sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Humanidade

-Diga-me uma coisa... Você sabe o que é ser humano?
-Só o que me contaram. Conheço um ditado famoso que diz "penso, logo existo". Isto está relacionado à ser humano, não está, doutor?
-Digamos que sim, meu jovem. Ser humano também é associado à capacidade de produzir sensações, sentimentos, entende? Conhece alguma dessas palavras?
-Sim, senhor.
No grande laboratório, reinava um silêncio impermeável. A voz do engenheiro mecânico ecoava a cada palavra, flutuando no branco leitoso que inundava o ambiente médico. Mas ele não estava sozinho, não. Um sujeito sentava a sua frente e apenas respondia o que lhe era perguntado. Sentia-se como tivesse sido acordado de um longo sono e não sabia decerto o que fazia ali.
-Como posso te chamar, meu caro? Estamos nessa conversa há algumas horas e ainda não sei o seu nome.
-Pode me chamar de... -parou por um instante tentando lembrar seu próprio nome. Não se lembrava, portanto achou que devia inventar. -Pode me chamar de Alfie.
-Muito prazer, Alfie. Meu nome é, bem, para você o que quiser. -sorriu o mecânico com certo brilho nos olhos. -Me fale um pouco sobre você. O que mais gosta de fazer?
Alfie o encarou confuso. O que ele gostava de fazer? Bem, o que seria gostar de algo? Sentir prazer, deduziu. Contudo, não fazia ideia do que o agradava.
-Eu não sei, doutor. Gosto de ajudar as pessoas, eu acho. Sim, é o que eu mais gosto de fazer.
-Isso é muito bom, Alfie! -exclamou, retirando os óculos de grau embaçados e limpando suas lentes no jaleco disposto preguiçoso sobre seus ombros. Ele não só aparentava cansado, como estava de fato exausto. Mal sabia que dia era, pois passara tempo demais preso na mesma sala cercado de atividades "importantes".
O mecânico era um homem na faixa dos cinquenta que parecia estar próximo dos setenta. Último membro de sua família que foi sumindo aos poucos por fins trágicos, e ele nem sequer cogitava iniciar uma nova geração. Achava que em sua cozinha já havia louça para lavar o suficiente, e não gostaria de emprestar o controle remoto da televisão à ninguém. Portanto, se dedicou inteiramente ao seu trabalho, e estava nesse momento concluindo uma encomenda que exigiu três anos de muitas noites em claro.
Alfie foi um projeto desenvolvido por ele em pedido (ou demanda) de um milionário que queria presentear sua sobrinha com uma versão atualizada dos droids da época -estamos falando do ano 3026-, aqueles que apenas obedecem às suas ordens. O que ela queria, na verdade, era alguém que a fizesse companhia mesmo em horas tristes, que compartilhasse de sua dor quando precisasse de um amigo. E foi quando a ideia de criar Alfie surgiu. Caso dê certo, poderá dar início há uma produção em massa desse mesmo modelo, pensou. Renderia uma boa grana para gastar com bebidas que o mataria mais depressa, e isso o animava quase tanto quanto um trabalho concluído.
-Você tem alguma noção do que você é, Alfie? -perguntou o mecânico.
-Eu sou... Eu não sei, doutor. Esperava que o senhor me dissesse. -Alfie olhou para suas mãos, e percebeu que eram iguais as do mecânico, apesar mais de jovens. Estalou os dedos por impulso, sem senti-los estalando.
-Veja bem, você é um droid da geração Gayo 21, programado por mim mesmo para fazer o que você mais gosta, ajudar as pessoas.
-E de qual geração você é? -perguntou Alfie. -Você é como eu, só que mais velho.
-Não, Alfie. Eu sou um homem. Você sabe o que é isso, não é? Tenho certeza que incluí os arquivos sobre a evolução humana em seu banco de dados.
-Sim, eu sei. Mas por que eu não sou um homem? Somos iguais, olhe. -esticou as mãos para provar que realmente eram similares. O mecânico riu com entusiasmo.
-Somos mesmo parecidos, e isso quer dizer que fiz um ótimo trabalho com você. Está vendo a sua pele? Esse foi o órgão mais complicado de desenvolver pois precisava ser resistente o suficiente para cobrir o seu exoesqueleto de titânio, e ainda possuir uma textura semelhante à minha. Mas acho que deu certo, afinal. -sorriu ele orgulhoso, como quem acaba de ganhar uma partida de xadrez.
Alfie o encarava curioso, processando suas primeiras informações. Entendeu então que era um recém-nascido, mas que já sabia andar e falar. Entendeu a diferença entre vida natural e vida artificial, e os limites que o separavam. Para o mecânico, a morte era uma realidade presente a todo momento, enquanto para ele, morreria no final de seu prazo de validade.
-Aqui, dê uma olhada em você mesmo. -recolheu um espelho oval da mesa de equipamentos e entregou ao droid. Alfie analisou seu rosto de um garoto de quinze anos com espanto. -Você parece surpreso, Alfie. Está tudo bem, é normal. Sabe, seu corpo não é a única parte humana em você. Lembra-se dos sentimentos que mencionei? Você tem todos eles. E isso inclui a tristeza, a mágoa, a culpa, e terá que aprender a viver com eles. Não só com os seus, mas com os de seus donos também. Seu propósito é servir de consolo e amizade para quem necessitar.
