sexta-feira, 28 de abril de 2023

Bolhas Conectadas

 Rômulo Castelo passa grande parte do seu tempo se preparando para realizar um dos

seus maiores sonhos. O pianista vive isolado de tudo e de todos em uma sala com

isolamento acústico. E falando a verdade, quem nunca se dedicou muito para realizar

um sonho? Hoje estamos na universidade de cada um sabe do seu próprio sacrifício para

estar nesse espaço atualmente.

Dona Marisa, esposa de Rômulo, que presenciou e confirmou aquela famosa frase: “na

saúde ou na doença...”. Ela é a mais distante do sonho do marido. Sem a companhia do

seu grande amor, vivendo praticamente um mundo paralelo dentro da sua realidade.

Muitos nessa vida vivenciaram o desprazer da solidão e, provavelmente, a grande

maioria dos leitores criam mais empatia por Marisa do que por Rômulo.

Porém, nesse “jogo” de bolhas existe um ser humano, o Franz, filho do casal. O nome

do garoto é em homenagem a Franz Liszt, a maior inspiração artística de Rômulo.

Nessas primeiras páginas do livro “Dor fantasma” é incrível que uma das ligações mais

fortes entre pai e filho é a homenagem a Franz Liszt. Imagino que a dona Marisa deve

ser o porto seguro desse menino, assim como muitos consideram na vida real a mãe

neste grande elo maternal.

Três vidas que se conectam, no entanto, ambos parecem tão distantes, dentro de suas

próprias bolhas. Marisa tem o duro papel de ser a grande articuladora dessa história,

sofre com a distância do marido, mantém tudo em ordem, é ela que liga diretamente pai

e filho em uma relação extremamente afastada... Marisa é a peça principal desta trama, a

grande maestra da família, assim como em nossa própria realidade as nossas mães são

as maestras de nossas vidas.

- Pérolas do Cléber Machado

Sobre A Insegurança

 Confesso que, durante a leitura do primeiro capítulo de “Dor Fantasma”, de Rafael Gallo,

uma das minhas impressões foi mais constante que as demais: a maneira como o personagem

principal, Rômulo, é um dos melhores no que faz e ainda assim é extremamente inseguro.

Rômulo é simplesmente o melhor intérprete de Liszt da atualidade, e também exerce o cargo

de professor de música. É esperado (ou desejado) que ele seja um profissional que tenha como

missão passar seu conhecimento a frente, ensinar músicos a serem ainda mais habilidosos. No

entanto, parece que essa função é, para o protagonista, apenas uma forma de oprimir seus alunos,

envergonhá-los ao fazer com que se sintam incapazes de serem tão bons quanto seu professor. É

absolutamente visível a camada de arrogância nesse comportamento, mas sob ela está implícita a

insegurança de alguém que tem medo de que outro seja tão competente quanto ele próprio.

Ademais, dentro de casa, o pianista se trancafia num quarto com isolamento acústico. Sua

relação com a esposa baseia-se na prestação de serviços desta. Ela cozinha, cuida do filho e da casa,

e seus assuntos pessoais não interessam em nada ao marido. Vê-se claramente o modo como a

mulher é inferiorizada nesse relacionamento. Apesar de podermos entender esse caso pela ótica do

machismo estrutural presente na sociedade, é possível ir além e observar o que fundamenta a

conduta do esposo: a insegurança de que seu cônjuge seja “melhor” ou tenha mais qualidades que

ele mesmo.

Acho que depois de todas essas constatações é possível se chegar a uma final: Rômulo pode

ser um dos melhores pianistas do mundo, mas também é um dos mais infelizes. Sua vida é pautada

em não parecer menor que ninguém, tanto no campo pessoal quanto profissional. O mais

contraditório é que ele consegue chegar ao ápice de sua ocupação e não consegue se sentir feliz –

não se livra dessa obsessão transformada em uma autocobrança excessiva e sem fim. Fica o

questionamento: quantos deixam de viver bem por causa de sua insegurança? Quantos têm atos

reprováveis por sua falta de autoconfiança?


Suco de Soja

Dor Fantasma

 Rômulo cumpre seus poucos ritos matinais neste sábado. Vai à cozinha, pega uma xícara do

café que Marisa deixou passado e rasteja em direção a sua sagrada sala incorrompida. Pisa

em um dos diversos bonecos de Franz e não consegue deixar de pensar que seu filho,

dormindo preguiçosamente no quarto ao lado, poderia ser o melhor intérprete do mundo se

parasse com essas bobagens e focasse na arte precisa da reprodução de peças seculares,

clássicas. Mas sabia da falta de disciplina de seu filho. Um indisciplinado não vai longe, não

importa quanto talento corra em suas veias.

