sexta-feira, 5 de maio de 2023

ÂNSIA PELA ACLAMAÇÃO.

Sempre gostei da ideia de me destacar, de chamar atenção positivamente. Um pouco

egocêntrico, não? Acho até que bastante. Talvez tenha sido por isso que passei a reprimir essa

vontade. Ou porque aprendi que é impossível viver tendo esse desejo de maneira constante.

Imagino que esse anseio tenha surgido na minha infância. Fui o filho único de pais na faixa

dos quarenta anos. Aprendi a ler antes da maioria das crianças. Na escola, sempre fui o aluno

preferido dos professores. Até dada idade, acreditava que eu sempre seria o melhor em tudo que eu

me propusesse a fazer – e esse sentimento era bom e aprazível. Eu me via numa posição especial

diante das outras pessoas, até porque fui influenciado a pensar assim. No entanto, observando essa

situação atualmente, creio que estar nessa posição especial provavelmente foi o ponto principal para

causar o meu isolamento das outras crianças e a sensação de solidão que me acompanha até o

presente.

Mais que isso: o princípio de uma certa maturidade me ensinou que infelizmente nem tudo

(ou quase nada) é exatamente como a gente quer. A consciência de que eu sempre estaria suscetível

a falhas, erros e incapacidades veio com muita dor e sofrimento. Era como se boa parte do que me

disseram sobre mim e sobre o mundo fosse inverídico.

O bom de ter passado por esse processo (que foi um pouco problemático, não nego) é que

descobri como é bom lidar com seres humanos diversos – alguns melhores em determinadas coisas,

outros piores em outras. Compreendi que não se ganha nada de proveitoso querendo se sobressair

em relação a alguém.

Ainda assim, vira e mexe vem aquela tal vontade da aclamação, do aplauso. Uso isso como

propulsão para que eu realize minhas tarefas de maneira mais eficiente, e tenho noção de que

mesmo assim elas podem não ser as melhores dentre todas (muito pelo contrário!). Depois de tudo

isso dito, honestamente concluo que é muito assertivo de minha parte manter esse desejo cada dia

mais reprimido.


Suco de Soja

Não existe amor em Curitiba.

 Demorei muito para entender o que significava amar alguém. Amar é depender

emocionalmente de alguém, se sentir obrigado a estar com outra pessoa a todo

momento, independente do que for. Eu sentia amor quando Kate estava por perto.

Kate não era um amigo, um namorado, um parente ou qualquer coisa do tipo.

Ele era metade de mim. Eu acordava e Kate estava lá, me esperando para nos

aventurarmos pelo infinito. Nós não tínhamos preocupações e nem queríamos ter,

afinal, nós tínhamos um ao outro.

Nunca tive coragem para perguntá-lo sobre seus sentimentos. Gostaria de saber

se ele enxergava nossa relação da mesma forma que eu. Apesar de ser tagarela e

acolhedor, Kate escondia muito de mim. Haviam dias em que era difícil reconhecê-lo.

Sua forma de falar, sua forma de agir, seu amor por mim era diferente. Mas era tudo

passageiro, tudo sempre foi passageiro.

Um dia, acordei sem Kate. De repente, metade de mim estava faltando. Minha

alma desapareceu e meu corpo era oco. Eu não sentia nada. Somente o vazio.

Nada até hoje consegue me fazer esquecer o que eu sentia quando Kate estava

por perto. Consigo apenas reprimir essa vontade de voltar atrás e reviver nossos

momentos mais felizes. Infelizmente, ainda não há medicamentos para isso.

- Flash Casanova

Anjo da Noite.

 Clara observa o pastor andar de um lado para o outro enquanto evoca o seu sermão. Conhecia todos ali de cor. Sabia quem gostava de galinha caipira ou preferia churrasco, quem torcia pro Flamengo, pro Vasco, e até os raros botafoguenses. Gostava daquele clima de pequena comunidade em que todos se ajudam, se conhecem e se apoiam. 

-Ele sabe de todas as coisas. Sabe o que nós pensamos, dizemos e fazemos. Ele está sempre conosco, meus irmãos. 

Trovões soam do lado de fora e uma sede repentina se aloja na garganta de Clara. Ela sai da pequena igreja e vai em direção ao bebedouro do pátio. Bebe copos e mais copos d’água, mas a estranha sensação não passa. Ouve um barulho. Acha que vem vindo da porta ao lado. A secura em sua garganta aumenta à medida que sua curiosidade se expande. Decidi olhar pela fechadura. Reconhece as costas de Miriam, esculpidas como asas de um anjo. A sua amiga parece segurar alguém em seus braços. Percebe sapatos iguaizinhos aos seus, roçando as pernas de etéreas. O anjo de repente para e se vira lentamente. Parece agora encarar os olhos de Clara através da porta, seu rosto sujo de um batom estranhamente familiar. 

