segunda-feira, 27 de junho de 2016

Soneto da fidelidade à democracia

 

De tudo em meu país serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior espanto
Dele se espante mais com o reconhecimento.

Quero honrá-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de gritar meu voto
E derramar meu pranto quando noto
O golpe e seu afastamento

E assim, quando mais tarde renuncie
Quem sabe o impeachment, angústia de quem vota
Quem sabe a democracia, que vive um drama

Eu possa me dizer da tristeza que brota
Que não seja abafado em nenhum programa
Mas que seja devidamente nomeado enquanto vivencie.


Valentina

Clássico polêmico


     Boa noite,  senhoras e senhores, estamos aqui na Arena Palácio do Planalto, em Brasília, pra transmissão de um grande clássico do futebol brasileiro: Movimento Democrata FC X Trabalhadores EC. Os dois times vem completos para partida de hoje e contam com seus respectivos craques, Temerssi e Dilmaria. Faltando alguns minutos para o jogo começar, as duas torcidas fazem uma bonita festa dentro do estádio, porém do lado de fora foram relatadas algumas confusões.

     O clássico que moveu multidões durante a semana, finalmente chegou e o Brasil está parado pra assistir essa partida. Aí vem os times pra campo ! As torcidas se agitam na Arena e os jogadores ficam perfilados para execução do hino nacional brasileiro(...) Hino tocado, os jogadores se cumprimentam e vamos pra partida ! 

     Trabalhadores EC pronto pra dar a partida e roooola a pelota na Arena, vai tocando bola curta o time do Trabalhadores, valorizando a posse nesse início de jogo. O time que vem de 4 vitórias seguidas, mas encontra pressão nesse últimos dias por conta de problemas internos no elenco. Segundo foi informado por nosso repórter, a estrela do time, Dilmaria, estaria tentando fazer tudo sozinho e sem apoio da maioria dos companheiros. Falando nele, vem ele aí com a bola, sempre pelo lado esquerdo, vai avançado, tentou a jogada pelo meio, mas não deu em nada.

     O Movimento Democrata FC toma bola e tenta sair em contra-ataque, nos últimos jogos o time não foi bem e, quando ganhou, só ganhou com ajuda de arbitragem. Mesmo assim a torcida tá confiante que pode vencer esse clássico. O time se mostrou bem unido e o craque Temerssi tá se mostrou confiante que podem alcançar a liderança depois da partida de hoje. Aí vem eles, Temerssi pega pela direita, aplica belo drible, bateu pro gooool... pra foraaaaa, a bola passa raspando a trave esquerda do goleiro. O jogo animado até agora, os dois times tentando o ataque, vale a liderança do Brasil, meus amigos.

(...)

     Vamos chegando ao final do primeiro tempo e até agora 0 x 0 no placar, com esse resultado o time do Trabalhadores vai mantendo a liderança. E apita o árbitro, está encerrado a primeira metade do jogo.

(...)

     Estamos de volta em definitivo pra parte final desse grande clássico que vale a liderança, a bola volta a rolar e nós vamos juntos nessa transmissão. Deu a saída o Movimento Democrata FC, o time já tenta uma ligação direta pro ataque mas nada feito, a bola sai pela linha de fundo, é só tiro de meta.

(...)
     
     O tempo passa e naaaada de sair gol aqui na Arena, os torcedores vão ficando apreensivos, chegamos na parte final do jogo, quareeeenta minutos do segundo tempo, vem os Trabalhadores com Dilmaria pro ataque, marcado por Temerssi, esse é um duelo bom, Dilmaria partiu pra cima, foi derrubado por Temerssi mas o juiz mandou seguir, QUE QUE É ISSO SEU JUIZ ?? Foi falta clara, uma rasteira, um golpe pra cima de Dilmaria. Mas olha o contra-ataque, Temerssi tabelou, vai sair na cara do goleiro... GOOOOOL DO MOVIMENTO DEMOCRATA, O TIME ABRE O PLACAR NO APAGAR DAS LUZES DEPOIS DE LANCE MUITO POLÊMICO !

     Olha aí o replay do lance... a rasteira de Temerssi em cima de Dilmaria que o juiz deixou seguir e saiu o gol no lance seguinte. A torcida dos Trabalhadores protesta muito aqui na Arena e com razão. Vai apitar o árbitro.. termina o jogo na Arena, 1 para o Movimento Democrata FC, zero para os Trabalhadores EC. O Movimento Democrata chega a liderança com esse resultado polêmico.

Severo P.

Foi golpe ou não foi?

