segunda-feira, 13 de junho de 2016

Hoje sim


Solange, tem vaga às 16h?

Eu garanto que essa vai ser a última vez, até porque não dá mais. Já me toquei que ele não quer nada sério. É sempre a mesma coisa: me liga depois do trabalho e marca um jantar que acaba terminando no seu apartamento no Humaitá. Na manhã seguinte, sempre acordo com um bilhete em cima da cabeceira ‘Tem aquele iogurte light que você gosta na geladeira. Te vejo qualquer dia, beijos’ E ele ainda tem a coragem de escrever ‘qualquer dia’. Mas hoje não tem jeito, é a última vez que vou cair nessa. 

Já deu da sua fronha cafona que você comprou numa loja de departamento numa dessas suas viagens com a firma. Já deu do seu porteiro do olhar julgador que sempre demora para abrir o portão quando chegamos de madrugada. Já deu da sua barba pinicando meu rosto quando resolvo idealizar nosso sexo casual em um dos nossos abraços românticos. Já deu de marcar depilação com a Solange toda sexta. Já deu de pintar as unhas de vermelho para tentar te impressionar. Já deu de escolher lingerie que combina ou fazer agachamentos antes de te encontrar com a esperança de, quando eu acordar, você ainda estar lá, para admirar minhas pernas, ou seja lá o que for. Já deu de ser ignorada durante toda a semana e só ser lembrada nos feriados ou sextas feiras. Já deu de me atualizar no preço do dólar e mercado internacional toda vez que eu te vejo, para ter uma conversa interessante a respeito do seu ambiente profissional. Já deu das suas manias, seus fetiches, suas mentiras. Definitivamente, já deu. 

Eu te garanto que vai ser a última vez, até porque não dá mais.

Solange, tem vaga às 16h?

 

Valentina

Ninguém tinha sido ele

Mais um encontro como qualquer outro. Eu, ele e dois pratos de lasanha entre nós. Comemos, conversamos, nos divertimos. Até que ele começa a remexer a comida, olha para baixo pensativo e pergunta – Você já trouxe alguém aqui antes de mim, amor? – Penso por 5 segundos se devo ou não responder, mas no fim digo a verdade – Sim, já trouxe. – depois disso, ele ficou quieto e quando raramente me respondia, era com monossílabas. Fomos juntos para minha casa, o trajeto todo em silêncio. Eu fazia comentários que se perdiam no ar. Entramos em casa, ele larga sua jaqueta no sofá, vai para o meu quarto e fica sentado na beira da cama olhando para baixo e balançando as pernas. Me sento ao lado dele, levanto seu rosto pelo queixo. – Sim, eu já levei outras pessoas àquele restaurante, mas nenhuma dessas pessoas era você. Nenhuma delas tinha o seu sorriso. Nenhuma delas me fez ter vontade de ficar ali por horas só ouvindo falar sobre a sua vida. – Foi bobo da minha parte? – ele pergunta, envergonhado. – Talvez – respondo com uma risada de canto de boca. – Mas eu talvez tivesse feito o mesmo. – Ele volta a encarar o chão por mais alguns segundos e assim que levanta o rosto, em uma sincronia perfeita, nós nos beijamos. Totalmente sem jeito, ele se joga sobre mim e inevitavelmente nós rimos da situação. Nos encaramos por alguns segundos e voltamos a nos beijar. Tiro sua camisa e sinto seus dedos tremerem levemente ao desabotoar a minha, deslizando-a por meus ombros. Ele tira sua calça e me ajuda a tirar a minha. Beijo o seu corpo por inteiro e por um momento me perco em sua pele bronzeada e seu cheiro. Alguns momentos depois, com ele sob mim, paro e o olho fixamente. Ele dá um sorriso envergonhado. – Você é lindo. Eu te amo. – Mais uma vez, ele abre aquele sorriso encantador e volto a me mover sobre ele enquanto me inclino para beijá-lo. Nosso beijo combinava. Nosso sexo combinava. Nosso amor combinava. Eu e ele combinávamos. Quando acabamos, ainda deitados lado a lado, nos acariciando e olhando para o teto, ele desvia o olhar para mim. – O que acha de outra lasanha agora? – e ri. Não havia nada de especial naquilo, mas eu concordo com a cabeça rindo e tenho ainda mais certeza de que nenhuma das outras tinha sido ele.


