terça-feira, 24 de maio de 2016

Três palavras, sete letras

Eu te amo.
Eu te amo.
Eu te amo.
Eu te amo tanto que sei que ninguém poderá te amar mais do que eu. Ninguém poderá te fazer feliz como eu te faço. Ninguém poderá cuidar de você como eu cuido. Ninguém.
Eu te amo tanto que me preocupo com o que vão pensar de você. Com essa roupa curta e  esse batom vermelho, você pode passar a imagem errada, meu amor. 
Eu te amo tanto que não quero que você beba. Você pode acabar fazendo besteira, se arrependendo e depois vai ficar choramingando no meu ouvido. Mas e eu? Eu posso, corpo de homem é preparado pra receber álcool.
Eu te amo tanto que não suporto a ideia de você se divertir sem mim. Afinal, amo tanto seu sorriso que quero presenciar todos eles.
Eu te amo tanto que não conseguiria viver sem você. Se você me deixar sozinho, eu simplesmente vou me jogar na frente de algum carro. Desculpa, mas é a única opção, meu amor.
Eu te amo tanto que não gosto de ver você com esses amigos. Eu confio em você, meu amor, é neles que não confio. Homem é um bicho ruim, que não sabe se controlar. É por isso que eu faço besteira de vez em quando... Você não entende porque é mulher.
Eu te amo tanto que não gosto de ver você com essas amigas. Eu confio em você, meu amor, é nelas que não confio. Todas soltas, abrem as pernas pra qualquer um. Podem ser uma péssima influência pra você.
Eu te amo tanto que meu corpo não aguenta ficar longe do seu. Desculpa se eu forço a barra pra transar de vez em quando, mas é que seu sexo é tão bom que vicia, meu amor.
Eu te amo tanto que quero que você confie em mim de olhos fechados. Quero que confie o suficiente pra me dar a senha do seu Facebook. Afinal, quem não deve, não teme.
Eu te amo tanto que não me aguento de saudades. Preciso que você arranje tempo pra mim antes da sua família, seus amigos, seu trabalho. Preciso que você durma comigo todos os dias. Preciso.
Eu te amo tanto, mas só te amo enquanto você for minha.
Só minha.

Lucy in The Shy

Dia cinza de março

Março nunca foi tão cinza. Era domingo, meu avô me levava para brincar na pracinha da cidade. Carregávamos minha bicicleta na mala. Não sabia o que estava prestes a acontecer. Na verdade, até hoje, 25 anos depois, não tenho recordações muito claras. Foi um impacto repentino, dizem. Não se sabe ao certo como aconteceu o acidente, mas os resultados foram terríveis; um dia que, apesar de frio, tinha tudo para ser proveitoso. Nosso carro bateu de frente com outro que vinha na mão contrária e, se não fosse por eu estar no banco de trás, corretamente preso – coisa que vovô sempre se preocupava  não sei se o fim teria sido pior. No outro veículo, uma menina com sua avó, traçavam outro caminho, até que algo mais forte cruzou nossas histórias. Paulo e Mariza, meu avô e a avó dela, respectivamente, não suportaram os ferimentos. Posso dizer que ter três anos naquele momento deve ter, de certo modo, me ajudado a lidar com a situação. O fato de eu não ter noção total do que aconteceu me impediu de enfrentar traumas maiores. Mesmo assim, me sinto pronto para contar sobre como a vida sempre arruma formas de nos surpreender.

Chamo-me Pedro. Mudei-me para Califórnia há quatro anos. Tenho 28 anos e trabalho em um hospital, pois sempre me senti apaixonado por medicina. Meu desejo de ver as pessoas bem sempre foi maior do que meu próprio bem estar. Salvar vidas é renovador para a alma e sei que não poderia estar fazendo diferente. Foi em um dia aparentemente “normal” também que encontrei a Luiza. Pra ser sincero, foi um segundo que olhei nos olhos dela, enquanto cruzávamos o corredor comprido por onde todos os médicos passam quase que involuntariamente ao longo do expediente. Algo aconteceu na hora que nossos olhos se encontraram. Eu não sei explicar.

