segunda-feira, 11 de abril de 2022

A ovelha solitária 


Falar sobre algo que te incomoda tanto nunca será uma tarefa fácil, mesmo com muitas sessões de terapia. Acredito que o pior seja falar sobre mim a partir de algo tão íntimo. Sinto como se estivesse desnudando o meu interior e expondo o foco das minhas feridas, medos e angústias, mostrando-me totalmente vulnerável.

Felizmente, a multidão na qual vivemos permite que eu me esconda, na tentativa de não deixar transparecer o quanto eu sou quebrada. Por fora, sou como a maioria: ando pelo mundo e me sinto à vontade com muita gente. Não nasci para holofotes e gosto de passar despercebida, mas ao mesmo tempo eu percebo tudo. Por dentro, sou marcada pela violência – demorei muito para perceber o quanto minha família é violenta, machista e como eu não me encaixo nela. Apesar de conviver com as agressões, parei de tolerar certos comportamentos. Me rebelei contra o sistema e luto por respeito dentro da minha própria família. Por isso, sou considerada a ovelha fora do rebanho (solitária) e eles me veem como uma “pessoa problemática”.

Infelizmente, essa violência instituída me assombra a ponto de eu não conseguir me relacionar com o outro. Vejo como são os relacionamentos na minha família e me apavoro só de pensar que um dia isso possa se repetir comigo. Trauma. Cresci sem perceber, mas hoje reconheço o quanto sou traumatizada com a violência na minha família machista. O meu maior medo é, futuramente, continuar convivendo com a violência no ambiente familiar.


Elizabeth Bennet           

   Por Elizabeth Bennet

10 comentários:

  1. Querida Elizabeth,
    Costumo acreditar que: o ciclo da violência acaba, a partir do momento em que nós tomamos consciência dele.
    Não tenha medo de viver graças às suas experiências traumáticas. O medo existe em todos, o problema é quando ele nos paralisa.
    Não importa o quanto alguns seres humanos nos machuquem, alguns outros podem nos mostrar as facetas mais belas da vida.
    Quem lhe disse que passar desapercebida é necessariamente algo ruim? Nesse caso, é ser você!
    Ser vulnerável nos permite vivenciar a cura, e nesse caso uma possível sublimação. Boa sorte em sua jornada de liberdade!
    Quanto a sua estrutura textual, me cativei em cada detalhe. Parabéns!
    Com carinho,
    Shaolin, o matador de porco

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  2. Querida Elizabeth, o seu texto me marcou em diferentes pontos, remar contra a maré é realmente exaustivo e solitário. Nós, mulheres, incomodamos desde o momento em que nascemos e isso é algo que me deixa triste e pensativa, mas não me faz querer lutar menos. E lutas são para a vida inteira. Espero que você tenha força para enfrentar as adversidades que ainda virão, no que for possível, conte comigo.

    Deixo meu abraço afetuoso e acolhedor,
    Lilith

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  3. Elizabeth, logo quando pude me conectar com você através da sua escrita, o texto chegou ao fim! Você poderia ter ido um pouco mais além, porque dá pra perceber que você tem potencial para isso. Quanto à sua família, tem alguns momentos que lutar por aceitação não vale a pena. Você só vai precisar lutar pra fazer com que eles reconheçam seu valor enquanto você mesmo não o conhecer. Não vale a pena, você é melhor do que isso.
    Com afeto, Argus.

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  4. Elizabeth Bennet, parabéns pelo texto. Foi uma leitura fluida e de fácil identificação com a situação. O medo é bom, desde q não se torne paralisante. Entendo que é difícil se reconhecer o cenário qnd estamos inseridos nele, mas agora que vc conseguiu identificar o problema, acredito q seja mais difícil perpetuá-lo.

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  5. Elizabeth, você ter se rebelado contra essa estrutura machista familiar já é o começo do fim desse ciclo cruel. Você tomou ciência dele e, com toda certeza, não deixará ele se repetir. Gostei demais da sua estrutura textual.
    Com carinho, Aria.

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  6. Elizabeth, adorei como você se colocou em seu texto. Acredito que se você escrevesse mais quatro ou seis parágrafos, eu os leria sem pestanejar. Obrigado por compartilhar o seu trauma conosco. Você não está sozinha nessa luta. Embora seja tão ruim viver em um ambiente tóxico, procure na faculdade os seus grupos de apoio e até um feminista mesmo. Acho que tem. Você tem todo o direito de se rebelar e isso é lindo,é o que significa viver. Daqui pra frente, espero que nada te pare.

    Abraços do Liev

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  7. Elizabeth, sua coragem de admitir as falhas de sua própria família e ir de encontro à elas é impressionante. A organização dos parágrafos e a seleção das palavras em sua escrita me deixa intrigado e ansioso para seus próximos textos, leria tranquilamente inúmeros parágrafos escritos por você, parabéns.

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Elizabeth, me identifiquei muito com o seu texto. Acredite, você não está quebrada! Pelo contrário: você está carregando o peso de reconstruir um ciclo de violências e transformá-lo em uma nova história.

    Se a sua família não se orgulha disso, saiba que EU me orgulho! Fico à disposição para conversarmos, já que aparentemente padecemos das mesmas aflições.

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  10. Querida Elizabeth, sinto muito por você ter crescido num ambiente violento. Eu te entendo muito bem. Não é fácil ser "sozinha" dentro de uma família, nè. Mas espero encarecidamente que você fique bem e supere todo esse cenário hostil!

    com carinho, Glória Maria!

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