quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Música para o meu coração, amor para os meus ouvidos

 Nossa relação musical iniciou junto com nossa história. Muitas músicas sempre nos rodearam, músicas que iam de Mc Livinho a Pearl Jam em questão de segundos. Muitas vezes, como moscas, era insuportável, eu sei, a minha insistência em ouvir Red Hot, que ele me apresentara. Eu sempre amei o estilo que conhecer e saber tocar instrumentos trazia para ele, um ar de conhecimento único.

Ele sabia que eu sempre senti algo por ele, mas talvez sua timidez e minha vergonha não deixavam isso se resolver com tanta rapidez, mas valeu a pena esperar. Deitados na cama depois de mais um rolê caseiro regado a Balalaika e Arctic Monkeys, ele me deu um lado do seu fone: “So if you’re lonely, you know I’m here waiting for you” e ele sabia que eu estava. Eu sempre estive, eu sempre o esperei. Nunca esqueci dessa música que ele me apresentou e que virou tema da nossa relação. Dividimos uma cama, aproximamos nossos corpos, ativamos as borboletas do nosso estômago e compartilhamos a experiência do nosso primeiro beijo, como casal e como pessoas. Talvez a diferença entre esses dois conceitos resultou no nosso fim, mas isso não vem ao caso agora.

Eu só sei que foi mais que uma sensação de conquista, mas de prazer, no significado mais puro da palavra. Um beijo estranho, mas como não seria? Sem experiência, nervosos, mas na mesma sintonia. Driblar nossos medos e inseguranças talvez tenha sido uma das partes mais punks do momento, mas fizemos com maestria. Nosso beijo tinha amplitudes, graves e agudos que nenhuma outra experiência na vida me dera.

E meu amor etéreo se consolidou, tipo um disco, se bem que é um exemplo ultrapassado para o nosso amor moderno. O que veio depois foi história, foram aquelas músicas de karaokê que todo mundo está cansado de ouvir. De qualquer forma, tenho que agradecê-lo por ter contribuído, e muito, para a escolha do meu álbum favorito, e não me refiro às nossas fotos e playlists. Mesmo nessa carreira solo que se tornou minha vida eu sabia que desde o começo, desde o primeiro beijo ele já me mostrava que não me deixaria só, e por vezes mencionava com o olhar “I’m with you”.


                                                                                                                  Michael Scarn

Como se diz "adeus" em inglês?

 Era noite de lua cheia, copo cheio e coração vazio. Eu estava cercado de pessoas, mas meu lamento era nenhuma delas ser você. A festa estava linda. Daquelas em que as pessoas saem e do lado de fora comentam o quão impecável era cada detalhe: dos docinhos com sabor de infância ao vestido da debutante. Enquanto a aniversariante conheceria tradicionalmente "traços de mulher", eu daria início ao meu ciclo no álcool. Duas horas após o fim daquele namoro surgiria um novo eu.

51: não era só o nome da bebida, mas o número de vezes que a ingeri para esquecer pelo menos aquela pinta maravilhosa que ela tem na parte inferior da coxa esquerda. Em um dado momento aleatório da noite, um amigo rindo me indagou: está pensando nela? Minha boca, já torta de bebida, disse não. Enquanto meus olhos marejados de sono e tristeza diziam sim.

Como uma criança tentando andar em linha reta saí daquela festa. No meio do caminho parei em frente a casa da razão das minhas lágrimas. Quase me engasguei ao tentar respirar fundo para parecer sóbrio. De repente, surpresa. Uma mão tocou em meu ombro direito. Era ela. Vestida de vermelho. Cor do diabo, cor do amor, cor daquele batom que até borrado a deixava mais atraente que o normal. Minha cegueira era tanta que não reparei sua presença na mesma festa que eu durante todo o tempo que lá fiquei.

