domingo, 5 de junho de 2016

Todo dia um 7 x 1 diferente


Quer reportagem na TV que dê mais o que falar do que as que falam dele? Não consigo imaginar outra. É delicado falar desse tema quando é o motivo que causa mais brigas, mais discussão e, inclusive, violência entre os brasileiros. E quando tem crise? Sem chances de não estampar a capa do jornal, isso sem contar quandoacontece um protesto da torcida – vale de tudo, até panela e buzina. Toda situação é pretexto para discórdias, atémesmo pedaladas. 

Durante o ano inteiro, é um atacando e o outro defendendo, tem até aqueles que não aceitam a escolha dos demais. O jogo continua e existe quem defenda o moderno e, por outro lado, quem proteja o conservador. Como eu já falei, tudo é razão para rivalidade. Mesmo noBrasil, ele sofre interferência do que acontece no mercado estrangeiro. E como! 

Eu sei, sempre tem um que não dá atenção, não lê sobre a questão, não liga a TV e acaba não tendo o que falar na mesa do bar. No entanto, por um outro ângulo, acho que pode imaginar a quantidade daqueles que se atualizam, veem e gritam ao extremo – os famosos torcedores doentes. 

É conflito dentro e fora de campo – nas ruas e na internet. Quando a penalidade é máxima, tem que ter textão no Facebook. Patrocínio por fora? Textão. O presidente não é competente? Textão. Impedimento? Textão. E vale a pena ler. É difícil acompanhar a mídia de forma consciente quando ela trata do assunto de uma maneira que não é imparcial. Constantemente tem jornalista que ignora a neutralidade dos fatos. 

Eu te garanto que não estou falando de futebol, e sim, do governo. esquerda luta pelo bem-estar coletivo, a direita batalha pelo individual e isso dá briga que chega a dar inveja a qualquer torcida organizada. 

Acho que comecei a concordar que a política virou mesmo um Fla x FluE se é que virou, prefiro me tornar um torcedor fascinado do ilustre América – RJ.

Valentina

E o jogo continua


Vamos. O jogo já começou. Essas pessoas não pagaram para ver dois jogadores renomados parados na quadra de saibro. Vamos. Essa bola não vai sozinha para o outro lado. Você tem que agir logo. Vamos. Estão todos à sua espera. Quica uma, duas, três vezes. Olha para o seu adversário: ele está do lado direito. “Devo jogar na direita? Ou tentar um ace pela esquerda?”

Vamos. Decida. O tempo está passando. Direita ou esquerda. Azul ou vermelho. Cachorro ou gato. Matemática ou História. Montéquios ou Capuletos. Biscoito ou bolacha. Vamos. Estados Unidos ou Cuba. Impeachment ou golpe. Nacionalismo ou multiculturalismo. Conservador ou liberal. Meritocracia ou democracia. Legalizar ou não. O que está esperando? 

Vamos. Por que a demora? Ih, sua camisa é vermelha. Petralha, comunista, volta para Cuba! Ah, seu patrocinador é a Coca-Cola. Coxinha, capitalista opressor, vai pra Disney! Vamos. Ataca o cachorro porque ele está com lenço vermelho. Ataca o movimento alheio porque não concorda. Ataca mais ainda porque foi atacado também. Ataca o outro! Vamos! Vamos.

Joga a bola para o alto e bate a raquete nela com força. Em qual direção jogou? Bem, não, importa, parou na rede. Não tem problema, vamos de novo. Só cuidado para não cometer dupla falta. Vamos. Prepare-se. Não hesite. Escolha. Direita ou esquerda. Direita ou esquerda.

Vamos. Você já escolheu. Eu sei que já. Mas por que está hesitando? É, realmente é complicado. Depois que você se posicionar não tem mais volta. Ou você joga para a direita ou para a esquerda. Ou você é oito ou você é oitenta. Ou você vai para o céu ou para o inferno. Ou você defende um movimento sem questionar ou você é contra. Ou você é capitalista ou você é comunista. Vamos. Olha esse Muro de Berlim sendo levantado na sociedade brasileira.

