quinta-feira, 29 de outubro de 2020

 Já era tarde da noite, carro em alta velocidade, minha mãe e minha tia nervosas mas tentando me acalmar, quando de repente, chegamos. Não era em nenhum lugar que eu gostasse de ir, pelo contrário, era um hospital. 

Não lembro quanto tempo demorou, mas me lembro dos médicos em volta me examinando, me espetando com agulhas. Eu não estava calma.

Como poderia? Era apenas uma criança.

Não consegui entender quando não pude voltar para casa. O que estava acontecendo? Sei que estou sentindo muita dor, mas será preciso isso tudo?

Só queria voltar pra minha casa e brincar com os meus brinquedos.

Mas não, eu não voltei naquela noite. E nem no dia seguinte, e nem no seguinte.

Ficar internada em um hospital definitivamente não é algo reconfortante para uma criança de 5? 6?Bom, alguns anos.

Todos os dias eu pedia para ir embora e todos os dias eu recebia a mesma resposta “Assim que você estiver melhor você volta".

Mas quando eu ia melhorar? Será que em alguns dias? Não. Em algumas semanas? Infelizmente ainda não era o suficiente.

Será que eu nunca ia melhorar? As vezes eu ainda sentia dores, isso significaria que eu nunca mais ia poder ver meus amigos e brincar na pracinha de novo? Eu tentava pensar mais a fundo sobre isso, mas o quão profundo uma criança conseguiria ser? Eu não sei, a única coisa que eu sabia é que ficar ali me deixava triste e eu não queria ficar triste.

E então aconteceu, recebi alta. Depois de 2 meses presa em um hospital, tomando injeções e remédios todo dia, só podendo comer legumes ( e para uma criança, nenhuma injeção é pior do que ficar sem batata frita e chocolate), eu finalmente ia poder voltar para escola, ver os meus amigos e brincar com os meus brinquedos favoritos.

Mesmo após isso, eu ainda não entendia muito bem o que tinha acontecido comigo, mas naquele momento, essa era a minha última preocupação.


                                                                               Princesa Consuela B. Hammock

Em SUSpensão

Eu já usava o SUS antes de vir ao mundo e dar meu primeiro choro num ambiente desconhecido longe do ventre materno. A gravidez da minha mãe era de risco, então tinha que ter acompanhamento rigoroso por esses longos nove meses. Oito meses depois da minha chegada, ela foi fazer laqueadura em outra cidade. Alguns anos depois, me acidento colocando o pé na roda da bicicleta e vou pro hospital; sou consultada, faço raio-x, curativo e sou medicada. Aos 10 caio da escada e passo o dia de sábado inteiro em observação ocupando um leito hospitalar. Aos 14 tenho uma paralisia facial e corro pro hospital desesperada e aos prantos com medo de que nunca mais poder voltar a sorrir como antes. Aos 19 passo boa parte da minha terça de carnaval na UBS com alergia e dores no corpo que nunca senti nada parecido na vida (era pior que a dor do pós treino quando você começa a fazer academia). Minha caderneta de vacinação foi preenchida todos esses anos em postos públicos de saúde. O hemocentro que fui doar sangue faz parte do SUS. A comida estragada em estabelecimentos que nunca comi. A água podre que não tomo. Os medicamentos gratuitos que minha família pegou... De seus 32 anos de existência eu uso há 20. Mas minha mãe, meu pai, meus avós, meus tios... Todos eles usam há 32. Se não fosse por ele, talvez hoje eu e nem outros 70% da população brasileira que dependem exclusivamente desse sistema, estaríamos vivos hoje. Eu tenho várias experiências ruins com o SUS, mas a pior delas seria não ter mais ele!

Vivemos a era da suspensão do básico.


                                                                                                                   Mônica Magali

No dia que não antecedia

 Essa história é muito estranha, já fazem alguns anos que essa situação aconteceu. Estávamos

no aniversário de uma amiga e ela estava completando 15 anos naquela noite, nós tínhamos

uns 14, salvo engano. Lembro de como era bom nos reunirmos em festas de aniversário, a vida

era mais leve nessa fase e a felicidade se entranhava com muita facilidade. O céu noturno era

um jeans escurecido e a lua mais um botão claro da minha camisa bem passada. De qualquer

forma, vamos para o ponto complicado do que deveria ser só mais uma noite em que pré

adolescentes se divertem como se não houvesse amanhã. O problema foi esse. Talvez não haja

um amanhã.