Nervoso, bêbado e envergonhado. Nem grego, nem latim, nem português, não conseguia dizer nada. Ela, por sua vez, sabendo do meu péssimo inglês desde o início do nosso não mais namoro, começou a desabafar neste idioma, era o início de mais uma briga, a última. Juro que não entendi nada até ela traduzir. Cada palavra pesava uma tonelada. No fim da tradução ela disse um forte e inesquecível "adeus". Um adeus que eu não ouvi, que eu não entendi, que eu não sei como escreve até hoje. Mas que significou e mudou muito a minha vida. Forever.


                                                                                                          Formiga Atômica

Escola Nova

     Alguns anos atrás, eu estava tendo o pior ano da minha vida. Descobri da forma difícil o que era depressão, o que era a dor de perder alguém, o como a ansiedade podia te paralisar e interromper toda sua vida. E eu sabia que precisava ter algo bom, começar de novo de alguma forma, então decidi trocar de escola.

    Para mim, essa troca tinha todos atrativos possíveis: eu conhecia pessoas naquela escola que eu sabia que seriam convivência melhor para mim que na antiga, e o melhor era que minha melhor amiga também iria para lá. Nós estávamos em séries diferentes a algum tempo, mas eu sentia falta de estudar com ela, ou pelo menos na mesma escola.

    A mudança fez parecer que eu era outra pessoa em outra vida. Se antes eu andava com as mesmas duas pessoas porque não conseguia manter uma amizade com ninguém no colégio antigo, no novo a turma parecia ser um grupo de amigos só, que me incluíram logo na primeira semana, me chamando para sair e me tratando como se eu sempre tivesse estado ali.

   Minha lembrança daqueles dias é cheia de risadas, um ambiente onde eu finalmente me sentia confortável, a animação de um possível interesse romântico de forma que eu nunca havia sentido antes.

Até hoje, mesmo sabendo de todas as intrigas e mesmo depois de todas as decepções do meu ensino médio, ainda penso naqueles dias com carinho, ainda lembro daqueles dias como os melhores da minha vida e me pego presa em uma nostalgia e vontade de voltar a ser a minha versão de dezesseis anos.

                                                                                                                        

                                                                                                               Lizzy Bennet

Bienvenidos a America

     O estadunidense é um ser burro, burro mesmo! Eu já vi gente falando “Ah! Mas eles não são burros burros mesmo...são só arrogantes, aí ficam parecendo burros”. Eu discordo, eles são burros burros mesmo pra caralho. Um período curto no país deles ratifica essa burrice na prática e vivência.

    Na minha primeira e única visita à terra do Tio Sam, esse episódio, especificamente, se passou em Fort Lauderdale no sul da Flórida, a mais ou menos 40 minutos de Miami pra dar uma situada melhor.

    Longe da luxuosa The Strip, bem menos que a de Las Vegas, ficam vários galpões numa espécie de cais. Em um desses galpões fica um daqueles lugares de esportes diferentões cheios de camas elásticas, luta de cotonetões (não sei o nome disso mas deu pra visualizar o que é), queimado em piscina de bolinhas...Irado, né? O tipo de lugar que não tem como não ficar feliz, certo?

    ERRADO!

    Um estadunidense burro é capaz de deixar até o Garibaldo da Vila Sésamo emputecido. Esse estadunidense, em particular, trabalhava lá. DO NADA ele virou pra mim e pra minha amiga (esqueci de falar antes que tava com uma amiga e a família dela lá) e falou, em inglês:

-Vocês não são daqui, né? 

- Não, chegamos ontem. - Ela falou com toda a educação do mundo, que eu não tinha saco pra ter enquanto esperava pra me jogar numa piscina de espuma.

- Ah legal! Vocês vieram de onde?

- Do Rio! - ela continuou com a animação que só um brasileiro teria falando do país pra gringo.

- Rio? No Brasil? - Ele fez uma cara meio confusa e eu já dei uma estranhada.

- Sim, no Brasil.- Eu respondi com a mesma sutileza de uma mula.

Aí o moço me lança com o sotaque mais porco do mundo:

- Uau Brasil! BIENVENIDOS A AMERICA!

- Bem-vindos. 

- O quê? Bienvenidos! - Insistiu

- Bem-vindos - reforcei- Em português...

Até aí tudo bem mas ele veio totalmente indignado:

- Português? Mas vocês são do Brasil!

