Estava acompanhando o assunto da semana na fonte mais confiável da contemporaneidade: o Twitter. O caso da Mariana Ferrer preencheria, novamente, a minha timeline do dia. Inicialmente, tinha assistido o vídeo no Instagram. Nas outras vezes que aconteceu, a proporção foi menor e nada foi feito, pois o tribunal da internet, em muitas situações, não tem tanto poder de interferir na realidade como pensa, apesar da indignação ser inevitável.
No momento em que quase desistia de ler os comentários, que pareciam infinitos, e me deixavam cada vez mais desacreditada na justiça quando se trata de minorias, leio um tweet que chama a minha atenção. Ele falava sobre o advogado do André Aranha ter votado no Bolsonaro, assim como todos os outros que o defendiam na rede social, atribuindo a responsabilidade toda nesse fato. A partir disso, comecei a refletir sobre os possíveis desdobramentos desse pensamento e o que ele poderia gerar.
Logo percebi. Como eu não poderia ter notado antes? É claro que apenas homens declaradamente de direita (nesse caso, a extrema) seriam capazes de defender estupro. Soltei um suspiro de alívio com o celular na mão: graças a Deus, a maioria dos caras que eu convivo simpatizam com a esquerda e por isso não corro riscos. Nem de passar por assédio, e nem de duvidarem da minha palavra quando eu tento denunciar um. Até porque a conduta masculina, e o uso da sua posição de poder sobre o corpo de mulheres está, única e diretamente, ligada ao “posicionamento político” dele. Posso finalmente viver sem medo.
Evidentemente, essa lógica só funciona num mundo onde estuprador tem (uma só) cara. Só um estereótipo, o de um homem “estranho” e desconhecido. Não que esses não existam, assim como muitas pessoas que encontram justificativas para defender esse crime (e cometê-lo) na ideologia de extrema direita. E sim, as ideologias dizem muito. Aqui, se me permitem, quero chamar uma breve atenção para o outro lado. Quando o abusador é aquele conhecido que todos adoram a amizade. Quando é um tio que é próximo da família inteira. Quando é um cara que se porta como alguém “desconstruído”. Casos em que a vítima é descredibilizada porque “ele nunca teria essa conduta”.
Tratar a misoginia como um problema estrutural e geral também é defender as vítimas.
Estela Lia