sexta-feira, 3 de junho de 2022

 Futebol, racismo e biologia: Crônica “Macaquitos” de Lima Barreto

Como um bom militante de questões raciais, Lima Barreto propôs assuntos de discriminação social em suas obras. Em “Macaquitos” o autor conta sobre episódios de racismo dos argentinos contra os brasileiros em uma partida de futebol em 1921. Porém, sua abordagem vai além do campo literário ganhando um caráter de investigação biológica e ao mesmo tempo social. 

O jornalista não estava satisfeito com o fato daquele desprezível acontecimento não ter virado uma notícia, pois a atenção pública estava voltada para uma festa de aniversário de sei lá quem (pois é Lima, existe uma coisinha chamada gatekeeping que às vezes faz isso). Como ele mesmo diz, se o povo soubesse “estou certo que haveria irritação em todos os ânimos.” 

Não sei até que ponto Lima Barreto foi irônico, ou melhor, genioso ao falar que “precisamos nos convencer que não há nenhum insulto em chamar-nos de macacos [...] o macaco é um dos mais adiantados exemplares [...] primo do homem.” Ele não estava querendo legitimar o ocorrido, ao contrário, vejo que ao escolher essa abordagem Lima mostrou que idiotas são aqueles que usam “macaco” como um termo pejorativo, racista e afim de desmerecer uma pessoa. O animal em si é inteligente, “quase todas as nações, segundo lendas e tradições, têm parentesco ou se emblemam com animais. Os russos nunca se zangaram por chamá-los de ursos brancos; e o urso não é um animal tão inteligente e ladino como o macaco.”

Os racistas, seres inteiramente egoístas e desprovidos de empatia e inteligência, não consideram o desenvolvimento cerebral dos macacos, tampouco se eles são “pelo menos primo do homem”. Eles usam esse animal por pura questão estética. Como o racista é vazio e desatento, tenho pena de pessoas  incapacitadas assim.

 15 de Novembro

Todas as vezes que uma guarnição militar deixa a caserna, em geral ao raiar do dia, com o objetivo de derrubar um regime constitucional, essa ação tem apenas um nome: chama-se golpe militar. Vamos chamar esse golpe de Proclamação da República, ou o famoso 15 de Novembro.

15 de Novembro é uma das crônicas de Lima Barreto. Escrito em 16 de novembro de 1921, Barreto se questiona sobre o que é e como não deveria ser a República, 32 anos depois da Proclamação, data também do falecimento da princesa Isabel que, apesar de revelar não a exaltar como faziam os jornais à época, tinha simpatia por ela. Por não se achar capaz de responder a tais questionamentos, ou mesmo por pura ironia, apenas, joga para o leitor a relevância do debate político e econômico em um ano de eleições presidenciais. Lamenta pelo fato de o embate de ideias está restrito ao título do Código Penal.


As questões colocadas por Barreto, um século depois da publicação do texto, se mantêm permanentes até o presente momento. O autor registra as declarações de políticos sobre a crise social que vivia o império Austríaco, apesar de não ver lamento sobre a situação de miséria da Favela do Salgueiro, no Rio de Janeiro.
 
A ironia é a tônica da estruturação das linhas que terminam com o escritor chegando em casa para almoçar e, melancolicamente, lembrando que o 15 de novembro era uma data que a história mostrava ser um marco na evolução política do Brasil.

 A lei e o aborto

Uma das principais questões políticas e sociais recentes é o Aborto. Todo ano a sociedade e os políticos debatem fervorosamente sobre esse assunto. Uns são "pró-vida" outros são a favor do aborto, mas nesse cabo de guerra nenhum lado quer ceder. Diante desse tema, fica o questionamento: As mulheres, que deram à luz a mim e a você que está lendo esse texto, merecem ou não ter o direito de escolher se querem ter filhos? 

Muitas vezes essas mães não tem condições de criar uma criança, algumas vezes infelizmente as gestações surgem de abusos sexuais. Mas será mesmo que é necessário essas adversidades acontecerem para as mulheres poderem abortar? Às vezes a mulher só não acha que está preparada, que é o momento da vida perfeito para dar a luz a uma outra vida, mas infelizmente as leis brasileiras ainda são muito conservadoras, principalmente em relação a esses temas.

