quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Idealizar é viver

 Costumo esquecer as coisas.

Acho que já faz parte de mim. Não lembro de muitos acontecimentos da minha vida, principalmente os traumáticos, que eu sei que ocorreram, mas minha mente insiste em apagar todos os detalhes. Normalmente, quando quero relembrar algo do ensino fundamental, por exemplo, recorro a uma amiga, que guarda muitas das minhas memórias dessa época. É um exercício curioso, porque ela sempre lembra de coisas que eu apago completamente do consciente (como a vez que um professor de educação física me carregou nas costas dele).

Ao pensar em momentos notáveis e “antigos”, me lembrei de um. Em 2015 (sim, aparentemente eu só escrevo sobre esse ano), no meio do caos que estava sendo a escola, um trabalho de feira de ciências se tornou um acalanto pra mim. Já tinha me apresentado no colégio e na feira municipal, levando o primeiro lugar com o grupo composto pelas minhas duas melhores amigas, quando uma nova proposta viria para me animar durante os próximos meses do ano: ir pra feira estadual.

Aquela ideia me encantava, e ouso dizer que virou um sonho, um objetivo, o qual eu nem sabia que poderia ter. Olhando de onde estou, percebo, foi o propósito que eu precisava um um contexto tão conturbado. Pude, por algum tempo, me sentir importante para a instituição (onde eu me sentia constantemente incapaz), até porque ninguém nunca tinha ido nesse evento representar a escola.

Me recordo de uma tarde depois das aulas estar com o professor de ciências, na biblioteca que também era sala de vídeo, formulando os textos e preparando a inscrição na feira. A partir disso, passei a destinar meu foco a idealizar o momento da esperada “aprovação”. Lembro de ler uma lista em que o meu grupo não estava, pensar que não tínhamos conseguido, e depois achar o nosso nome em outra. Lembro também, de pessoalmente dar a notícia para minha amiga, na rua de casa, enquanto descia as escadas. Por fim, conseguimos ir para a capital do estado apresentar o nosso trabalho.

Foi uma experiência alegre, mas não sei até que ponto cada detalhe aconteceu ou imaginei a partir das minhas idealizações criadas. E vou além: não tenho certeza de que foi plenamente feliz para mim no momento. Definitivamente, é muito mais fácil julgar de forma positiva um período quando ele já faz parte do passado.


                                                                                                   Estela Lia

Táxi&Pizza

 Essa história foi em 2017, era novembro, eu acho. 


Nossa escola nos levou para fazer o vestibular seriado de uma faculdade em outra cidade. Fomos avisados que não encontraram hotel e que ficaríamos em um colégio de lá, mas mal sabíamos o que nos esperava… Alunos do ensino médio inteiro, uma centena de colchões espalhados por todos os cantos da escola, algumas baratas e chuveiro gelado as 7 da manhã pra ir fazer prova, uma verdadeira bagunça.


Fizemos o primeiro dia da prova e disseram que poderíamos ir pro shopping. Eu e alguns amigos, cansados, resolvemos voltar pro colégio e pedir algo pra comer por lá mesmo. Nos dividimos em dois grupos para pedir o uber. Demoramos demais, o carro dos nossos amigos já ia embora e o ônibus que levaria os outros alunos para o shopping também estava de saída. Algo tinha que dar errado, óbvio, não conseguimos pedir um carro…  As únicas opções que sobraram eram pegar um táxi (muito mais caro) ou ir pro shopping. Optamos pela segunda opção e saímos correndo atrás do ônibus que já estava saindo, enquanto a diretora, com a cabeça pra fora da janela, gritava conosco dizendo que iria nos deixar para trás.


Ainda correndo, vi um dos meus companheiros parar e gritar que ficaríamos ali mesmo. Foi aí que o ônibus acelerou e realmente nos deixaram lá. Eu e minhas amigas olhamos confusas para aquele que havia gritado besteira e nos perguntamos “e agora?”. Nos restou apenas o táxi. A primeira discussão foi quem iria sentado no banco da frente, e claramente sobrou para o único homem do grupo. O carro saiu, tomou seu rumo pela faixa exclusiva de ônibus e em altíssima velocidade, passamos pelo uber de nossos amigos engarrafados no trânsito, enquanto trocávamos mensagens no celular rindo deles.


Acabou que chegamos todos juntos ao colégio. Nos ajeitamos para pedir algo e demos de cara com uma promoção de 6 pizzas por 88 reais. Estávamos em muitos, então fizemos o pedido e saímos para trocar nosso dinheiro. No caminho de volta, chuva. Por pouco não ficamos encharcados. 


