sexta-feira, 10 de junho de 2022

Via láctea, 09 de junho de 2022.

Queridas coisas que partiram,

Por vezes me pego pensando em onde eu estaria caso vocês ainda estivessem em minha vida. Por isso, quando foi apresentada essa proposta, eu pensei em escrever sobre algumas de vocês, mas no final acabei decidindo escrever para todas. Algumas de vocês eu sou grato por ter perdido, algumas não fazem falta e a ausência de outras é quase sufocante. Raiva, tristeza e alívio, tudo condensado nessa carta, minha despedida célebre às coisas que partiram. Afinal de contas, sou uma criança de quinta-feira e, no meio exato do caminho entre o começo e o fim da semana, eu ainda tenho um longo caminho pra percorrer e obstáculos pra superar.  

Primeiro amor. Doeu muito te deixar ir embora, mas depois que você foi, minha vida andou. Nunca estivemos equilibrados. Eu te admirava e amava mais do que sentimentalmente, você era a pauta da minha vida, e meus pensamentos eram seus. Porém, minhas estrelas eram grandes demais pra caber no seu Universo pequeno. Eu precisava crescer, expandir, explodir e incandescer, mas minha luz nunca significou nada pra você. Por isso, quanto mais longe você ficava de mim, mais feliz eu me tornava. Eu não te quero de volta. Eu estou mais feliz do que nunca, e você não vai mais tirar isso de mim. Eu sou grato de você ter me substituído rápido, porque assim eu pude te apagar completamente sem remorso. Até nunca mais.

Os amigos. Vocês não eram meus amigos. Vocês me faziam sentir mal, danificavam minha autoestima e se aproveitaram da minha bondade pra me fazer de capacho. Vocês me escravizaram, me levaram a fazer coisas que eu não queria, e eu odiei vocês porque eu nunca fui obrigado a ficar. Eu podia ir embora, mas eu era tão imbecil que não via que estava perdendo minha essência pra pertencer a um lugar tosco, medíocre e ridículo. Eu sinto pena de mim mesmo por ter me permitido fazer parte da vida de vocês. Sempre que mandam mensagem, faço questão de mostrar o quanto eu sou feliz sem vocês, pra vocês nunca duvidarem de que eu me tornei melhor do que poderia ser se ainda estivesse ao lado de vocês. Espero que vocês também evoluam.

Vó e Vô. Vocês foram as piores perdas que já me atingiram, ambos tão de repente. Derramei todas minhas lágrimas no túmulo de vocês e, por mais que eu tente, não consigo mais chorar de tristeza. Perder vocês cauterizou uma coisa em mim, e fez nascer uma determinação sobrenatural. Vocês tinham tanto orgulho de mim. Vô, por mais que o Alzheimer tenha levado suas lembranças no final da sua vida, o senhor sempre se lembrava de mim como seu neto prodígio, inteligente e que dava honra ao nome da família. Se cheguei onde cheguei, foi graças ao apoio do senhor. Sinto falta de cuidar do senhor, de te ajudar a levantar, te carregar comigo pela casa. Vó, a senhora foi embora da pior forma. Quando ligaram pra dizer que a senhora tinha ido ao hospital novamente, eu fiquei preocupado, mas não tanto. A senhora tinha a saúde frágil, então pensei que logo estaria em casa, medicada e melhorando. A próxima ligação, no entanto, não foi pra avisar da sua alta. Quando minha mãe começou a chorar no telefone (durante minha vida só a vi chorar duas vezes), eu perdi meu chão. Fiquei tão culpado. As lágrimas apenas vieram. Por que não liguei aquela semana? Por que não conversei uma última vez com a senhora? Só nos falávamos quando minha mãe ligava, mas era sempre tão rápido, tão raso. A última conversa de verdade que tivemos foi 6 meses antes da senhora morrer. Eu podia ter feito tanta coisa em seis meses. Toda vez que penso na senhora eu sinto meu coração apertar. Por mais que a senhora estivesse doente e com dor, queria que a senhora ficasse mais tempo comigo. A senhora não pôde me ver indo bem no ENEM, não viu minhas fotos da formatura, não me viu entrar pra faculdade. Não pôde se gabar do neto pras irmãs. Que droga, Vó! Será que eu sou egoísta por desejar que a senhora tivesse resistido apenas alguns meses a mais? A senhora foi a única que apoiou meu sonho de cara, e é a única que não está aqui pra ver ele se concretizar. O último registro que tenho da senhora é um daqueles felizes, e por isso eu agradeço. Nenhuma foto em leito de hospital, apenas a senhora sorrindo. Eu te amo muito, e saiba que farei tudo que puder pra honrar sua memória. Me espera aí em Cima, porque eu vou me esforçar pra subir pra junto da senhora também.

Para o medo e todas as expectativas. Obrigado por nunca terem se concretizado, vocês eram uma merda. Eu sou muito mais que a soma de todos vocês juntos. Eu sou uma pessoa, eu tenho camadas, eu tenho vivências, experiências, sentimentos, opiniões e vontades. Eu sou humano, e eu recuso a lapidar minha humanidade pra satisfazer as pré-noções que qualquer um tenha de mim. Eu prefiro ser uma pedra bruta, crua e intocada, porque assim eu mesmo me acerto ao longo do tempo. Se você pintou qualquer retrato meu sem ter noção de quem eu sou, do que eu passei e vivi, você mentiu para si mesmo, porque eu jamais mentiria pra você. Você olhou no olho mágico, e pensou que tinha visto tanto de mim, não é verdade. Você não viu nada, e graças à sua presunção, duvido que vá ver. A nossa curiosidade muitas vezes se resume àquilo que não conhecemos, e por achar que já me conhece, você perdeu as melhores partes. Eu não tenho mais medo de falar, de ser eu, de agradar a mim mesmo. As suas expectativas pra mim são a mesma coisa que nada, e se eu fosse você, eu seria grato por isso. Eu sou bem melhor do que você pensa. Eu sou bem pior do que você pensa. Eu sou muito parecido com o que você pensa, e ao mesmo tempo tão diferente, mas de mim, você só vai ver o que eu deixar. Isso te irrita? Te incomoda o fato de eu não ser raso e superficial? Te te deixa com raiva o fato que eu não vou simplesmente me dobrar ao seu querer e à sua vontade só pra te agradar? Meu nome não é Argus Stoneheart por nada. Quando quero, sou mais turrão do que uma rocha, e pra me decifrar, precisa ser capaz de resistir a muita pedrada.

A todas essas coisas, adeus. Eu agradeço aos ensinamentos, agradeço por tudo. Por mais doídas que tenham sido as despedidas, eu não seria quem hoje sou se não fosse por vocês. Eu não vou escrever novamente, e nem espero uma resposta, mas espero que todos fiquem bem.

Com amor,

Argus.

P.S. - O significado de ser uma criança de quinta-feira pode ser visto no poema Monday's Child.

Por Argus Stoneheart

Um comentário:

  1. Parabéns pelo seu texto, Argus!
    Dentre todos os que você entregou aqui, esse sem dúvida é o meu preferido. Todos foram impecáveis, marcados por ótimas figurações e referências, mas nenhum havia alcançado o nível de entrega que acabo de ler nas suas palavras. Essa epístola é de muita força: não apenas palavras fortes, mas também ideias fortes; sentimentos fortes; reações fortes.
    Se me perguntasse anteriormente, eu não saberia dizer o quê exatamente o Argus Stoneheart precisaria aprimorar, mas agora é nítido que, em algum sentido, sua escrita evoluiu.
    Foi muito bom ler essa carta. Obrigado pela sua entrega!

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