Eu olhei pro lado e vi minha amiga escondendo o riso com aquela cara de “fudeu”.Não explodi mas era a minha vontade. Continuei com um sorrisinho amarelo mais passivo-agressivo possível:

- No Brasil se fala português. Eu nem sei falar espanhol.

Como se não fosse suficiente, o estadunidense burro teve a pachorra de persistir na burrice:

-Ué? Mas o Brasil é latino! Latinos falam espanhol.

De cair o cu da bunda, né? Daí eu segui:

- No Brasil se fala português, não espanhol.

Devo ter feito uma cara tão feia que ele murchou com uma risadinha sem graça:

-É...acho que eu preciso estudar mais.

-É...precisa.- Encerrei com um último coice.

Depois dessa merda até perdi a vontade de entrar na piscina e fiquei  de cara emburrada o resto do passeio.

Resumindo: Nunca duvida da burrice burrice mesmo de um estadunidense, ela pode te surpreender, definitivamente, pra pior.

       
                                                                                                                Glen Coco

Aulas de história, e suas histórias

 Eu duvido da índole de quem nunca aprontou na escola. Como aprender que roubar é errado, sem nunca ter pegado na malandragem um lápis de cor faber-castell do amigo? Como aprender a não levantar falso testemunho, sem nunca ter feito merda e colocado a culpa no colega? Como aprender a respeitar os mais velhos sem nunca ter mandado aquela professora insuportável pra... Nárnia? Bem, em minha defesa, fiz esses três, e muito mais. Inclusive, aprendi o truque de escrever meu nome em todos os meus materiais pra não cair na de alguém mais esperto que eu.

Uma traquinagem em especial tenho nítida na memória até hoje. Era quinta feira de manhã, um dos integrantes da gangue do fundão me aparece com uma fotografia que, descrever como obscena, seria no mínimo desonesto, era indecente, imoral, daquelas retiradas da revista que o pai esconde da mãe, sabem?

Nós olhamos pra cara uns dos outros, e o sentimento foi mútuo: “Essa vai ser nossa maior vigarice”. No intervalo das aulas, inserimos o artefato dentro do diário da querida Elenir, a professora de história mais fofa do mundo, que parecia ensinar o que havia presenciado, de tanta idade que tinha nas costas.

Aqueles 5 minutos de intervalo foram como os minutos finais de uma dinamite, adrenalina subia, todos alucinados esperando a hora da bomba explodir, e explodiu. 

Acho que pela falta de costume, com a foto e com o conteúdo, à primeira vista parecia um macaco tentando ler hebraico, não entendia o que estava ali, e como havia ido parar dentro do seu diário.

A ficha que havia sido posto por algum dos alunos ia caindo, enquanto ela protagonizava o maior sermão da história, com ofensas que iam desde “vagabundos” até “filho de chocadeira”. Nisso, notei que havia deixado um rastro na execução da delinquência. um pequeno detalhe na cena do crime, que, se percebido, denunciaria o criminoso.

Uma caneta preta, levada no impulso, acabou indo parar ao lado do diário, caneta marcada com as iniciais do delinquente. Era meu fim, quando notei, a adrenalina chegou no seu pico, mãos trêmulas, suor escorria da testa, o que era comédia se tornou tragédia. Diante disso, analisei minhas possibilidades, eram 3: Assumir o delito, torcer para que passasse despercebido, ou dizer que as iniciais C.P. eram de algum Cara de Pau, não de Pescoço.

Porém, antes mesmo que alguma decisão fosse tomada, brada Elenir:

– Eu não quero saber quem foi! Vou punir a turma toda!

Foi uma mistura de alívio e indignação. Como poderia uma professora de história, tendo estudado a convenção de Genebra, que no artigo 33, colocou a punição coletiva como crime de guerra, aplicar uma pena tão generalizada assim?

Talvez nunca saberemos, assim como eu nunca saberei porque não assumi a responsabilidade. O que de fato sabemos é que a memória é seletiva e aleatória, e a escola ensina para muito além do que está nos livros.


