quinta-feira, 12 de setembro de 2019


Meu nego

Viu o noticiário?! Vou te contar, hein, neguinho.

Parece que elegeram uns políticos novos aí. O presidente parece que mente nas entrevistas, o governador no currículo. Um tira dinheiro da educação, o outro comemora morte de sequestrador ao vivo. No geral, esse pessoal concorda em muita coisa estranha, mas o que parece bambear mais os não-eleitores é a proximidade com regimes autoritários e fascistas. Terrível, né, preto?

Mas veja bem. Faz pouco que eu estava morrendo, digo, vivendo em uma cidade nova. O lugar onde a xenofobia acontece, o nojo de preto aflora e o neonazismo ressurge. “Poxa, professor, vou ter que sair mais cedo das suas aulas a partir de hoje. É que lá na favela está com toque de recolher, sabe?” Só para complementar o cardápio perfeito para as primeiras doenças da mente aparecerem.

Você não sabe da maior, meu bem. De volta ao Rio, levei meu primo pela primeira vez em um estádio. Conversa vai, conversa vem, me desequilibro perto da linha do trem, coisa pouca. “Pelo amor de deus, não vai morrer! Já basta o meu amigo que morreu de tiro semana passada...” Respiro. 12 anos.

Nego isso, nego aquilo. Mas sabe qual é? É Witzel, é UPP, é operação, é senhor de engenho, é navio negreiro, é camburão. Nego mesmo está vivendo a escravidão até hoje. Enquanto uns querem votar, outros querem viver. Cada um sabe onde o calo aperta mais.

E se você é neguinho, só te peço uma coisa. Não precisa ler o noticiário se não quiser não, estar são da mente e do corpo é a  nossa revolução. E não esquece do RG antes de sair. Se cuida.
Jackie Tequila


Enfeites de rua

"Faltam 3 minutos, vai dar tempo. Tem que dar!". Ele pensou, enquanto corria para pegar o ônibus. Bem, não deu.
-Olha pelo lado bom, primeiro da fila.
-Mas o próximo só vem em 1 hora.
-Poderei escolher qualquer lugar.
-Se encher terei que dar lugar para algum idoso.
-Só escolher um dos últimos, idoso não gosta. --Mas são tão desconfortáveis.
O homem continuou discutindo em silêncio. Mas era homem ou garoto ? Nem ele sabe. Mais fácil jovem.
Passou o tempo. A conversa funcionou, ficou tão entretido consigo que se absteve a todo o mofo nas paredes, as rachaduras no teto, os pedaços de parede pintada caídos no chão, que enfeitavam todo o melancólico terminal.  Sem contar os enfeites móveis, que carregam todas essas características em roupas surradas e sujas, mais conhecidas como trapos, mas como não eram muito notados, não atrapalhavam tanto, exceto quando tiravam o jovem de sua conversa  solitária para pedirem dinheiro. O jovem disse a frase que de tanto ser repetida já se sabe pelo olhar: não tenho dinheiro.
-Boa noite, piloto.
A cara do motorista já dizia que a noite nao estava boa mas após uma fração de tempo ele resolveu responder, de maneira ríspida, seca, para mostrar que não queria seguir as normas sociais mesmo elas sendo mais fortes que ele.
"Passe", estava escrito no leitor de cartões de transporte. É "maquininha" mesmo, carioca nenhum chama disso. Assim como qualquer suco de guaraná natural num copo plastico se chama Guaravita. Mesmo ele sabendo que iria passar na catraca, a apreensão sempre toma conta de sua face nos instantes que demoram para aparecer a resposta eletrônica. Entrou, agora o destino de sua vida estava na mão do motorista, um bom motivo para sentar-se aliviado. Mas antes precisava escolher o lugar perfeito -não adiantou a conversa com seu subconsciente antes do embarque- ele sentou atrás logo atrás dos maiores bancos, queria esconder-se dos olhares de outros passageiros, não por timidez, mas por otimismo. Ele acreditava que o mundo poderia ser melhor, ver os olhares vazios e sem vida dos outros o desmotivaria. Com isso resolveu olhar para a janela -vai que melhora- até que melhorou, no início. Via casas maravilhosas, prédios gigantescos, carros que o faziam sonhar acordado( conseguia se imaginar la dentro) mas a medida que se aproximava de casa (ele percebia pelas trepidações do onibus) não conseguia mais ter enfeites bonitos para imaginar-se com eles. Não se imaginava com aqueles carros e casas que passou a ver por perto- quem se imaginaria morando no lado de um valão ?- com isso, voltava a conversar consigo.
Seu ponto já chegou, essa tática funcionou mais uma vez. E ele continua acreditando num mundo feliz e melhor. 