Peter Parker

Libido


Não foi só um insight que passou. O desejo está em mim, está em você, está nele, esta nela, em todos. Somos carne, carnal, paixão, passional, mas não venha com brutalidade, com força. Sou eu que decido se sim ou não. Você não vai me obrigar a nada. Nem você, nem a pressão que a sociedade tenta impor sobre nós.


Nesse momento, estou ardendo em chamas de vontade e desejo, apesar da baixa temperatura que congela os meus pés. Entretanto, eu me encontro só, pois eu tanto busquei e procurei que idealizei coisas impossíveis e nada encontrei. Cadê você, o Carlos, a Leticia, a Roberta e outros alguéns que não me recordo o nome? Tantos nãos ditos pelos meus lábios e, agora, os mesmos se encontram ressecados à espera dos seus lábios dizerem sim. São Paulo tão cheia e eu com um vazio inexplicável sob esses lençóis brancos que me cobrem.


O sexo é poesia, sua melodia é musica para os meus ouvidos e muito mais. É descoberta, redescoberta e muito mais. Mas por quê? É muito mais, pois a libido esta em tudo. Até nos tabus e, principalmente, neles. Então, não jogue os desejos para o seu inconsciente. Liberte-se e deixe-se levar. Mas atenção, eu te peço cuidado e respeito porque se organizar direitinho todo mundo transa. Entendeu bem?


Agora, venha. Estou te esperando e quando você chegar, eu não vu parar. Quem vai cansar é você. Prepara-se, vai ser intenso. Teus lábios, teus olhares combinarão com meus suspiros de prazer. Será uma noite muito longa. Você fara parte da minha festa e me faça parte da sua. Você vai gostar. Olha, e como vai. 

                             

                                                                                                                                                                                                                               Chris

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Bifurcações

 

Era tarde da noite. Saíra da casa dos meus pais logo após o jantar mesmo com toda insistência da minha mãe para passar a noite lá. “A estrada é perigosa!” Ela disse várias vezes durante o meu trajeto até o carro, mas nada poderia me oferecer mais conforto aquela noite do que minha cama. A estrada de fato era perigosa, escura e com grande número de acidentes. Conferi meu cinto muitas vezes antes de sair e deixar a casa que cresci para trás mais uma vez.

No meio do caminho, logo após de passar pelo último posto em funcionamento, comecei a me sentir sonolenta. Pensei em voltar, dizer para minha mãe que ela estava certa e receber de bom grado a cama do meu antigo quarto, mas a distância até o meu apartamento era a mesma então continuei a viagem. O rádio que tocava uma música qualquer parou de funcionar assim que cheguei à bifurcação. O caminho da esquerda, que eu sempre seguia, não me pareceu uma boa ideia, estava muito cansada e dormiria se seguisse por ele. Em contrapartida, o da direita era mais curto, se eu acelerasse um pouco mais chegaria em casa antes que o planejado. Por fim, decidi seguir pela direita, o caminho mais fácil.

            Nos primeiro quilômetros a ideia me pareceu fantástica e me perguntava o porquê de nunca ter passado por esse caminho, mas após poucos minutos de viagem comecei a entender as minhas antigas escolhas. Passei pela entrada de uma fazenda, não consegui ler o nome, mas me atentei na escuridão que cercava aquele terreno, as árvores eram mais densas e escuras e consegui ver ao fundo uma luz bem fraca, parecia uma grande fogueira. Ao olhar para frente tinha um grupo de pessoas no meio da estrada, bem próximo ao carro. Freei o carro bruscamente e acabei saindo da pista.

            O carro parou e desci rapidamente. Me deparei com uma pequena família. Todos estavam bem vestidos e pareciam decididos em adentrar a mata, não conseguiam me ouvir e eu não os entendia. Voltei para o carro decidida à seguir viagem, mas algo fez com que eu descesse novamente do carro e seguisse a família.

