segunda-feira, 13 de junho de 2016

Hoje sim


Solange, tem vaga às 16h?

Eu garanto que essa vai ser a última vez, até porque não dá mais. Já me toquei que ele não quer nada sério. É sempre a mesma coisa: me liga depois do trabalho e marca um jantar que acaba terminando no seu apartamento no Humaitá. Na manhã seguinte, sempre acordo com um bilhete em cima da cabeceira ‘Tem aquele iogurte light que você gosta na geladeira. Te vejo qualquer dia, beijos’ E ele ainda tem a coragem de escrever ‘qualquer dia’. Mas hoje não tem jeito, é a última vez que vou cair nessa. 

Já deu da sua fronha cafona que você comprou numa loja de departamento numa dessas suas viagens com a firma. Já deu do seu porteiro do olhar julgador que sempre demora para abrir o portão quando chegamos de madrugada. Já deu da sua barba pinicando meu rosto quando resolvo idealizar nosso sexo casual em um dos nossos abraços românticos. Já deu de marcar depilação com a Solange toda sexta. Já deu de pintar as unhas de vermelho para tentar te impressionar. Já deu de escolher lingerie que combina ou fazer agachamentos antes de te encontrar com a esperança de, quando eu acordar, você ainda estar lá, para admirar minhas pernas, ou seja lá o que for. Já deu de ser ignorada durante toda a semana e só ser lembrada nos feriados ou sextas feiras. Já deu de me atualizar no preço do dólar e mercado internacional toda vez que eu te vejo, para ter uma conversa interessante a respeito do seu ambiente profissional. Já deu das suas manias, seus fetiches, suas mentiras. Definitivamente, já deu. 

Eu te garanto que vai ser a última vez, até porque não dá mais.

Solange, tem vaga às 16h?

 

Valentina

2 comentários:

  1. Bom texto, Valentina. Pude, pessoalmente, me identificar com o texto, que leva como marca principal a repetição, tanto do questionamento direcionado à Solange, quanto do 'Já deu'. Haveria algo mais presente subliminarmente em seu texto? Um trauma em relação a um namoro passado talvez? Sabe-se lá.
    Só sei que gostei do texto. Ah sim, e ele rompe totalmente com a tradição do lead, sem deixar o jornalismo e sua observação para trás.

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  2. Concordo com Simone! Adorei a repetição e a ideia de conclusão que se tem por o texto começar e terminar do mesmo jeito. Pensei também a existência de um possível trauma. O que a faz voltar para alguém que ela sabe que não a merece? Pode ser muito bem abordado psicologicamente e até antropologicamente, já que essa é a base de muitos relacionamentos abusivos. O próprio texto dá margem para interpretarmos dessa forma. Não há uma relação de namorados de fato, mas para ser abusivo, isso não é necessário. Enfim, creio que ampliou a visão da realidade, não se limitou no cotidiano e rompeu com o lead.

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