quinta-feira, 12 de setembro de 2019


VÁ COM A CERTEZA DE DIAS MELHORES 
Sempre estivemos juntos. Sempre estivemos perto. Eu tinha a você e você tinha a mim. Somos uma dupla, somos irmãos. Desde o primeiro dia que você nasceu sabíamos que íamos ser melhores amigos. Vivemos muitas coisas juntos, dos almoços na casa da vovó até aventuras ilícitas pelas ruas da Lapa.  
O Brasil mudou, e nós também mudamos, e os assuntos bobos que tínhamosagora já não são mais, sentávamos a mesa e debatemos, conversamos, sonhamos com uma união da esquerda e como queríamos ganhar essa eleição. E isso levou meses, como em um ritual de fim de noite, os debates eram ótimosvocê com Ciro e eu com Lula, ou Boulos. Você não acreditava que o Lula era um preso político, já eu sempre acreditei. Você caiu na lábia do Moro e da Laja Jato, eu quase sempre desconfiei.  
O ano de 2018 foi foda. A gente se engajou, se envolveu demais com debates infinitos com os novos bolsonaristas. Foi um ano de estresse, de bate boca e de cansaço. Até que chegou o fatídico mês de outubro e com isso vieram as eleições. Nós fomos cheios de sonhos e de ver o país voltar pros eixos, porque já viemos de tempos TEMERososAcordamos naquele domingo do primeiro turno, fomos para as nossas missões de trabalhar em mais uma eleição e com o coração cheio de esperança de dias melhores. No fim do dia estávamos no sofá, apuração rolando e a torcida grande pelo resultado que não foi bom, mas nos deu um alento. Haddad estava no segundo turno e agora todas as nossas forças era fazer que o Bolsonaro não ganhasse, que iludidos nós somos, mas tínhamos a certeza que poderíamos mudar alguma coisa e isso era a coisa mais viva em nossos corações. 
E entre o primeiro e o segundo turno, continuávamos nossos rituais de debate. Fomos na onda do vira voto porque estava foda, Bolsonaro estava na frente e caímos matando, tentando em nossa bolha mudar a cabeça dos outros. E em mais um fim de noite foi decretada a vitória do atual presidente, ficamos paralisados e pensando o que seria de nossas vidas. Eu buscando entrar numa universidade pública e você pensando em ir morar fora. 
É meu irmão, apesar de todos os pesares nós alcançamos o que queríamos. Eu estou aqui e você se preparando para ir embora com a certeza que teremos mais uns anos de agonia com esse governo nefasto que vai na contramão de tudo que acreditamos e sonhamos para nosso país. Vá, mas vá com a certeza que esses tempos sombrios não vá durar até 2022 e que você possa voltar em um país melhor para todos. Essa não é uma carta de despedida, é um até logo para meu maior amigo, meu irmão que eu amo como tivéssemos sido gerados no mesmo ventre 
P.S.: Te amo demais!  

João Danado


Armas, pra que te quero?

O quão cidadão de bem é aquele que porta uma arma dentro de casa? Não, não me venha com esse papo de defesa pessoal. Deter algo que numa fração de segundos pode tirar a vida de alguém te faz poderoso, isso todos sabemos, mas será que estamos preparados para lidar com esse sentimento novo, de posse e de controle? Apostaria que não.
Eu, que nasci e fui criada na favela sei bem o que é conviver com armas, e acredite, não é nada confortável. A ameaça não estaria mais só naqueles que estão fardados, ou porventura, naqueles que enxergam o mundo do crime como opção. Ela estaria bem ao nosso lado, nas mãos dos nossos vizinhos, talvez parentes. Relações de medo e desavenças seriam criadas. Numa sociedade em que o número de pessoas mortas por arma de fogo aumenta exponencialmente, ter uma medida dessas como proposta de governo é  - no mínimo - irresponsável.
No entanto, sabemos, é claro, para quem essas armas seriam facilmente concedidas. O morador da favela, por sua vez, não precisa de arma para se encontrar em zona de perigo, já que seu guarda chuva, por exemplo, pode ser confundido com um fuzil. Como diria Cidinho e Doca “Pois moro na favela e sou muito desrespeitado/A tristeza e alegria aqui caminham lado a lado”,sendo a qualidade de vida dos que habitam as comunidades do Rio muito inferior à daqueles que não atravessam sequer o túnel Rebouças.
Infelizmente, pode ser percebido entre nós, moradores de favelas, o constante interesse em buscar por uma alternativa de segurança que não nos é fornecido pelo aparato do Estado, de tal forma que muitos dos nossos acabam por cair, no que podemos chamar de conto do vigário, em que o porte de arma é visto como solução. Posso até não ser alvo direto desses revólveres, mas temo pelos meus que são. Primos, tios, amigos todos esses que por suas cores ou condição social estão sujeitos a ataques dos mais diversos.
 A definição de cidadão de bem, portanto, é deturpada todas as vezes que utilizada com o propósito de engrandecer o “eu” e atacar o outro, seja este qual for. Dentro das favelas, ou fora, a solução nunca será os 80 tiros dados.