            Estava andando do meio da mata há alguns minutos e ainda não os encontrara. A cada passo que eu dava a noite ficava mais escura e as árvores mais fechadas. Foi quando avistei a luz, a mesma que tinha vista na estrada. Segui em sua direção e constatei que era uma grande fogueira, cheia de pequenas famílias como a que tinha visto na estrada. Reparei que conversavam muito e discutiam sobre o futuro dos que estavam presentes. Falavam de prisões, dinheiro e de uma pessoa que atrapalhava os planos deles. Ao me aproximar mais um pouco alguns senhores me viram e vieram na minha direção. Eram os mais bem vestidos ali. Terno, sapatos brilhosos, cabelo cheio de gel e incontáveis seguranças enormes.

            Me virei rapidamente e corri em direção à floresta. Tentei achar em minha mente informações que levassem mais rápido para o meu carro, mas ao chegar na estrada não o encontrei. Tentei correr até a bifurcação, mas tudo que via era grandes árvores na beira da estrada. Parei depois de alguns minutos correndo e me dei como perdida. Não sabia onde estava, não encontrava meu carro e não queria voltar para a floresta.

            O dia começou a amanhecer e ouvi movimentações nas árvores. As pequenas famílias que estavam na fogueira passavam por mim sem me ver, como seu eu não existisse. Comecei a segui-los e no meio do caminho encontrei o meu carro. As portas estavam abertas, tudo havia sido remexido. Adentrei no veículo e segui viagem o mais rápido possível.

            Quando cheguei em casa, liguei a televisão no jornal da manhã, peguei meu computador e digitei coisas aleatórias sobre a tal fazenda e seus arredores. Fiz um café bem forte e decidi telefonar para os meus pais para avisar que tinha chegado em casa bem mais tarde que o planejado quando me disseram que há duas semanas eu não ia visita-los. Levei um susto enorme ao ouvir isso e quando olhei para a televisão reconheci um dos senhores que vi de terno na noite passada. Ele era chamado de presidente. Peguei o meu computador e fiz uma pesquisa rápida sobre a fazenda. Nada estava no mapa, aquela estrada não existia, as pessoas que vi não existiam e mesmo assim tudo ainda era muito claro na minha cabeça. Paralisei, lembrei da noite passada mas não consegui me lembrar de mais nada. Foi como se tudo fosse um sonho. Um sonho de como as coisas se perderam no meu pais. Um sonho sobre uma mudança de caminho.

 

Mônica do Legião

domingo, 5 de junho de 2016


“Enquanto a esquerda
sonha com o futuro,
a direita vive
presa ao passado.


A esquerda
quer igualdade geral,
a direita aceita
que a desigualdade é natural.


A esquerda precisa
da coletividade,
a direita
quer individualidade.


A esquerda
encara o problema,
a direita quer
qualquer solução.


A esquerda 
quer progresso,
a direita 
reação.


É difícil viver 
em tanta contradição 
dentro
de uma só organização.


É difícil 
tomar uma posição geral 
após uma paralisia parcial 
gerada por um derrame cerebral.”

Spencer Reid

A Destreza de um Zurdo

Graças a Murphy, a gasolina do meu carro terminou logo no trajeto menos movimentado da minha viagem. Deixei o veículo para trás, seguindo a pé pela estrada de terra. Alguns quilômetros depois, quando o sol a pino fazia suor escorrer por minha testa, alcancei uma bifurcação Y que dava caminho à estrada de terra e a uma nova passagem, de solo arenoso.

– Qual caminho você escolhe? – escutei uma voz atrás de mim. Virei-me na hora, e surpreendi-me ao avistar um homenzinho com feições infantis e cabelos dourados como trigo. Alguém normal fugiria – mas eu não sou normal. Então perguntei aonde levava o caminho de solo arenoso e ele me contou sobre seu lar – pequeno, com vulcões inativos e baobás gigantescos:

– Lá tem um pôr do sol lindo! Mas tenho que voltar logo, passei muito tempo fora. Minha rosa deve estar preocupada; não que ela admita isso, claro. – ele deu uma risadinha. – Quer ir comigo? – ofereceu-me, mas apreensão tomou-me ao imaginá-lo sozinho em meio a rosas, vulcões e baobás, então lhe perguntei quem era o responsável por lá. – Ninguém. Autoridade pra quê? Cuido da minha rosa, ela cuida de mim. Sempre cabe mais um; quer ir comigo?