Todos mortos de fome, horas se passaram e nada das pizzas chegarem. Quando chegaram, foi aquela confusão para separar o dinheiro de todo mundo. Depois, sentamos ali no chão da quadra mesmo, no escuro, comendo e rindo até altas horas da noite, como se não tivesse outra prova para fazer na manhã seguinte…


Foi um final de semana bom. Éramos felizes aos 15 anos de idade e não sabíamos. 


                                                                                                 A Garota da Echarpe Verde




Folia e euforia

 Era dia de folia. De folia. Diga espelho meu se havia na avenida alguém mais feliz que eu? E mais apertada? Que vontade de fazer xixi. Na alegria da barca, todos fantasiados, apito para todo lado, copo cheio e coração vazio, distraída e feliz o suficiente para não pensar em ir ao banheiro. Saímos da barca e o caminho até o bloco ficou tão longo, cada vez mais apertada para fazer xixi.

Erradamente no carnaval rua vira banheiro, mas ainda não tinha bebido o suficiente para convencer meu psicológico disso. Avisei aos meus amigos e começamos uma busca por um banheiro. No caminho encontrei um banheiro químico que estou me perguntando até agora como aquela gringa conseguiu usá-lo. Continuei a busca para o alívio tão esperado.

De repente... PARE! Não era dia de folia? Uma confusão, uma gritaria, pessoas se empurrando e querendo brigar. Pessoas se envolvendo para separar a briga e acabavam entrando na briga também. Ficamos olhando, tentando entender e nos manter longe. Fiquei distraída o suficiente de novo para não lembrar do xixi. Dessa vez uma distração ruim, para que brigar no carnaval? É carnaval! Muita gente olhando e filmando, pensei que poderia ter alguém para acabar com aquela confusão e nesse momento a minha defesa de não ser essa pessoa a vontade voltou.

Felizmente a briga se dissolveu, que alívio! Alívio? Quase que me alivio da forma errada. Precisava de um banheiro.

Avistei uma lanchonete e foi à única solução. Eram japoneses, tive que pagar dois reais, mas naquele momento eu pagaria até dez pelo meu alívio. Fiz xixi e que aliv... nossa, que cheiro foi aquele? Deram uma cagada no banheiro ao lado que foi impossível me sentir aliviada. Isso que dá pagar banheiro no carnaval.


                                                                                                          Nakia Okoye

Um relato cirúrgico

 Acordou. Não com o despertador, ou com um compromisso, apenas seguiu o que seu

corpo lhe mandou. A visão ainda estava embaçada e sua mente ainda estava despertando,

até que se espreguiçou, e veio a dor. Era uma dor que já sentia a dias, e que percebia que a

cada dia aumentava, mas sua família lhe dizia que era apenas muscular, então não tinha

procurado um médico. Mas naquele dia ela estava muito maior e se alastrou por todo o

corpo, deixando-a imóvel.

Com muita luta se levantou, trocou de roupa e desceu as escadas, sua família estava reunida

no andar de baixo, o pai, a madrasta e seu irmão mais novo, era mais um dia normal, pelo

menos até o momento.

A próxima coisa que se lembra é de estar deitada no banco de trás do carro, de

bruços, já que não conseguia nem se sentar mais, e o carro estava vazio. Ela sabia onde

estava, no hospital da cidade, esperando seu pai que foi adiantar os documentos de sua

consulta, para que ela não ficasse em pé por muito tempo. Depois disso ela se lembra de

estar em um quarto de hospital, seu pai fez questão de deixá-la num quarto isolado, com

cama e ar condicionado. Deitada, recebeu a informação de que tinha um cisto pilonidal e

que iria direto para a cirurgia removê-lo, e ele mudaria muita coisa de sua vida.

Você deve estar pensando: “Mas todo esse drama só por um cisto?” Acalme-se,

leitor, ele é só o início da história.

Seu pai parecia calmo, dava alguns sorrisos, fazia brincadeiras e a tranquilizava. E

ficou no quarto quando ela foi levada para o local que faria a cirurgia. Olhou pra cima, não

conseguia se mexer muito sem sentir dor, apenas viu as luzes passarem rápido e as portas

abrindo e fechando, depois viu alguns enfermeiros, sentiu algumas agulhadas, pensou em

como seria a cirurgia, e acordou. Abriu novamente os olhos e não sabia aonde estava, nem

quando seria a operação, até um enfermeiro perceber seu despertar e avisa-lá que tudo já

tinha sido feito e que ela iria voltar para o quarto. Mais uma vez luzes passando, portas

abrindo, mas seu caminho se encerrou em frente a seu pai, que estava novamente tranquilo,

sorrindo.