 Oblíqua Matoso


    Todos nós já vivemos ou iremos viver algum drama pessoal,e isso é fato,uma vez que,na vida nem tudo são flores,como diria minha avó.E é sobre ela que usarei esse espaço para desabafar e te entreter.
    Tudo começou em 1968,com o nascimento da minha mãe durante a Ditadura Militar no Brasil,uma época onde o tradicionalismo e o fundamentalismo reinavam no país.Os anos foram passando e a relação entre mãe e filha cada vez mais se desgastava.Na infância e adolescência,minha genitora sofreu traumas inesquecíveis que carrega com si até hoje,e todos eles envolvem o relacionamento péssimo que vivia em casa,chegando até a sair de casa com 17 anos.
    Já na fase adulta de minha mãe,pouco se alterou: uma relação deteriorada apenas piorou com o meu nascimento.Hoje em dia,elas não se falam,e meu único contato com minha vó é através de ligações,que duram cerca de quarenta minutos,visto que ela está com depressão e síndrome do pânico,e sua única forma de desabafar é quando ligo.Até poucos anos atrás,vivia sozinha em uma casa confortável,entretanto,com o progresso de suas doenças,ela preferiu se instalar em um asilo desgastado em Quintino,visto que sua instalação na mesma casa que minha mãe era inviável,fato que nos afastou mais ainda e piorou seus problemas psicológicos.
    Sinto grande peso e culpa,por não saber como ajuda-la e também por ter pena e carinho por uma pessoa que fez tanto mal à minha mãe ao ponto do laço familiar ser rompido.Meu psicológico não consegue diferenciar se o que sinto por minha vó é um amor natural ou comiseração.Nem tudo são flores,mas quando forem,regue-as.
Somália Sucessada

Nesses tempos tenho sentido o ar pesado, um leve desconforto ao respirar. A gravidade parece ter ficado mais intensa, essa força me puxando cada vez mais para baixo, impedindo meus pensamentos de irem muito longe. A todo tempo traço paralelos entre o que poderia ser e o que é de verdade, o que eu esperava viver e o que no fim acabo vivendo.
Todo esse peso não é desconhecido. Ele esteve aqui naquela manhã quando recebi a notícia de que meu avô poderia estar morto. Os fatos ainda estavam bagunçados, confusos, a conclusão incerta. Lembro de desejar tanto que estivesse tudo bem, que aquilo não passasse de um mal entendido. A pior possibilidade de todas pairava sobre meu quarto, me sufocando pouco a pouco.
E então, meus desejos não significaram coisa alguma e, de uma hora para a outra, ele se fora, me deixando sem ar nos pulmões, minha cabeça confusa como se estivesse caindo. Meu avô tinha sido tirado de mim. E com ele se foram conselhos, palavras de carinho ditas com uma voz rouca, gestos de afeto, presentes incoerentes com a minha idade, comentários aleatórios sobre livros e filmes sobre os quais eu nunca teria ouvido falar e mais milhares de cinzas de cigarro espalhadas pelo chão.
Meu avô era um universo à parte, um símbolo de uma cidade desconhecida e assustadora; alguém que eu conheci tão pouco, mas sobre quem sabia muito. A maior parte das coisas que sei, me contaram. E me contaram tanto… Principalmente, me contaram daquela vez que o calaram por fazer perguntas e ele não se abalou. Me contaram da tentativa de censurá-lo e pude sempre então olhá-lo como alguém cuja trajetória me possibilitava experimentar a liberdade. E então pensei que a experimentaria para sempre. Hoje começo a duvidar disso.
Um pouco mais de uma semana antes de meu avô morrer, ele me ligou. Conversamos pouco porque eu era pequeno e não tinha muita paciência para falar com pessoas que amava. Prometi que ligaria na outra semana. Não liguei. Nunca vou me perdoar por isso, porque depois não havia mais tempo. Não tive outra chance de ouvir sua voz. 
Me assusta pensar que amanhã talvez eu perca a liberdade de ser quem sou, de amar quem amo. Me assusta não ter outra chance de ouvir minha própria voz. Quando tiraram meu avô de mim, também me tiraram um futuro ao seu lado, ouvindo seus ensinos, suas histórias, suas piadas. Me deparo agora com outro futuro meu ameaçado de extinção - um em que posso escrever histórias reais, sobre acontecimentos reais, sobre pessoas reais em um país que não me dá medo.
Souza Queiroz

