Meu nego
Viu o noticiário?! Vou te contar, hein, neguinho.
Parece que elegeram uns políticos novos aí. O presidente
parece que mente nas entrevistas, o governador no currículo. Um tira dinheiro
da educação, o outro comemora morte de sequestrador ao vivo. No geral, esse
pessoal concorda em muita coisa estranha, mas o que parece bambear mais os
não-eleitores é a proximidade com regimes autoritários e fascistas. Terrível,
né, preto?
Mas veja bem. Faz pouco que eu estava morrendo, digo,
vivendo em uma cidade nova. O lugar onde a xenofobia acontece, o nojo de preto
aflora e o neonazismo ressurge. “Poxa, professor, vou ter que sair mais cedo
das suas aulas a partir de hoje. É que lá na favela está com toque de recolher,
sabe?” Só para complementar o cardápio perfeito para as primeiras doenças da
mente aparecerem.
Você não sabe da maior, meu bem. De volta ao Rio, levei meu
primo pela primeira vez em um estádio. Conversa vai, conversa vem, me
desequilibro perto da linha do trem, coisa pouca. “Pelo amor de deus, não vai
morrer! Já basta o meu amigo que morreu de tiro semana passada...” Respiro. 12
anos.
Nego isso, nego aquilo. Mas sabe qual é? É Witzel, é UPP, é
operação, é senhor de engenho, é navio negreiro, é camburão. Nego mesmo está
vivendo a escravidão até hoje. Enquanto uns querem votar, outros querem viver.
Cada um sabe onde o calo aperta mais.
E se você é neguinho, só te peço uma coisa. Não precisa ler
o noticiário se não quiser não, estar são da mente e do corpo é a nossa revolução. E não esquece do RG antes de
sair. Se cuida.
Jackie Tequila