-Estava esperando você, meu amor! 

Clara acorda. Sua cama molhada de suor. O peito quase explodindo. Seus pulmões doem em busca de ar. Sua mente em ritmo frenético em busca de um resquício de memória do pesadelo. Não sabia se lutava para acordá-lo ou mantê-lo calado. Voltar a dormir é uma tarefa quase impossível. Muitas noites são como essa: ansiosas, angustiantes e confusas. Nessas horas, Clara sempre parece pensar em somente uma solução: rezar para ver se passa. 

-Camélia


A Dor da Saudade

  Sempre estive à espera de um grande amor, daqueles que pudessem preencher todas as expectativas nutridas por séries e filmes que nunca haviam sido quebradas, mas tampouco jamais alcançadas. Quando eu menos esperava nossos destinos se cruzaram e se conectaram nos corredores da escola, parecia que eu conhecia aqueles olhos castanhos há tempos, me senti em casa quando te vi pela primeira vez. Rapidamente tratei de providenciar suas redes sociais para tentar um primeiro contato de fato, e parecia que você estava esperando por isso. Não muitas mensagens depois percebi que não estava sendo correspondida na questão flerte, mas você não fechava completamente os caminhos, então segui paciente. Muitas mensagens depois entendi que você realmente não estava disposta a dar uma chance para nós duas, naquele momento. 

   Você sempre me deixou muito confusa, claro que não deixei de jogar meus verdes nas entrelinhas de nossos bate-papos, às vezes você alimentava, às vezes fingia que nada estava acontecendo. Eu sentia dentro de mim que nossa história estava reservada para florescer a qualquer momento, apesar de ver seus inúmeros flertes com terceiros nas redes, em especial o mesmo menino de sempre. 

   Quando finalmente tudo aconteceu foi tão mágico, depois do incrível show que havíamos acabado de presenciar juntas na praia, você me chamou para uma caminhada a sós e ali eu sabia que teria que tomar o próximo passo, que naquele momento tudo estava mais claro do que nunca. Poucos metros de distância da multidão já foram o suficiente para que as palavras começassem a sair da sua boca como melodia para os meus ouvidos, infelizmente as borboletas em meu estômago não me permitiram contemplá-las, foi então que nossos lábios se encontraram. Dali pra frente fomos inseparáveis, mas sempre com a sombra de um terceiro, os tais flertes só aumentavam e quando vi estava vivendo praticamente um triângulo amoroso. 

   Até hoje não sei se tomei a escolha certa, me pego pensando se deveria mesmo ter te pressionado naquele momento confuso e de descobertas, quando impacientemente pedi para que você escolhesse pois não aguentava mais sentir esse sentimento pela metade. Após o início turbulento do seu relacionamento onde paramos de nos falar percebi que não queria estar sem você, então propus que seguíssemos uma amizade, onde mesmo distantes sempre faríamos parte uma da vida da outra. Não me sinto trouxa como muitos dizem, quase 2 anos depois sigo te esperando, te respeitando e te querendo a cada vez que te vejo na tela do meu celular. Te ver pessoalmente, com ele, é ainda mais doloroso. Sei que nossa história foi apenas interrompida, sei que no fundo você ainda pensa em mim também. Dói muito, mas reprimir esse sentimento torna-se simples quando penso que a cada dia falta um dia a menos pra te ter aqui, comigo e com as borboletas que aqui ardem, ainda pela mesma menina que conheci no corredor da escola. Nossa história precisa acontecer, todos os envolvidos na situação sabem disso, apenas querem negá-lo. 

 -Katy Perry


Cansei de Visitar Corações.


Cansei de visitar corações.

Queria poder sumir,

Pra um lugar onde ninguém me encontrasse

Só eu

Queria silêncio

O silêncio que eu nunca ouvi, o meu

Queria que meus pensamentos parassem de pensar

Que meu coração parasse de sentir

Que a dor parasse de doer

Queria conseguir ser fria

Queria não amar ninguém

Queria não sentir dor

Queria que na angústia, não me faltasse ar nos pulmões

Queria conseguir respirar fundo

Sem que nenhum sentimento de culpa segurasse meu fôlego

Não queria sumir

Queria me encontrar

Em um lugar onde ninguém me achasse

Só eu.

 

Talvez, depois de tanto sofrer com pessoas e suas pressões, tudo que eu mais desejo, seja ser sozinha.


-Meu Primeiro Fake


A fruta preferida dele é pêssego.

