou esquerda.

Vamos. Você já escolheu. Eu sei que já. Mas por que está hesitando? É, realmente é complicado. Depois que você se posicionar não tem mais volta. Ou você joga para a direita ou para a esquerda. Ou você é oito ou você é oitenta. Ou você vai para o céu ou para o inferno. Ou você defende um movimento sem questionar ou você é contra. Ou você é capitalista ou você é comunista. Vamos. Olha esse Muro de Berlim sendo levantado na sociedade brasileira.

Vamos. Direita ou esquerda. Escolha. Jogue. Não é tão difícil. Quica uma, duas, três vezes. Olha para o seu adversário: ele ainda está do lado direito. Joga a bola para o alto e bate a raquete nela com força. Passou da rede na diagonal e foi para o canto esquerdo. Ace? Não, o adversário correu. Rebateu. Bate, rebate, bate, rebate. Esse jogo de direita e esquerda tem muito bate e rebate.

Enquanto isso, as pessoas estão sentadas na arquibancada virando a cabeça de um lado para o outro. Direita e esquerda. Direita e esquerda. Elas pagaram caro pelo ingresso. E vocês dois, jogadores, ficam nesse eterno bate e rebate. Está quente. O sol da tarde está diretamente sobre a cabeça dos espectadores. Eles assistem aflitos, torcendo por um dos lados. Direita ou esquerda. Às vezes gritam umas palavras de apoio, que logo são caladas para o bate-rebate principal.

Vocês ganham milhões. Eles pagam milhões. E nesse falso jogo de direita e esquerda, quem sai ganhando são vocês. Bate, rebate, bate, rebate. E o jogo continua a entreter o país. Bate, rebate, direita, esquerda. E o jogo continua a dividir o país.

 

Amelie Poulain


Nunca tinha ido assistir a um jogo de futebol, todos me falavam da emoção de estar na arquibancada, torcendo, vibrando, gritando, mas eu não via a menor graça, preferia o conforto de assistir em casa. Até que, num domingo, 16 de julho, meu amigo Leni me convidou para a final da copa do mundo que seria disputada por Brasil e Uruguai, em que só teriam torcedores daqui, pois a torcida do rival havia sido punida e não poderia estar presente. Resolvi aceitar e dar uma chance a mim mesmo. Leni me entregou o ingresso e disse que, sozinho, teria que escolher, entre os diferentes setores, um que eu me encaixasse melhor, ele apenas apresentaria-os a mim já que trabalhava lá. Pensei: como existiriam diferentes setores se todos estavam torcendo pelo mesmo time? Mas eu ia. E fui. Ao entrar no Maracanã, a primeira impressão foi boa. Lindo, cheio de pessoas energizadas, baterias, bandeirões, cantoria, festa, cores. Confesso que fiquei até arrepiado na hora. Estava bem cheio, mas não lotado, com três setores preenchidos: leste, oeste e sul.  Rapidamente, depois daquela primeira impressão que me pareceu uma galera homogênea, pude observar o diferente comportamento das torcidas; leste e oeste, localizadas à minha esquerda e direita, respectivamente, trocavam ofensas e xingamentos entre si. Já a que estava ao fundo, no sul, me pareceu mais pacífica. Leni chegou e logo foi fazer as apresentações. Começou pelo setor leste, torcida responsável pela maior festa nas arquibancadas. Segundo ele, ali ficava o "povão", que combatia a privatização dos estádios, lutava pela diminuição do valor do ingresso para que houvesse maior inclusão social nas arquibancadas e, também, pela democratização do futebol, com times menos elitizados. Me explicou, ainda, que bem na ponta, dentro do próprio setor, ainda existia uma espécie de subdivisão com os revolucionários, que pretendiam alcançar o bem estar coletivo através de medidas bem radicais. Dando a volta, chegamos ao setor oeste e, ao contrário do que acabara de ver, lá estava a torcida elitista, onde não tinha tanta festa assim, a maioria se encontrava em seus assentos, num sentido de ordem. Grande parte daquelas pessoas tinham relações com os dirigentes que queriam encarecer o futebol, eram contra o projeto de lei prestes a ser aprovado que estabeleceria cota de ingressos para quem possuísse renda baixa e acreditavam que o povo deveria trabalhar mais e não diminuir o preço dos ingressos. Uma coisa tinha em comum, aqueles que ficavam localizados à ponta do setor, só que dessa vez, eram elitistas extremamente conservadores e exclusivistas. Estava explicado o porquê dos insultos e provocações antes percebidos por mim.  Agora só faltava um, aquele mais tranquilo que eu disse no começo. Andamos até o setor sul, que pela divisão espacial do estádio, era naturalmente menor. Leni me disse que lá era a torcida mista, composta por pessoas que partilhavam das "ideias leste e oeste", mas claro, sempre existiam aqueles que tinham mais afinidade por uma ou outra. Resumiu dizendo que, aquela torcida, pregava mais tolerância e era o equilíbrio do estádio. Leni se despediu dizendo que já estava atrasado pois o jogo já iria começar e ele precisava fazer os ajustes finais para a transmissão. Agora era comigo. Pensei, olhei para aqueles três setores que acabara de conhecer e tomei uma decisão que ele não esperava. Agradeci o convite mas já estava indo embora. Nenhum setor havia me convencido. Tive a impressão que toda aquela briga de ideologias se sobrepôs ao único objetivo comum, a torcida pela seleção brasileira. Não era o que eu esperava encontrar. Voltei para casa, voltei para minha realidade de torcedor de sofá, era melhor assim. Resultado final: 2 x 1 Uruguai. Maracanaço. Brasil derrotado em casa.

