sexta-feira, 15 de junho de 2018

Eu e ela

Passei a tarde inteira preparando um jantar romântico. Escolhi suas músicas preferidas: as que enviei quando começamos a namorar e a que ela sempre ouvia pensando em mim. Comprei flores para enfeitar a mesa. Ela ia passar aqui no meu apartamento, no início da noite, para eu cozinhar para ela, como sempre havia prometido.

Após o jantar, sentamos no sofá e conversamos um pouco sobre a vida. Entre uma frase e outra, ela se aproxima, senta no meu colo e envolve a minha cintura com suas lindas pernas. Eu beijo seu pescoço e seus seios, que têm o encaixe perfeito para a minha boca. Em seguida, levanto-me segurando-a em meu colo, e terminamos a conversa na cama, com ela deitada sobre mim, o queixo encostado em meu peito, enquanto me olha. “Como sou sortudo por esses olhos grandes e doces serem só para mim”, penso. 

Perco-me nela, sua voz entranha minha pele, me sinto em êxtase. O único pensamento em minha cabeça é a certeza de quero ser o homem para ela a vida inteira. Aperto sua cintura com força, para checar sua reação. Puxo-a para cima, para alcançar seus lábios vermelhos. Sinto-a nervosa, mas entregue ao beijo, seu corpo aquecendo pressionado ao meu, seus músculos relaxando. Percebo que é verdade quando ela diz derreter ao som da minha voz, após horas seguidas conversando ao telefone. Sinto um calafrio quando suas mãos suaves deslizam pelo meu peito e abdômen. Meu corpo treme junto ao seu.

Tudo ocorre naturalmente. Nós já pertencíamos um ao outro há muito tempo. Ela sabe tudo que gosto. Eu a conheço como ninguém. No final, ela dá um suspiro profundo como quem está ficando sem ar, porque se perdeu no ritmo da respiração. Eu, imediatamente, coloco seu cabelo atrás da orelha, seguro seu queixo e lhe dou um selinho, como quem diz “está tudo bem”. Em seguida, deixo-a cair no sono com uma parte de mim em seu corpo e sua cabeça sobre meu peito.

Ela se vê como uma menina simples e insegura, procurando por carinho e proteção, e me vê como um homem decidido e maduro. Não faz ideia do mulherão que é aos meus olhos e do menino inseguro em que me transformo a seu lado. Fiz de tudo para que se sentisse tranquila, comigo no controle, como se eu a dominasse naquele momento. Mal sabe que quem me domina é ela. Penso nisso antes de acompanhá-la no sono. 

Ao amanhecer, acordo e percebo que ela havia se mexido, durante a noite. Agora, de todo o seu corpo, apenas uma de suas mãos permanecia sobre mim, em meu peito. Tiro-a com cuidado para me levantar e preparar o café da manhã. Queria senti-la novamente, mas me contento com um beijo apaixonado com gosto de café.

Por Kunta Boyd.


Cumpra as ordens e faça-me ser sua.

Pegue duas toalhas, ou melhor, uma. Abra a porta, coloque a nossa playlist, tire a roupa e entre. Ligue o chuveiro e aumente o nível da água. Agora pare e só aprecie cada gota d’água deslizando por todo o meu corpo. Perceba cada gesto meu e siga com os seus olhos as minhas mãos que se deslocam sobre todos os meus contornos. Decifre cada curva do meu corpo. Me olhe de cima a baixo. Repare no jeito que faço os movimentos e foque nos meus olhos que clamam cada vez mais pelos seus toques. Aproxime seus lábios da minha boca e os faça chegar lentamente em meu pescoço do jeito que foi ensinado a você. Sinta o meu desejo. Sussurre em meus ouvidos e me incendeie. Deslize a sua boca por toda a extensão que me compõe e diga o quanto me quer e me beije. Mate a nossa vontade.