Começa a trabalhar novamente na música que encerrará seu concerto revolucionário. 120

bpm. Concentra-se nas batidas do metrônomo. Alonga os dedos, as costas e o pescoço. A

mão começa a bater no peito, acompanhando o barulho constante. Ele sente as batidas do seu

coração acelerarem. Aceleram. Aceleram. Aceleram. Aceleram. Chegam a 120 bpm e

ultrapassam, não param. A dor se espalha por todo o lado esquerdo de seu corpo e a mão que

batia no peito segundos antes, agora o segura, como se pudesse acalmá-lo. O ruído do

metrônomo já não é mais reconfortante, só o faz lembrar da sua perda de controle sobre sua

vida.

Os minutos se passam. Os gritos se esvaem, como uma nota que acaba de ser tocada para

nenhuma plateia. Rômulo permanece ali, caído de seu banquinho, no chão frio, mas elevado,

tão perto de sua família, mas isolado. Não ouvirão suas súplicas, agora já baixas.Ninguém o

socorrerá. Não cometeriam tal infração de interrompê-lo em pleno momento de estudos.

O último batimento ressoa. Ninguém nunca mais ouvirá a música do coração desse pianista,

único capaz de interpretá-la. Sozinho, em seus pensamentos finais, o pobre homem só

conseguia pensar na peça, indecifrável aos seus contemporâneos, que jamais poderá

reproduzir para alguém. As batidas do metrônomo continuam sem falhas, impecáveis, assim

como Rômulo gostava de pensar que ele era.

-Camélia.

Dor Solitária

  Todos os dias, Marisa acorda, toma o seu banho matinal e se prepara para fazer o café, sozinha. Dobra suas roupas, cuida do seu filho Franz, faz seus afazeres domésticos e assim segue a sua rotina pacata, esperando Rômulo, seu esposo, chegar do seu trabalho como professor de música erudita em uma universidade renomada.

 Rômulo chega em sua casa, novamente depois das vinte e duas horas, Marisa já estava acostumada com as chegadas tardias de seu marido, mas aquilo a incomoda. Rômulo tira a casaca e se dirigia ao seu estúdio, até que Marisa o chama:

-Rômulo, mal volta para casa e já está indo se trancar com aquelas tranqueiras?

-Não são meras tranqueiras, Marisa. -Diz Rômulo. -São os meus instrumentos de trabalho. É o meu dever manter o legado de Liszt vivo.

-Que seja, aparentemente o legado de Liszt é mais importante que o legado da nossa família, você nem janta aqui, fico o dia inteiro a te esperar e no fim nem fala comigo.

-Eu tive um dia duro, meus alunos não apresentam nenhuma aptidão para serem intérpretes. Quando não são agressivos demais são sensíveis demais ao tocar o piano.

-Nossa, é realmente algo gravíssimo. -Fala Marisa em tom irônico. 

-Você não entende a gravidade disso! Eles profanam as melhores partituras da história da Primeira Arte!

-Não entendo, eu não entendo de nada relacionado a você. Sempre distante, hiper focado em seu trabalho, chegando tarde em casa. Rômulo, eu estou casada com um estranho.

-Marisa! Como pôde dizer uma coisa dessas?!  Diz Rômulo levemente irritado e Marisa responde.

-COMO EU POSSO DIZER UMA COISA DESSAS?! Todos os dias, eu tenho sido tolerante com esta situação. Acordo, faço as tarefas domésticas, cuido do Franz, que caso não saiba é o nosso filho!!! Almoço, janto e fico noites em claro esperando você voltar! -Marisa começa a derramar lágrimas discretas em seu rosto. -Tenho que lidar com a solidão o tempo todo, até quando você está aqui. Já que se isola no estúdio.

 Após o desabafo, Marisa não consegue mais conter suas lágrimas, suas dores, dores causadas pela solidão. Passado alguns minutos, Marisa retoma a sua postura e diz:

-O jantar está pronto, caso queira é só esquentar no micro-ondas.


-James Clarkemann.

