sexta-feira, 14 de junho de 2019

Meu véio

 Estava ouvindo mais uma de suas histórias hoje mais cedo. A mesma que já me contou algumas vezes, mas sempre com algum detalhe diferente. Mesmo as repetindo, você sabe que adoro ouvi-las, discutir sobre elas, relembrar um passado que não vivi.
 Uma das que mais gosta de contar é sobre como o seu pai era apaixonado pela música e tocava violão como ninguém. Gosto que você acabou herdando e, apesar de não praticar o instrumento com o mesmo afinco, deixava sua mãe de queixo caído quando tocava o clássico "Jeux interdits" e o velho - como você sempre o chamou - morrendo de raiva quando ela dizia que você transmitia muito mais emoção interpretando tal canção. Certamente isso explica o quão longe você parece estar quando põe essa música para tocar. Nostalgia e saudade, sem dúvidas, se fazem presentes.
 Tais sentimentos me fazem lembrar, também, de quantas vezes fica cantarolando pela casa "tão longe, de mim distante, onde irá, onde irá meu pensamento" (Quem sabe - Carlos Gomes). e fala palavras nessa música que eu sequer sabia da existência;.Outra que adora relembrar é a das "touradas de  Madri". Ah, essa eu sei a história de cor e salteado. A famosa música entoada por mais de 150.000 vozes no Maracanã na Copa de 1950 quando o Brasil depachou a Espanha por 6x1 e que você era uma delas.
 Entretanto, nem só de quinquilharias é composto seu acervo musical. Lembro como se fosse hoje de quando me pegou ouvindo "Spending my time" do Roxette e se apaixonou ao primeiro ouvido. Na juventude dos seus mais de 80 anos, seu olhos brilharam, parece que haviam escondido um pote de ouro de você por anos e eu o entreguei na sua mão. Me fez colocar essa música até de toque do seu telefone. Outra que adora é "You're the still one" e, essa, confesso, também me faz viajar bastante. Lembro daquele seu Fiat Tipo, do cheiro das bugingangas que carregava nele e de todas as músicas daquele CD que parece que era o único que existia. Essa era a primeira delas.
 Ah, meu véio, só queria dizer que apesar de repetitivas, eu amo suas histórias.
 Muito. Mesmo.
 Olha, eu gostaria, de não mais gastar meu tempo mais com caprichos, por que sei que você ainda é o único. E sempre será.

E
U

T
E

A
M
O



 Meu melhor amigo. Meu pai. Meu véio.
Ana Thais Mattos

Mágica

Nos poucos segundos  de música já fico arrepiada, como mágica vem a sua imagem na minha cabeça. Ou melhor, a nossa imagem! Naquela praia, falando sobre o nosso futuro incerto eu só penso o quanto eu queria ter cada minuto do futuro ao seu lado.
Por que tão longe ? Por que tantos km nos distanciam assim? Todos aqueles momentos intensos que descrevo aqui nunca mais vão sair da minha cabeça. 

Como mágica você me beija, passa a mão na minha cintura e eu não me contenho. Um arrepio toma conta do meu corpo. Nunca senti isso por ninguém! Como pode uma pessoa que só vi uma vez, mexer com meus sentimentos ?
Quer saber... Eu me rendo! Me rendo a essa sensação incrível que é estar ao seu lado.

Me beija mais, não me larga. Por favor, não me larga! 
Puxa meu cabelo, me enlaça devagar, beija meu pescoço, tira toda minha roupa e me faz a pessoa mais feliz desse mundo. 
Como mágica você faz aqueles minutos serem os melhores da minha vida. 

O ritmo da música dita o nosso ritmo, e que ritmo incrível o nosso! Poderia passar o resto da vida naquele quarto ao seu lado, sentindo seu cheiro de Blue Chanel e me aconchegando no seu peito. 

Você me deixa em casa, me manda uma mensagem despedindo. E como mágica você se vai. 
Mas a nossa história não terminará como mágica, ela terá um final feliz, dignos de uma mágica super bem sucedida que todos aplaudem de pé. 