Deslize as suas mãos por mim, ao mesmo tempo em que as minhas acariciam partes do seu corpo. Faça com que a minha inconsciência a partir de agora nos conduza. Toque com suavidade nas minhas partes mais sensíveis. Diga o quanto me quer e que só eu que te faço estremecer. Estremeça! Reclame das minhas incertezas sobre nós. Pergunte a mim por que faço isso e ouça atentamente a minha resposta. Demonstre toda a vontade que tem de ser meu e seja. Puxe o meu cabelo. Me agarre pela cintura. Ouça a minha respiração. Analise os sinais que o meu corpo te dá. Perceba o meu olhar e agora ME BEIJA. Beija a minha alma, o meu corpo e a minha boca ao som da água caindo sobre nós.

Feche os olhos e sinta que agora somos apenas um.

Por Ermyniana Valente.

Futuro do pretérito

De repente, uma fragrância nova toma conta daquela sala. Estávamos bebendo, rindo, conversando, dançando, e ela chegou. Com seus olhos de esmeralda. Com seu cabelo curto levemente ondulado. Com sua pele reluzente, que contrastava com o negro de seus cabelos. Com seus lábios levemente carnudos, tão perfeitamente desenhados, que me questiono como poderiam ser reais.

Ela era.

Ela é.

São mais de meio milhão de palavras registradas, mas nenhuma delas, sequer, era capaz de traduzir quem ela era.

Desde o primeiro instante em que a vi, não conseguia focar em mais nada e nem ninguém, além dela. Era como se o mundo estivesse congelado e mudo.

Menos ela.

Ela continuava viva para mim.

Com um copo de uísque na mão, dançando suavemente de olhos fechados, não havia mais dúvidas para mim. Estava apaixonada. Não pelo o que nasceu com ela. Seus olhos eram lindos, de fato. Mas não passavam de um convite para a sua alma, a qual eu ansiava em conhecer.

Tento esconder o que sinto. Agora pouco disse que, para mim, era impossível eu me sentir atraída por uma garota. E, então, ela surge. Bagunça minha mente. Quebra as minhas barreiras. Rasga a minha identidade. Não sei mais quem eu sou e, para ser sincera, não tenho tanto interesse em saber. Meu único desejo, naquele momento, era conhecê-la.

Coragem para falar com ela? Inexistente.

Foi aí que eu peguei meu caderninho sem pauta vermelho, surrado, por carregá-lo sempre comigo, e comecei a escrever.

“Quem é ela?

Quais segredos ela esconde?

Como pôde, em questão de segundos, me conquistar?

Eu sempre fui uma garota incomum

Tenho alma de camaleão

Sem personalidade fixa

Ampla e ondulante como um oceano

Sem bússola de moral

Mas

Se dissesse que estava planejando isso

Estaria mentindo

Se me perguntares quem sou

Não sabereis dizer

Mas, se me perguntares o que desejo

Responderei: “você”

Vamos dançar blues

Com desejo ardente

Sente-me

Cale-me

Deixe-me despir seu corpo

Sem pressa

Como uma primeira vez numa cidade

Um corpo é uma surpresa

Como abrir um presente

Não se pode com as mãos infantis 

Desorientadas

Aflitas

Desesperadas

Ir rasgando invólucros

Um corpo é uma surpresa

Uma mistura de sensações inenarráveis 

As quais devemos saborear lentamente

Ainda que a sede seja ardente

Beberei lentamente

Ainda que a gula arrebente meu ser

Devorarei-te como quem saboreia sua última refeição

Permita-me desnudar-te com destreza

Deixe-me explorá-la selvagemente

E os seus mamilos irão desabrochar como flores na primavera
Irei sugá-la como se fosses uma doce fruta

E quando não aguentares mais

Quando tiveres experimentado tudo

Levarei você ao último céu

Secarei cada gota de suor do seu rosto

Dar-te-ei leves beijos 

Assim provarei que sei te amar

Amar-te não é coisa para amador

Amar-te é uma arte

E eu sou artista”

Quando termino de escrever, com os olhos trêmulos, segurando o choro, levanto meu rosto e lá está ela. Desta vez, em suas mãos, estão outras entrelaçadas. Desta vez, seus lábios conversam com outros, sem dizer palavra alguma. Não consigo mais olhar. Dói. Dói vê-la nos braços de um outro qualquer. Mas, tudo bem. É melhor do que te ver sofrer de saudade de mim como eu tô de você. Saudade daquilo que, na verdade, nunca existiu. 