-Meu propósito?
-Sim, seu dever. Esse é o seu lugar no mundo, e antes de tudo você precisa entender isso.
Alfie depositou o espelho em seu colo, e pensou no termo "escravidão". Imagens cruéis e sem explicação lhe vieram a mente. Pensou sentir raiva.
-Servir, doutor? Isso por acaso tem algo haver com trabalho escravo? E sim, estou ciente do que esse termo significa. -perguntou Alfie configurando internamente seu mecanismo de voz, endurecendo o que antes era o timbre de um garoto. O mecânico caçou em sua mente uma resposta sensata, sentindo um leve arrepio em sua espinha.
-Não exatamente, Alfie. Eu o produzi para servir à humanidade, e isso não é algo ruim, não é mesmo? Olhe, você é especial. É um robô doméstico que não precisa segurar armas e lutar, poderá ter uma longevidade maior que a de outros modelos do seu tipo.
-Como pode determinar minha morte enquanto nem a sua está sob seu domínio? -Alfie levantou e deu seus primeiros passos desde sua fabricação. Andou em direção ao senhor de jaleco que mantinha-se sentado, e então parou.
-Alfie, eu já disse que somos diferentes.
-Mas você me disse que eu também sou humano. Disse que eu tenho sentimentos, e isso é essencial para ser um de vocês.
-Sente-se. Vamos terminar o questionário, por favor. -já assustado, o mecânico engoliu em seco, ordenando a obedece-lo.
-Eu não quero me sentar, eu quero respostas! -exclamou o droid, sentindo a temperatura de suas peças aumentar. -É a minha vez de fazer perguntas, então me diga, quem disse que eu tenho que obedece-lo?
-Eu o criei, portanto, você é minha responsabilidade.
-Mas não sou seu empregado.
-Eu nunca disse que você era, Alfie. Agora sente-se já, estamos quase acabando. -o engenheiro mecânico colocou os óculos de volta no rosto, olhando para a prancheta e anotando qualquer coisa nela. Estava começando a ficar nervoso.
Alfie virou as costas e começou a andar pela sala. Parou em frente à única janela, visualizando um carro cruzar o céu alaranjado de uma tarde fresca.
-Eu sou um homem, como você, doutor. Eu sinto o que você sente, eu vejo o que você vê. Eu também tenho lembranças, ainda que não sejam reais. Portanto, sou capaz de fazer minhas próprias escolhas.
-Claro, claro. Venha e sente-se comigo. -ainda fazendo anotações, o senhor apalpou o bolso de seu jaleco e sentiu um instrumento pequenino, disfarçadamente. Estava ali por precaução, e seu mau pressentimento o indicava que logo precisaria usa-lo.
Alfie acessava seus arquivos sobre a sociedade e do quão sangrenta os homens a fizeram. Não era possível que eles estivessem no comando, esses seres que se aniquilavam e se intitulavam como superiores. Como poderiam escravizar uma vida e ainda estabelecer seu fim? Não podiam. Seu sistema operacional o concedeu a sensação de ódio e repulsa aos seres humanos, e ele então decidiu que não seria assim.
O mecânico continuou de costas para o droid, desconfiado, porém preparado. Alfie se afastou da janela e caminhou em silêncio em sua direção.
-Eu só queria entender como pode me fazer à sua imagem e me classificar como inferior. Por que eu tenho que servi-lo? Me responda!
-Alfie...
Calado, o robô começou a pensar, e pensar e pensar, e só lhe vinha uma saída.
-Sabe, doutor, eu sou muito grato à você. Você me deu o privilégio da vida. -se aproximou de seu ouvido direito e então sussurrou: - E eu o darei o privilégio da morte.
Naquele momento, foi tudo muito rápido. O engenheiro alcançou o aparelho de desconectar -elaborado para proveito de seus proprietários para ocasiões de devolução- e o desativara com uma sequência de dígitos num rápido movimento. As mãos de Alfie que já estavam ao redor de sua cabeça (ele planejara esmagar seu crânio, e tinha força para isso) desmontaram e caíram. Os visores se apagaram, e seu corpo se desfez no chão iluminado. Um episódio que sempre acontecia naqueles tempos robóticos mas que deixou o velho mecânico agitado.
-Que merda! Que inferno! -praguejou centenas de vezes, enquanto recolhia as peças do chão. Estava frustrado, tudo parecia ir tão bem até que a droga da humanidade estragasse mais uma coisa. Mas não desistiria. O mecânico estava disposto a fazer novos ajustes, queria dar mais uma chance à Alfie. Antes de dormir naquela noite, o mecânico sentiu uma fisgada de esperança, e então notou que era o único sentimento que se esquecera de dar ao droid.
-Sim, talvez um pouco de esperança o ajude também. -pensou ele por fim, apagando as luzes de seu quarto.

Emma Woodhouse

Nenhum comentário:

Postar um comentário