 


A Busca Pela Perfeição

Lendo as páginas, percebi que Rômulo é obcecado pela perfeição. Ele busca ser perfeito em sua arte, busca a perfeição nas pessoas, na sua família, nos seus alunos, basicamente em tudo. Esse talvez seja o maior equívoco dele, porque as pessoas e as coisas não são perfeitas e nem devem ser, é impossível pensar e trazer à tona um mundo perfeito, porque ele não foi feito pra ser assim. E essa busca dele pela excelência máxima acaba afetando em outras partes da sua vida, acompanhamos em algumas páginas o sofrimento da sua esposa, que muitas vezes só queria ter a companhia do seu marido por um segundo e nem ao menos consegue ouvir a própria arte dele, tendo na sua realidade uma vida totalmente solitária e sendo deixada de lado. Acho que na nossa vida passamos por muitas pessoas que são assim ou, até mesmo, nós mesmos pensamos assim e nem temos noção. Isso é péssimo pra gente e pros outros que estão na nossa vida, porque muitas vezes esse perfeccionismo afeta nossas relações amigáveis ou amorosas pelo fato de que com um erro tudo já vira um caos. 

Mediante isso, eu decidi falar sobre a busca pela perfeição extrema que eu vejo presente no Rômulo. Não importa como o perfeccionismo se manifeste, ele sempre resulta em isolamento social ao longo do tempo e isso ocorre de forma natural na maioria das vezes. Nós vemos em um momento do livro que sua esposa, Marisa, faz a comida e o Rômulo não vai comer porque já quer ir trabalhar, é como se ele não se importasse nem um pouco com suas relações afetivas. Então, eu acredito, que no início desse livro o protagonista demonstrou o pior de um ser humano, pelo fato de que o maior problema não é ele ser um homem arrogante e chato, mas sim por ele ser indiferente em relação ao mundo e às pessoas, acabando por se tornar alheio ao restante das coisas, se não envolve música pra ele não serve, não merece sua atenção. E nisso se encaixa também sua esposa e filho. O que dá a entender é que o próprio despreza muitas pessoas, mas não verbaliza pra tentar passar uma imagem de “gente boa”. 


-Joelma do Calypso 

Insatisfações

Poucas páginas desse livro me resgata sentimentos melancólicos e infelizes pela forma que o pianista leva o relacionamento. 

Se eu tivesse um relacionamento com alguém instrumentista, que não gostasse de compartilhar sua música comigo, sinceramente não continuaria a levar minha vida com a determinada pessoa, não é assim que relações funcionam. Professor me traga livros mais emocionantes, achei esse cafona e apenas lembrava do puta que pariu da sala ao lado…
As vezes a moça do livro só precisasse mandar esse tal pianista pra puta que pariu também. 

-Raposa Sincerona 

Uma Família Fragmentada

 Antes de começar a escrever, pensei muito em falar de Rômulo. Contudo, como

vou falar dele se o que mais me chamou atenção foi a situação da sua família? Isso fica

claro de perceber logo no início do livro. Marisa, sua esposa, e Franzinho, seu filho,

parecem viver uma vida isolada a do músico, que é o grande culpado por isso.

É perceptível em vários momentos já nas primeiras páginas que a rotina que

Rômulo leva exclui por completo os outros integrantes da família. Os esforços de

Marisa em tentar saber do dia de seu marido, não só por ser sua esposa, mas sim por ser

uma ser humano que tem características de socialização, me fazem refletir, pois esse é

um cenário muito real em vários lares da nossa sociedade: Um marido ausente, que não

faz questão de dar detalhes do seu dia e nem se preocupa com as respostas que vai dar,

que vem por meios de múrmuros.

Uma intensificação disso acontece quando vemos que o lugar da casa que ele

passa mais tempo, a sala de estudos, tem isolamento acústico. Ou seja, nem a mulher

nem o filho podem ter o prazer de escutar nem que sejam só algumas notas do seu

trabalho. Uma casa completamente silenciosa, em que Marisa cria Franzinho de uma

forma que o garoto nem sinta tanto a falta do pai. Os momentos de alegria e brincadeira

entre os dois são completamente o oposto dos diálogos entre ela e Rômulo por exemplo.

Poderíamos pensar de vários formas sobre o que acontece nessa família, de

ambos os lados, sem necessariamente apontar o certo e o errado. Porém, as minhas

primeiras impressões sobre essa família, me fazem pensar que o pianista escolheu o seu

trabalho a seu lar desde muito tempo e que isso resultou no que se passa na história

atualmente.

-Taylor Swift Da Cantareira