Já dizia um sábio professor que tive na faculdade: “Não existe nada mais cruel do que o futuro do pretérito”.

Por Andrea Melo.

ATÉ O LIMITE


A noite é calma e o fogo da lareira, acesa por conta do frio do outono, realça perfeitamente o brilho de sua pele morena, tão convidativa. Os vizinhos já conhecem o seu nome. Me culpe por isso. Ou se culpe. Você sabe que não consigo conter meus gemidos ao sentir o paraíso de seus lábios fazendo uma trilha molhada pela minha pele. Seu toque me enlouquece, seu cheiro me inebria e seu corpo me arrebata. Você adora como me afeta e eu me sinto completamente exposta ao seu olhar luxurioso.

Os sussurros, por vezes incompreensíveis, rentes ao meu pescoço fazem com que eu precise de ar e mais ar e que eu sinta meu corpo inteiro se contrair. Que poder é esse que você tem sobre mim? Não para não... Só quero poder te sentir mais, mais quente, mais fundo, mais entregue. Por favor... Eu já te pedi para ser meu, quantas vezes terei que expor minha possessividade? Prender seu corpo entre as minhas coxas parece uma deliciosa forma de dizer, sem dizer.

Seus olhos são capazes de me aquecer inteira. Fixe eles nos meus. Você sabe que eu gosto quando me olha nos olhos enquanto me toca. Eu sei que você pode ver através de mim. Não para, você sabe do que eu gosto... Tire tudo de mim, minha roupa, minha energia, meus gemidos. Me faça me sentir sua como da primeira vez. Isso... Você sabe que eu já era sua desde o começo, desde o nosso primeiro olhar. Não para... Me ame devagar.

O suor escorrendo pelas nossas peles é inevitável. Mas ele não nos para. Ninguém nos para. O céu é o limite para nós, meu bem. E eu estou disposta a te levar ao limite esta noite, e em todas as noites. Não vá trabalhar amanhã, vamos continuar aqui fazendo esse amor preguiçoso. Você se importa se eu fizer da sua cama a minha morada e da sua pele meu pecado favorito? Você quer que eu fique? Prove e me prove mais uma vez. 
Me faça repensar se eu devo ou não ir embora amanhã.

Por Dandara Davis.

Quando as estrelas vêm pela manhã

Era uma quarta feira fria, acordamos com a chuva despencando no telhado e com o ótimo barulho que esse contato produzia. Estávamos deitados um de frente para o outro e eu tinha sentido a noite toda a respiração dele. Como era bom saber que seus pulmões se contraiam enquanto o seu coração bombeava o fôlego necessário para sua vida. Eu amava a ideia de ser um dos motivos por ele bater mais rápido e feliz e, ao mesmo tempo, amava quando o sentia calmo por estar perto de mim. Então, ele abriu os olhos, me deu um beijo de bom dia e disse que seria um ótimo dia para aproveitarmos na cama, e sorriu com malícia.

Ele me olhava com desejo, sempre foi assim, olhava no fundo dos meus olhos e sorria, mas tinha diferentes tipos de sorrisos, e aquele dizia aos meus lábios que queria o beijar intensamente, entrelaçar línguas e depois descer para cada parte de mim.

O embalo do som da chuva propiciou minha estadia na cama e os olhos dele me ganharam por inteira, então, meu coração começou a bater mais rápido, como se dissesse para eu responder "sim" àquela investida, porque queria muito amá-lo de novo, como se fosse a primeira vez.

