sexta-feira, 14 de abril de 2023

 A imagem quase dantesca de um corpo insone em uma cama. Dama da noite, flor

que embala as pálpebras abertas. Eu, como um inseto macabro, excelentemente kafkiana,

deitada sem conseguir dormir. O teto, branco e quase vivo, a me esmagar como um terror

precursor do pesadelo.

Antes de estar viva, eu dormia. O sono, o sonho, o travesseiro como os braços

maternos. Uma infante a chorar, eterna.

O meu ócio diurno repugna-me. O meu corpo, quase uma pedra a desabar de um

penhasco, se mexe na cama e eu penso. Pensar é uma ação infinitamente maldita. Há os

dias e seus erros, a voz ensurdecedora de seus pais brigando na sala, uma infância entre

berros, a juventude tímida... refletir é o fado da vida.

Alienante experiência de viver em sociedade. Todos, infinitamente cultos,

infinitamente tolos. Penso, pondero, o cobertor quase me enforca, como uma serpente

famélica com suas escamas frias. Devora-me ela. Partem-me ao meio com uma faca. Sou

o jantar mal requentado dessa que é a minha ignorância.

Minha cama é meu único amor, minha única paixão, enamorei-me por meu leito

e eu nem menos consigo apropriadamente me entregar aos meus sonhos. Utópico desejo

de dormir.

Odisseia cerebral. Pensamento de mil maravilhas. A rainha ordena que minha

vontade vá ao calabouço de minha alma. Sem cabeça e sem futuro. Solidifica-se a solidão

de um quarto bem iluminado.

O meu corpo exala o odor de meu desespero. Encontro-me com o sol.

Toma-me, então, a vontade pungente de Hypnos. Essa manhã bárbara em seu

início e seu final.

Imploro-te, como favor perene, que apenas me acorde quando a lua puder,

novamente, me agonizar. De antemão, te agradeço.

-Christine Daaé.

5 comentários:

  1. Bonito texto, só achei muito subjetivo, talvez seja sua forma de lidar com o trauma.

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  2. Nossa, adorei seu texto, achei uma pegada bem forte.

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  3. A subjetividade do texto me deixou inconclusiva sobre seu trauma, mas acredito que é apenas outra forma mais poetica de relatar. Concordo com você que "pensar é uma ação infinitamente maldita".

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  4. Lindo texto, mas senti que a subjetividade tira o foco do leitor quanto ao trauma em si, já que exige mais da interpretação. De qualquer forma, gostei bastante!

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  5. Apesar de ter gostado do texto, achei que ficou muito subjetivo,o que interfere bastante na mensagem que é passada para o leitor. Talvez sua forma de escrever seja mais pessoal.

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