quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Descanse em Paz, Eu.

 

Nos últimos meses um estranho sentimento tem invadido meu peito. Uma nostalgia forte e agradável de início, mas que gradativamente tem se transformado em luto.

Mesmo sendo avisado por todos durante minha adolescência de sua chegada, a dor da perda de uma época mais simples e feliz é mais profunda e cruel do que pensava. Silenciosamente ocupando lugares cada vez maiores no meu coração, ela vem principalmente nos meus dias mais esgotantes e sombrios, como um impactante lembrete martelando duas poderosas palavras no meu crânio: “Você cresceu”.

É verdade que a maioridade traz suas liberdades e vantagens, mas por vezes o preço por essas regalias parece ser alto demais. Estranho ficar de acordo com a ideia de que serei constantemente pressionado a entregar meu melhor, sempre, sem espaço para erros. Afinal, é isso que esperam de um adulto, a ingenuidade e idade já não podem mais serem usadas como desculpas.

Entretanto, o que mais sentirei falta escolhi deixar por último. Alguns resquícios que espero levar comigo, em todas minhas versões perdidas pelo tempo.

Seu sorriso, o mais puro e honesto que já vi.

Seu choro, algo tão cru e vigoroso, capaz de sensibilizar os mais frios corações.

Seu ânimo, facilmente impulsionado até pelas coisas frugais (e importantes) da vida.

Sua confiança, que ninguém e nenhuma situação foi capaz de abalar.

A você, deixo meu mais sincero “obrigado”. Vá em paz, mas por favor, volte de vez em quando para me reerguer.

 

Just try to never grow up.


Nils Sjöberg

Dia Normal

 Mais um dia em minha vida, decidi sair, afinal só fico em casa nesses últimos dias. Depois de pensar, decidi ir ao shopping quem sabe poderia ter um novo filme em cartaz ou até achar algo que eu queira comprar. Depois de tanto andar, decidi entrar numa loja e para minha surpresa havia alguém na minha espreita.

Eu havia esquecido, que quando entro em uma loja sempre tem esse ocorrido, um segurança ou outro funcionário que fica me seguindo. Porque? Eu já sei. 

Eu achei que isso tinha mudado, mas pelo jeito continua normalizado. Nem precisa ser em uma loja chique, às vezes isso acontece nas mais simples, mas mesmo sabendo o porquê disso, eu não consigo entender, o que minha cor de pele tem haver? Só pela minha pele, eu sou taxado de bandido, criminoso por essa gente.

Eu sinto raiva, medo e frustração, mas infelizmente não tenho o poder para mudar isso, logo esse é apenas mais um dia normal em minha vida.


-Tartaruguinha Pistola

Sobre a vida que eu não vivi.

 Acredito veementemente que a vida é feita de momentos. Momentos bons e ruins. E que, assim como o tempo, esses momentos passam.

Todavia, ultimamente tenho sentido o tempo ir embora sem viver esses momentos tão importantes de maneira intensa. E esses momentos, que antes eram bons ou ruins simplesmente se tornaram vazios, se é que isso faz sentido.


É como se nesses dois anos de pandemia eu estivesse vivendo de forma passiva, como se nada realmente importante me acontecesse.


E é frustrante pois tudo isso me faz sentir incapaz e insuficiente. Eu não posso acabar com o coronavírus, eu não posso sumir com todos os problemas do mundo, não posso fazer com que todos tenham a vida que merecem e não sejam afetados por tantas injustiças e dificuldades


Não é fácil se manter forte em um período assim. Têm dias em que eu consigo me ver feliz, ouvindo músicas que eu gosto, comendo comidas gostosas e aproveitando o dia da melhor forma possível. Mas há também os dias em que são noticiadas tantas coisas ruins ou que pessoas próximas a mim passam por coisas tão chatas que a vontade que me dá é de ficar o dia inteiro no quarto fingindo que o mundo não é como é. 


Tudo isso me entristece, pois a vida passa tão rápido que eu não gostaria de gastar meu precioso tempo me preocupando com coisas do tipo, mas quando se tem o mínimo de consciência é bem difícil não se deixar afetar por essas questões.