E quando me perguntarem:  Você  acredita em mágica ? Yes, I do.
Luz Luar

Raindrops keep falling on my head

Sem a música, a vida seria um erro. Não sei quem escreveu isso, mas essa pessoa tem toda razão. Como seriam aquelas festas de criança que a gente come feito vikings aloprados sem a música do "Super Fantástico, o balão mágico”? O que seria da entrada do Darth Vader sem a trilha sonora assustadora? Acho que se até o Mickey aparecesse com essa trilha eu sentiria medo. Como seria Phineas e Ferb sem a música icônica na abertura da série ou os comerciais sem o Dollyinho cantando a mesma música todo ano?

Casamentos seriam um saco sem uma playlist aleatória durante a recepção. E se não existisse a música “Parabéns para você”? O que cantaríamos em todo aniversário? Além disso, tenho certeza que todo mundo já conheceu um professor de matemática que criou uma pequena canção para que os alunos gravassem fórmulas que aparentemente eram impossíveis. O Carnaval, sem os hits inusitados de todo ano, seria um evento fúnebre.

A vida seria bizarra sem música.

Bem, eu preciso de música, para ser mais específico,  preciso de "Raindrops kepp falling on my head". O Homem Aranha conheceu bem essa música quando perdeu os poderes. Tento não dançar ao ouvi-la, mas é impossível não começar a sorrir com esse clássico. 
Momentos novos são sempre assustadores. A gente não sabe o que pode acontecer.  Março de 2019. Primeiro dia de trote na faculdade. A turma já tinha trocado mensagens, mas agora era “ao vivo”. Conhecer gente nova sempre foi assustador pra mim. “Vou ter que ficar pelado? Vou ter que dançar na frente de todos? Vão pintar meu cabelo para pedir dinheiro?A tinta azul costuma não sair direito”. Bem, mil coisas passaram pela minha cabeça e para tentar me acalmar... “Raindrops keep falling on my head”. Senti paz. Não tinha que me preocupar. Vai ficar tudo bem. 

Agosto de 2017. O câncer havia se espalhado em diversos órgãos do meu tio e a situação agora era grave. Eu nem conseguia olhar para ele deitado no hospital. De alguma forma, ele mantinha o sorriso. Naqueles momentos assombrosos aguardando por notícias, eu só queria paz e alguns minutos para acreditar que tudo ficaria bem. E então, mesmo com lágrimas, eu estava ouvindo a mesma música. “Raindrops keep falling on my head”.

Esses momentos sempre surgirão e vou buscar paz na melodia. A felicidade costuma não demorar quando toca essa canção.

Traduzindo quem sou em melodias improvisadas,
Joey Tribbiani

DREAM A LITTLE DREAM OF ME

Subversor justamente quando não é, o Cinema me captura pelos olhos, pelos ouvidos, pelos poros, pela ponta do pé: meu primeiro Nike veio daquele clássico do Tom Hanks, meu penteado é uma imitação barata do galã de ocasião, enxergo através de planos americanos, me visto de peça de marketing. Sinto que estou sempre em cena, sou um homem-cartaz, não pertenço a mim. 

Vivo como num filme de Chaplin, que é surdo em vez de mudo: eu sou capaz de capturar sons, os espectadores é que não. A maior força dessa simbiose reside na impossibilidade de viver qualquer cena sem trilha sonora mental, cadência dos meus passos.

Boas trilhas são chicletes de sucessos. Grandes trilhas são remakes eternos. Trilhas para a vida são sinestésicas. Quem me acorda é a sinfonia de Wagner, triunfo a Darth Vader. Porque músicas odiosas é que despertam, as sublimes fazem cafuné; em seguida, vou ao banheiro com o hit de Missão Impossível - cena censurada; meu Nescau tem gosto de Tim (-tim!): é chocolate que eu quero beber, dizia o merchan; sou Gene Kelly, quando tem água quente no chuveiro; o suor que me esbarra nas barcas exala o hino novelístico de Zé Ramalho; se eu chapasse, seria com os meninos de Liverpool e Lucy; e cada linha aqui é um degrau subido por Rocky Balboa. Como ele, qualquer dose homeopática de talento é potencializada por cavalares de afinco.

