domingo, 9 de outubro de 2016


Monólogo
5 pessoas num  gol quadrado. Viagem longa, cansativa, sol de norte a sul. Chegamos em São Paulo capital no meio da tarde, cada um seguiu pra um canto, sem muitas palavras, afinal éramos desconhecidos. Na rua eu me via só, longe de minha terra, obrigado a partir, sem família ou dinheiro. Só sonhos me nutriam. Deixei minha mãe em casa, sozinha. Necessidade de fazer dinheiro, de não cair da linha tênue da rua. Foi então que conheci Carla, e com ela a cocaína. Paixão intensa, dias intensos, pouco amor e muita fome, sem muito sentido e sensatez. Paixão de 7 dias. Vício eterno.  
Na rua Pedro me serviu de pai, que de fato sempre foi ausente. Pedro presente, trocamos muita experiência, graças a ele consegui um emprego no comércio do bairro. Dinheiro, com ele paguei meus vícios, minha descrença na humanidade, que me supria. Dinheiro era meu novo amigo, ausente como meu pai, me fez homem, me deu condição de me impor na rua, diferente do meu pai.  
O grande dilema da vida é conseguir chegar no topo sem se vender. Não se contentar é uma premissa. De longe uma voz grita : "todo mundo pode ser um pouco mais...". A vida implica monotonia, e cabe a nós fugirmos dela, ficarmos distante dos padrões que o homem cria e nos impõe. Ser triste e se tornar escravo de muitos é o resultado da linha de montagem. Vícios, dependências, corpos, escritórios. É o que vem, cabe a nós libertarmo-nos disso. "Todo mundo pode ser um pouco mais...".  
Num fim de tarde conheci Saudade. Me fez inseto, fraco, viciado. Fiquei preso a ela por meses, sem saber muito o que fazer pra matar tudo que me afligia. Quando me libertei, me fiz coração frio. De pedra. Comum. Anos se passaram, muitos anos. No balcão era só mais um. Nada pra humanidade, nenhum fruto, nada pra mim. 
Olhei pra trás e reconheci Vida, nunca a conheci de fato, mas era muito falada nos jornais. Não nos amamos, mas nos encontrávamos, ela me hipnotizava, as vezes nos entrelaçávamos nas esquinas. Foi cedo demais. No fim da estrada assinei meu divórcio. Sem filhos, sem heranças, sem frutos pro mundo. Me separei do meus primeiros amores, chamavam-se Sonhos. Nunca os vi, mas sempre estiveram comigo. Mais um escravo da vida.  
"Todo mundo pode ser um pouco mais..."


RRR

12 comentários:

  1. Ponto forte do texto são as (ótimas) metáforas e a crítica social embutida. Apresentou uma visão ampla da realidade e é um texto perene.

    ResponderExcluir
  2. Foda! Pra caralho! Texto muito forte, muito profundo, escrita incrível. Admito que os muitos pontos ao longo da leitura deu uma leve cansada.

    ResponderExcluir
  3. Escrita impecável, adorei como ficou diferente, bem estilo monólogo mesmo, não foi universal mas foi dinâmico, criativo e com certeza exerceu cidadania. Simples e bonito, excelente texto!!

    ResponderExcluir
  4. Muito bom e único. Confesso que achei algumas partes confusas, mas no geral, texto bem impactante.

    ResponderExcluir
  5. Gostei mt das metáforas utilizadas para fazer a referência das etapas da vida humana e, de como somos fadados a distrações que nos prejudica. As repetições "todo mundo pode ser um pouco mais" deram dinamicidade ao texto e, a cidadania abordada foi seu ponto forte à medida em q tratou dela cm delicadeza e um certo lirismo. Atente-se para a pontuação e concordância gramatical. Parabéns!!!!

    ResponderExcluir
  6. achei meio confuso tb porém deu pra entender mais no final quando vc deixou explícito a mistura de sentimentos ao que se referia. Ficou bom sim, parabéns!

    ResponderExcluir
  7. achei meio confuso tb porém deu pra entender mais no final quando vc deixou explícito a mistura de sentimentos ao que se referia. Ficou bom sim, parabéns!

    ResponderExcluir
  8. achei meio confuso tb porém deu pra entender mais no final quando vc deixou explícito a mistura de sentimentos ao que se referia. Ficou bom sim, parabéns!

    ResponderExcluir
  9. não consegui perceber o tema no inicio nem no desenrolar da historia, mas no fim achei que ficou bem marcado. gostei do jogo de palavras e do tema abordado ( que só no final consegui entender ) rs

    ResponderExcluir
  10. não consegui perceber o tema no inicio nem no desenrolar da historia, mas no fim achei que ficou bem marcado. gostei do jogo de palavras e do tema abordado ( que só no final consegui entender ) rs

    ResponderExcluir
  11. Texto muito forte, e que faz uma ótima crítica social! Apesar de ter sido uma leitura um pouco confusa, ficou bom.

    ResponderExcluir
  12. Achei bem interessante as metáforas presented no texto. Bem criativo a utilização do tema também.

    ResponderExcluir