É justamente isso que levou Lima Barreto a escrever "A lei", a crônica conta a história de uma mulher separada que acaba engravidando acidentalmente e não quer ter o filho, por isso pede à sua amiga para realizar o aborto. A amiga acaba falhando e a intervenção é descoberta pela polícia, que prende a humilde amiga e põe ela na prisão. Assustada com todo esse acontecimento e com as leis que não conhecia, a amiga acaba se matando.

Ao contar essa história, Lima Barreto faz o questionamento: Será que é justa a lei que sacrifica duas vidas para manter saudável uma "vida"? A crônica me fez refletir muito sobre esses assuntos, afinal, estamos à mercê de uma sociedade conservadora e que consequentemente elege políticos conservadores e Lima Barreto com essa crônica só comprova isso, já que desde 1915 (ano em que a crônica foi publicada) a lei continua tendo esse teor retrógrado. E ao meu ver, vai demorar muito para que essas leis sejam repensadas, mesmo que inúmeros países já repensem sobre esses assuntos.

Um diálogo com a morte: Como funcionam os mecanismos do matador de porco

Antes de iniciarmos nossa breve jornada dentro do texto escolhido essa semana, sinto-me tentado em agradecer-te pela jornada que tivemos até aqui, companheiro. Nossos encontros são relativamente curtos, mas agradeço pela atenção que me tens dado quando se propõe a estar aqui e se importar sob o que devo lhe dizer.


Minha escolha foi Lima Barreto, meus caros. Nosso jornalista ardente de coração ativista, aquele que vos escreveu “Elogio da Morte”. Citar a Belle Époque é lembrar a mim mesmo a capacidade do homem de autodestruição, nossa facilidade em tornar obsoleto algo belo.


Prometi a todas as versões de mim que lhes explicaria todos os ganchos que ficaram ausentes em nosso último encontro, e portanto o desafio semanal é conectá-los com o texto de Barreto.


O Shaolin é um personagem do meu Eu. Talvez o maior e mais bem elaborado de todos até aqui, uma vez que o maior intérprete sou Eu. O caminho sinuoso sobre conhecer a si mesmo, fala sobre saber até onde somos capazes de brincar com isso. 


A linha tênue está em interpretar os sentimentos e pensamentos do Eu, quando ainda assim se é necessário saber discernir o personagem. Minha terapeuta me disse que isso estava me enlouquecendo. Ela tinha razão, eu nunca abri tantos gatilhos de uma só vez e de forma tão honesta. 


Querido leitor, sou capaz de compartilhar convosco todas as semanas sentimentos do Eu que sequer as pessoas mais próximas fazem ideia. Considere-se privilegiado pela versão sem máscaras e crua, seja ela qual for.


Dito isso, consigo conectar-nos ao autor, durante seu discurso com a morte, quando o mesmo diz: “depois que Ela nos leva, nós somos conhecidos, pelas nossas boas qualidades”. Talvez o matador de porcos goste tanto de brincar com a morte, porque sabe que essa é sua única oportunidade de ser lembrado positivamente. 


Ser o Shaolin, significa sentir demais as tristezas, é absorver a dor em seus questionamentos mais cruéis e duvidar da existência de uma luz ao fim do túnel. Companheiro, você ficaria espantado com a quantidade de pessoas que já tentaram me empurrar do precipício. Imagino que por não me entender, ou talvez por me entender demais. As pessoas não estão acostumadas com sentimentos reais. 


Lima estava certo ao enfatizar que quando a vida deixa de ser uma vitória, não deve ser vivida. O que por muito, justifica o sentido da minha existência como um personagem distorcido, depressivo e suicida: minha existência é um conglomerado de derrotas, e eu dependo deles para me alimentar. Se você nunca sentiu-se como um perdedor, sua jornada provavelmente narra sua mentira favorita de invejar aos outros. A derrota é responsável pela oportunidade de compartilhar seus traumas, e realizar sua maior reviravolta. Ao menos é o que eles dizem. Para mim, a derrota é a sua chance de se parecer um pouco como o Eu, goste você ou não.


Nosso poeta termina seu texto falando sobre o respeito, numa tentativa fútil de mostrar uma solução para aquilo não há como remediar: a infelicidade humana. Somos uma espécie tendenciosa à autossabotagem, porém muitos de vocês já devem saber.