Estávamos a pôr o jantar à mesa para recebermos quem deveras chegar.  Este era um de nossos rituais no interior. A família da vindoura moça que se dispõe ao casório recebe a família do rapaz de boa conduta para uma bela demonstração de oponência e fortuna através de um banquete tendo como tema uma fruta. Esta deve ser a preferida da moça e do moço para que o casório seja consumado, mas isso só é revelado na hora do evento. Tudo muito fresco e jovial. 

Preparamos tortas, saladas, bolos, compotas, sorbets, farofas, sucos, alcoólicos, iogurtes, tudo com a fruta. 

Preparamos o melhor pêssego da região para recebê-los. Assim, tudo se encaminhou para o desfecho final em que Miguel, meu brevemente noivo, comeria um pêssego em frente a mim e a toda família. 

Ele o fez. Numa cena típica de projeto de blockbuster de humor falido. Fez-se agradável até. Entretanto, transpareceu azedo ou ele não estaria preparado para tal sabor unicamente explosivo. 

Corri para o quarto humilhada. Essa era a vergonha máxima que uma ofertada poderia receber. 

Corri, tranquei a porta e comecei a rezar ao meu bom Deus. Pelo menos tentei começar. 

  • Não chore minha flor, você não deve ter vergonha de nada. 

Disse tio Pedro que estava reclinado sobre a janela do quarto dele mesmo que eu tinha entrado por engano. Eu não deveria estar ali, tentei responder mas estava muito assustada com tudo e a figura dele também me deixava nervosa. 

Ele disse que adorava pêssego, por exemplo. Que era a fruta preferida dele. E eu comecei a lembrar das vezes que fazíamos salada de pêssego enquanto tio Pedro contava suas aventuras nas arábias e como ele falava quatro línguas, como ele entendia os sentimentos de toda a família e permanecia calmo diante de tantas brigas e claro, como ele devorava a cesta de pêssego inteira sozinho. 

Ele era seguro de si. E isso me encantava. Percebi naquele momento o que era excitação. Quando ele me olhou firme nos olhos por muitos segundos adentro. Percebi que o jeito que ele falava ereto e como bebia jarras da água em abundância durante as conversas demonstrava que minha sorte fora exatamente que Miguel não gostou do sabor da fruta pura, nunca tocada. 

Ainda que o Barão da Pedra Branca, meu pai, me fizera esperar até a hora certa, eu tinha uma sintonia com o tio há muito!

Ele segurou minha mão até eu parar de chorar durante alguns minutos e ordenou docemente:

  • Vá até a sala e traga o pote de manteiga de pêssego. 

Eu o fiz rapidamente mesmo sem ter entendido nada. 

Voltei para o quarto, ele estava no banheiro da suíte e mandou eu trancar a porta. Tudo aconteceu tão rápido. 

Falou alto, calmo, mas com uma voz grossa que ecoou no quarto todo. Dentro de mim também. Perguntou se eu me sentia confortável, eu estava precisando do que eu não sabia que estava por vir, então eu disse que sim. Eu queria. Muito. Meu corpo estremecia. Um gelado estranho. Minha mãe falara sobre borboletas no estômago, mas eu senti um pouco mais pra baixo. Eu senti algo que Miguel nunca poderia me dar. Eu senti algo quando eu parei atrás da porta pra pensar instintivamente, como na selva faríamos. 

Parece que bastou eu trancar a porta para um vulto correr pelo quarto. Ele estava atrás de mim ofegante e ele era muito quente. Seu corpo estava molhado. A sombra do corpo dele cobriu o meu. Enquanto eu sentia seu calor me aquecendo da nuca até o tornozelo, eu senti algo mais quente, mais pesado em minhas costas. Eu nunca vou esquecer essa sensação. Como se fosse a compressa de água quente que eu fiz pra acalmar a dor do tombo que levei na aula de dança.

Aqui no interior fazemos coisas que são passadas de geração em geração, assim como a compressa de água quente pra quase toda enfermidade e assim como a submissão da mulher frente ao homem.

  • Você trouxe a manteiga de pêssego?
  • Sim, está aqui. 

Disse eu, com uma voz bem baixinha. 

  • Hoje eu vou mostrar a você o seu valor. Quero que saiba que, a qualquer momento, que basta dizer para parar e eu paro. E também que você sinta o ensinamento que eu tenho pra te oferecer. 

Ele pegou um pêssego que estava na mesinha dele, arrancou a casca com o dente, mordeu a fruta no meio de uma vez só comendo parte dela e cuspindo o caroço fora. A voracidade com que ele fez aqui fez eu sentir uma lágrima escorrer. Uma única lágrima que fizera meu corpo todo aquecer. Me molhou de dentro pra fora. Como o nascer de uma nova aurora. Ou estrela nova. Ele abriu o cinto da calça  e pediu pra eu terminar de tirar. Fiz. 