Eu queria viver uma vida como a dos filmes e séries, mas existem milhares de coisas me impedindo.


Não sei se esse texto fez muito sentido, mas no momento essa sensação de tempo perdido e de incapacidade tem sido uma das minhas maiores frustrações recentemente. Espero do fundo do meu coração que as coisas melhorem daqui pra frente e que até lá a gente consiga se apegar às pequenas coisas que nos fazem feliz.


— Rainha do Caos


No âmago, amargura.


  A vida é feita de histórias e vivências, e infelizmente nem todas as partes são boas, ainda mais para pessoas que não tem vez no Brasil, como eu. Em março de 2016 tive uma crise de ansiedade pela primeira vez, crise que achei que iria morrer (e foram longos dias com essa sensação de estar vivendo meus últimos dias)... E depois de vários exames que resultaram em nada, fiquei frustrada (sim, frustrada!). Tudo que eu queria é que nos exames desse é que eu tivesse com algum problema de saúde, que seria mais fácil de ser tratado, e meu diagnóstico foi transtorno de ansiedade generalizada. E o que eu sinto é uma profunda angústia no âmago. A minha vida não é a mesma há anos, hoje sou. uma pessoa com medo da morte, medo do que vão pensar de mim, medo de não ser aceito(a), triste sem motivos aparentes, com constantes pensamentos de que vou perder alguém que amo, durmo e acordo pensando em algo, meu cérebro não descansa! Eu só quero ser saudável novamente, só quero ser feliz, só quero poder olhar o fim de tarde e ver beleza nele e na vida! Eu só quero ser eu...
(é a primeira vez que escrevo sobre esse assunto, me sinto mais leve).

      Eu, medusa.

A saudade e a pandemia

 Não sei por onde começar... O ano de 2020 foi um ano muito pesado por conta da COVID-19. Nós não fomos feitos para viver sem contato humano, sem toque físico e sem conversa cara a cara. Nós não fomos feitos para viver em isolamento, entretanto, tivemos que nos adaptar a essa nova realidade.

Ver os noticiários, ver as pessoas morrendo cada vez mais, ver todas as besteiras que o presidente fazia (ou muitas vezes não fazia) estavam me deixando com muita ansiedade, só conseguia pensar no futuro e não via mais esperança. Em meio a isso tudo, perdi duas pessoas muito queridas e por incrível que pareça não foi de COVID, foram por outros motivos. Perdi meu irmão que tinha apenas 23 anos, nós não éramos irmãos de sangue, mas sempre nos consideramos assim. Também perdi uma tia-avó que era muito querida, sempre amorosa e bondosa. Fiquei me perguntando o porquê de tudo aquilo, será que eu aguentaria tanto sofrimento? Será que minha família aguentaria a dor dessas perdas? Será que eu conseguiria passar por tudo isso em meio a uma pandemia? Será que um dia a gente voltaria a sorrir? Foi muito difícil me despedir deles, ir aos enterros e não poder abraçar, tocar em nenhum familiar.

Hoje, depois de um ano, me abro com vocês. Não costumo falar sobre isso com ninguém, nem mesmo com meus amigos. Ainda são questões muito delicadas para mim, mas sigo tentando lidar com a situação. Tem dias que lembranças vem à tona e fico muito triste, mas tem outros que estou melhor.

Outro dia estava andando pela rua e do nada começou a tocar Armandinho em uma peixaria. Meu irmão amava esse cantor e fiquei muito mexida com isso, parece que senti a presença dele ali. Sempre sinto que eles estão por perto. Quando lembro dele me vem em mente os momentos que passamos juntos na infância, nossas conversas sobre política, o jeito protetor de irmão mais velho e aquele sorrisão aberto que só ele tinha. Acredito que um dia a gente ainda irá se reencontrar. 

Agora que as medidas restritivas estão sendo flexibilizadas fica mais fácil de encarar tudo, pois conto com meus amigos e minha família. Agora consigo enxergar uma luz no fim do túnel e quando lembro deles dois penso em boas lembranças. Além disso, espero que a gente tenha aprendido alguma lição com essa pandemia e com tudo o que passamos. Acredito que a humanidade pode ser melhor! Agora daremos mais valor às pessoas e valorizaremos a vida em sociedade. Termino esse texto com os olhos cheios d’água e assim me despeço.