Seguindo. Estávamos nos divertindo quando de repente surge uma ideia, nossa amiga sugere

que deveríamos comprar um energético. Para isso, eu e meu amigo Neymar (pseudônimo)

fomos até a casa da nossa amiga para buscar dinheiro, não ficava distante, uns 5 minutos de

caminhada. Chegamos lá e aguardamos alguns minutos até que ela voltasse com o dinheiro,

após isso, voltamos para o local da festa e compramos o energético em um comércio próximo,

até aí tudo bem. Algum tempo depois, eis que um amigo de infância do meu morro (convidado

e namorado dessa amiga em questão) sinalizou que gostaria de falar algo comigo. Caminhei

até ele e começamos a conversar:

- Cara, eu soube o que aconteceu.

- O que houve?

- O seu amigo, Neymar, ficou com a minha mina!

- Que ? Que porra é essa ?

- Papo reto, o cria acabou de passar por ali e me contou que ele estava ficando com ela ali na

outra rua, e você tava perto.

- Tá pancadão ? Que papo é esse cara.

- Mano, eu vou matar ele. Não fica na frente. Sapinho vai me emprestar a arma.

Nesse momento, ele me mostrou a arma na cintura do cara que iria emprestá-la, eu fiquei

completamente perturbado e desesperado, pensando no meu amigo que iria morrer por uma

mentira. A partir daí eu tentei convencê-lo da verdade, que o cara tinha inventado aquilo por

sei lá qual motivo.

- Tá maluco cara? Nós é cria porra, te conheço desde que eu nasci, você acha que eu faria isso

com você?

Esse diálogo durou muito tempo na minha cabeça, parecia um dia inteiro de discussão, na vida

real acredito que tenha durado pelo menos uns 30 minutos. Eu percebia que ele no fundo

acreditava, que sabia que eu não faria algo assim com ele, que éramos amigos de infância. Ao

mesmo tempo eu pensava no meu outro amigo, que era um cara super correto e que não

merecia passar por aquilo, pensei tanto na mãe dele, como se sentiria caso algo acontecesse

com o filho dela...


- Cara, é o seguinte. Se você não confia em mim, se pensa que eu te trairia dessa forma, me

mata. Eu não vou sair da frente, atire em nós dois.

Nesse momento, a minha amiga (namorada dele) começou a chorar muito, dizendo que ele

não cofiava nela e preferia confiar em bandido que estava colocando merda na cabeça dele.

Foi aí que ele começou a desistir da ideia, não sei se ele foi 100% convencido da verdade, mas

pelo menos o pior foi evitado. Éramos extremamente novos e essa situação foi completamente

fora da curva.

                                                                                                    Virgilio Expósito

Sem data

 O ano não sei qual era e também não tenho certeza do mês. Lembro só que era bem próximo do final do ano, tinham algumas poucas decorações natalinas começando aparecer pela cidade. 

Estávamos em muitos amigos, aquele parque tinha beleza por si só, mas tenho certeza que a sensação que eu sentia era ainda melhor por você ter topado ir.

Lembro que era um encontro por causa do aniversário da R.

Éramos muito novinhos, muito mesmo.

Não tenho certeza se já tínhamos dito tudo, se já tínhamos nos permitido sentir tudo, mas a “vibe” que estávamos compartilhando era incrível, batíamos na mesma frequência, exatamente tudo daquele dia nós concordamos, eu lembro. Foi incrível. Nós jogamos bola, todos juntos. Eu torci o pé várias vezes e não tenho muita certeza se a R. realmente marcou aquele gol ou não, eu não estava prestando muita atenção na partida naquele exato momento. Desviei o olhar quando encontrei com seu olhar em mim.