                                                                                                             Cara de Pescoço

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Especial, extraordinária...E sozinha

 Essa crônica não tem nada de especial ou extraordinário, apesar de a personagem em questão se achar especial e de eu achá-la extraordinária. Fato é que essa história poderia acontecer com qualquer um. Tanto que aconteceu com ela.


Ela sempre foi diferente da maioria. Ao contrário dos seus amigos, não estava a procura de ume namorade ou algo do tipo. Estava bem sendo solteira e, desde que não estivesse solitária, realmente gostava de toda essa "liberdade". Também não era do tipo que queria viver a vida toda sozinha, sempre almejou o amor romântico/sexual. Só achava que isso tinha que vir naturalmente, conhecer alguém e ter o desejo mútuo e espontâneo de construir algo junto. Se não acontecer é porque não é pra acontecer. Pensava muito em como a sociedade capitalista-patriarcal-monossexual-cishetero-monogâmica impunha a necessidade de procurarmos alguém para casar - principalmente sobre as mulheres. Nunca julgou quem pensasse diferente, só não funcionava para ela.


Até que um dia, de fato conheceu alguém. Nunca teria imaginado que aquela pessoa, que apareceu tão de repente, poderia mexer tanto com ela. E juntos, eles construíram em pouco tempo uma relação bonita, gostosa, divertida e saudável, cheia de potencial. Só que ela estava bem sozinha. E quando ele falou sobre terem algo sério, ela se desesperou. Então ele, pacientemente, esperou. Mas todo mundo já os considerava um casal, inclusive eles mesmos. Estavam felizes e o relacionamento fazia bem para ambos. Porém, quando o pedido de namoro chegou, ela negou. Na verdade, nem ela sabia direito porque tinha negado. Começou a perceber que estava bem sozinha, mas também estava bem com ele. *Queria* estar com ele. E, chegando a essa conclusão, decidiu estar com ele de fato. Só que já era tarde. O mundo não esperaria seu tempo e ele já tinha esperado demais.


E então ela, que gostava tanto de estar sozinha, assim terminou.


Sozinha.


                                                                                                      A Mulher do Fim do Mundo


Insaciável

 Em outra crônica minha aqui nesse site, também tangenciei a dupla ação e reação, quanta falta de criatividade! Mas talvez por isso se chame “lei universal”, porque se aplica em vários contextos. Nosso corpo, por exemplo, é biologicamente projetado inspirado nesse par, sendo assim, quando nos exercitamos, meditamos ou mesmo trocamos carinho com outra pessoa, a reação mesocorticolímbica é positiva, e nosso cérebro libera dopamina, o neurotransmissor da felicidade. 

O problema é que nosso cérebro não se acostumou a ser recompensado a longo prazo, e, assim como na física, a reação precisa ser instantânea. Com isso, ficamos como aqueles border collies, de joelhos apenas esperando para comer o biscoitinho. 

Mas e depois do biscoitinho, o que fica? 

Farelos? Vontade de quero mais? Arrependimentos? 

Talvez, um, talvez os três, o que não fica é a sensação de saciedade. 

Segundo o dicionário, saciedade é o estado de uma pessoa em satisfação completa, ou seja, precisa atingir a plenitude, trazer satisfação em todas as instâncias. Voltando à biologia, o corpo humano, para avisar a saciedade estomacal, utiliza-se do hormônio da leptina. Mas e quanto às outras áreas? Como saber se já estamos satisfeitos de amor? Ou se não vamos querer repetir o afeto? Vai mais uma dose de tesão aí? 

Em outras palavras, o(a) Biscoitinho, por mais gostoso e bem embalado que seja, não chegará nem perto de te saciar. 

Talvez nosso corpo não tenha gatilhos para avisar as demais saciedades, justamente pelo fato do limite para amor, afeto e tesão, por exemplo, simplesmente não existir. Só o infinito é capaz de preencher esses espaços. Ainda assim, insistimos em trocar o(a) Infinito, por um efêmero biscoitinho. 

Aquilo que é finito, termina em farelos.


                                                                                Cara de Pescoço