sexta-feira, 17 de junho de 2022

 TO THE END

Hoje faz frio. Muito frio. O sol se pôs há algumas horas e a majestosa rainha da noite se faz presente, completamente cheia, num céu escuro, sem estrelas, como se hoje a noite fosse apenas dela. Ninguém teria a ousadia de tirar seu protagonismo. Conforme as horas passam e a madrugada se aproxima, uma fina neblina completa a paisagem mórbida, vazia, profunda e silenciosa de todas as ruas, vielas e becos da cidade. Como um véu de noiva, a neblina acompanha a Lua e lhe concede beleza jamais vista, jamais imaginada, jamais idealizada.

Não há absolutamente ninguém nas ruas. Nenhum carro passa. Não há um ruído sequer.

No exato instante que o relógio crava três horas da manhã, o tempo é suspenso. A dimensão temporal conhecida por nós, meros mortais, não faz mais diferença. Nesse eterno minuto de suspensão temporal da noite mais fria e escura do ano, iluminada apenas pela rainha solitária no céu, a Vida e a Morte se encontram e bailam pelas ruas, vielas e becos da cidade. Uma dança atemporal, visceral, sepulcral, paralisante, estonteante, nunca vista antes.

– Você voltou.

– Jamais te abandonaria. Você sabe disso, Vida. Esse momento agora é nosso. Meu pedido de desculpas. Um presente que queria te dar há muito tempo. Todo o tempo do mundo em nossas mãos. O infinito passageiro do badalar do relógio. Apenas nosso, para sempre será.

Ambas se aproximam, primeiro entrelaçando seus dedos, como se fizessem um pequeno reconhecimento de terreno, como se testassem sua incontestável compatibilidade, mesmo que muito contraditória. A morte, frios dedos, ossos expostos, brancos e polidos. A vida, com mãos rosadas, hidratadas e quentes. O primeiro toque ainda muito hesitante, inseguro, incerto. Há muito não se viam, não se falavam, não se permitiam.

– Senti sua falta. Suspira a Vida.

Após o primeiro contato, se abraçam, e já nesse primeiro abraço que mata a eterna saudade, o baile começa e as duas flutuam pela cidade entrelaçadas, presas uma à outra de uma forma que nada nem ninguém no cosmos poderia soltar.

Uma valsa belíssima. Pode-se dizer que a dança daquela madrugada foi a mais incrível de todos os tempos. Vivida com vigor pelas eternas companheiras, sempre tão distantes, mas que agora aproveitariam para sempre aquele infinito minuto. Era todo o tempo de que precisavam, era todo o tempo do mundo.

– Sabes que sempre te quis ao meu lado

– Agora estamos lado a lado, minha Vida.

– Não só agora. Queria-te antes, queria-te para todo sempre.

– Este é nosso infinito. Este é o nosso “para todo sempre”.

– Não posso dizer...

– Então não diga.

A distância entre as duas diminui cada vez mais. O silêncio ensurdecedor das ruas parece abraçá-las em sua valsa e conduzi-las num ritmo lento, feroz e apaixonante. Seus passos tornam-se cada vez mais compassados e a valsa adquire elementos dramáticos, como se em um castelo em ruínas ganhasse vida um baile. Fugindo da queda dos escombros, a Vida e a Morte driblam as contradições, a repressão e a não aceitação da obviedade: elas nasceram para estar juntas. Um casal improvável, uma paixão que não pode existir. Mas que existiu. Durante um eterno minuto, onde o tempo parou e se curvou perante a violência e beleza da valsa mais improvável, a Vida e a Morte se amaram e selaram sua paixão na noite mais escura e fria do ano.

Não há razão que explique. Esta apenas possibilita “momentos fúnebres de pensamentos invariáveis” onde se negaria aquilo que não se pode negar.

A repressão do desejo confere à valsa a violência que as mais ardentes paixões em seus infinitos começos possuem. A vontade de não soltar, a negação, agora, da separação. Vida e Morte se abraçam fortemente sabendo que o infinito estava perto do fim. O coração pulsante e palpitante da Vida se opõe ao gélido e inerte coração da morte, e como num milagre, numa transferência de energia, confere à desesperançosa Morte um último batimento. A estranha pulsação faz vibrar até o menor dos ossos, da falange ao martelo, é possível enfim sentir. Morte esboça um sorriso discreto no canto do rosto e se tivesse lágrimas com certeza cairiam sobre seus pés.  

– Vida, hora de ir.

As duas se olham profundamente pela última vez. Os profundos olhos da Morte encaram a face jovial da Vida de perto. Se afastam um pouco e posicionam, cada uma, a mão no peito de sua amada, sentindo também pela última vez, a batida de seus respectivos corações. A vida, pulsante, a morte, deteriorante.

Três horas da manhã e um minuto.

O tempo voltou a correr e a lua cheia, amarelada e perfurada, voltou a ser a única protagonista da noite. Nesse sufocante silêncio, no meio à neblina e sob a luz do luar, a Terra foi palco da mais bela dança jamais presenciada. A representação da incapacidade de dizer, da repressão do desejo e do amor, do irremediável. Vida e Morte jamais puderam ser aquilo que queriam, mas durante aquele infinito momento, mesmo que passageiro, amaram e sentiram mais do que qualquer um poderia sequer imaginar. Mais do que qualquer um poderia dizer.

Por isso, melhor nem dizer.

Ford Prefect

Por Ford Prefect

Um comentário:

  1. Ford, você trouxe um significado tão distinto, tão seu ao poema, como só os melhores contadores de histórias sabem fazer.

    De maneira apaixonada ou não, o fato é que a Vida e a Morte sempre se encontram apenas uma vez; podem se esbarrar, é verdade, mas o momento da dança é único, o nosso "gran finale".

    O que vem depois? Até onde sei, ninguém voltou para contar. Por isso, o não dito.

    p.s.: acho que já disse isso antes, mas preciso ler um livro seu, Ford.

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