Troca a música, pois essa noite Ella veio me visitar. O elenco do quase ménage somos eu, Ela e de vez em quando uma discreta Norah Jones - voyer de sussurros. Entro fora do tempo, Ela diz que estou acima do tom, mas nada grave. Finalmente, entramos no compasso. Dedilho até ganhar aplausos do público. Eu que também assisto o solo. Brincamos à capela no refrão. Venero o clímax de seus agudos, até que peça bis. Nesse show de realidade, não há competição, apenas um dueto. Nessa guerra de saliva e papilas, não há vilões ou derrotados.

E é disso que trata a sinestesia: um híbrido entre erro cognitivo e percepção transcendental. Assim, toda noite recebo sua visita sem que suspeite. Os sopros d’Ella sempre trazem ventos D’Ela. Conheço tua textura através de notas. Sinto sem ter vivido. Que dó: não passa de um pequeno sonho de mim mesmo que assisto toda noite. Até que a música vai se esvaindo, sobem os créditos dos meus olhos sonolentos e novamente tenho que lidar com o fato de que não há som que se propaga no vácuo da solidão.
João Cadeado

Nightingale

O ano é 2013. Eu era apenas uma adolescente conferindo as mais novas músicas de
uma cantora que gosta. Uau, essa é muito dançante! Nossa, que letra profunda!
Caracaaa, achei a música pro crush! Pera, o que essa letra quer dizer? Me faz pensar
tanto em vovô, mas parece que ele morreu e estou cantando pra ele. Credo! Não vou
nem pensar nisso! Sim, ele é meu rouxinol. Amo tanto quando canta pra mim... Não
quero perdê-lo nunca!
Chegou 2017. Meu pássaro voou para o céu. Que dor é essa... Acho que jamais senti
algo parecido.

Você pode ser o meu rouxinol?
Cante para mim, eu sei que você está aí
Você pode ser minha sanidade
Me trazer paz
Cante para eu dormir
Diga que você será meu rouxinol
Alguém fale comigo
Porque estou me sentindo no inferno
Preciso de você para me responder
Estou sobrecarregada

Hoje, em 2019, escutar essa música me causa as mais diversas sensações...

Eu preciso de uma voz para ecoar
Eu preciso de uma luz para me levar para casa
Eu preciso de uma estrela para seguir, eu não sei
Eu nunca vi a floresta por entre as árvores
Eu realmente poderia usar sua melodia
Querido, estou um pouco cega
Eu acho que é hora de você me encontrar

Você é o meu guia, você é a minha luz. Como me sinto segura ao lembrar da sua
voz... Sabe, vô, sinto agora muitas saudades suas, muitas muitas. Lembro de como
cantava pra mim, de como me olhava, de como me auxiliava em cada passo meu... era
meu maior fã mesmo! Sinto um frio percorrer todo meu corpo, e uma lágrima ameaça
rolar sobre meu rosto. Estive perdida por um momento, mas agora me lembro de você e
posso ficar tranquila novamente! Sei que daí o senhor pede e cuida de mim, e é por isso
que estou bem! Agora é fácil sorrir ao escutar essa música, pois a tristeza da tua
ausência é logo preenchida pelo carinho da minha saudade. Sei que enquanto o seu
canto me guiar, continuarei no caminho certo.
Gratidão é o que sinto por ter dividido essa existência com você. Já já nos
encontraremos e verei a floresta por entre as árvores! Até breve, meu rouxinol!
Baby Shark

Silencie-se para sentir...

Silêncio. Nele eu escuto tudo. Me entrego. Ouvindo nada, escuto a mim mesmo, meus pensamentos, meus desejos.

Deixo fluir, e a cada ir e vir vejo a imensidão de possibilidades. Não me prendo a nada, flutuo entre as ideias. Permeio o que denominariam de impossível e insano. Aqui, no silêncio, eu posso tudo.

Sinestesia ampla, extrema, completa e complexa. Sinto tudo agora. Cada mínimo detalhe, aqui, nesse espaço em branco, nessa calmaria, não me passam desapercebido.

Pensando em cada uma dessas palavras, eu já viajei tanto...Pensei no que tenho que fazer hoje pensei propriamente em lhes escrever. Imaginei como seria viajar para a Itália. Olhei para a televisão e vi o programa da Fátima Bernardes, aff...Voltei ao meu real. 