 

Ass: Amora

vejo tudo menos você

  Eu a vejo na ponta da mesa, na cadeira vazia.

Eu a vejo no banco do motorista, ocupado por outra pessoa.

Eu a vejo nas camisas sociais, nas gravatas e nos shorts de jogar futebol.

Eu a vejo nos bares, nas cervejas e nos churrascos.

Eu a vejo andando pela casa, no jornal da manhã e na garagem fumando um cigarro.

Eu a vejo nos meus aniversários, nas vezes que fico doente e no espaço sobrando nas fotos de família.

Eu a vejo no natal, no ano novo e nas férias de janeiro.

Diariamente eu a vejo, algumas vezes mais, outras menos. Tem dias também que ela não aparece, fica escondida bem no escuro. Tem outros que ela fica tão clara que chega a doer de olhar.

Tem dias que eu não vejo, mas minha mãe vê, meu irmão e minha avó veem, seus amigos veem.

De qualquer maneira ela sempre chega, de mansinho, como quem não quer nada, e ocupa minha mente com uma presença gritante e dolorosa.

Às vezes por uma lembrança do Facebook, outras por um jogo do vasco, ou uma notícia muito legal que eu recebo. 


Ela sempre chega.


Eu vejo a saudade todo dia e em todo o lugar, mas não vejo mais você.


Copo Vazio

Desabafo pessoal de alguém que sente

  Para falar sobre perda, preciso falar sobre mim. Preciso falar sobre anos de decepções, desilusões e desesperanças que me trouxeram exatamente aqui. Nesse momento. Contando a vocês tudo que mais me dói, que mais me atinge, e que, consequentemente, me fazem ser eu.

Já de antemão, preciso confessar que as minhas maiores perdas não foram familiares, amigos, ídolos ou pessoas físicas, mas sim a minha capacidade de acreditar na humanidade, e principalmente, em mim. Quantas vezes me perdi de mim mesma? Quantas vezes me vi indiferente ao dia seguinte? Esse vazio, essa incapacidade de sentir, até o que era normal ao meu dia a dia, já que eu sempre senti tanto, me atingiram como um soco no estômago. E por muitas vezes, eu me entreguei. Dias deitada, lágrimas sem explicação e uma alienação de tudo e de todos (que é a minha maior forma de defesa). Uma dor que agora, por exemplo, não sei explicar. Mas quem vive entende.

Além de tudo que se passa dentro de mim e da minha cabeça, tem o mundo. Ah o mundo real... Que sorte eu teria se vivesse apenas no mundo imaginário que invento toda noite antes de dormir. Cada vez que ligo a TV ou abro uma rede social, uma parte de mim se esvai. Devagarinho. Pouco a pouco. A cada vez que eu ouço alguém contrariar a existência do outro ou a minha própria, minha esperança se vai. A cada vez que penso em tudo que precisamos para evoluir como sociedade... Dói. Dói porque não depende apenas de mim, da minha bolha e da minha imaginação. Depende do presidente, depende dos grandes empresários, depende daquele parente, que espera ansiosamente por todo encontro familiar pra dizer que o meu mundo ideal é uma grande “ameaça comunista”. Quando na verdade, tudo que o meu mundo ideal é, é justo.

São nessas perdas, nesses momentos, que me pego pensando: é possível ficar pior? E adivinhem, caros amigos? Sempre é. E sempre fica. Mas acho que finalmente entendi, depois desses últimos (caóticos) anos, que vivemos com uma constante: a tristeza. Essa, sempre está lá. Ela está num dia de sol, no barzinho com as amigas, na série com a família e em todos aqueles momentos que julgamos como felizes em seu mais puro sentido. A tristeza nunca nos deixa, ela só se aquieta e espera o momento certo de dar as caras novamente. Pelo menos comigo é assim. E eu já me conformei, pois o importante pra mim é, mesmo quando estou perdida, me reencontrar. É nesses momentos que a vida faz sentido.

 

Cecília Quintana