Subi no colo dele enquanto ele se ajeitava para ficar de frente para mim e sorri com a mesma malícia. Estávamos conectados agora. Meu corpo já começava reagir, ele me deixava excitada só de me olhar e eu sentia sua manifestação enquanto rebolava em seu colo.

Então me puxou pelo cabelo com uma pegada monstruosamente incrível. Ele sabia me dominar e sabia que eu adorava ser dominada por ele. Que mãos! A sincronia dele era ótima, beijava meu pescoço enquanto tirava a minha blusa porque ele já tinha calculado que o próximo resultado seria se afogar em meus seios. E assim o fez, deixando-os completamente aflorados e potentes.

Quando ele percebeu que meu corpo já estava todo enrijecido de tesão, passou a língua com delicadeza em meus seios e fez questão de deixar uma marquinha para eu lembrar da nossa manhã chuvosa de amor.

Depois foi minha vez. Beijei seu pescoço enquanto tirava sua cueca, olhei para ele e vi o quanto ele queria que eu o saboreasse todo. Então eu o fiz, comecei com delicadeza e ia aumentando a velocidade a cada gemido que ele dava, queria atiçá-lo e queria que ele me pedisse mais, para não parar e ficar ali para sempre. Então, enquanto eu o acariciava com os lábios, ele murmurou o quanto eu era maravilhosa e o quanto ele queria explodir em mim.

Mas, eu fui malvada e egoísta. Parei e pedi para que agora ele sentisse o meu gosto. E assim o fez sem reclamar, pois gostava mais disso do que eu mesma. A língua dele se mexia na frequência certa e no lugar certo, aí passei a lembrar das aulas de física que ele me explicou e entendi que as ondas eletromagnéticas dos nossos corpos estavam produzindo energia.

E essa energia aumentava a cada movimento produzido, eu sorria enquanto gemia e só conseguia pensar no quanto aquele homem era incrível, já ele olhava de baixo para o meu rosto e me excitava mais, ele queria ser o motivo do meu orgasmo. E foi.

Meu gemido estrondava nosso quarto, fiquei em êxtase, fiquei mole e só queria que aqueles cinco segundos durassem cinco horas. Não tinha forças para emitir palavras, e ele sabia disso, então nos beijamos calorosamente, mais uma vez. Ele me olhava com satisfação, tinha orgulho do seu ato e mais orgulho por me fazer ir conhecer as estrelas sem sair da nossa cama.

Agora eu tinha que recompensá-lo, precisa fazê-lo explodir assim como eu, ou até mais, até porque eu também queria ter orgulho de mim. Então voltamos a posição inicial. Montei nele e comecei a cavalgá-lo delicadamente. Nos olhávamos penetrados, em todos os sentidos da palavra. Mas, eu queria que ele deleitasse para mim e em mim. Aumentei a velocidade e ele fechou os olhos. Queria pegar em meus seios, mas só conseguia sussurrar "eu te amo" milhares de vezes seguidas. Então, no último murmúrio, ele chegou ao ápice e conseguiu ver as estrelas como eu. Sorri feliz por tê-las contemplado comigo.

Depois de termos visto constelações, deitamos um de frente para o outro, como estávamos quando acordados pela chuva, e nos beijamos com paixão. O som da chuva ainda tocava e ele acariciava meu rosto como se ainda estivesse contemplando as estrelas. Fizemos amor naquela quarta feira chuvosa, ao som dos pingos caindo no telhado, e ainda nos derramamos por inteiro um no outro, por amar.

Por Emma Alfie.

Beija eu

O momento do banho sempre foi uma hora sagrada pra mim. A pausa no meio do caos, das cobranças intermináveis. Me coloco debaixo do chuveiro, sempre no morno, fecho meus olhos e imagino toda frustração indo embora junto à água. Me transporto para uma realidade onde não há prazos, chefes exigentes, contas e contas pra pagar... E tem a música, é claro, da minha melhor playlist no Spotify. Às vezes eu me atrevo a cantar, berrar junto à música, para infelicidade dos vizinhos.