Carinha Que mora logo ali


Silvio Santos

A televisão ao fundo tornava menos constrangedora a falta de assunto desse grupo de gente que insistia em se amar. Os bichinhos de luz invadiam a sala e se sentavam nos sofás para prestigiar a reunião, provavelmente mais animados do que os próprios participantes - domingos não costumam ser excitantes, mas eles faziam questão de ratificá-lo. Os parentes revezavam a atenção entre a tela grande, a pequena e os rostos alheios a fim de fingir o mínimo interesse. Apenas Alfredo não ostentava em mãos esse tal de celular, e não coincidentemente era o único empolgado com a ocasião. Quem quer dinheiro?


Uma mulher com pouca roupa - sendo isso destacado pelo apresentador - brotou do auditório para matar a charada. Alfredo coçou a garganta e tratou de salvar a todos do silêncio, afinal familiares precisam conversar:

-Essas jovens de hoje em dia não se dão o respeito.

Curto, rápido, num tom jocoso. Como se assoprasse preconceito em forma de nostalgia. Concordou a sala com acenos de cabeça e caretas despretenciosas, enquanto os aviõezinhos arremessados à plateia se confundiam com os insetos que se chocavam à TV. Esperou alguma resposta mais concreta por alguns segundos, ou alguém emitir algum som relevante, e ameaçou duas vezes voltar ao discurso. Deixou pra lá. Logo após, levantou-se e esticou o pé pra buscar o chinelo que fugia. Num movimento rápido, aplicou um cruzado de direita preciso e potente, digno de grandes boxeadores, direto no queixo da sobrinha do sofá à frente. Sem tempo de entender o que acontecia, a garota desceu ao chão frio pintando o branco de vermelho, e ali permaneceria pelas próximas horas. Ma oe.

Alfredo ajeitou a barriga e se acomodou novamente no sofá, estalando os dedos e a madeira velha. A sala parecia não se importar muito, e Célia, a tia viúva, continuou a direcionar bicos para a câmera de seu smartphone. Edgar, o avô quase cego, tornou a rodar pelo cômodo caçando aquelas trastes voadoras, se esforçando para não sujar suas pantufas novas de sangue novo. Vem pra cá, vem pra cá.

Não demorou muito para que a televisão incitasse mais uma infeliz interação social. A filha do apresentador utilizou-se de seu pouco tempo de destaque para espirrar fonemas. "O homossexualismo não é uma coisa normal". Alfredo pensou em dizer algo, mas notou que seu irmão à esquerda já suava frio sufocado pelo silêncio, já prevendo o que o esperava. E nem seria preciso que levantasse. Um. Dois. Três. Quatro. E o homem caiu num gemido de terror. De aceitação à dor. Roda a roda.

-Merda, Alfredo. Assim não vai sobrar ninguém. Troca esse canal.

