quinta-feira, 24 de junho de 2021

A oportunidade de ser Vitor

 Uma mulher e um homem se conhecem na faculdade. Entre trabalhos em grupo

e festas, aproximam-se cada vez mais, compartilham seus gostos, ganham intimidade

até se tornarem um casal. Ao apresentá-lo ao pai, a mulher é proibida de seguir com o

relacionamento. O motivo? “Você é negro! Minha filha não vai namorar um negro!”.


Lembro-me de quando fechamos essa parte do roteiro da peça como se fosse

ontem, e já faz alguns anos. O peso de trazer uma situação tão real quanto delicada era

enorme, mas, àquela altura, estávamos chegando ao ponto máximo de crítica da trama

no momento em que Vitor – intérprete de um dos personagens principais da história, o

homem em questão – trouxe o auge que precisávamos chegar.


“Eu já suportei demais o seu escárnio. Suportar é a lei da minha raça. [...] eu sou

negro...eu sou negro sim, mas, por um acaso, negro não tem olhos? [...] Quando vocês

dão porrada na gente, a gente não sangra igual? [...] Quando vocês dão tiro na gente, a

gente não morre também? Pois se a gente é igual em tudo, também nisso vamos ser!”.


A fala de Lázaro Ramos enquanto personagem Roque no filme “Ó Paí, Ó” era

perfeita para completar a cena – pensei. Entretanto, no momento em que o vi encenando

o trecho pela primeira vez, percebi que não se tratava apenas de um excelente recorte

lembrado para fortalecer a nossa crítica, mas de uma grande oportunidade de Vitor

externar o seu eu violentado por anos. Já tinha ouvido dele e de um dos diretores da

peça fortes histórias de repressão que aconteciam dos shoppings da Zona Sul carioca

aos supermercados da Baixada Fluminense. Não importava o lugar ou a circunstância,

alguém sempre tentava se mostrar superior violentamente pela cor da pele ou orientação

sexual.


Para alguns, talvez você e Vitor sejam iguais. Não! Não são. Dizer isso seria

mais uma vez reduzir suas vivências e dores a um mesmo sofrimento desconsiderando

suas individualidades. Mas é possível que você também queira a sua chance de externar

o seu eu e ainda não conseguiu.


Veja, hoje, Vitor está prestes a começar a cursar Direito em uma universidade

federal. Infelizmente, ele ainda pode e é provável que irá sofrer durante a vida afetando

o ego de pessoas que não suportam alguém “diferente” no meio. Meu conselho? É para

você. Inspire-se em Vitor, o maior exemplo que tenho de pessoa que externa sempre

com alegria o orgulho de ser gay e preto em uma sociedade indiferente aos tais

diferentes.


O Tempo.

3 comentários:

  1. Que lindo, Tempo. Estou torcendo por Vitor e espero que ele ainda ocupe muitos espaços pra incomodar os ignorantes preconceituosos. A pele preta carrega vivências e uma força que os outros jamais entenderão de fato. Ainda bem que existe a arte pra trazer um pouco dessa resistência tão potente à tona. Parabéns pelo texto.

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  2. Tempo, eu gostei muito do seu texto! As pessoas gostam muito de julgar umas as outras por causa de qualquer coisa. E um dos primeiros passos para combater preconceitos e ser feliz consigo mesmo é o de se orgulhar de quem você é. Então, continue sim se inspirando no Vitor! Abraço!

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  3. Tempo, me enoja essa sociedade ser tão nojenta com o outro pelas "diferenças". Diferenças no o que, afinal? No fim da vida de cada um, todos se tornam a mesma coisa: ossos ou cinzas. No fim ninguém é diferente, mas as pessoas insistem em levar conceitos tão ultrapassados para frente. Parabéns pelo texto.

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