                                             

  Essa é a pergunta que não quer calar. Na padaria, no banco, na mercearia do seu Severino, todos comentam e buscam incessantemente por uma resposta. Pela resposta. Mas, será que ela existe? Creio que não. Acredito que não é para todas as questões que exista um lado correto ou errado, um lado bom ou ruim. Veja que matar alguém é socialmente considerado errado sob todos os aspectos e fazer uma boa ação, por outro lado, é correto. O mundo está repleto de certos e errados, mas, em relação às diversas opiniões acerca da ocorrência ou não do golpe, não é bem assim. 
   No caso do golpe ou não golpe, acredito que a população olhe para o acontecido influenciada por seus aspectos pessoais, psicológicos e coletivos. Não olha para aquela informação de forma crua. Isso explica as mais diversas opiniões e pontos de vistas sobre o mesmo caso. De um lado, temos aqueles que defendem com toda a força que houve golpe. Esses são constantemente chamados de mortadelas, palavra que traz diversos significados no contexto.  Nesse cenário, ideologias se confundem com opiniões e o respeito passa a não existir. Quem somos para definir uma pessoa, suas ideologias e seus valores com apenas uma palavra? 
  Do outro lado, temos o grupo que considera a não existência de um golpe e são, majoritariamente, contra o governo. Seus membros são comumente chamado de “coxinhas”. O grande problema decorrente da existência desses dois grupos é que a falta de respeito se mostra presente. Amizades terminam e brigas acontecem por conta do não respeitar o outro e sua opinião. Coxinha” x “mortadela” não pode ser o novo “fla x flu”. Independente de qual lado o cidadão esteja, ele deve perceber a sociedade como um todo, e, nunca dividida entre coxinhas e mortadelas.

Stella Fati

Um golpe fatal


 

Estamos aqui na Arena do Planalto Central para a luta que todo mundo esperava, a disputa de cinturão dos mãos-leves. De um lado do ringue, detentora do cinturão desde 2010, baixinha, dentuça e sempre de vermelho. DILMA “MÔNICA” ROOOOUSSEF. Do outro lado, com sua voluptuosa pança, calvo e corcunda. EDWARD “BURNS” CUUUUNHA. IIIIIIIIIIT’S TIIIIMEEEE.

 Com a voz o juiz: “Boa luta, vale tudo. Só não vale falar da mãe e desrespeitar a lei de Gil”. Tocam-se as luvas. Começa a luta. Os lutadores ficam se estudando muito, Burns tenta o primeiro golpe, Dilma se esquiva e tenta o contragolpe com sua esquerda, mas ela falha. Permanecem assim durante algum tempo. Final do primeiro round, parece que tivemos um empate técnico.

Vamos para o segundo round, meus amigos. Esperamos mais emoção do que no começo da luta, os lutadores estão tomando água e se preparando. Fim de intervalo. Recomeça a luta. Iiiiiiih, alguém entrou no meio da luta, é o Conde Drácula? Não, é Michel “El Temerário”, ele agarrou Dilma por trás. DIREITA, DIREITA, UM, DOIS, TRÊS, ACABOOOOOU. Dilma vai a nocaute e desmaia no chão. Cunha vence com um golpe de direita sensacional e uma “leve” ajudinha de Michel e vencem o cinturão. Mas El Temerário não era da equipe de Dilma? Pois isso foi uma grande traição. Vamos perguntá-lo.

“Já dizia o grande Shakespeare: As águas correm mensamente onde o leito é mais profundo” – respondeu Draculinha, como era chamado na academia.

E é isso meus amigos, parece que o golpe de direita foi forte demais. Uma direita tão golpista que deixou a pobre Dilma no hospital. Quem sabe não teremos uma revanche por aí?

 

Régis Jr.


"Não vai ter golpe..."


Fui designado a fazer uma reportagem em uma manifestação pró-impeachment e lá fui eu para Avenida Atlântica. Como já havia feito em manifestações contra, entrevistaria alguém que pudesse me explicar e justificar ao público o motivo e causa de estar ali, e faria isso de maneira mais neutra e imparcial possível.
Uma senhora me chamou atenção, com "Tchau, querida!" estampado em sua blusa e um cartaz enorme escrito "Não vai ter golpe... Vai ter impeachment", então fui até ela e perguntei:

- Por que a senhora é favorável ao processo de impeachment?

- Chega de roubar nosso povo, meu filho!! O povo brasileiro está cansado e por isso estamos aqui, viemos pra rua pelo nosso país. 

- A senhora sabe que para ocorrer o impeachment, previsto pela nossa Constituição, o presidente só pode ser afastado se comprovado um crime de responsabilidade. A presidente Dilma é acusada de algum crime?

- Sim, meu filho, as pedaladas fiscais

- Pode-se dizer que o uso de pedaladas fiscais foi uma maneira artificial de cumprir o orçamento, mas não é um crime de responsabilidade, o governo não obteve crédito formal dos bancos. E se a presidente não cometeu crime, isso não é um golpe?

- Não, não é um golpe porque ela tá roubando todo mundo, estamos na crise por causa dela, tem é que sair mesmo, esse processo não foi aberto à toa

- Mas a maioria dos articuladores do impeachment são investigados e réus em processos, inclusive Eduardo Cunha, presidente da Câmara que deu abertura a isso. A senhora não acha que foi uma estratégia dele de tacar fogo no país para escapar do processo de cassação e a oposição, por sua vez, abraçou a causa por ter perdidos nas urnas? 