Lembro de darmos uma volta enorme no parque pra fugir um pouco da galera e ficarmos sós. A sapatilha (ridícula por sinal) que eu estava usando, machucou muito meu pé, bem na parte de trás. Você deu a ideia de sentarmos num toco de árvore e colocou um band-aid no meu machucado. Nem tenho certeza se aquele band-aid era meu ou se era um band-aid velho que por coincidência você tinha na bolsa. A dor passou quase que imediatamente, só por conta do seu cuidado. O band-aid na verdade não fez diferença nenhuma.

Algumas coisas são bem vagas daquele dia na minha memória, mas eu lembro de ter sido bem feliz. Era incrível te ver gargalhando por tudo.

Tentei muitas vezes me lembrar a data exata daquele dia, principalmente por essa ser uma das coisas que eu mais gosto de guardar. Sempre tive a mania boba de colecionar datas. Mas por alguma razão essa é uma lembrança sem data. Talvez uma estratégia da minha mente para fazer cumprir aquele clichezão “sem data para não virar passado.”.


                                                                                                                        Joana da Rua

Um aniversário diferente

 Me recordo perfeitamente de como tudo começou. Despretensiosamente, no meu aniversário de 15 anos, minha mãe me entregou o presente daquele ano.

Como de costume, o clássico envelope com dinheiro destinado a compra de algum livro ou uma roupa diferente no shopping da cidade.

Entretanto, senti que algo estava diferente naquela data. O material do envelope e a carta que o acompanhava me surpreenderam como nunca.

Na hora de abrir, a revelação memorável. O sonho começava a se concretizar.

Materializado em quatro ingressos para o show da minha então banda favorita, Maroon 5, já comecei a sentir a felicidade tomar conta de mim e aquela sensação genuína de euforia como uma criança que recebe um brinquedo novo.

Na agitação do momento, nem conseguia acreditar. Ainda faltavam 6 meses até a data prevista para o show, mas já sentia o frio na barriga e a ansiedade em mim.

Após meses - que pessoalmente pareciam anos - de expectativas e muita animação, saímos cedo de casa para chegar até o Rio de Janeiro, local privilegiado pela rotina cultural agitada se comparada com a vida pacata e tradicional de minha cidade.

Em família, escutávamos todos os álbuns do Maroon 5 na longa viagem até o destino final como se fosse a trilha sonora do nosso enredo pessoal. Aliás, se essa vida fosse um filme, não tenho dúvidas que no meu futuro casamento teria um show particular do Adam Levine cantando Sugar em modo repetição, além de Sunday Morning nas cenas de dias chuvosos quando as gotículas se chocam com a grande vidraça da sala.

Mas voltando ao grande dia, enfim estávamos na fila do evento e meu corpo estava a mil por hora. Não havia energético ou café que conseguiriam colocar os corpos dos meus pais em sintonia com o meu. Era de fato uma grande realização pessoal e ninguém iria estragar o meu momento.

Ao gritar as letras das músicas, eu me sentia um integrante da banda ao redor daquelas 100 mil pessoas que pareciam estar sintonizadas pelas canções.

Guardo com muito saudosismo todos os momentos daquele dia. É incrível o poder de renovação e a sensação de estar vivendo intensamente a vida que a música me traz. Em cada play no meu Spotify, consigo reviver detalhes desse dia mágico que eu nunca me esquecerei.


                                                                                                                  Tofu Frito

A formatura e a festa que terminou mal

 Era uma sexta-feira a noite. Estava pronto e arrumado para a festa de formatura do meu ensino médio. Minha mãe me levaria até o ponto de encontro onde partiríamos de van para o local do evento, um centro de conferências no centro da cidade que foi alugado pelo meu colégio para aquela noite. Estranho foi que até uma ou duas semanas antes eu nem ia nela. Não estava animado. Contudo, no final acabei mudando de ideia e fui. A festa era com aqueles temas clássicos de festa de formatura. Todos vestidos de roupa social, terno e gravata e suas diversas variações possíveis.

Acho que tinham umas dez pessoas naquela van. Alguns que eu tinha pouco contato e só me aproximei mais no terceiro ano, outros já eram amigos mais antigos e alguns eu mal trocava palavras. O transporte quem conseguiu foi um desses amigos que me aproximei no terceiro ano. Era um vizinho dele que iria levar e buscar a gente.

Bem, não foi exatamente assim que aconteceu.