Fiz que não com a cabeça e agradeci mesmo assim; recebi em troca um mero aceno do homenzinho antes de ele seguir pelo seu caminho. Fui pela estrada de terra sem olhar para trás – verdade seja dita, eu estava olhando para lugar nenhum: a conversa me desnorteara; eu não conhecia mais o meu rumo. Nem me assustei ao ouvir uma voz súbita:

– Não dê mais um passo sequer. – era uma menina com longas madeixas loiras, sentada sobre uma pedra às margens da estrada. Ela apontou para o buraco à minha frente, que me passara despercebido. – Confie em mim quando digo que você não quer cair aí. – Ela logo se explicou: – Lá embaixo é cada um por si. Todos estão sempre com pressa porque tempo é dinheiro; estão sempre atrasados. Num instante você é gigante, é bem sucedido e todos te conhecem; noutro, você é menor que um grão de poeira, é um ninguém porque perdeu tudo.

Eu não sabia o que dizer – por sorte, ela era solícita e me poupou de falar algo tolo ao me indicar como desviar do buraco para seguir em frente. Agradeci pela sua ajuda e lhe dei um tchau quase inaudível – o encontro com o homenzinho tinha sido certamente mais agradável. Depois disso tudo, prossegui com grande cautela – principalmente após alcançar uma parte em que a estrada fora pavimentada com tijolos amarelos. Dessa vez, vi a estranha primeiro:

– Está sem rumo? – a menina de cabelos castanhos e trançados perguntou, e eu logo assenti. Indaguei o que eu encontraria se seguisse aquela estrada, e ela me deu um sorriso desanimado: – Não há muita coisa. Nosso líder é um mentiroso, diz que ajudamos uns aos outros, mas só alguns cidadãos vivem em boas condições de fato. Faça algo de errado e o exército desaparecerá com você. – seu semblante abatido me comoveu. – Você quer seguir em frente? Não sabe seu destino ainda? – para frente não vou, foi meu único pensamento diante da sua pergunta. Alheia à minha reflexão, a menina tirou seus sapatos prateados – Sei que isso é estranho, mas não me questione, ok? Faça o que eu pedir. Vista esses sapatos, você parece precisar deles mais do que eu. Certo, isso mesmo. Agora feche os olhos, pense aonde você quer ir e bata seus calcanhares três vezes. Adeus. – e tudo ficou preto.

Encontrei-me na passagem arenosa que dá caminho ao lar do homenzinho de antes, e me senti contente com esse destino, com esse rumo – afinal, autoridade pra quê?

Cora


Sonho real


Véspera de feriado, tempo bom, decido fazer uma viagem. Pego meu carro e saio do Rio de Janeiro em direção a Santos. Após algumas horas de estrada, me sintocansado e decido parar em um posto. Chegando lá, me dirijo ao frentista:

- Fala amigão, boa tarde, tem alguma pousada aqui perto ?

- Tem sim senhor, só seguir um pouco mais adiante que vai ver uma a sua esquerda – responde ele. 

- Obrigado !

Sigo minha viagem mais alguns quilômetros e chego na pousada. Já era fim de tarde, então pedi um quarto pra passar a noite e partir na manhã seguinte. Neste breve descanso tenho um sonho, o qual jamais esqueci. 

No sonho eu estava em lugar onde o governo era muito conservador; tradicional. Os mais poderosos, de elite, é que estavam no poder, lembrando até um tempo Absolutista. A desigualdade social era evidente e cada dia uma nova privatização era anunciada. Eu era um trabalhador, vivia em uma situação mediana, mas torcendo por uma mudança, pra poder viver em um lugar onde o governo lutasse por uma sociedade mais igualitária, pelo direito dos trabalhadores e contra o conservadorismo. 

Talvez, por ser um sonho, esse meu desejo dentro do sonho, tornou-se realidade. De um dia para outro, o governo mudou, havia tido uma revolução e a oposição estava no poder. Agora haviam promessas de que o mais pobre poderia viver em uma situação melhor, de que aconteceriam reformas, de que o Estado seria forte economicamente e não dependeria das privatizações. Enfim este lugar em que eu vivia ia crescer.

Realmente, durante algum tempo neste sonho dentro do sonho, o lugar conseguiu prosperar, o nível da miséria diminuiu, o ensino público melhorou e os trabalhadores ganharam mais força. Infelizmente foi só por um tempo, depois voltou-se a estaca zero. 

Enfim, acordei. Foi apenas um sonho. 

 

Severo P.