Vamos. Direita ou esquerda. Escolha. Jogue. Não é tão difícil. Quica uma, duas, três vezes. Olha para o seu adversário: ele ainda está do lado direito. Joga a bola para o alto e bate a raquete nela com força. Passou da rede na diagonal e foi para o canto esquerdo. Ace? Não, o adversário correu. Rebateu. Bate, rebate, bate, rebate. Esse jogo de direita e esquerda tem muito bate e rebate.

Enquanto isso, as pessoas estão sentadas na arquibancada virando a cabeça de um lado para o outro. Direita e esquerda. Direita e esquerda. Elas pagaram caro pelo ingresso. E vocês dois, jogadores, ficam nesse eterno bate e rebate. Está quente. O sol da tarde está diretamente sobre a cabeça dos espectadores. Eles assistem aflitos, torcendo por um dos lados. Direita ou esquerda. Às vezes gritam umas palavras de apoio, que logo são caladas para o bate-rebate principal.

Vocês ganham milhões. Eles pagam milhões. E nesse falso jogo de direita e esquerda, quem sai ganhando são vocês. Bate, rebate, bate, rebate. E o jogo continua a entreter o país. Bate, rebate, direita, esquerda. E o jogo continua a dividir o país.

 

Amelie Poulain


Nunca tinha ido assistir a um jogo de futebol, todos me falavam da emoção de estar na arquibancada, torcendo, vibrando, gritando, mas eu não via a menor graça, preferia o conforto de assistir em casa. Até que, num domingo, 16 de julho, meu amigo Leni me convidou para a final da copa do mundo que seria disputada por Brasil e Uruguai, em que só teriam torcedores daqui, pois a torcida do rival havia sido punida e não poderia estar presente. Resolvi aceitar e dar uma chance a mim mesmo. Leni me entregou o ingresso e disse que, sozinho, teria que escolher, entre os diferentes setores, um que eu me encaixasse melhor, ele apenas apresentaria-os a mim já que trabalhava lá. Pensei: como existiriam diferentes setores se todos estavam torcendo pelo mesmo time? Mas eu ia. E fui. Ao entrar no Maracanã, a primeira impressão foi boa. Lindo, cheio de pessoas energizadas, baterias, bandeirões, cantoria, festa, cores. Confesso que fiquei até arrepiado na hora. Estava bem cheio, mas não lotado, com três setores preenchidos: leste, oeste e sul.  Rapidamente, depois daquela primeira impressão que me pareceu uma galera homogênea, pude observar o diferente comportamento das torcidas; leste e oeste, localizadas à minha esquerda e direita, respectivamente, trocavam ofensas e xingamentos entre si. Já a que estava ao fundo, no sul, me pareceu mais pacífica. Leni chegou e logo foi fazer as apresentações. Começou pelo setor leste, torcida responsável pela maior festa nas arquibancadas. Segundo ele, ali ficava o "povão", que combatia a privatização dos estádios, lutava pela diminuição do valor do ingresso para que houvesse maior inclusão social nas arquibancadas e, também, pela democratização do futebol, com times menos elitizados. Me explicou, ainda, que bem na ponta, dentro do próprio setor, ainda existia uma espécie de subdivisão com os revolucionários, que pretendiam alcançar o bem estar coletivo através de medidas bem radicais. Dando a volta, chegamos ao setor oeste e, ao contrário do que acabara de ver, lá estava a torcida elitista, onde não tinha tanta festa assim, a maioria se encontrava em seus assentos, num sentido de ordem. Grande parte daquelas pessoas tinham relações com os dirigentes que queriam encarecer o futebol, eram contra o projeto de lei prestes a ser aprovado que estabeleceria cota de ingressos para quem possuísse renda baixa e acreditavam que o povo deveria trabalhar mais e não diminuir o preço dos ingressos. Uma coisa tinha em comum, aqueles que ficavam localizados à ponta do setor, só que dessa vez, eram elitistas extremamente conservadores e exclusivistas. Estava explicado o porquê dos insultos e provocações antes percebidos por mim.  Agora só faltava um, aquele mais tranquilo que eu disse no começo. Andamos até o setor sul, que pela divisão espacial do estádio, era naturalmente menor. Leni me disse que lá era a torcida mista, composta por pessoas que partilhavam das "ideias leste e oeste", mas claro, sempre existiam aqueles que tinham mais afinidade por uma ou outra. Resumiu dizendo que, aquela torcida, pregava mais tolerância e era o equilíbrio do estádio. Leni se despediu dizendo que já estava atrasado pois o jogo já iria começar e ele precisava fazer os ajustes finais para a transmissão. Agora era comigo. Pensei, olhei para aqueles três setores que acabara de conhecer e tomei uma decisão que ele não esperava. Agradeci o convite mas já estava indo embora. Nenhum setor havia me convencido. Tive a impressão que toda aquela briga de ideologias se sobrepôs ao único objetivo comum, a torcida pela seleção brasileira. Não era o que eu esperava encontrar. Voltei para casa, voltei para minha realidade de torcedor de sofá, era melhor assim. Resultado final: 2 x 1 Uruguai. Maracanaço. Brasil derrotado em casa.