Meu 2018

  Foi em meio à histeria de lados opostos querendo vez para gritar no microfone da verdade, que tive meu ano mais sombrio. Em 2018, peguei-me escrevendo no meu diário sobre depressão e deixar de existir. Aquele ano parecia rasgar cada fio tecido cuidadosamente para me sustentar sob minhas inseguranças e medos, mesmo que fossem irracionais.
  Cada professor do ensino médio parecia me estapear a face com as palavras “a vida não espera”, e em cada esquina se revelava mais uma pessoa confiante em mostrar o quão cobertos de ódio eram seus pensamentos. Assim, a cada dia, a esperança parecia deixar meu coração. Minha alma se enchia de angustia à medida que os dias difíceis chegavam, um ano de duas escolhas importantíssimas, uma para definir o futuro da nação e outra para rumar minha vida. Uma delas não era só responsabilidade minha, mas a outra caiu sobre minhas costas com um peso que nem a água fria do banho no fim do dia carregava pelo ralo.
  A decepção comigo mesma pairava no ar que eu respirava como cinzas sobrevoando o ambiente após o incêndio. Mas não havia fogo dentro de mim, só um pesar, que se externalizava como podia e sempre que eu fraquejava em impedir. Por vezes na volta para casa eu sentia os pensamentos se misturarem e os óculos embaçarem com as lágrimas invisíveis que são despejadas no transporte público.
  As coisas só pioraram com a proximidade daqueles dois dias de novembro, ainda mais depois de outubro. A falta de ar já não era só interna e restrita ao meu eu, ela também alcançou meu corpo, e o medo se tornou um companheiro soturno e onipresente.
  Mesmo assim meu 2018 foi silencioso e estampado com diversos sorrisos que secretamente significavam uma oração à um Deus que fosse misericordioso e capaz de mais uma vez permitir que o amor e a luz encontrassem seu caminho de volta. E como sempre fui, apesar de tudo, uma pessoa de fé, minha última lagrima de 2018 foi uma reza por tempos melhores e propícios para tecer novos fios.
Margo Blue

Diálogo datado

      O papo começou assim:

      - “Ella, no cenário atual, o que mais te afeta?”

      E, de repente, ela decidiu me contar uma história, cujo conteúdo narrarei logo abaixo:

      Rio de Janeiro, 05 de abril de 2017:
Era uma quarta-feira e Ella beijou uma mulher, pela primeira vez e em público. “Claro, apenas por curiosidade”, concordaram. No entanto, entender a bissexualidade como orientação sexual e não apenas como “curiosidade de beijar alguém do mesmo sexo” era tarefa muito difícil pra ela. Mais ainda no meio de uma praça com vários bares. Era dia de semana e a praça estava vazia. Não tinha jogo do flamengo, como costumava ter nesse dia, fez questão de consultar. Mas, foi só o beijo começar que até torcedor do vasco surgiu pra secar. Nesse dia, Ella entendeu Foucalt e o seu modelo panóptico como nunca havia feito antes. 
      Rio de Janeiro, 03 de março de 2018:
Fazia quase um ano que ela estava em estado de negação. Mas, nesse datado sábado, Ella começou a se entender bissexual. Não que já não soubesse, mas, pela primeira vez respondeu “bi” com a cabeça erguida e sem morder os lábios por vergonha ao ser questionada a respeito de sua orientação sexual. Na verdade, foi apenas uma falsa sensação de liberdade. Nenhuma indagação havia sumido, mas lhe pareceu um grande passo no seu processo de aceitação.