Frida Kahlo

Ração


O lugar de nascimento, a classe social, a família e o ambiente em que crescemos, os professores e os amigos que temos, as experiências vividas. Tudo isso, ou seja, tudo o que faz parte da educação recebida, é o que muitos cidadãos podem alegar, com razão, ante a pergunta sobre o que nos faz ser de esquerda ou direita. Uma resposta que também serviria para questões mais gerais, como “por que somos bons ou maus”, ou questões mais prosaicas, do tipo “por que torcemos para um time de futebol ou outro”.

 

Ganhar um Prêmio Nobel dá autoridade a quem o ganha. Jose Saramago ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano 1998. Saramago, alem de escrever obras-primas, foi uma pessoa ativa na política. Ele falou que a esquerda tem uma coisa que a direita não tem : ração. Para mim isso é um argumento de autoridade. 

 

Não obstante, a direita também tem argumentos… A direita nunca deixou de ser direita, mas muitas vezes a esquerda deixou de ser esquerda. A explicação pode parecer simplista, mas para serem participantes mais ou menos tolerados nos jogos do poder, os partidos de esquerda correram todos para o centro, onde, infalivelmente, se encontraram com uma direita política e econômica já instalada que não tinha necessidade de se camuflar de centro.


Vascopaulo14

Coxinha ou pão com mortadela?

