sexta-feira, 11 de maio de 2018

Viver para escrever

Essa semana eu tive a oportunidade de conhecer o autor de um livro, e só não esperava que esse encontro ia me fazer retomar questões do meu próprio passado. A identificação já começou ao descobrir que o autor de “O Próximo da Fila”, Henrique Rodrigues, bem cedo começou a escrever, assim como eu. Nesse livro, escolheu narrar baseado em sua própria experiência de vida trabalhando no McDonald’s, em sua juventude. Isso me fez lembrar algo que dizem, tão batido por aí... “Você deve escrever baseado em suas experiências”.

Eu estou longe de ser uma pessoa “bem vivida”. 18 anos de vida não é muita coisa. Na verdade, se você fizer uma média de que pode viver, quem sabe, uns 80 anos, 18 não é nem um quarto de vida. Até essa idade você já pode ter se formado no ensino médio, ter beijado umas bocas por aí, ter feito amizades sólidas, outras passageiras, ter viajado um pouco, se arrependido das histórias da adolescência, ter dado o primeiro PT... Mas um problema sério é chegar aos 18 anos e achar que devia ter vivido mais. Não só nessa idade, antes mesmo. Dos 11 aos 17 anos eu sempre achei que deveria estar viajando mais, me arriscando mais, fazendo aventuras que eu tanto via outros adolescentes fazendo. E por quê?

Eu não sei o seu motivo, caso você tenha se identificado até agora, mas o meu motivo é que eu queria bagagem para escrever. Eu escrevo desde os 9 anos de idade. Sempre tive uma mente viajante nas ideias. Comecei escrevendo sobre aventuras de uma princesa, depois, na adolescência, escrevi sobre jovens cheios de angústias e suas primeiras paixões. Descrevia lugares que eu imaginava serem como nos seriados americanos que eu assistia. Escrevia sobre beijos apaixonados e ardentes baseados nos que via na tv. Porque na minha visão de garota, eu não tinha muito o que escrever baseado na minha vivência.

Por isso esse discurso de "escreva baseado no que você vive" me irritava muito. Eu queria escrever uma história de romance... Mas como, sem ter nunca me entregado aos braços de alguém? Queria descrever lugares de outros países, lugares diferentes da minha realidade... Mas como, sem ter nunca saído do meu estado de origem? Esse foi então, um dos motivos por ter empacado um pouco na escrita ao longo do tempo. Eu parecia não ter mais inspiração. Mas... De vez em quando, quando eu me apaixonava, ou alguém partia o meu coração, quando fazia algo inesperado, ou a vida me surpreendia... Eu conseguia escrever. As palavras fluíam leves, as lembranças ficavam ali marcadas no papel. Passei escrever esporadicamente, só que mais sobre mim, minha vida, e passei a inventar menos.

Foi quando eu entendi o sentido daquela frase. O escritor escreve sobre aquilo que ele aprende, vê, sente. Todo crescimento que ele sofre para ali no papel, em forma de arte. Então sim, o escritor escreve conforme ele vivencia os momentos. Mas eu me enganei totalmente quanto esse tipo de vivência. Eu achava que a condição para escrever era fazer mais coisas. Viajar para outros países, ter milhares de relacionamentos, fazer coisas grandiosas...  Quando na verdade, é tudo sobre enxergar além da simplicidade da vida. É sobre ver um pôr do sol, ir à esquina comprar um pão, visitar seus avós, segurar a mão de alguém que você ama... É sobre cair, ralar o joelho, quebrar a cara. É sobre ser resiliente. É sobre perceber que está crescendo e evoluindo, mesmo sem sair do lugar onde está.

Eu ainda não terminei de escrever livro algum, nem tenho uma previsão de quando finalizarei. Mas eu não culpo mais minha falta de “vivência”. Afinal, o autor Henrique só lançou seu primeiro livro com 30 anos de idade, mesmo escrevendo desde cedo. Talvez daqui há alguns anos eu tenha inspiração, assim como ele, de escrever sobre o meu primeiro emprego. Ou quem sabe sobre a primeira vez morando sozinha, ou o começo dos estudos na UFF. E agora eu sigo sem viver para escrever. Quero deixar a vida me trazer as lições que eu ainda preciso aprender. E nesse intervalo, arriscar pôr os aprendizados no papel, e quem sabe, fazer você aí, do outro lado da tela, ou ouvindo esse texto, aprender com a minha jornada também.

Por Mary-Louise Paris.

6 comentários:

  1. Que texto incrível. Me identifiquei completamente e senti esse texto batendo forte aqui. Obrigada por isso Mary-Louise <3

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  2. MEU DEUS DO CÉU
    Você me definiu totalmente!!! Eu favoritei essa crônica no meu computador porque, nossa! Acho que ainda vai demorar pra eu acabar com esse pensamento de "escrever baseado no que você vive", ainda não tive essa sua luz, mas obrigada pela reflexão!
    Além disso, gostaria de perguntar, que tipos de textos você escreve?

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    Respostas
    1. Que maravilhoso saber disso Capitu <3 Como é bom saber que não estou sozinha nessa hahah!!
      Ultimamente eu ando escrevendo mais textos curtos, no estilo de crônica ou conto, narrativas pequenas mais reflexivas e tals :) Eu sempre gostei de escrever narrativas, mas meus projetos de narrativas longas (livros) estão parados por enquanto hehe!

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  3. Me identifiquei tanto!!! adorei essa reflexão. Muitos de nós achamos que precisamos viver grandes experiências para escrever grandes coisas quando, na verdade, precisamos apenas pegar as experiências simples e transformar em grandes escritas! adorei mary! parabéns!

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