Abriu um sorriso amarelo e fechou os olhos para dentro da televisão.
Adam Sandler
   Hoje estava no ônibus e vi um casal conversando sobre como anda o mundo atualmente e as questões que assolam o Brasil, parei  para  refletir sobre isso também e me  dei conta que vivemos hoje em um período complicado, o qual não podemos nos calar, nossa querida Democracia é atacada constantemente, tem sua existência questionada a todo momento, essa que tantos lutaram  para conseguir.
     Me vejo em um beco sem saída, perguntando  se devo lutar por esse país que insiste em retroceder ou desisto pois estou cansada, eles são muitos  e desleais utilizam de mentiras para promover seus ideais, aqueles que se levantam contra o mito são chamado "idiotas úteis e imbecies”. A situação é tão grave que o amor a pátria e a Deus os segam, fazendo marcharem em direção a uma ditadura.
   Nós os homossexuais lutamos tanto para  ser tratados com dignidade e ter nossos direitos. Hoje vemos que eles podem ser arrancados de nos a qualquer momento, somos atacados diariamente e frases como "Com ele essa palhaçada vai acabar" tem se tornado cada vez mais  frequente, isso quando não se tem a agressão física, pois andar de mãos dadas na rua com que se ama virou um  crime quase hediondo.
   Esse ódio gratuito é o que  mais tenho  medo, não podemos mais escolher a quem vamos  amar, proíbem livros devido um simples beijo e apresentam justificativas que de nada vale, uma vez que  nada mais é do que censura.
Harry Potter

"Porque ele é homem"

   A primeira vez que ela foi conhecer a família do namorado foi para almoçar. Todos comeram muito bem, conversaram e riram muito. O pai, a mãe, o irmão e o namorado. Quando a refeição terminou, ela pegou a louça de todos para lavar e se surpreendeu com a frase do cunhado: "Deixa, hoje é a minha vez." Ok, ela pensou que fosse uma gentileza.
   Outro dia, em outra reunião com a família, foi a vez do namorado repetir a frase. Ela estranhou, afinal, ela tinha 2 irmãos em casa, mas a única que lavava a louça era ela e a mãe.
    Curiosamente, perguntou para o namorado se a mãe os obrigava a lavar a louça, e ele disse: "Não, a gente apenas quer ajudar, ela sempre faz a comida então nos revezamos para limpar." Nesse momento, ela notou o machismo.
     Quando o irmão dela saia, ele não tinha hora pra chegar, mas ela tinha que estar 23 em casa. Ela era sempre criticada pelas companhias que escolhia, ele não. Ela tinha que arrumar seu quarto, e ele não. Ele podia ficar o tempo que quisesse com a namorada, ela não. 
     Então uma vez ela perguntou: "Por que ele pode e eu não?". A resposta foi clássica: "Porque ele é homem!". Mesmo tendo quase a mesma idade, ele tinha direitos que ela não tinha, e a lutra contra o machismo começou ali.
Witch
 O ano era 2016, eu ainda estava no segundo ano do ensino médio e, durante uma aula de espanhol, a professora nos pergunta o que gostaríamos de fazer depois que nos formarmos no colégio. A resposta da maioria foi, provavelmente, a mais óbvia: faculdade. Porém, uma menina que havia entrado na nossa turma naquele ano, deu uma resposta diferente, um pouco mais “radical”. Ao iniciar seu discurso, começou com uma frase que me marcou bastante: “Eu odeio o Brasil” e, depois disso, começou a listar motivos pelos quais queria ir embora do país depois de formada.
  Durante muito tempo, concordei em parte com esse discurso e sempre tive o sonho de morar fora. Aliás, ainda o tenho. Não que eu odeie o Brasil, muito pelo contrário, sinto que nasci no país certo e na cidade pela qual me encanto cada dia mais, o Rio de Janeiro. Contudo, apesar de idolatrar esse lugar, sinto que não é possível viver aqui a vida que eu gostaria. A violência, a criminalidade e a cultura do medo, imposta por diversos veículos de comunicação, assombra os cariocas cada dia mais e nos restrigem a certas localidades e horários.
   Fazer um passeio cultural pelo centro da cidade, por exemplo, só se for durante o dia e, “melhor ainda”, se for pelos caminhos onde os policiais do Centro Presente estão por perto. Curtir uma noite de boemia pelos bares famosos da zona sul, só é possível até determinado horário, pois a volta pra casa nem sempre é garantida. Andar vestido com a camisa do seu time de coração ou até mesmo da seleção brasileira pelas ruas do Rio de Janeiro, virou motivo de agressões e insultos. Os transportes públicos completamente sucateados e com tarifas altíssimas, impedem uma circulação confortável pela cidade. 
  Infelizmente, esse é o panorama geral da minha cidade natal que eu idolatro tanto. Portanto, não posso julgar o discurso daquela aluna nova, que hoje em dia é uma das minhas melhores amigas, pois ela realmente tinha motivos para odiar o Brasil. Os mesmos motivos que mantém o meu sonho de morar em outro país ainda vivo. Porém o sonho de viver plenamente na minha cidade é ainda maior e ainda espero realizá-lo acima de tudo.
Shrek Fiona