Para não nos estendermos, vou adiantar uns dias na nossa história, se quiser

pode incluir algum efeito de time-lapse dos filmes que você gostar.

Já faziam duas semanas de sua cirurgia, ela estava na casa de sua avó todo esse

tempo, estava voltando a ir à escola e estava sendo bem cuidada. Poucas vezes ela recebia

visitas de sua família, outras poucas vezes de seus amigos, mas não se importava, sabia que

estavam ocupados. Era quase como se ela sempre estivesse naquela casa, parte de seus

pertences estavam lá e já tinha até uma certa rotina. Na hora do almoço, sua avó chegou

com uma notícia: ela não voltaria para sua casa, a partir daquele dia ela agora morava ali, e

iria reformar um quarto para se estabelecer.


Devo contextualiza-lo, querido leitor, que ela já planejava sair de casa, mas a ideia

era se mudar para outra cidade. A partir dali, tudo fluiu naturalmente, mas será que para

todos foi natural? Deixo aqui o questionamento para que seja respondido pelos outros

personagens e encerro o relato, guardando esta página para a posterioridade.


                                                                                 Cigana Oblíqua Dissimulada

Camisa Branca

 Era um dia ensolarado, e eu como grande amante e colecionador de camisas de futebol, tinha achado um anúncio muito interessante. Uma camisa branca, antiga, do meu time de coração. Só tinha um porém, a distância. Eu moro em Niterói, a anunciante em Botafogo. Como não poderia deixar passar essa oportunidade, juntei todo o dinheiro que tinha guardado, juntei notas e moedas, muitas moedas, buscando até na mochila aquelas perdidas para inteirar no valor.


 Para não ir sozinho, chamei um amigo, que também coleciona camisas de futebol. O plano era simples, eu pegaria o ônibus para o Rio no ponto perto da minha casa, ele entraria no perto da casa dele e íamos. Porém, não foi assim que aconteceu. Já no ponto, o ônibus desejado estava passando e eu entrei, a passagem custava por volta de R$ 8,00, comecei a mandar mensagem para o meu amigo, avisando que estava no ônibus, mas ele não me respondia. Quando estava chegando no ponto dele, ele me liga e fala que estava na rua de casa. Nesse momento, tinha que tomar uma decisão, seguia no ônibus e ia sozinho, ou saía e gastava mais uma passagem. Como ele estava fazendo esse esforço por mim, resolvi sair.

 Passamos no Burger King e compramos um lanche, no sol quente, esperamos meia hora até chegar o próximo ônibus. Quando chegou, entramos e fomos até a Central do Brasil. Fizemos a baldeação e fomos para Botafogo, seguindo o Moovit, app de transporte público, pois não sabia muito bem o endereço do anunciante. Saímos um ponto antes e fomos andando até encontrar com o senhor que vendeu a camisa para mim. Quando nos encontramos, ali mesmo na calçada, conversamos um pouco e fomos aos negócios. Assim que ele me mostrou a camisa peguei o dinheiro, algo em torno de R$ 250,00, mas de repente apareceu um pedinte. O senhor que vendia a camisa já o conhecia, pois ele ficava na vizinhança, logo conseguiu fazer com que ele fosse embora. Contei as notas e puxei as moedas, meu amigo se impressionou, por que não é comum no meio do colecionismo pagar com moedas, mas era o único dinheiro que tinha, fazer o quê?

Depois de finalizar a compra decidimos dar um rolé. Passamos em uma lanchonete e comemos um salgado, partimos para a praia e como fazia muito calor, nada como se refrescar com uma lata de Brahma gelada. Curtimos um pouco e pegamos o ônibus de volta para casa. Fizemos o caminho inverso e chegamos em Niterói, eu com minha camisa branca e sem nenhum centavo e meu amigo com uma boa história.

                                                                                                            Lucas Ribamar

Psilosomething

 Amsterdam é palco de um debate quente entre progressistas, defensores das liberdades que a cidade oferece, e conservadores reclamando que o lugar virou palco de um tal “turismo psicodélico”.

Sem querer ofender os conservadores, mas era exatamente isso que a gente foi fazer lá. Eu e meu primo compramos cogumelos. 

Não em um beco escuro ou nada disso, numa lojinha especializada, veio embaladinho que nem Fandangos, selo da Anvisa de lá e tudo mais. 

