segunda-feira, 4 de julho de 2016

Ansiedade



Tic. Tac. Tic. Tac. Tic...
Poucas coisas são tão agoniantes quando o silêncio que me força a perceber o relógio de ponteiros na cozinha. Fisicamente, o objeto sempre está lá, mas sua presença só é notada quando se torna um estorvo, ou quando, na ausência de um celular ou relógio digital, seu uso se faz necessário.
O que ouço agora é outra trilha que me incomoda, e dessa eu não posso fugir fechando a porta e subindo as escadas. O que me faz percebê-la não é a falta, o silêncio, o vazio. É o caos. É o Diego, morto dentro da universidade. É o menino estuprado, tempos antes, dentro da mesma universidade, pelos seguranças que agora tentam justificar um atentado o reduzindo à um crime que considera banal, mas que não tem nada de banal. É a Bia, estuprada por 33, 30, 15, 1. Não importa o número! É também a importância dada a esse número por quem tenta relativizar o injustificável. São os assédios na rua do perdeu, que eu percorro depois da aula em que essa crônica será lida. O homem fingindo-se de pesquisador de psicologia para hipnotizar meninas dentro da UFF. Dentro da UFF. Onde passo grande parte do meu tempo.
É o menino de 6 anos estuprado na escola, o rapaz sendo morto por "portar" um saco de pipoca. E sou eu no meio disso, perdida, confusa. Tendo que lidar com os dilemas da Pandora, com a falta de aceitação ao olhar meu reflexo no espelho, com os problemas de casa, relação, amigos. Com o medo de reprovar na faculdade, sendo pressionada a pensar em estágios diariamente, tem que saber o que quer ANTES de saber o que quer. E aí o conflito entre a sua fobia social e a escolha por um curso de comunicação é massacrado novamente pelos problemas de fora, que te afetam por dentro e te fazem querer desistir cada dia mais.
Não posso fugir das batidas ensurdecedoras do meu coração. Da dor de ser mulher. Das manias e da inquietação. Não posso fugir de ser eu. É muito mais agoniante o relógio que carrego em meu peito. Aumenta tudo lá fora. E faz querer fazer parar tudo aqui dentro.

3 comentários:

  1. Queridos, peço sinceras desculpas pela confusão. Desde que um de meus demônios — aquela aranha que Júnior West conheceu bem — fugiu, minha caixinha tem estado uma bagunça só. O texto deste post é de minha autoria, Pandora.
    Beijos aos ávidos e pacíficos leitores.

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  2. Olá, querida Pandora! Sua crônica já começa com uma onomatopeia que dá todo um ritmo. Além disso, o ultimo paragrafo também é bem ritmado por ter frases curtas e isso torna a crônica ainda mias agradavel de se ler. As questões abordadas são atuais, tem o zeitgeist. É perene, rompe com o leade, evita os definidores primários, exerce a cidadani. Parabéns!

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  3. Muito bom seu texto! Sua escolha de elementos específicos e atuais, nos aproximam demais de você! A abordagem psicológica é extremamente marcada, afinal, o texto se trata da ansiedade. Acredito que você potencializou os efeitos do jornalismo, expandiu os acontecimentos do cotidiano, fugiu dos definidores primários e permitiu uma visão ampla da realidade, de forma profunda.

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