sexta-feira, 11 de maio de 2018

Esperando na fila

Às vezes acho que já nasci de fones de ouvido. Não consigo lembrar um dia sequer da minha vida em que não tenha parado pra ouvir uma música, ou ficar com a mesma grudada na cabeça e cantarola-la pelo resto das horas que se estendem. Sempre pensei que essa ligação com a música pudesse ser um sinal divino de que esta seria minha verdadeira vocação, nisso, mesmo com minha quase certeza de que era um prodígio, ao ter aula de violão logo na infância achei tudo aquilo incrivelmente...chato. Pensei que o professor fosse me mostrar a partitura e com o meu suposto dom eu me descobriria poliglota também  com a linguagem da música e já sairia tocando Garota de Ipanema. Falhei miseravelmente. 1 hora de aula já exigia muito esforço e eu simplesmente não queria me esforçar para aquilo; anos depois e meu violão ainda se encontra abandonado em um canto do meu quarto simbolizando minha indiferença para tudo que não desperta minha atenção. Foquei em instrumento musical porque o encanto da minha voz é abaixo de zero, se eu tocasse no rádio era mais provável que as pessoas nos carros tivessem impulsos suicidas de ultrapassarem o sinal vermelho para não terem que me ouvir do que virarem fãs. Melhor poupar a todos desse meu talento fajuto.

Demoraram alguns anos, a ficha só tropeçava e nunca caía, mas finalmente percebi que a minha paixão pela música, até então traduzida  apenas em melodia, tinha todo um universo por trás: a letra. Na realidade o que eu amo são as palavras. Para inspirar as pessoas, como eu mesmo era com a música, não necessariamente precisava cantá-la, também podia escrevê-la. Nisso todo um leque magicamente se abre pra mim: posso escrever um livro, o roteiro de um filme, poesias, na faculdade inclusive descobri que posso facilmente escrever crônicas. Eu posso escrever. Eu quero escrever. Finalmente algo que não me leve ao tédio em questão de minutos; me sinto abraçado e entretido pelas palavras.

Isso tudo que eu imaginava logo foi confirmado quando assisti a uma palestra do autor de um livro que eu havia lido dias antes e não conseguia parar de pensar sobre desde então, como uma música presa na minha cabeça. Penso que se a história dele me afetou desse jeito, a minha também pode fazer o mesmo, e isso me impulsiona a começar a ver tudo com outros olhos. Repentinamente todos os lugares que passo parecem ser mais coloridos e possíveis cenários para minha narrativa, meus amigos se transformam em promissores personagens, ex-amantes em notáveis musas inspiradoras. Enfim me dei conta de que meu verdadeiro amor é empalavrar o mundo, mesmo que eu seja apenas o protagonista da minha própria história, pelo menos vou escrevê-la. Finalmente estou na fila para chegar aos outros com as minhas palavras, e nessa, diferentemente das dos mercados e bancos, eu não me importo de esperar.

Por São Valentim.

3 comentários:

  1. Ai São Valentim (imagine um meme com uma pessoa atirando corações com uma bazuca)! Eu estou só amores por essa crônica. Amei a forma como foi escrita. <3

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  2. Ahhhhh, que final lindo <3
    Admito que o início ficou bem pessimista, mas esse final me fez ficar emocionada por você! Me identifiquei muito pelo fato de entender esse amor pela escrita, e saber que eu também tenho capacidade de escrever sobre qualquer coisa <3
    (Revele-se pra nós sermos colegas hahah Ou já somos?)
    Só um alerta: cuidado com períodos muito longos! Tente usar menos vírgulas e mais pontos finais (sem exagero, claro hahah).
    Parabéns!

    Mary-Louise P.

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  3. Eu adorei! sem dúvidas, foi uma das minhas crônicas favoritas pelo simples fato de você ter abordado um fato tão essencial: a descoberta de si mesmo. Gostei muito do rumo que seu texto tomou. Começou bem pessimista, e isso foi extremamente bom e e necessário, porque, ao longo do texto, todo pessimismo foi se desfazendo, gerando um final lindo! parabéns, eu amei.

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