sexta-feira, 10 de junho de 2022

Para Francisca Augusta

Há um mês eu não sabia nem da sua existência. Quero dizer, se estou escrevendo esta carta logicamente é porque você existiu, mas ainda assim eu não tinha consciência de você, da sua pessoa, da sua materialidade.
Até a última segunda-feira eu não sabia o seu nome. Mas olhando nos documentos já sem vaidade do meu avô eu descobri. Francisca Augusta. Mais nada. 

Quando criança, eu estufava o peito para falar da parte europeia da minha família. Era assim que eu ouvia meu avô falar do pai: com orgulho e saudosismo. Aprendi a valorizar isso com o meu avô. E era a única história de origem da minha família que eu conhecia. A única que me contaram. Ele sempre falava do pai. Mas ele nunca me falou da senhora.
Me pergunto o porquê.

Provavelmente meu avô foi educado para isso. Te apagar. Da mesma forma que pessoas pretas são negadas, invisibilizadas e retiradas da história do país. Talvez seu marido tenha estimulado os filhos a negar a própria ancestralidade acreditando na teoria eugenista de que, em poucas gerações, a família teria alcançado a estimada brancura. Talvez mesmo a senhora se sentisse levada a aceitar um segundo, um último plano; um pano de fundo, acreditando que seus filhos se sairiam melhor na vida se identificando com os valores brancos da família, não com os pretos.
Fica difícil deduzir com o limitado número de informações que tenho sobre você, mas calculo que a senhora tenha nascido por volta de 1910 e casado com meu bisavô antes que a questionável e problemática abolição da escravatura completasse 4 décadas. Se ainda hoje sentimos os efeitos desse cruel processo de exploração... imagino, porque tudo o que posso fazer é imaginar, como deve ter sido a sua vida. O quão difícil deve ter sido se sublimar para caber nos moldes daquela família, mesmo sabendo que, no fundo, nunca seria aceita. 

Não pude deixar de observar que o seu nome não é acompanhado pelo sobrenome da família.
Qual seria a real natureza do seu relacionamento com meu bisavô?
Sob que circunstâncias você vivia?

Me admiro agora de nunca ter passado por minha cabeça indagar meu avô a respeito da própria mãe. Me arrependo de não ter tido consciência da senhora antes, quando eu ainda tinha a possibilidade de perguntar. Há tanto que eu gostaria de saber... É estarrecedora a forma como o racismo institucional apaga vidas em todos os níveis e leva tudo embora, nos rouba nossa ancestralidade.
Nesse sentido, eu me sinto órfão. Tenho pai, tenho mãe, conheci dois avôs e duas avós, mas não tenho nada antes. não sei de onde vieram. Não sei o que faziam. Ou como faziam.

Não conheci você, mas conheci seu filho. E, sendo meu avô uma das melhores pessoas que já pisaram na face da Terra (na minha humilde opinião), imagino que ele tenha herdado muita coisa de você. Não é possível que seu marido tenha sido o único responsável por isso. Dessa forma, existe algo da senhora também em meu pai, em meu tio e em mim.
Não sei nada sobre você, mas muito te estimo. E te agradeço.
E quero que saiba que não saber de você é uma lamentável falta. É de uma execrável crueldade.

Tudo o que tenho é o seu nome somado ao que consegui imaginar. Vou perguntar mais à minha avó, sua nora. Talvez ela possa me dar um pouco mais de você. E você pode ter a certeza de que jamais me esquecerei de nada do que conseguir recolher sobre você. E que contarei a quem quiser ouvir sobre a minha bisavó preta com tanto orgulho quanto o empregado por meu avô ao falar do pai europeu.
Por Akil Ubirajara

4 comentários:

  1. Obs.: a palavra na linha 4 deveria ser "validade", não vaidade.

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  2. Akil, gostei muito do seu texto. Você conseguiu me transportar para as suas dúvidas e curiosidades, deixou-me completamente interessado em saber sobre a história da sua bisavó. Porque eu também adoraria saber sobre a da minha, aliás, a minha era indígena.

    Uma vez, Marina Colasanti falou sobre isso em uma palestra. Ela disse para uma plateia cheia de mulheres que as mulheres fizeram parte da história do mundo, do nosso país, e foram ocultadas. E eu aqui complemento o raciocínio dela, dizendo que as mulheres da nossa família deixaram vários pontos de interrogação para bisneta(o)s, neta(o)s e filha(o)s preencherem.

    Vamos nessa juntos?

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  3. Akil, que texto lindo, que proposta diferente e tocante! Fiquei absorto nas suas palavras de uma forma que nem consigo explicar o que senti detalhadamente. No fim, fiquei com um gosto de quero mais sobre a vida de sua bisavó.

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  4. Akil, querido, que escrita íntima, o racismo que vivemos na sociedade brasileira infelizmente ainda é perpetuado e faz com que historias lindas sejam apagadas, como foi a de sua bisavó, realmente uma pena você não poder saber mais sobre ela, tenho a esperança de que foi uma mulher incrível. Beijos, Manu.

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