Frida Kahlo

Ração


O lugar de nascimento, a classe social, a família e o ambiente em que crescemos, os professores e os amigos que temos, as experiências vividas. Tudo isso, ou seja, tudo o que faz parte da educação recebida, é o que muitos cidadãos podem alegar, com razão, ante a pergunta sobre o que nos faz ser de esquerda ou direita. Uma resposta que também serviria para questões mais gerais, como “por que somos bons ou maus”, ou questões mais prosaicas, do tipo “por que torcemos para um time de futebol ou outro”.

 

Ganhar um Prêmio Nobel dá autoridade a quem o ganha. Jose Saramago ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano 1998. Saramago, alem de escrever obras-primas, foi uma pessoa ativa na política. Ele falou que a esquerda tem uma coisa que a direita não tem : ração. Para mim isso é um argumento de autoridade. 

 

Não obstante, a direita também tem argumentos… A direita nunca deixou de ser direita, mas muitas vezes a esquerda deixou de ser esquerda. A explicação pode parecer simplista, mas para serem participantes mais ou menos tolerados nos jogos do poder, os partidos de esquerda correram todos para o centro, onde, infalivelmente, se encontraram com uma direita política e econômica já instalada que não tinha necessidade de se camuflar de centro.


Vascopaulo14

Coxinha ou pão com mortadela?

São dezessete horas de uma sexta feira, o dia mas corrido da semana. Saio da redação ás pressas com uma vontade gigantesca de chegar em casa, jogar o sutiãn longe e mergulhar no sofá para assistir mais um episódio de Game Of Thrones. Mas até chegar em Irajá vai demorar... Nessas horas que eu penso, porque trabalho tão longe de casa?  Chego na estação e percebo que a barca está quase saindo, ou seja, preciso correr. Corro desesperadamente, não consigo ver nada a minha frente pois o vento numa tentativa nada amigável obriga meus cabelos a dançar com ele e acaba fazendo com que todo o meu rosto seja coberto pelos meus próprios fios, tropeço em mim mesma e esbarro nas pessoas porque sei que se perder essa barca só Deus sabe quando pegarei outra. Enfim chego na plataforma, e preciso decidir se sentarei a esquerda ou a direita. Esses tipos de decisões sempre são dificeis pra mim, por incrivel que pareça. A minha esquerda vejo o Corcovado e o Aeroporto Santos Dumont e a minha direita vejo a Ponte Rio Niterói. Tento decidir rápido, porque quanto mais eu demoro para escolher meu lado, mais pessoas vão entrando na barca e preenchendo os lugares. Enfim decido, escolho a esquerda. Prefiro passar vinte minutos olhando para o Corcovado enquanto escuto Caetano, do que ficar olhando para uma ponte monótona e super sem sal. Quando chego no Rio e olho para o céu percebo que já está anoitecendo e ainda me falta um longo caminho. Vou andando pelas ruas mas desta vez percebo que não adianta ter pressa pois meu ônibus só sairá daqui a uma hora. "Enquanto os homens exercem seus podres poderes, morrer e matar de fome e raiva e de sede, são tantas vezes gestos naturais..." cantarólo enquanto atravesso a rua mas percebo que todos ao meu redor me olham como se eu fosse um ser de outro planeta. Começo a sentir fome, e me lembro de que não havia lanchado antes de sair do trabalho. Decido parar em algum lugar pra comer. Até que dou de encontro com uma padaria, e que padaria! Ao entrar sinto a sensação de que meu estômago está diminuindo e o perfume da padaria  é tão agradável que entra em minhas narinas me tornando capaz até de sentir o gosto sem ao menos provar nada. Olho para a vitrine e vejo um belíssimo pão com mortadela, e decido: é exatamente isso que vou comer. Enquanto ando em direção ao balcão para fazer meu pedido, reparo numa menina muito bonita sentada bem no canto da loja revirando os olhos ao comer uma farta coxinha. De repente tudo ao meu redor fica em slow motion ao ver a menina dar a sua ultima mordida, minha boca saliva e eu só consigo pensar em coxinha. E nesse momento eu fico confusa, não sei o que comer. Será a bendita coxina ou o saboroso pão com mortadela? Após um longo tempo de indecisão, finalmente decido. Não irei ser influenciada por uma coxinha. Compro o sanduíche e quando finalmente como,  me dou conta de que eu nem sou tão fã de coxinha assim. Porque é que diabos eu iria comer uma coisa que nem gosto muito? Porque escolher coxinha? Afinal pão com mortadela é tão mais sabaroso, é um sanduíche idrolatrado pelos mais pobres e consumido até pelos mais ricos (mesmo quando escondido). Após comer posso retomar meu trajeto até minha casa com a consciência tranquila de que fiz a escolha certa.