- Han... é... eu não sei... O povo merece coisa melhor, com um novo presidente, aí sim o país vai pra frente

- Então insatisfação com o governo ou não gostar da presidente é motivo legal para o impeachment?

- ...

- Isso não seria um golpe contra a democracia?

- ...

- Senhora? Senhora! Volta aqui, senhora

Ela saiu correndo.

(Frida Kahlo)

Tipo Bonnie e Clyde


É tipo Bonnie e Clyde. Dois rebeldes em meio à crise. Dois “fora da lei”. Dois que sofrem tanto com o período quanto o resto da população. Dois que não aceitam a situação sem fazer nada. Dois que tocaram multidões com suas histórias. Dois que, positiva ou negativamente, marcaram a história do país.

É como Bonnie e Clyde. Dois companheiros que se ajudam por e apesar de tudo. Dois que não viveram mais em paz depois de terem seus nomes estampados em jornais. Dois que expuseram suas vidas ao entretenimento da mídia. Dois que dividiram as opiniões do país: uns amam, outros odeiam. 

É meio que Bonnie e Clyde. Dois que começaram com uma ideia, mas deixaram o dinheiro e o poder subirem à cabeça. Dois que se perderam no caminho e deixaram de se importar com as vidas ao redor. Dois que fizeram e desfizeram alianças para continuar ganhando. Dois que fizeram de tudo um pouco sem refletir sobre as possíveis consequências.

É como se fosse Bonnie e Clyde. Dois que irritaram uma elite conservadora dona de negócios. Dois que, após um tempo, passaram a ser alvo de uma oposição generalizada. Dois que foram levados a alianças não confiáveis com terceiros. Dois que acreditaram ser invencíveis e deixaram de se preocupar com os aliados. Dois que erraram.

É mais ou menos como Bonnie e Clyde. Dois que se aliaram a uma pessoa que só queria ganhar. Dois que fecharam os olhos e acreditaram que os amigos os ajudariam em todos os momentos. Dois que sofreram um golpe articulado pelos aliados e opositores. Dois que foram encurralados e destruídos. 

Foi assim como Bonnie e Clyde. A derrota dos dois foi estampada em todos os jornais. A vitória dos opositores foi engrandecida pela mídia. O aliado foi visto como herói pela oposição e logo se juntou a ela formalmente. Os opositores logo confirmaram que planejaram o golpe. E, mesmo assim, as reações posteriores continuaram a dividir as opiniões do país: uns choraram, outros comemoraram. 

É tipo Bonnie e Clyde. Uma história de amor, cumplicidade, amizade, ambição, poder, dinheiro, traição, golpe. É uma história real mitificada. É uma história que, como qualquer outra, está aberta a diversas interpretações. É só uma história...

 

Amelie Poulain

Cercados


Não dá para esconder, está em toda parte. Foi quando vieram me perguntar se eu achava que era ou não golpe. E eu respondi: SIM, É GOLPE! 

Levei essa pergunta comigo, para mim era algo claro. Vivemos em meio a armadilhas cotidianas criadas e mantidas por nós mesmos pela busca incessante em tirar vantagem uns dos outros. Somos golpeados todos os dias, pensei. Em diferentes proporções.

Andamos sempre desconfiados, cautelosos e amedrontados, temos hora para andar em certos lugares e estamos indefesos quando somos abordados e nos levam nossos pertences. Vulneráveis às agressões, à criminalidade e aos perigos da rua. Somos golpeados pela violência. Quando burlamos alguma norma social que nos dificulta a solucionar um problema pessoal, somos golpeados pela desonestidade. Quando parte do dinheiro público é desviado para cofres privados, somos golpeados por políticos corruptos. Quando uma mulher não se sente segura, é reprimida, assediada ou violentada por ser mulher, somos golpeados pelo machismo. Quando temos uma minoria rica e um povo que beira a miséria, somos golpeados pela desigualdade. Quando pessoas morrem nos corredores dos hospitais, por falta de estrutura e investimento, somos golpeados pelo governo. Quando traímos a confiança daqueles que nos amam, somos golpeados pela deslealdade.

Somos, porque vivemos em sociedade e nossas atitudes e relações refletem as condições em que vivemos. Talvez, a questão do golpe seja um pouco mais complexa, e estejamos cercados por corruptos e corrompidos em todo o lugar e há muito mais tempo.

É um golpe contra a liberdade, é golpe à segurança, aos direitos, à democracia, à educação, à saúde pública, ao trabalhador, à mulher, ao pobre e ao próximo. É golpe todo o dia, na sua frente. É só você abrir um pouco os olhos. É golpe por golpe, é golpe sobre golpe. E esse é apenas um relato de um cidadão frustrado e desesperançoso que também acabou sendo golpeado pelos seus pensamentos.

Lemos, Dante.