      Rio de Janeiro, 23 de agosto de 2019:
Ilana a chamou pra sair. Ecoavam vozes em sua cabeça: “Praça? Público? De novo? Não, definitivamente não”. Não era quarta-feira, mas Ella ficou engasgada. Desencorajada socialmente, resolveu mandar um migué, daqueles que tem perna mais curta que formiga. Falou que seu término era recente e que não ia rolar. Ila aceitou seus motivos, mas os reais até hoje descem quadrados pela sua garganta.

      Rio de Janeiro, 11 de setembro de 2019:
É verdade que rotineiramente Ella escreve sobre o que mais lhe incomoda, mas essa é a primeira vez que escreveu sobre sua sexualidade. Ela sempre dizia que o incômodo é o primeiro passo rumo à mudança. Além disso, hoje sim é quarta-feira, mas isso não faz mais diferença em sua vida. Decidida afirmou: “que venha a torcida do vasco, a do flamengo e até a torcida do Crivella. Que venha dias e finais de semana. Que venha a praça lotada ou vazia. Mas, que venha, principalmente, a coragem de não datar o que não pode mais ser datado”.
Desceu Quadrado

Joia de Família 

            Família sempre foi um assunto complicado para mim. Eu nunca quis ter muito contato com meus pais, pois não queria ter o trabalho de mostrar o meu verdadeiro eu. Era mais fácil ser presenteado sendo quem eu deveria ser. Por outro lado, meu pai e minha mãe constantemente tentavam se aproximar de mim e construir uma relação mais afetuosa, mas esse achegamento nunca foi bem sucedido e essa proximidade nunca existiu. Porém, mesmo com os obstáculos que eu colocava no caminho, eles nunca desistiram.
            Geralmente, me perguntava o motivo da existência dessas barreiras na nossa relação e chegava a algumas respostas fáceis de acreditar. Na primeira resposta eu culpava as próprias relações tóxicas dos meus pais com suas respectivas famílias, as quais eu não pretendia espelhar. Logo, para evitar uma relação tóxica, eu preferia não ter relação nenhuma, ou quase nenhuma. Já a segunda resposta era ainda mais reconfortante, ela se relacionava com a ideia de que “eu era assim” e não precisava da família para além das formalidades de viver em sociedade.
            Entretanto, em 2014, essa dinâmica começa a se transformar. Enquanto o Brasil ia às urnas eleitorais escolher pela continuidade da presidenta da república, minha mãe optava pela ruptura do casamento com meu pai. A princípio, isso não me afetou tanto, eram tempos de continuar a caminhar, caminhar para a esquerda. O meu objetivo era continuar meu percurso longe deles, principalmente da família estendida, com quem eu tinha pouco em comum além dos laços de sangue. Dessa forma, nos anos seguintes, quando o conservadorismo teve a sua emergência gradual no país, eu estava longe demais dos meus pais para poder fornecer algum tipo de resistência dentro da minha própria casa.
A partir desse ponto, o antigo apoio incondicional que eu recebia já apresentava uma série de novas premissas e o esforço de aproximação por parte deles já era consideravelmente menor. Dentro dessa situação, recentemente, meu tio me deu uma joia de família que, segundo ele, eu mereço e que antes pertencia ao meu avô e, antes disso, ninguém sabe. Receber esse anel me deixou feliz durante algum tempo, me trazendo uma ideia de pertencimento e de unidade familiar. Apesar disso, esse presente só foi dado porque eu censuro minhas atitudes e opiniões para me relacionar com eles, visto que não quero criar um ambiente conflituoso.
Não é um presente por quem eu sou. É um presente por quem eu finjo ser. 

SUSHI SASHIMI