Maria Antonieta

Estado de união


 

De terno e gravata, requinte e ordem

Ele é ambicioso

Trabalha para conquistar o que é seu

Fala em metas, projetos

Almeja lucros, cargos e posses.

 

Sua moral é inabalável, sua lei.

Conserva a família, as tradições

E pratica os princípios de sua religião.

Aos domingos, na igreja,

Durante a semana, a trabalhar.

 

De jeans e uma blusa qualquer,

Ela é desapego

Engajada, revolucionária e solidária

Sempre que pode,

Envolve-se em alguma boa ação,

Debate ideias, propostas,

Estudos e teorias.

 

Sofre e luta pelas injustiças de uma sociedade tão desigual,

Dedica-se aos outros em prol de um bem social.

Ela é altruísta sem nenhum esforço.

 

Eles são um casal,

Dividem essa rotina desconforme

E nem todos os dias são de aliança e cumplicidade.

 

Em momentos de extremos, brigas constantes.

Discutem, rebatem argumentos.

Eles mal se ouvem, não se entendem,

Mas, quando se põem tolerantes e em harmonia,

Pouco a pouco caminham avante

E percebem a importância do outro na relação.

 

E, nesse estereótipo de vida bilateral,

Há algo que os une.

Eles são partes de um só,

Mesmo que de forma tão desigual.

 

Lemos, Dante.

O poema do AR


Me perguntaram do nada 

"Você é de direita ou esquerda"

E sem hesitar,

"Desculpa, não sou capaz de opinar"

 

"Como?"

O homem veio me questionar

"Menina, você precisa se posicionar"

 

Depois desse diálogo

Muita coisa mudou 

Precisava me decidir logo

Porque moda isso virou

 

Fui então ao Meia hora pesquisar

Precisava de fontes 

Mas o Globo não podia comprar

 

Admito que foi difícil de achar

Prioridade para politica nesse jornal, não há 

Mas por 50 centavos 

Não posso reclamar

 

E depois tanto ler

Vi que há uma certa dominação 

Vi que há uma certa restrição de informação

 

Mas não devo me prolongar 

A questão é direita ou esquerda

E como consegui me posicionar

Espero só não ser julgada

 

 

Nem direita nem esquerda

Os extremos não vão proporcionar 

Um lugar bom para morar 

 

Quero mesmo o meio termo

A liberdade  e varias formas de amar

Não preciso escolher um lado 

Para poder lutar 

 

 

 Helena Machado