Dias passaram, chegou o final de semana e eu tinhaaula de especialização para a carreira no sábado. Chegando lá, quando percebo, Luiza está sentada no meu lado. Sorrimos. Ali, o mundo pareceu parar para mim. Começamos a conversar e descobrimos tantas coisas em comum, que parecíamos nos conhecer anos. Ela também nascera no Brasil. Não na mesma cidade que a minha, mas mudou-se para lá ainda quando criança. Trocamos nossos telefones e nos despedimos com a sensação mais inexplicável possível passando por nossas cabeças. Seria coincidência? Só sei que às vezes a vida nos presenteia com pessoas que, à primeira vista, nos remetem um sentimento diferente, uma empatia comum. 

A partir de sábado, passamos a nos encontrar. Convidei-a para jantarmos no domingo e continuar o papo do dia anterior. Foi uma noite agradável e relaxante. Nossa afinidade só crescia e foi assim pelo resto dos meses, dos anos... Estamos juntos há fortes três destes. Agora a parte mais impressionante: conversávamos, no início, sobre nossas vidas no Brasil. Descobri que Luiza, similar a mim, perdeu sua avó em um acidente quandopequena. Descobri que Luiza estava no carro com ela.Descobri que foi em março, um dia feio... Frio. Descobri que o motorista do carro oposto também faleceu. Descobri que quem o acompanhava era eu. Descobri que o impacto dos carros fazia sentido com o impacto que senti ao olhar para ela sem a conhecer ainda. Descobri que nossa história se cruzou de novo, por motivos desconhecidos, e que Luiza me conhecia bem mais do que eu pensava. Descobri em Luiza, uma parte que nesses anos todos faltou em mim e sei que, agora, encontrei um lugar seguro para ser feliz.


Lia Mendes

"Ela é tão flor
que quando passa
tudo em volta
vira primavera.


Ele é tão luz
que quando chega
toda escuridão
clareia.


Num café da vida
Se encontraram
Namoraram
Casaram.


O amor deles é coisa
bonita de se ver
é um show 
de Caetano e Gil.


O amor deles é 
uma tarde de outono
no Arpoador
vendo o sol se pôr.


O amor deles é 
um livro de Machado
lido embaixo do edredom
num dia chuvoso.


O amor deles é
domingo com futebol 
feijão com arroz
prosa e poesia.


O amor deles
nos dá vontade de amar."


 Spencer Reid

Saudade do que era

Chovia e fazia frio quando ficamos juntos pela primeira vez. Dentro daquele carro, no final daquela rua, porque ninguém podia saber. Me sentia envolta pelos teus braços, protegida pelo teu abraço e aquecida pela tua alma. Ficamos horas entre os olhares e os melhores beijos do mundo, como se nada mais importasse, só nós dois, ali, juntos.
E foram assim todos os nossos fascinantes encontros. Cada vez mais apaixonantes, cada vez mais envolvidos, cada vez mais querendo mais. Até que nos vimos amantes, nos vimos amados. Completados um pelo outro. Todos já haviam percebido, todos, agora, deveriam saber.
Recebia tuas mensagens todos os dias - aquelas mesmo de bobo apaixonado - me desejando um lindo dia como eu, uma ótima noite me mandando sonhar com você e até aquelas repentinas só pra dizer que estava com saudade ou perguntar como eu estava. Ligações todos os dias à noite, contando como foi o dia e dizendo o quanto queria que chegasse logo o próximo dia de nos vermos. 
E foi assim por meses. Conversas intermináveis, abraços apertados e intensos, sorrisos soltos, risada alegre, amor. Aquele amor que você quer que jamais acabe, aquele amor que você jamais se vê sem. Aquele amor que você só via em filme e agora estava vivendo, pela primeira vez. Me sentia realizada, feliz, repleta, transbordante. 
Uma pena que, aos poucos, tudo isso foi mudando... Uma pena que todas essa frases tiveram que ser iniciadas no passado. Uma pena que nada mais é assim. Uma pena que não vejo mais, no olhar, aquela alegria e vontade de estarmos juntos. Que não vejo mais demonstração de carinho e preocupação como antes. Mensagens se tornaram raras; conversas, rasas; abraços, secos; encontros cada vez mais sem graça, indiferentes. Ontem fez frio e choveu, mas, diferente daquele primeiro encontro, senti ausência do teu abraço, do teu calor, me senti vazia. E pior que sentir falta de alguém que está longe, é sentir de alguém que está ao meu lado.
Uma pena, maior ainda, que só eu sinto falta. Sou boba - literalmente - apaixonada que ainda espera que tudo volte a ser como no começo. Amor? Talvez ainda exista, mas parece que todo aquele sentimento esbraseante, apaixonado, vivo, entusiasmado e aceso se tornou apenas uma chama serena, prestes a apagar. 