Mas imaginei mais uma vez...O que as pessoas dessa recepção estão pensando de mim. Deve ser algo como, "ele tem assunto né", "que geração, só sabem se comunicar usando celular". E em partes, podem estar certos. Já que estou escrevendo na sala de espera do dentista, anotando tudo no bloco de notas do celular. Tudo isso porque, o Spotify não queria abrir minha playlist, para que eu pudesse me inspirar. E que contradição, pois cá estou, inspirado. 

Um momento...o que é isso que estou escrevendo.? Pra quem escrevo.? Eu não estou no aeroporto indo para a Itália.? Que cheiro de consultório é esse aqui.? Que barulho irritante de motor. Que revistas velhas e de decoração aleatórias são essas aqui.? Tudo isso na sala de embarque.?

Meu sexto sentido, agora, me diz que sou um mero escritor numa epifania de criatividade. Será.? Me perdi...foram tantas idas e vindas, pra tantas consciências, em diferentes lugares, quantas sensações...Em um simples silêncio. 

Percebi que no silêncio, mora a loucura, o desespero, os sonhos perdidos e distintes. É no silêncio que enxergamos tudo e ficamos calmos. Até perceber que é nele, que mora o caos da nossa sinestesia.

Na simples ausência de tudo. Só eu, aqui, comigo mesmo me descobri mais sinestético do que jamais imaginaria. Toquei-me ou na verdade, tocaram-me de que, somos sensação, sentido, imaginação, sonho, acaso. Somos tudo, somos subjetivos, anfigúricos e infinitos"Es".

Shakespeare Iludido

Singular

MÚSICA: COTA NÃO É ESMOLA- BIA FERREIRA

      Eu não escolhi Publicidade. Nem na graduação, nem na música. Até entendo que é gostoso escutar um Zeze Di Camargo e Luciano, um Justin Timberlake e uma Anitta. Mas sabe quando vocês arrepiam até o ultimo pelinho? A sensação de que aquela música tem uma função social e não apenas comercial? Quando as pessoas aplaudem ao invés de gravarem o show inteiro? É o que a Bia Ferreira faz. Não sei se conhecem, mas deveriam. E nem tentem escutar as músicas dela como se a tevê estivesse no comando: QUEIRA! COMPRE! TENHA!, mas como se o coração mandasse: SINTA! EXPRESSE! AME! 

      A primeira vez que tive contato com a música “Cota não é esmola”, que, até hoje, sou fascinado, foi ano passado. Em meio a tantos vídeos recomendados para apertar no youtube, eu vi um rostinho bravo, sentado numa cadeira sem encosto e segurando um violão como se fosse o próprio filho. Pensei que iria ser só mais uma artista que a gente enjoa de tanto escutar. Mas foi aí que ela começou a falar, falar muita coisa que precisamos ouvir por uma voz de raiva, porém, esperançosa. E lá estava eu, privilegiado por ser branco-alaranjado e hétero, levando tapas e mais tapas na cara durante sete minutos e dezessete segundos.

      Escutar Bia é sentir o Moçambique, os Brasis e o Sri Lanka no corpo. É despertar o que parece estar apagado. É jogar um balde de água fria, enquanto você estava dormindo. É dizer que o povo preto veio para revolucionar e que o belo definiu o feio para se beneficiar. É musica para educar e para se sentir incomodado. Você não vai relaxar, mas vai querer se mover, fazer revolução, escrever texto sobre como a sociedade é um ninho de cobras e mandar todo mundo escutar essa puta artista.

      Não é Caetano, não é Gil, não é Maria Bethânia. É Bia. Lésbica. Preta. Favelada. Militante. Gostosa. Empática. Transformadora. Aquela que quando era menor, chegou chorando em casa porque falaram que o cabelo dela era de bombril, mas a mãe logo resolveu, afirmando que, pelo menos, tem mil e uma utilidades. Pequenas coisas que escutamos nos modifica e, às vezes, para muito.

      Escutem essa incrível mulé. Não comprem a música. Sintam. Transbordem revolta pelo corpo. Dancem, mesmo que todo mundo esteja olhando. Sejam. 
Profundos.
Gato de Botas