Termino este exato texto, com a afirmação: eu adoro falar de máscaras, e sentir as dores do Eu, mas o matador de porcos é uma máscara. E acredite se quiser, uma das mais complexas que Eu já criou.


Shaolin, o matador de porco

Quando, meu Deus, ficaremos livres da burguesia?!


É a indagação de Lima Barreto na crônica O Jardim Botânico e suas palmeiras, publicada em 26 de junho de 1919. A partir do exemplo do jardim, que parecia fadado ao ostracismo, ele demonstra seu horror por uma elite inepta, sem gosto, que galga posições que não merece ter e desfruta dos louros comprando tudo o que for maior e mais caro. 


Enquanto lia o texto, imediatamente lembrei de uma publicação que vi essa semana, sobre uma blogueira famosa que “deixou escapar” nos stories do Instagram sua programação do dia, cuidadosamente planejada por uma equipe de marketing. Transcrevo a lista:



“Script básico do dia a dia:


Acordar com xícara de café, duas boquinhas e colocar horário;


Story único de 15 segundos dando bom dia e falando algo motivacional;


Repostar story de frase;


Mostrar algo fofo do neném em no máximo três stories;


Se maquiar nos stories;


Boomerang orgânico da make;


Repostar somente o que vale muito a pena;


Foto estilo Pinterest com hora e localização;


Repostar uma análise de mkt;


Boa noite com frase de pensamento”



Sinto muito, Lima Barreto, mas devo dizer que a burguesia continua como era há 100 anos: ignorante, preconceituosa, artificial e cada dia mais cafona. E a consequência disso, que recai sobre todos nós, é o estado em que nos encontramos. Nesse estágio do capitalismo neoliberal, até a vida foi terceirizada. Viramos escravos de nós mesmos. 

Pense comigo: quanto tempo você perde manipulando seu cotidiano para que ele pareça mais instagramável, e por quê?

O dia de um homem de 1920 - João do Rio

João do Rio escreveu uma crônica em 1910, idealizando como seria o mundo 10 anos depois. A crônica destrincha a rotina de um homem que ele nomeia de Homem Superior, e através do seu dia a dia, a gente também vai compreendendo o que João do Rio esperava de um mundo 10 anos depois, até de uma forma um tanto caricata. 

Sob a minha perspectiva, o que mais se destaca nessa crônica é como João do Rio consegue prever que, para além do avanço tecnológico, cada vez mais vivemos em uma sociedade que pouco se comunica com o outro, em que muito se trabalha para acumular riquezas e que, talvez, no final da vida, nem poderemos usufruir de tudo. Vamos perdendo tudo de pouco a pouco. Na crônica de João do Rio o Homem Superior acorda, ouve as notícias do jornal, em sua maioria tragédias, segue para o trabalho, e nem tempo para chorar pela morte da filha ele possui. Vai se esvaindo e as coisas que mais importam (ou deveriam importar) vão ficando de lado. Uma vida não mais permeada por sentimentos, não escuta o riso das pessoas, não toma café com a família e fala amenidades. O quão perto estamos hoje desse Homem Superior que vive em sua bolha amarga. Hoje, o celular toma conta dos nossos encontros com amigos e familiares, estamos exaustos de segunda a sexta, trabalho, faculdade, e mais um milhão de coisas. As vezes chega o final de semana e só queremos colocar o sono em dia. Como será em 2032? O capitalismo já terá destruído o resquício de humanidade que nos resta? 

 Versos de Presos - João do Rio

"As iniciais têm que vir fatalmente, são o complemento necessário ao fim da obra. Por quê? É misterioso, mas verdadeiro." Também com os pseudônimos é assim. João do Rio aproveitou-se do próprio ser relativamente nome comum para passar a imagem de um carioca qualquer. Alguém que está lá para testemunhar os acontecimentos cotidianos. 
Escolhi essa crônica por já ter tido contato com o livro "A alma encantadora das ruas". Sou poeta e também sou um amante das ruas, por isso era inevitável que eu me sentisse tão atraído pelo livro e pela crônica. 

"Versos de Presos" é um escrito que humaniza os detentos através da poesia. Evidencia a alma de pessoas marginalizadas trazendo ao leitor seus pensamentos, sentimentos, angústias e esperanças.  
É um texto que, mesmo nos dias atuais (ou antes, PRINCIPALMENTE nos dias atuais), se faz extremamente necessário.