Eu vi bastante filme americano então eu sei muito bem o que ele queria dizer. Na porta mesmo eu abaixei minha roupa e disse pra ele com uma firmeza que eu não sei de onde veio:

  • Eu quero você dentro de mim. 

Ele me olhou levemente assustado. Riu discretamente com uma cara que até o Zebu ficaria invejoso, me segurou pelas pernas com suas mãos grandes e me jogou na cama. Com uma mordida firme puxou minha roupa de baixo com a própria boca. Ele parecia insaciável. Absolutamente eu estava gostando. Enquanto ele cheirava minha pele, senti a luxúria tocando minha alma, me virou de bruços e me fez sentir algo muito gelado, que me fez pular. Tomei um susto e ele me segurou as duas mãos por trás enquanto passou algo atrás de mim. Bem embaixo. Lá. 

  • Desculpa pelo desconforto. Prometo que a partir de agora vai ser mais quente. 

Eu senti o que significam alguns extremos. Eu senti um novo limite. Perdi tudo quando senti. Ele disse quente, não confortável. Mas eu entendi naquela dor a minha realização. Eu me entreguei. E ele entregou tudo que eu nunca poderia imaginar que aquele homem era capaz de fazer. Uma odisseia. 

O que aconteceu depois dessa parte, eu prefiro guardar pra nós apenas. 

Depois de cerca de meia hora eu saí do quarto completamente desestabilizada. 

Mas com uma certeza. Tivera o melhor momento da minha vida até ali. 

Até perdoei Miguel por não gostar tanto de pêssego. E levei a frente o negócio arranjado entre nossas família. 

Depois de um tempo entendi que ele gosta de banana-prata ou preta, sei lá, e de vez em quando, sai pra buscar um pouco na fazenda do vizinho. Dizem que eles fazem uma manteiga de banana maravilhosa lá também. 

A gente vai administrando então. Ele fica comigo durante a semana e fim de semana vai passear com o amigo dele. E eu vou pra casa de tio Miguel. A tia Marta, mulher dele, sempre fica na igreja durante o fim de semana inteiro. 

Tá tudo bem. 

Só não sei de verdade quem é o pai do bezerro que eu to esperando. Tá tudo bem mesmo. Ninguém precisa saber. Ainda que tio Pedro seja somente uns dez anos mais velho que eu, ele lembra os traços do Miguel - ainda que muito mais másculo e peludo. Ninguém sabe o que é DNA por aqui não. Sabemos apenas quem tem como fruta preferida, o pêssego. 

Prazer, meu nome é Brígida, codinome, frígida. 

Não acredite no amor!


A Fênix 

Mundo da Lua

Fala aí, você que está ligado é mais uma escrita do Clebão. Um desejo oprimido...

confesso que esta foi um pouco difícil para mim, vai chega de enrolar, bora lá!

Desde que eu me conheço por gente, eu tenho uma vontade extrema de rodar por esse

tal estado chamado Rio de Janeiro. Isso pode ser meio besta, porém isso é muito

importante para esse que vos fala. Passar por cidades a exemplo de Petrópolis,

Saquarema, Madureira, e tantas outras. Esse “mero” estado possui 92 municípios, cada

um deles com suas características exclusivas. Conhecer estádios históricos como, por

exemplo, Moça Bonita (Estádio do Bangu), Edson Passos (estádio do América). Ir ao

Cristo Redentor, aliás, grande maioria dos cariocas nunca foram nesse ponto turístico, a

famosa “sétima Maravilha do mundo”, oh Corcovado, que lindo!

Mas, porém, no entanto, e, todavia, sabemos que a realidade não é a que yo vivo não

permite essa luxúria. Diversas pessoas precisam do trabalho para sobreviver, raramente

sobra tempo e dinheiro para se divertir, aproveitar a enorme gama de prazeres desta

vida. Enfim, esse é o nosso mundo, extremamente capitalista. Isso é coisa nossa. Será

que somos somente aquele ciclo da vida que aprendemos em ciências no ensino

fundamental? Nascemos, crescemos, reproduzimos e morremos. Sinceramente, somos

mais do que isso e, no meio desse ciclo, tem muita coisa para ser descoberta.

É Seu Jorge, o que seria a “Felicidade”? Pregunta simples, no entanto, ela possui uma

resposta difícil. Poderia ser as grandes conquistas ou as pequenas alegrias da vida

adulta, nossa, são mil coisas, está ligado? Agora eu sei que isso é difícil, mas

futuramente tenho vontade de realizar esse desejo oprimido por n fatores, quem sabe um

dia eu me torne o primeiro garoto de Ipanema. Mais do que uma atividade da facul, essa

crônica é um grito para eu aproveitar mais a vida.

— Pérolas do Cléber Machado