Resolvemos entrar num parque para comer, achamos um banco e dividimos, e como o efeito não é imediato, marcamos um tempo. Foi nessa hora que chegou uma senhora com dois cachorros na nossa frente, um pequeno, que não saía do lado da dona por nada; e um grande, todo agitado que não parava de explorar o ambiente. No meio de alguma conversa sem pé nem cabeça, decidimos que os dois cachorros eram uma metáfora que nos representava, eu era o maior, observando tudo em volta e doido para sair do banco inicial, ele era o pequeno, introspectivo, se fechando num casulo que, francamente, só ele poderia explicar.

Sei que em dado momento levantei e fui bater perna, para fazer jus ao meu animal espiritual eu precisava explorar, então rodei pelo parque, que estava mais bonito do que eu lembrava, assim como o céu, tudo em HD. Passei por um jardim com uns arranjos florais lindos, por uma aula de yoga a céu aberto, assisti a uma briga de patos no laguinho, tudo era ao mesmo tempo banal e interessantíssimo.

Depois de andar por algum tempo reencontrei meu primo, recém saído de seu casulo, agora transformado no que eu chamaria de uma borboleta filosófica, tivemos debates geniais sobre águas vivas e a água do canal, até que decidimos nos despedir do parque e ir encarar a cidade.

E que bela era a cidade! A arquitetura, os cafés, os espaços abertos, museus que iam de Banksy ao queijo. O trânsito que misturava bondes, carros, ciclistas e bêbados, e que surpreendentemente funcionava. Nada estava fora de ordem e ao mesmo tempo tudo parecia mais bonito, como se eu olhasse para as coisas como quem vê um filme, desses cult francês, candidato ao Oscar em Fotografia.

A noite foi caindo e o efeito dissipando, jantamos em um restaurante aonde presenciamos uma cena horrenda: um senhor se levantou e vomitou a própria dentadura, apenas para pegá-la do chão vomitado e recolocá-la na boca. Terrível. Nojento. Escatológico.

Mas não pude deixar de notar que a iluminação e o enquadramento estavam impecáveis.


                                                                                                     Plínio Haroldo Cisne

O Dono Se Apaixonou Pela Minha Avó

 Eu devia ter uns sete anos. Minha família tinha marcado de ir para Campos do Jordão. Eu, meu primo e as mulheres da família chegamos no início da semana. Ficamos num hotel que tínhamos feito reserva para toda a família.

Do nada, minha memória da um pulo. A família toda se encontra em uma casa grande. Logo na entrada tinha uma escada de uns cinco degraus de pedras, com um jardim extenso, uma grama muito verde. Lembro que tinha uma roseira, confesso que recordo disso porque tenho fotos até hoje no meu celular. Essa casa ficava em frente ao tal hotel.

Ao entrar na casa, o piso era todo de madeira, havia uma lareira e dois sofás em frente. Me recordo apenas de dois quartos, mas sei que tinham mais. Um para meus pais, um que eu dormia com meu primo e minha avó e, provavelmente, um para meus dindos. A casa era cheia de desenhos, feito por mim e meu primo, colados na parede com um durex todo decorado com desenhos infantis. A lareira nunca era apagada e sempre saímos para comer e passear.

Eu amava o fondue de chocolate que vendia numa galeria colada a uma feirinha, eu o de morango e meu primo o de banana. Minha mãe, minha dinda e minha avó entravam em todas as lojas que viam na frente.

Uma das partes mais marcantes, era a hora de dormir. Eu e meu primo não conseguíamos ficar quietos e vivíamos acordando minha avó. Ela roncava muito e a gente achava engraçado, ficávamos ligando o abajur. Mas, com toda certeza do mundo, a parte que nunca irei esquecer, foi quando eu estava brincando com meu pai e ele sem querer me deu uma cotovelada na boca e meu primeiro dente caiu. Por causa disso, sempre fui a primeira pessoa do meu ciclo de amizade a usar e tirar o aparelho.

Engraçado... eu tenho um irmão e meu primo tem dois, e eu não consigo me lembrar deles na viagem. Mesmo vendo fotos e as pessoas contando, eles são invisíveis nas minhas lembranças da viagem.

Depois de um tempo, minha avó disse que fomos para aquela casa porque o dono do hotel tinha ficado apaixonado por ela e viu que a família era grande. A casa era dele, disse que podíamos ficar lá pelo preço das reservas. Eu nem sei a verdade do porquê fomos parar lá.

Nossa, isso faz uns 15 anos e eu ainda lembro do vento frio batendo no meu cabelo e do cheiro do chocolate quente e fondues de queijo. A memória é realmente algo fantástico.


                                                                                                            Rita Skeeter