Frida Kahlo

Minúcias

Tem umas coisas que só olhando bem de perto para notar o quanto são enormes, gritantes, vastas. Eu poderia dizer que você é a personificação da amplitude. Extenso. Denso. Intenso. Para mim, um casal é movido por detalhes, detalhes esses que nem um fotógrafo aspirante a Salgado é capaz de captar e acho que é justamente isso que faz os duetos apaixonados serem tão singulares. 

Seria alguém apto a reparar sua pinta do lado esquerdo do queixo que aumenta de tamanho conforme o movimento do seu maxilar? Ou o jeito que você ri quando se sente sob pressão? Como olha no relógio repetidas vezes quando está ansioso. Ou, quando vamos a praia do Leme, como mistura o mate com a limonada milimetricamente para que fique de acordo com o seu gosto. O jeitinho de abrir a porta para que não faça barulho. Como escova os dentes de costas para o espelho. A maneira de abotoar as camisas sociais – sempre tão amarrotadas. Ou o estalar dos dedos para se poupar de um nervosismo repentino. 

Foi você que insistiu para que eu experimentasse açaí depois de uma prova de física cuja matéria eu te ensinei na noite anterior. E foi você que me levou ao show daquele sujeito num feriado chuvoso.... Não me lembro bem do artista, mas me recordo do resfriado que peguei. Com você, fiz uma viagem à Itaipava, sob tensão, pois a gasolina estava acabando. Não acabou e tive que escutar a respeito da minha neurose durante os dias que passamos lá. Com você, também, chorei por causa da bronca que levei de meu chefe e tive seu esmero sob forma de afago nos meus cabelos. Vi você ir de havaianas para um jantar de sua família enquanto eu usava um salto caro parcelado no cartão. Ouvi você dizer que fico linda sem maquiagem quando, na verdade, eu estava de corretivo e havia sofrido para usar o curvex. Você nem sabe o que é curvex. Lembro quando decorou alguns personagens da minha série favorita. Era Drew, não Drake, mas eu sorri consentindo com a cabeça porque eu sabia que você havia se esforçado.

Nada se compara ao que é – só – meu e seu e é exatamente isso que faz a Laura e Gustavo diferentes do Paulo e Júlia, da Luana e Raquel, do Daniel e Lorena, do Alexandre e Antônio ou da Débora e Marcelo. As coisas pequenas, na verdade, são gigantes e, pensando melhor, não nos torna singular. Nos torna plural.

 

Valentina 

Terminou, como tudo termina. Não abruptamente, como um piscar de olhos. Pelo contrário, se arrastou, gerando meses de melancolia por saber o que está por vir. Meses aproveitando a dor de cada encontro, a saudade antecipada, o pesar de saber que em breve esses momentos seriam apenas lembranças.

Os sorrisos, os abraços e os beijos escondidos de todos os dias se tornariam menos frequentes e por isso eu me agarrei naqueles últimos meses como se minha vida dependesse de passar cada segundo ao seu lado.

1h15 não é um vôo particularmente longo, mas nossa vida jamais permitiria visitas regulares. E dói não poder fazer nada. Eu fui buscar a felicidade que havia me deixado há muito, mas não tinha a intenção de trazer a tua comigo. 

Parados no portão de embarque, vestindo uma máscara cuidadosamente construída, tentávamos ao máximo parecer fortes. Ambos sabíamos que no momento em que eu embarcasse, nós dois desabaríamos em lagrimas. Ambos sabíamos que as próximas vitórias não teriam o mesmo gosto. E nos perguntávamos por que tinha que ser assim, mas também sabíamos a resposta: tudo termina.

E nesse ultimo momento sentimos como se os últimos meses tivessem passado num piscar de olhos. E ao mesmo tempo em que desejamos ter mais tempo, desejamos que nada disso tivesse acontecido. Que nunca tivéssemos nos apaixonado, porque era errado, porque esse relacionamento começou fadado ao fracasso e nos deixamos iludir nos últimos 5 anos.

Os próximos dias vazios seriam preenchidos pelas nossas lembranças. Músicas, filmes, comidas, cheiros e sensações que agora vêm acompanhadas de tristeza. Tristeza que já é parte de mim; está nos meus dias, nos meus atos e no meu coração... e eu me visto de saudade do que já não somos nós.


