segunda-feira, 13 de junho de 2016

Amor em detalhes


 

Não é só por uma noite,

Não é só por uma troca de carícias.

Nosso amor é mais do que isso.

 

É contemplar-te acordando,

É te ver com a minha camisa de manhã,

É a forma despretensiosa 

como você prende o cabelo,

É como você me olha atentamente,

É saber que não queremos nada

além de nós dois.

 

É a maneira como você me provoca,

É o seu sorriso misterioso,

É a troca de olhares,

É saber que existe amor incluído.


Admirar-te,

Envolver-te,

Amar-te.

Só você tem o que eu preciso.


Seus beijos,

Seu corpo,

Seu amor sincero.

Eu não trocaria por nenhum outro.

 

É te amar em cada detalhe,

É ter você só para mim

E saber que não será só por hoje,

Pois nosso amor se reinventa a cada dia.

 

Lemos, Dante.

Metalinguagem

 

O professor chega à sala, tira de sua bolsa um casal de canetas PILOT e começa a escrever o cabeçalho. A sala em silencio copia com atenção. A prova de redação era um momento tenso, tanta coisa acontecendo, guerras, crises, fome... Sexo? 


-Sexo. Vocês têm a partir de agora exatamente uma hora para escrever sobre o tema. Liberarei nos primeiros quinze minutos o uso da internet para pesquisas. Importante ressaltar, o gênero é livre, debatam o quanto quiserem.


A sala se encarava com um olhar discriminatório. Alguns ficaram vermelhos, outros deram risada. Não por acharem o tema engraçado, eram jovens, tinham lá seus dezesseis e dezessete anos, pensavam nisso metade dos seus dias, mas sim porque ouviam dos seus amigos que deveriam agir assim. 


Desde o começo, seus pais evitavam o tema. Foram procurar informação na mídia, que tratava com desdém. Então foram até os amigos, que por coincidência já tinham ido antes à mesma mídia que eles.


Começou a suar, a mão que estava a segurar o celular tremia. Ok, preciso falar sobre sexo de uma maneira não tão vulgar a ponto que pensem que eu sou um pervertido e nem de forma tão doce, a ponto de pensarem que eu sou um Don Juan. O texto também não pode ser muito técnico ou vai parecer um manual. Já sei, que tal colocar em forma de receita igual àquele texto que eu li. Nossa, péssima ideia. Certo, vamos ver se tem alguma coisa na internet.


Entrou em uma página anônima, vai que alguém pegue escondido seu celular e abra seu histórico, seria uma tragédia se alguém descobrisse que ele pensa em sexo. Começou analisando os vídeos e bem, não era exatamente o YouTube. “Um casal fazendo sexo na cama como loucos”, “Nós adoramos sexo intenso”, “Audrey numa cena de sexo intenso”... Bem, acho que não vou tirar nada muito produtivo daqui. Passou então para as imagens, que nada mais eram que cenas tiradas dos vídeos. 


Talvez uma notícia. Mais seriedade, algo que parecesse mais imparcial, vamos ver. “Eliéser sobre sexo com Kamilla: 'Às vezes, transamos três vezes no dia'“, “Ex-BBB foi flagrado fazendo sexo dentro do avião; saiba mais”, “Kamilla e Eliéser sobre sexo: 'Sou ousada e ele, eficiente'”... Certo, talvez a vida sexual dos Ex-BBBs não seja o melhor assunto para uma prova de redação. 


Uma poesia. Ótima ideia. Poderia falar sobre a abordagem que os pais têm em relação ao sexo com as crianças. Melhor não, eu nem sei fazer poesia. E outra, sexo rima com o que? Perplexo? Anexo? Circunflexo? Além disso, sexo e crianças? Podem pensar que eu sou um pedófilo.


-Turma, não se esqueçam de que nessa atividade, a meta é melhorar a linguagem de vocês, isso é essencial para uma boa nota.


Meta e linguagem. Metalinguagem? Metalinguagem. 


Tom

Toda sua



Essa hora que não passa...
Quero chegar logo em casa
Te dar aquele abraço
Mil beijos espalhados
Vai se preparando, meu amor
Já estou com a sua lingerie preferida
Aquela mesmo
que você me deu no dia dos namorados

Gosto dessa tua ousadia
Me chamando pra cama
querendo me ver louca
e realizar nossas fantasias
Quero mergulhar nesse prazer
Ir até o mais profundo
Me faz delirar, amor
me leva pra outro mundo

Eu tô louca por você
Quero festa a noite toda
bem daquele jeito,
com tua pegada bruta
Pode me dominar, segurar, puxar
O tesão é tanto
que a pele chega queimar

Quero estar na sua mão
Totalmente submissa
Insana, desvairada, nua
Me espera, meu amor
que hoje eu sou toda sua.