Hoje a música está bem alta. Uma música leve e romântica em alto som cura todos os males. Quando é Silva canta Marisa então... Não há dor que esse álbum não cure. Coloco a melhor canção de todas: Beija Eu. Fecho meus olhos, extasiada com os primeiros toques da faixa. Nesse instante de concentração, penso ouvir a porta do banheiro se abrir. Como sempre, a deixei destrancada. Abro um dos olhos, encaro o box de vidro que é apenas neblina. Pode ter sido o gato... Como sempre o espertinho atrapalhando em momentos indevidos. Mas poderia ser alguém muito melhor, com pés no lugar de patinhas.

Me vejo passando minha mão no box, a fim de conseguir enxergar algo além do embaçado. Em seguida, posso ver os cachos desgrenhados e costas nuas com duas lindas covinhas. O invasor lava seu rosto, molhando a ponta de seus cachinhos do topo da cabeça. Seca o rosto atrapalhadamente, então percebe que está sendo observado. Provavelmente vê apenas um par de olhos entre o pequeno espaço visível da porta de vidro. Sua cara amassada esboça o mais lindo sorriso. Minhas bochechas coram sem que eu nem mesmo saiba o porquê. Depois de 6 meses juntos, ele ainda tem o poder de me deixar envergonhada.

Observo a porta de vidro sendo arrastada com lentidão. O invasor primeiro entra, depois me vê, quieta, apenas a música tocando. Sua gargalhada gostosa reverbera pelo banheiro. Meus olhos se perdem nele, nos músculos definidos, nas tatuagens que sempre ficam ocultas pela roupa. Mas agora, naquele banheiro, iluminado pequena luz da janelinha, seu corpo inteiro reluz. "Me beija..." a música diz as palavras que eu simplesmente não consigo dizer. E nem precisa.

Ele não perde tempo. Temos hora para tudo. Pra trabalhar, estudar, reuniões, entregas... Mas para amar não existe hora. Toda hora é hora, e não há como deixar pra depois. O amor pede por mais tempo, e a gente oferece apenas alguns intervalos da vida pra ele. Talvez não seja tudo o que gostaríamos, mas felizmente, são as pequenas pausas que alimentam o sentimento. Queremos sentir inusitadamente o coração palpitar, sentir o desejo crescer, ver a paixão transbordar.

Ele me puxa em sua direção. Todo calor se intensifica e a água se torna menos quente que o encontro entre nossas peles. Seus olhos castanhos encontram os meus. Eles brilham e depois se fecham quando nossos lábios se encontram. Suas mãos envolvem meu corpo molhado e escorregadio. Encontram todas as minhas curvas, minhas tatuagens também escondidas, partes que tanto me deixam insegura. Minhas mãos também brincam, mas escorregadias e inseguras demais.

Fico desnorteada com seus beijos. Estão nos meus lábios, em meu pescoço, e descem... E ardem de forma gostosa. Felizmente, perco a noção do tempo. Seus beijos deslizam... Esqueço que é segunda feira. Suas mãos me erguem sem hesitar... Emprego? Nunca nem vi. Nossos corpos se unem, se encaixam, e eu já não sei de mais nada. Ele é minha pausa em meio ao caos, a correnteza que leva todos os problemas pro ralo. Momentos assim não deviam acabar. Mas infelizmente, se encaixam apenas nos momentos de pausa, como na hora de tomar um belo banho.

A imagem dele sorrindo continua se repetindo em minha mente. Quando abro os olhos, estou sorrindo também, como uma pré-adolescente apaixonada. A água ainda cai, a neblina aqui dentro contínua. Passo a mão pelo box do chuveiro. Olha para o lado de fora, e o gato me encara de volta, miando. Estamos de volta à realidade e cá estamos: só eu e o gato, como eu duvidava.