Sobre mudanças
 Eram nova e meia da noite e eu estava em um sofá que não é meu pensando sobre o que eu poderia escrever, ás 21:38 decidi que eu falaria sobre mudanças porque sou apaixonada pelo novo e pelo imprescindível. Mas sempre que tomei uma decisão sem pensar muito sobre suas consequências, não foram poucas as vezes que me ferrei, e de tanto me ferrar, aprendi na marra que não é bom tomar uma decisão sem pensar ou “deixar o destino agir”, até porque muitas vezes decisões minhas afetam a vida das pessoas ao meu redor.
 E o ano de 2019 começou com grandes mudanças, não só para mim que tinha acabado terminar o ensino médio e estava sendo obrigada escolher o que queria fazer da vida agora, mas também para cerca de uns  202.768.562 de brasileiros porque no primeiro dia do ano assumiu a presidência um homem que eu já sabia que iria tornar vida do brasileiro ainda mais difícil com seus ideais tão sujos, com sua falta de respeito e tolerância, com suas ameaças à democracia, e  acima de tudo com sua clara incapacidade de governar o país. 
 As pessoas que o elegeram votaram na “mudança”, acreditaram que os ideais medievais divulgados por correntes no whatsapp seriam uma opção de salvação para o país. Por isso, se me pedissem para definir em uma palavra o que foi o começo do ano para mim eu, sem dúvidas, responderia “incerteza”. Aliás, pela primeira vez, eu comecei o ano sem a certeza de que em fevereiro eu iria retornar para o colégio e encontrar meus amigos de sempre, porque agora eu precisava escolher um curso e uma faculdade e, para isso eu precisava entender o que sou, o que quero, no que acredito, na medida do possível.
 Foi um processo dolorido, mas acho que se descobri e se tonar o que você precisa e quer ser é assim mesmo. Hoje estou satisfeita com as minhas ultimas escolhas e mudanças, mas ainda sofro pelas mudanças que o atual governo vem fazendo no país. Há uma crescente falta de empatia, tolerância e respeito, além disso, há também preocupações com as queimadas na Amazônia que aumentaram cerca 228% (comparado a 2018), a educação pública está ameaçada com o projeto “Future-se”,  nossos alimentos estão cada vez mais infectados por agrotóxicos pesados, a reforma da previdência daqui a pouco não vai permitir que ninguém se aposente.
 Sim, eu ainda prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo, continuo amando as surpresas e o inesperado. Mas se for para mudar, que as mudanças sejam para melhor e, se caso der errado, porque as vezes as coisas não saem como planejamos, que haja ao menos uma válvula de escape para concertar o que está não está bom. Eu não planejei estar morando em um país com um governo internacionalmente reconhecido por um viés autoritário, mas já que estou, o melhor que posso fazer é militar ao lado da oposição, ao lado das minorias representativas, ao lado de quem preza por um Brasil menos desigual.
Metamorfose Ambulante