(Frida Kahlo)

Entre Masoch e Joyce.


 

A sinfonia que se constrói com o par de corações e o esgotar das respirações, que agora se fazem uníssonas, conduz dois corpos numa dança que, aqui de dentro, nada tem a ver com carne. As amarras que a prende lá fora, aqui só me fazem liberdade, na libertação do Eu que a faz se ver cada vez mais Ela. É quando o físico, o tocável, tem o prazer da descoberta de que nós, de uma sensibilidade única, os espíritos, estamos vivos. A partir desse momento, nossos contatos se tornam um vício.

Não basta o couro da roupa vestindo-se do couro da pele. Não basta o masoquismo de Vênus ou a boceta quente e molhada de Nora. Sejam eufemismos ou cartas diretas, tão escancaradas quanto como as pernas dela se encontram agora, as palavras não se fazem suficientes para alcançar este prazer. Nem o sexo faz. Porque o contato que descrevo vai além das linhas retas que esse termo sugere. O contato que descrevo é, além da união das duas moças nessa cama redonda de lençóis sujos de prazer, a união de cada uma delas consigo mesma. Não são as chupadas que definem o sexo. Nem os dedos indicador e médio, que agora são socados com violência para dentro do corpo que por oras chamo de meu. O sexo é feito, primordialmente, a partir de uma pessoa sozinha. E enquanto você acredita que o sexo precisa de dois indivíduos, é porque você ainda não me conheceu. Não se conheceu.

Elas continuam a bailar. A respiração quente no ouvido; o ritmo travesso das palmadas; as investidas abruptas da língua de uma por todo o corpo da outra e os passos leves que faziam parecer coreografia a transa e estúdio o pequeno quarto de motel. Não é pela carne, nunca foi. É pela beleza natural, pela vida. É a vida completa que vicia.

A moça, que aqui chamo pela terceira pessoa para tornar clara a dissociação entre corpo (ela) e alma (eu), está agora no comando. Sua parceira, com as pernas trêmulas, obedece o movimento natural da dança que não tem regras. Os corpos marcados do vermelho fogo, viraram água. Se despem do couro, se livram das cordas. Duas estranhas, se convidam agora a adentrar no mais profundo nível de intimidade. Sem se tocar, gozam. Se livraram do sexo pelo sexo. Deixaram que suas almas se conectassem pelo prazer. E eu gozei junto.

Pandora

O sofá velho.

                          

  Você se aproxima como quem sabe o que quer enquanto aprecio cuidadosamente cada contorno do seu corpo. Pede para que me deite ao seu lado no sofá marrom. Considero o pedido irrecusável. Vou além e te beijo porque o momento é este. Você sorri e diz que nunca me viu tão decidida. Sorrio de volta. Retribuir um sorriso seu é o que sei fazer de melhor. Você me faz perder a noção do tempo e até mesmo esquecer da chuva lá fora. Sabe como fico apavorada com essas tempestades. Mas, hoje não. Hoje nada que estiver fora destcasa importa. Então, de beijo em beijo, você tira meu vestido azul devagar e o joga para um canto qualquerNão peço que pare ou que continue. Não sei se é certo ou errado, apenas sei que te quero. Não digo nada. Nenhuma palavra é tão valiosa para interromper este momento. O observo. Observo seu corpo sobre o meu enquanto passa os dedos por meus cabelos delicadamente. Quando percebo, estamos completamente sem roupa. E você, sem tirar os olhos de mim um só segundo, continua. A cada movimento uma nova descoberta, uma nova história, um novo amor. Eu quis cada beijo, cada toque e cada detalhe seu. E agora, te tenho bem aqui, nesse sofá velho e marrom da sua sala de estar. Você, hábil cortesão, me apresenta essa nova dança, essa nova aventura, esse novo prazer. Me mostra e ensina o significado da palavra amor. Sinto seu hálito quente passar por minha pele. Vejo algo tão banal tornar-se algo nosso. Nosso e só nosso. A cada segundo te quero mais e me pergunto como isso é possível. Este é um instante de felicidade do qual não esquecerei jamais. Volto a olhar-te. Vejo seu corpo, perfeitamente encaixado no meu, formar uma cena que inspira a mais bonita das poesias. Deixo que entre em meu corpo, mas quero que entre em minha vida. Que fique. Que me deixe ficar. Logo eu que nunca tivecerteza de nada, estou certa de que preciso vê-lo outra vez. 