Peter Parker

Nas asas do amor

Embarquei em um avião. Burlei o sistema, sem passagem ou qualquer tipo de documento. Minha bagagem era minha roupa de corpo e uma foto de mim mesma que levava no bolso de trás. Os corredores eram largos, as poltronas confortáveis, e as comissárias de bordo sorriam para mim de modo a me fazer sentir especial. ‘Devo ser a milionésima passageira’, indago.

Por sorte, havia, no fundo do avião, um assento sem dono. Não era grande coisa (estava, inclusive, manchado de café), mas continuava sendo um assento. Resolvo, então, analisar o ambiente ao meu redor. De um em um, os outros passageiros – executivos e dondocas em sua maioria – adentravam a first class com seus narizes empinados e suas malas colossais, sempre com os mesmos traços e trajes finos. A produção da elite já havia sido padronizada há séculos, e só me restava a econômica para espremer minha esqualidez. 

Passados alguns minutos, inicia-se todo o ritual da decolagem. O burburinho se aplacava à medida que eram transmitidas todas as informações sobre o voo, na voz de um piloto certamente inveterado. A senhorinha do clichê já rezava o pai-nosso enquanto espremia um terço entre suas mãos. A criança mimada, ora, essa já berrava enquanto a mãe tentava, sem êxito, aquietá-la. Um arquétipo de voo já se encontrava instaurado naquele pássaro de metal enferrujado, e eu já sabia como a história terminaria.

Você vem sempre aqui?, perguntou o homem barrigudo de meia-idade que se expandia para além de sua poltrona. Seu aroma um tanto quanto peculiar me aventava memórias de minha distante infância, quando minhas colegas de classe brincavam de casamento e eu, como sempre, ficava para titia. Jurei, pelo deus que venerava a senhorinha do terço (a qual já passara a navegar no Facebook com o 4G de seu iPhone 6) que, se ainda tivesse dentro de mim a criança que um dia eu ousei ser, soltava um palavrão em nome de minha inocência pueril – um daqueles bem cascudos, de abrir a boca da vovó Creusa e fazer o tiozão do pavê genérico soltar uma gargalhada, seguida de uma série de flatulências e uma eventual diarreia desconcertante. No entanto, limitei-me a virar o rosto para o outro lado, de modo a encarar o muco que escorria do nariz da criança da fileira à minha direita. O garoto, agora silencioso, brincava com um pequeno punhado de meleca que ajuntara enquanto sua mãe fazia uma ligação para algum ente ‘querido’.

Qual o propósito de sua viagem? - interpelou o mesmo homem à minha esquerda, com uma mão cabeluda acariciando sua região púbica. Repudiaria a cena se pudesse, mas algo visceral em mim fez com que eu jogasse seu joguinho libidinoso como a jovem inconsequente que um dia ousei ser. 

Vou aonde for o avião - disse, parecendo mais interessada do que realmente estava. Concomitantemente ao desenrolar do diálogo acintoso, a ave Dumontiana subia, rasgando os céus enegrecidos por nuvens tempestuosas de um lugar qualquer. Minha vida sempre fora um mar de improvisos, e dar nome a locais, para mim, era dispensável. Nunca sabia, ou queria saber onde me encontrava. “Vou aonde for o avião” poderia ser o lema a rumar minha vida.

E, como num passe de mágica (ou força do acaso, como quiser), fez-se a profecia. No auge de seu voo, a aeronave começou a vacilar no meio de raios e trovões que rugiam repetidamente. O piloto inveterado expressava na sua voz o temor de um iniciante, a senhorinha do terço já desmaiara e a criança berrona chorava nos braços da mãe, que, desesperada, utilizava a própria cria como escudo contra uma eventual-mas-quase-certa queda.

O resto é só um borrão na minha cabeça. Lembro-me da histeria generalizada (a primeira classe – surpresa – era a mais audível), da derrocada em espiral inverso com tripla pirueta do avião, das máscaras de ar que não funcionavam, dos estereótipos que cada vez mais se confirmavam até que um boom ensurdecedor anunciou o fim da queda. O caos deu lugar às chamas, a gritaria ao silêncio e a vida… bem, essa segue. 

Algum tempo depois, embarquei em outro avião, sem passagem ou qualquer tipo de documento. O fim da história? Meu quinto sexto divórcio.


S. do Saxofone