São dezessete horas de uma sexta feira, o dia mas corrido da semana. Saio da redação ás pressas com uma vontade gigantesca de chegar em casa, jogar o sutiãn longe e mergulhar no sofá para assistir mais um episódio de Game Of Thrones. Mas até chegar em Irajá vai demorar... Nessas horas que eu penso, porque trabalho tão longe de casa?  Chego na estação e percebo que a barca está quase saindo, ou seja, preciso correr. Corro desesperadamente, não consigo ver nada a minha frente pois o vento numa tentativa nada amigável obriga meus cabelos a dançar com ele e acaba fazendo com que todo o meu rosto seja coberto pelos meus próprios fios, tropeço em mim mesma e esbarro nas pessoas porque sei que se perder essa barca só Deus sabe quando pegarei outra. Enfim chego na plataforma, e preciso decidir se sentarei a esquerda ou a direita. Esses tipos de decisões sempre são dificeis pra mim, por incrivel que pareça. A minha esquerda vejo o Corcovado e o Aeroporto Santos Dumont e a minha direita vejo a Ponte Rio Niterói. Tento decidir rápido, porque quanto mais eu demoro para escolher meu lado, mais pessoas vão entrando na barca e preenchendo os lugares. Enfim decido, escolho a esquerda. Prefiro passar vinte minutos olhando para o Corcovado enquanto escuto Caetano, do que ficar olhando para uma ponte monótona e super sem sal. Quando chego no Rio e olho para o céu percebo que já está anoitecendo e ainda me falta um longo caminho. Vou andando pelas ruas mas desta vez percebo que não adianta ter pressa pois meu ônibus só sairá daqui a uma hora. "Enquanto os homens exercem seus podres poderes, morrer e matar de fome e raiva e de sede, são tantas vezes gestos naturais..." cantarólo enquanto atravesso a rua mas percebo que todos ao meu redor me olham como se eu fosse um ser de outro planeta. Começo a sentir fome, e me lembro de que não havia lanchado antes de sair do trabalho. Decido parar em algum lugar pra comer. Até que dou de encontro com uma padaria, e que padaria! Ao entrar sinto a sensação de que meu estômago está diminuindo e o perfume da padaria  é tão agradável que entra em minhas narinas me tornando capaz até de sentir o gosto sem ao menos provar nada. Olho para a vitrine e vejo um belíssimo pão com mortadela, e decido: é exatamente isso que vou comer. Enquanto ando em direção ao balcão para fazer meu pedido, reparo numa menina muito bonita sentada bem no canto da loja revirando os olhos ao comer uma farta coxinha. De repente tudo ao meu redor fica em slow motion ao ver a menina dar a sua ultima mordida, minha boca saliva e eu só consigo pensar em coxinha. E nesse momento eu fico confusa, não sei o que comer. Será a bendita coxina ou o saboroso pão com mortadela? Após um longo tempo de indecisão, finalmente decido. Não irei ser influenciada por uma coxinha. Compro o sanduíche e quando finalmente como,  me dou conta de que eu nem sou tão fã de coxinha assim. Porque é que diabos eu iria comer uma coisa que nem gosto muito? Porque escolher coxinha? Afinal pão com mortadela é tão mais sabaroso, é um sanduíche idrolatrado pelos mais pobres e consumido até pelos mais ricos (mesmo quando escondido). Após comer posso retomar meu trajeto até minha casa com a consciência tranquila de que fiz a escolha certa.

Maria Antonieta

Estado de união


 

De terno e gravata, requinte e ordem

Ele é ambicioso

Trabalha para conquistar o que é seu

Fala em metas, projetos

Almeja lucros, cargos e posses.

 

Sua moral é inabalável, sua lei.

Conserva a família, as tradições

E pratica os princípios de sua religião.

Aos domingos, na igreja,

Durante a semana, a trabalhar.

 

De jeans e uma blusa qualquer,

Ela é desapego

Engajada, revolucionária e solidária

Sempre que pode,

Envolve-se em alguma boa ação,

Debate ideias, propostas,

Estudos e teorias.

 

Sofre e luta pelas injustiças de uma sociedade tão desigual,

Dedica-se aos outros em prol de um bem social.

Ela é altruísta sem nenhum esforço.

 

Eles são um casal,

Dividem essa rotina desconforme

E nem todos os dias são de aliança e cumplicidade.

 

Em momentos de extremos, brigas constantes.

Discutem, rebatem argumentos.

Eles mal se ouvem, não se entendem,

Mas, quando se põem tolerantes e em harmonia,

Pouco a pouco caminham avante

E percebem a importância do outro na relação.

 

E, nesse estereótipo de vida bilateral,

Há algo que os une.

Eles são partes de um só,

Mesmo que de forma tão desigual.

 

Lemos, Dante.

O poema do AR


Me perguntaram do nada 

"Você é de direita ou esquerda"

E sem hesitar,

"Desculpa, não sou capaz de opinar"

 

"Como?"

O homem veio me questionar

"Menina, você precisa se posicionar"

 

Depois desse diálogo

Muita coisa mudou 

Precisava me decidir logo

Porque moda isso virou

 

Fui então ao Meia hora pesquisar

Precisava de fontes 

Mas o Globo não podia comprar

 

Admito que foi difícil de achar

Prioridade para politica nesse jornal, não há 

Mas por 50 centavos 

Não posso reclamar

 

E depois tanto ler

Vi que há uma certa dominação 

Vi que há uma certa restrição de informação

 

Mas não devo me prolongar 

A questão é direita ou esquerda

E como consegui me posicionar

Espero só não ser julgada

 

 

Nem direita nem esquerda

Os extremos não vão proporcionar 

Um lugar bom para morar 

 

Quero mesmo o meio termo

A liberdade  e varias formas de amar

Não preciso escolher um lado 

Para poder lutar 

 

 

 Helena Machado