 Stella Fati

Sexo(s)


Ela, antes mesmo de saber o que era sexo, sabia que era tabu. Sabia que não podia tocar nesse assunto com ninguém, nem com as amigas, nem com os pais. Ninguém.

Ele, antes mesmo de saber o que era sexo, sabia que era algo desejável. Mais ainda: algo que deveria fazer de tudo para conseguir. 

Ela nunca soube o que era masturbação e, quando finalmente descobriu, sentiu uma culpa imensa. Achava que estava fazendo algo errado, se sentia suja e não confessaria aquilo nem sob tortura.

Ele começou a se masturbar porque ouvia as conversas dos amigos, e sentia-se igual a todos os outros quando fazia isso.

Ela um dia quis fazer sexo, mas não queria ser piranha. Então, não fez.

Ele um dia quis fazer sexo, e queria ser comedor. Então, fez. E procurou mais oportunidades para fazer de novo.

Ela não sabia nada sobre seu próprio corpo e não sabia como sentir prazer. Nunca aprendeu.

Ele entrava nos sites pornôs para aprender o que era sexo, para aprender do que as mulheres gostavam. Nunca aprendeu.

Ela arranjou um namorado. Quando levou ele em casa, o pai a proibia de fechar a porta do quarto.

Ele arranjou uma namorada. Quando levou ela em casa, o pai disse "Usa camisinha, hein, filho. Se quiser, tem na gaveta do banheiro".

Ela, quando contava para as amigas com quantos caras já transou, dizia que eram 4. Na verdade, eram 5.

Ele, quando contava para os amigos com quantas mulheres já transou, dizia que eram 6. Na verdade, eram 5.

Ela, quando sabia que poderia transar, se depilava, colocava uma lingerie. Levava na bolsa um sabonete íntimo, lenços umedecidos e enxaguante bucal.

Ele, quando sabia que poderia transar, levava uma camisinha. Ou não.

Ela segurava a vontade pra não "dar" no primeiro encontro.

Ele demonstrava a vontade e insistia pra "comer" no primeiro encontro.

Ela nasceu mulher, e lidava com consequências.

Ele nasceu homem, e lidava com privilégios.

Lucy In The Sky

Eu quero também

Aline sabia que, desde o momento em que nasceu, estava fadada a nunca ter um orgasmo. “Uma limitação, biológica, química,... Não sei” os médicos diziam. Todos sempre deixaram isso bem claro para ela. Mas, sinceramente, a menina não se importava. Afinal, nem sabia o que era um orgasmo.


Quando fez 15 anos, já tendo uma ideia mais avançada sobre sexo, Aline arranjou seu primeiro namorado. Aprendeu que sua impossibilidade de ter orgasmos não a impedia de transar. Muito menos de fazer com que a outra pessoa gozasse. Seu primeiro namorado e todos os outros que seguiram sempre tinham orgasmos. E ela começou a se sentir triste, excluída. Queria ter um também.


Foi quando teve a brilhante ideia de conversar com suas conhecidas sobre isso. Amigas íntimas, colegas, companheiras de trabalho, familiares. E descobriu algo fantástico: todas as outras mulheres tinham a mesma limitação que ela. Pouquíssimas haviam gozado na vida. E as que tinham, só haviam conseguido depois de muito trabalho e autoconhecimento. Finalmente não estava sozinha!


Aline achou aquilo fantástico e começou a pesquisar cada vez mais sobre isso. Descobriu que as mulheres demoravam em média 40 minutos para gozarem, os homens 20. Metade do tempo! Leu todas as teorias que tentavam explicar o porquê das mulheres não gozarem tanto, o porquê de tantas fingirem o orgasmo. Viu mais explicações biológicas: o orgasmo feminino não é essencial para a reprodução humana ou os órgãos genitais das mulheres não são tão sensíveis. Tudo besteira. O clitóris tem infinitas terminações nervosas, sendo muito mais fácil de estimulá-lo do que estimular um órgão masculino.


Chegou à conclusão que a explicação era mais sociológica. Todas as meninas tinham a sexualidade reprimida desde cedo. Enquanto seu irmão mais novo assistia a vídeos pornográficos na internet, Aline não podia nem usar uma saia curta. “Feche as pernas, se respeite, não use esse batom, não se mostre tanto, ninguém gosta de mulher fácil.” Aquilo tudo a irritava. Por que o mundo temia tanto uma mulher com desejos sexuais?


Aline acabou tendo seu primeiro orgasmo, anos mais tarde, sozinha, com sua própria mão. Mas havia decidido algo que mudara sua vida completamente: das próximas vezes que transasse, ia falar, e deixar bem claro para o parceiro, “eu quero gozar também.”


Helena Seixas