quinta-feira, 18 de abril de 2019

Toque perpétuo

Eu não gosto que me toquem. Da um certo asco quando uma pessoa que mal conheço, ainda mais se for homem, toca em mim. Mas nem sempre fora assim. Já houve uma época em que era muito mais expansiva, o riso saia mais fácil e conversas com pessoas que achava particularmente interessante fluíam melhor.
A merda aconteceu cedo, com meu primeiro namoradinho. Ele era meses mais velhos e participou de uma fase um pouco mais complicada da vida, que foi a mudança para uma nova escola onde não conhecia ninguém.
Bruno – como iremos apelida-lo – era engraçado, espontâneo e me fez ficar próxima de grande parte dos amigos dele. Era implicante, o que me fez odiá-lo à primeira vista, mas depois se tornou um grande amigo e alguns meses depois, falou que queria namorar comigo.
Eu, uma garota de 13 anos, namorando. Para ser sincera nunca almejei isso, não sou uma pessoa, pela definição, romântica. Muito menos aos 13 anos de idade. Porém, aceitei, mesmo sabendo que nossos estágios e interesses não eram sincronizados. Aceitei porque naquela época, pensei que se eu dissesse “Não”, Bruno pararia de ser meu amigo e isso seria uma perda muito grande.
Honestamente? Nunca pensaria que um moleque de catorze anos faria um estrago tão grande.
No início foram coisas pequenas, que não da para perceber, a não ser que olhe para trás com a maturidade adquirida e pense “Puta que pariu, não acredito que cai nisso”.
– Você é linda, apesar de gostar de meninas mais magrinhas.
Totalmente dispensável e certeiro na manipulação. Falas assim tinham como o objetivo me fazer sentir privilegiada por estar com ele, enquanto abaixavam a minha autoestima e o colocavam como piedoso.
Depois, começaram as menções a sexo. Por mais que eu avisasse que ficava desconfortável, que não queria falar sobre aquilo, sempre havia um retorno nesse assunto. Quando finalmente bati o pé no chão e decretei que não falaria mais sobre isso, parou. Não sem antes dar um golpe fatal na minha autoestima.
– Por que as nossas conversas são sempre tão chatas?
Posso falar com propriedade que nunca me senti tão desinteressante.
Ainda consigo me lembrar do olhar da minha melhor amiga quando contei isso para ela, o susto, o pesar e a preocupação.
– Isso não está certo, Capitu.
Infelizmente, não dei ouvidos. E então, as coisas pioraram bruscamente.
Lembro de estar na sala de aula, horário do intervalo. Só eu, Bruno e um terceiro menino, Gabriel. Aquele sentado no tablado da sala, enquanto eu fazia o dever de matemática até parar para atender a um chamado da criatura.
– Diga. – falei, enquanto parava em pé na sua frente. Nada respondeu. Apenas segurou minha mão e me puxou em sua direção. – Eu não vou sentar no seu colo.
– Por que não? – Uma resposta como “Porquê eu não quero e já disse”, deveria ser o suficiente. Lembro de me dar ao trabalho de falar que colégio não era lugar daquilo, quando na verdade tudo que precisava ter dito era um “ME SOLTA, PORRA!”. 
Recordo do olhar de desdém que me foi lançado, do meu pedido sendo ignorado quando ele simplesmente agarrou-me pela cintura e me forçou a ficar no colo dele. Recordo do grito tão alto e estridente que eu soltei, de como ressoou dentro da minha cabeça. Recordo do Gabriel olhando a cena, sem fazer nada. Era o meu namorado, não era? Ele podia fazer isso.
Precisei me debater, arranha-lo para conseguir sair de sua jaula. Tremi como nunca havia antes, desacreditada com nojo e medo. Minha face corada, não sei ao certo se de raiva ou vergonha, enquanto a dele, apenas indiferente. Gabriel olhou para nós e, após milésimos que pareceram anos, riu com escárnio e deboche.
– Que volume é esse, Bruno?
Uma angústia tomou o peito, tão rápido quanto os olhos encheram de água. Nauseada, triste e violada. Não me dei o trabalho de conferir, apenas sai da sala, sem olhar para trás.
Não foi um acontecimento único. Muito menos foi o pior.
Não é uma história que tornei pública. É muito difícil quando se tem tantos amigos em comum. Fujo até hoje do seu nome e sua presença. Apenas a menção me faz estremecer como se o sereno da noite arrebatesse em cheio, coração bater tão rápido que sinto o peito quase explodir e estômago embrulhar tão forte que parece que irei vomitar. Não, não é paixão. É um ataque de pânico.
Mas pior do que isso: tenho noção que ele era só um garoto de 14 anos. Um garoto de 14 anos que vê filmes e estava acostumado a achar que essa dominação sob a parceira é normal.
Só que toda vez que lembro disso e tiro essa culpa dele, reflito se, na verdade, a culpa não foi minha.
Capitu Oblíqua

2 comentários:

  1. Mais uma crônica, mais um soco no estômago. Mais uma vontade de abraçar quem tá escrevendo loucamente e gritar com os filhos da puta que fizeram isso, e sussurrar da forma mais carinhosa possível que a culpa não é sua, até que você nunca mais volte a cogitar essa hipótese.
    Parabéns pela coragem de contar isso, de finalmente tornar isso público, de certa forma. É difícil, mas é o certo a se fazer. Romper o cofre e expor essa história deve ter exigido muito de você, te dou todo o reconhecimento por isso <3

    Agora, falando da parte crítica, tenho alguns comentários a fazer, mas nada demais.
    " meses mais velhos " ---> Você botou "velho" no plural, provavelmente sem querer kkk

    "Ainda consigo me lembrar do olhar da minha melhor amiga quando contei isso para ela. O suusto, o pesar e a preocupação." ---> Aqui você usou vírgulas entre "ela" e "o susto", mas eu pontuaria desse jeito, acho que fica melhor.

    " Apenas a menção me faz estremecer como se o sereno da noite arrebatesse em cheio, coração bater tão rápido.." ---> Acho que aqui a repetição do "faz" seria boa, quem sabe até pontuar depois de "cheio" e começar uma nova frase com o "Faz meu coração".

    Só isso mesmo.
    Beijo <3

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  2. Obrigada pelo conforto e também pelas críticas.
    O "velhos" foi realmente sem querer, mas em relação as outras duas observações vc está certíssima.

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