A parte da festa em si foi pouco interessante. Um porque eu não sou a pessoa mais festeira do mundo e segundo porque eu lembro de pouca coisa. O final vai te interessar muito mais. O dia raiou e teve até uma espécie de café da manhã na saída. Eu, que já era um velho de espírito naquela época, estava absolutamente esgotado, cansado e meus pés doíam. Não via a hora de sentar no banco da van e ir dormindo até o final do trajeto.

Já começando pelo fato de que na hora marcada só deveriam ter duas pessoas na van. O restante ainda estava espalhado pela festa, alguns bêbados, outros ajudando os bêbados e outros simplesmente perdidos mesmo. Quando finalmente reunimos todos, apareceram dois amigos de um cara que estava com a gente na van, pedindo carona. Depois de muita discussão ele foi, entrou, mas não parou quieto nem por um instante. Perturbando todo mundo.

Na hora de sair, ninguém sabia o caminho correto. Um dos presentes na van tentava ajudar o motorista e guia-lo, enquanto o “penetra”, bastante alcoolizado diga-se de passagem, só atrapalhava. Até que em certo momento o que estava ajudando não se segurou e foi pra cima do chato. A van parou, os dois desceram e começaram a trocar socos e pontapés no meio do centro da cidade do Rio de Janeiro. Alguns tentavam apartar a briga, outros foram se meter nela. Minha única reação foi segurar um amigo para não se meter. Falo pra ele até hoje que achei que ele fosse me bater.

O bêbado acabou ficando por ali mesmo e seguimos viagem até o ponto final. O problema foi que nesse bafafá a van sofreu alguns problemas. O rapaz que era amigo do penetra disse que era para o dono do transporte liga-lo, que ele pagaria o conserto e quaisquer problemas. No final das contas todos ficaram em lugares separados e eu fui o único que desci no lugar estabelecido. De lá fui para minha casa. E assim terminou uma noite que terminou de dia, com um final dos mais bizarros possíveis e uma formatura que a princípio eu nem iria acabou ficando na memória.


                                                                                                                        Péricles

Portão automático

 Era mais uma noite de verão. Ou será que era outono? Primavera? Inverno? Não consigo lembrar, de qualquer forma, não tem muita importância pois estávamos sempre juntos independente das estações. Essas noites eram muito aguardadas, passávamos a semana toda estudando e quando chegava na sexta-feira, a expectativa aumentava para nos reunirmos no nosso lugarzinho preferido, o prédio em que crescemos juntos. Na época não existia Whatsapp ou todos esses aplicativos. Era ainda o início do Facebook. Orkut e MSN bombando. Mas o mais engraçado é que nessa época a gente ainda ligava um para o outro para combinar o horário dos encontros.

Anoitecia e aos poucos cada um de vocês ia chegando. Nos reuníamos perto do portão automático pois era um cantinho mais aconchegante e longe das janelas dos vizinhos. Era também um local estratégico, hoje penso o quanto era friamente calculado. Muitos risos e brincadeiras rolando noite adentro. Vários núcleos de conversa se formavam e de repente éramos bruscamente interrompidos pelo momento mais aguardado da noite: meu tio chegando de carro no meio da madrugada e ativando o portão automático barulhento para o nosso desespero e alegria. Esse era o nosso momento catártico de gritar de susto e externar todas as emoções e angústias acumulados durante a semana. Enquanto gritávamos, saíamos correndo com as cadeiras e tudo que estivesse no caminho do carro. Feito isto, era então o momento de relaxar o corpo e chorar de rir. Meu tio saía do carro rindo e falando com todo mundo. Ele também se divertia com esses acontecimentos.

Hoje só consigo lembrar o quanto a gente se divertia com muito pouco. Não que ainda não seja assim, mas agora temos uma pandemia nos afastando dos nossos encontros, que já não eram tão regulares como antes pois todo mundo trabalha e estuda, ainda assim é maravilhoso poder lembrar que compartilhei tudo isso com vocês. Eu não poderia querer amigos mais maravilhosos. Não vejo a hora dessa vacina chegar para reencenarmos estes momentos. Amo vocês!


                                                                                                        Incenso de Baunilha