Me enrolo na toalha e pego o celular. Ignoro as várias mensagens nos grupos de WhatsApp e nem vejo o horário. Tudo o que me resta é mandar uma mensagem para ele. Talvez seja o único momento que eu tenha no dia para enviá-la.


Por Mary-Louise Paris.

Empate

Você não é ela.

Tentei te ver diferente mas você simplesmente não é ela. Bem aqui nessa cama, lembro daquela tarde de Março com riqueza de detalhes, nunca vou esquecer do dia do nosso casamento. A gente com planos de assinar os papéis e entrar direto no avião pra ir pra calma das praias do Havaí curtir a lua de mel e um ao outro. Surpresa: Todos os voos cancelados, chuva torrencial, daquelas de fim de mundo. Recordo como achamos graça da situação enquanto outros casais se desesperariam. Nós sabíamos que ia ser um momento ímpar independente do endereço. Naquele dia estávamos começando a construir a nossa família e isso nem toda tempestade do mundo poderia nos tirar. 

Lembro da gente chegando no apartamento- antes seu, agora nosso- depois da viagem frustrada, você completamente encharcada de chuva, e rindo. Acho que nunca te amei tanto como naquele momento. Minto, me apaixonei mais ainda quando você saiu do banho e te vi na porta do banheiro vestindo apenas um moletom meu surrado,  daqueles claramente emprestados de tão largo, e de meias coloridas. Ali, tudo que já tinha acontecido comigo de ruim na vida desapareceu, só por ter você ao meu lado, poder te chamar pela primeira vez de esposa.

Fui ao seu encontro como um maratonista antes de cruzar a linha de chegada: quase correndo e com uma sensação de vitória sem igual, te desejava por inteiro. Meu corpo pungiu só de encostar no teu, minha mulher. Parte de mim logo se ascendeu, enrijeci. Entrar em você era como completar um quebra-cabeças, nos encaixávamos. Me senti como uma pedra quicando em seu lago, tudo fluía. Seu prazer era o meu prazer, beijar seus lábios e ouvir seus gemidos quando eu atingia um ponto especial só aumentava minha virilidade. Estar dentro de você, em todos os sentidos, era como ouvir minha música favorita, melodia perfeita.

Antes era só te tocar, a personificação do meu amor, que a excitação se tornava presente. Isso quando você era Ela. Agora minha ereção me causa um quase ódio, me deito com Judas. Tenho raiva de você por ter traído minha confiança, raiva de mim por ter falsamente te perdoado e deixado as coisas chegarem a esse ponto. Se amante significa “aquele que ama” então você compartilha amor com outro que não eu. Penso se não talvez em um de seus encontros já não estiveram nessa mesma cama em que estamos agora. Essa imagem não sai da minha mente, por isso, já não te penetro da mesma forma porque você não esta dentro de mim da mesma maneira.

Estar com você agora é ter o Bono cantando with or whithout you sem parar na minha cabeça, me afeta. Não faço mais amor com você, faço sexo, e daqueles baratos. É puro desejo carnal com um toque de luto ao meu sentimento por você, que é moribundo. Transo com você quase com repulsa, até cuspo. Te amo com força, por você ter matado o amor da minha vida, dentro de mim. Assassina, nunca vou perdoar seu suicídio. Antes a relação era símbolo de paixão, futuro, possíveis filhos e agora é humilhação, fracasso, é triste.

Me meto em você que tem o mesmo sangue, mesma história e anatomia da mulher dos meus sonhos mas agora te vejo com outros olhos. Você não é mais ela, minha esposa não me trairia, eu já não te conheço mais. Entro e saio do teu corpo quase como punição, por impulso. Como em dom Casmurro “O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida” então te amo pela última vez lembrando da primeira. Depois dos orgasmos, você sai do banho com as mesmas meias coloridas só que agora enxergo tudo em ti em preto e branco. Só deixo pra trás gavetas vazias, como sua consciência, pra você sentir a mesma dor que a minha, a perda. Empatamos, mas nós dois perdemos o jogo.

Por São Valentin.