Rio de Janeiro, dia 3 de maio de 2016, 8h da manhã. Aqui estou, mais um dia. Sob o olhar sanguinário do vigia. Mas esse vigia não usa farda, nem arma (quer dizer, arma até tem, mas não é um revólver, e sim um controle remoto). “Já estava acordada tão cedo?” – pensei. Vesti meu paletó, tomei o último gole do café. Era mais um dia rotineiro em minha vida, em nossas vidas e nem um “Bom dia” recebo, nem um abraço ou um beijo na bochecha. Não vem de hoje tamanha frieza, qual a última vez que andamos de mãos dadas por aí? Quando foi a última vez que saímos pra jantar fora? Ou que comemoramos aquele simples “mêsversário”, que ela fazia questão de lembrar a data? Sinto-me encarcerado, mas não tem jaulas aqui, apenas um “até que a morte nos separe” ditos a 30 pessoas numa simples capela que me prende, esse contrato vitalício do qual me arrependo de assinar. Bom, tirei um dia a menos ou um dia a mais, sei lá... Tanto faz, os dias aqui são todos iguais.
Chego a casa, o mesmo olhar distante, sem me encarar, olhando para o nada. Nem precisamos trocar três palavras para perceber que está tudo errado entre nós. Ela sabe o que eu desejo, sabe o que eu penso. Um não suporta mais a cara do outro, o outro não quer mais sentar ao lado de um, nem sequer respirar o mesmo oxigênio. O dia tá chuvoso, o clima tá tenso, o yin dela não mais coordenava com meu yang, não dá mais. Eu quero mudar, eu quero sair, não aguento mais esse silêncio ensurdecedor. Ah sei lá, não sei mais o que pensar. Acendo um cigarro, vejo a noite passar. Mato o tempo para ele não me matar.
Um novo dia, mas o resto sempre igual. Quer dizer, nem tudo, por que hoje é meu aniversário, mais um outono de vida, será que ela vai ao menos dar os parabéns? É, vou ter que saber pelo jeito mais difícil, vou perguntá-la. “Lívia, minha querida, sabe que dia é hoje?” – perguntei. Ela me olhou com toda a certeza do mundo e retrucou: “Claro né, hoje é o dia que vence a conta do banco, seu imbecil”. Peguei minhas coisas e fui direto ao trabalho, nem tomei o meu café sagrado de todo dia, fiquei com tanta raiva com aquela cena que esqueci totalmente de mim. Além de todo aquele clima frio como a Cordilheira dos Andes, ainda ousa esquecer o dia do meu aniversário? Ah, é hoje que essa história acaba de uma vez por todas, essa pena em cárcere privado acabará neste 4 de maio, sem volta. Assim que chegar em casa, falarei com ela, não aguento mais essa pressão em meus ombros, tantas brigas, tantos dias sem amor, um casamento não pode ser uma prisão, estou me sentindo preso nessa vida. Deixa pra lá, isso só vou resolver em casa, encararei mais essa jornada de trabalho até resolver esse dilema.
Mais um dia de trabalho terminado, despachei todos os processos que tinha, preenchi todos os fichários, é hora de ir. A decisão mais difícil em minha vida, mas inadiável, vou acabar com ela e ir embora daquela casa no mesmo dia, estava decidido. Entrei com o carro na garagem, abri a porta, tudo escuro. Acendo o interruptor para poder assistir um pouco de TV, mas assim que a luz se acende, vejo a imagem da minha mãe, meus irmãos, sobrinhos, primos, todos estavam lá cantando “Parabéns pra você”. Impossível não desmoronar de alegria e cair no choro, lá ao fundo está ela segurando o bolo repleto de velas – 32, pra ser mais exato. “Achou que eu ia esquecer, bobinho?” – respondeu me dando um beijo. Tão simples, mas o mais singelo beijo de todos, acho que posso ficar detido. Quem sabe por mais um ano, três meses e uns dias?!
Dia 4 de maio, diário de um detento
Régis Júnior