domingo, 9 de outubro de 2016


Saudade a bordo

Estou num avião indo para Santiago. Como se não bastasse a ressaca de ontem a noite, estou sentado entre um casal de velhos que não cala a boca, eles estão discutindo desde que embarcaram. Olho para os lados a procura de um assento vazio, mas, para minha desgraça, o voo está lotado. Já me ofereci gentilmente para trocar de lugar, para que eles pudessem sentar lado a lado, porém, a velha não abre mão de ficar na janela e o velho vai ao banheiro a cada cinco minutos, portanto melhor ele ficar no corredor mesmo, só me faltava ter esse cara passando por cima de mim infinitas vezes durante a viagem. Meu Deus! Como se minha vida já não estivesse ruim o suficiente! Vou ter que aguentar as próximas quatro horas entre esses dois. Estou começando a pensar que o melhor que pode acontecer é esse avião cair. E logo.
Coloco os fones de ouvido e tento me acomodar no meu assento, na esperança de conseguir pegar no sono, mas não consigo, é inútil. Além deses chatos do meu lado, não consigo parar de pensar na Mariana, no fato de que não terei mais sua doce companhia. Ela nem apareceu na minha despedida ontem a noite. De certa forma isso foi bom, fiquei tão bêbado que provavelmente iria falar alguma merda. Não fiquei chateado dela não ter ido, sei o quanto ela está triste. A notícia da minha transferência para o Chile nos pegou de surpresa. Foi como um tiro de canhão em nossas cabeças. Justo quando ela ia terminar com aquele namorado babaca dela. Sim, ela namora. Nunca a tive 100% pra mim, muito raramente saíamos num final de semana por exemplo. Mas acho que isso só me fazia aproveitar mais nossos momentos juntos. Com aqueles, digamos 50% dela, eu fui mais feliz do que com qualquer outra.
O dia em que terminamos foi o pior da minha vida. Argumentei que não precisávamos terminar, que ainda podíamos dar certo, mas sempre com um tom de insegurança na voz, relacionamentos à distância nunca dão certo. Obviamente essa ideia não foi pra frente e só de pensar que ela deve continuar com aquele namorado otário eu passo mal. Desde que paramos de se ver, tudo, absolutamente tudo, me lembra que a estou deixando para trás, até a música que toca no momento. Nesse instante tiro os fones- chega de sofrência- e volto minha atenção ao casal de velhos. Eles seguem falando besteira, mas ouvindo com atenção, sinto um amor profundo em suas palavras. Minha nossa! Não acredito que estou com inveja desses dois! Mas estou, inacreditável. O que eu não daria  nesse momento pra me tornar um velho chato com a minha Mariana.


Paulo Pontes

10 comentários:

  1. Gostei do andamento do texto, de como o final se reconecta com o primeiro parágrafo mas de maneira diferente, com um novo olhar sobre o casal que discutia.

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  2. Achei que o texto é normal, tratou da separação de uma maneira um pouco clichê. Mas ótima escrita!

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  3. O título ficou muito bonitinho, o texto começou muito bem mas a escrita parece que se perdeu um pouco no meio. O tema ficou claro e a história foi normal, difícil de se identificar por ser específico, não muito universal, mas foi leve e nem um pouco cansativo. O final também foi bem criativo, a nova visão sobre o casal.

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  4. Um texto legal de se ler, além de tratar da separação lhe conferindo perenidade. Todavia, n vejo cidadania qnd se refere aos outros personagens do texto, cada um tem sua escolha a jeito de viver, qnd vc critica-os esta tentando tirar-lhe seu livre arbítrio. De resto o texto é bem legal, principalmente, por utilizae de recurso narrativo de aproximação ao leitor.

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  5. Texto muito bom. Além de bem escrito e de fácil leitura, é muito legal o que você faz com a situação do casal de velhos, que no início é tido como algo ruim para no final, por causa da saudade, se tornar algo bom e invejável. Outra coisa legal do seu texto foi a relação com Mariana, que não é a usual, saindo um pouco do clichê de casal apaixonado se separando.

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  6. Achei interessante como no final a opinião do personagem em relação ao casal de velhos muda de irritação para admiração. Remete de maneira sutil àquele famoso ditado de nunca julgar um livro pela capa.

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  7. Bem legal o texto, apesar da escolha clichê da questão da separação, que nem precisa ser um apesar. E a mudança do ponto de vista do personagem acerca do casal de velhinhos é bem bonitinha. E relacionamentos a distância podem dar certo sim, Paulo.

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  8. Achei sensacional como você passa que a gente pode querer até aquilo que nos irrita; gostei do ritmo do texto.

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