sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Sorriso azul



Quando um jovem atravessa um campo de batalha, tudo o que ele mais deseja é sair vivo do embate. E, se não for pedir demais, sair sem ser ferido, são, para que seja de utilidade por mais anos.
Mas eu pedi demais. Eu pedi demais.
Voltei sem uma perna. Sem a perna direita.
Jogaram-me em um dos leitos que ainda sobravam. Um leito sujo, abandonado ao canto da tenda movimentada e lotada de moribundos. Cortaram minhas roupas, limparam minha enorme ferida e me deixaram ali, à deriva. Havia outros de mim, diziam; eles estavam piores do que eu. Pior do que a falta de um membro, de onde saía muito sangue.
Essa guerra ia de mal a pior.
Eu não queria ficar ali sozinho. Eu poderia estar morrendo. Lutei bravamente por várias batalhas. Não queria esse fim. Não era essa a recompensa que eu esperava.
Pedi que me trouxessem alguma companhia. Esperei por vários minutos, sentindo muita dor. Precisava de alguém.
As enfermeiras me trouxeram ela.
Ela era pequena demais para ser uma enfermeira. Jovem. Com os cabelos longos e lisos de uma princesa. Uma princesa que cuidava das pessoas. Tão jovem! Veio até mim com o uniforme — uma vez — branco e curto, um chapeuzinho caído e esquecido nos cabelos, que estavam sem o habitual coque das mulheres. Com tanta gente ferida, por que ela arrumaria os cabelos louros?
Veio até mim com um sorriso. Mediu minha temperatura com a mão trêmula, porém firme de determinação. Passou pano com água gelada em minha testa e cabelos.
“Bela ferida você tem”, ela disse. E me fez sorrir com seu sorriso.
Seu nome era Blue. Ela tinha quinze anos. Era filha de uma enfermeira e um general. Não queria estudar enquanto tantos outros morriam.
Eu estava morrendo?
Ela disse que, se estivesse, não precisava me preocupar. Não havia muitas coisas bonitas para se olhar enquanto estava vivo. O Paraíso era a melhor opção.
Mas ela estava enganada. Eu gostava de olhar seu sorriso. Era bonito.
Enquanto fazia o torniquete inútil em volta do que sobrou de minha perna e passava o pano branco pelo meu corpo, ela me falava sobre algo muito legal. Alguma matéria de escola. Não me lembro do que era, porque eu estava concentrado no rosto dela. Era um rosto muito delicado. Não merecia ver todo aquele horror.
Ela me perguntou sobre o que eu aprendia na escola. Eu disse que não me lembrava. Não queria, na verdade. Disse a ela que o que os jovens de minha turma mais queriam era se alistar para o exército. Vencer o país inimigo era o objetivo de nossas vidas.
Ela riu de nossos objetivos. Não eram muito inteligentes ou alcançáveis. Ri com ela. Ela tinha razão.
O sangue não parou de sair de minha ferida. Jorrava, jorrava e jorrava, assim como sorrisos saíam da boca de Blue. Outra enfermeira veio ver minha situação. Acho que não gostou do que viu, pois suspirou, abaixou a cabeça e foi visitar outro leito.
Eu não me importava com minha situação. Estava tendo os últimos momentos que merecia.
O canto de um pássaro era ouvido de longe, mas não podíamos ver de onde. Esse som bonito se misturava com a risada de Blue, reação a alguma piada ruim que balbuciei.
Será que eu ouviria a risada de Blue no Paraíso, que ela tanto valorizava?
Isso não me importava muito.
Porque eu ouvia e via seu sorriso azul enquanto viajava até lá.

Rocket Queen

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