sexta-feira, 19 de maio de 2023

Não me diga mentirinhas, dói demais.

Querida dona Carolina, me desculpe, mas eu não acredito que o seu sofrimento seja uma

farsa. Aliás, nem prefiro pensar nesta possibilidade.

Fico me perguntando, apenas uma coisa, por que a história da senhora me impactou

tanto? Ando em transportes públicos todos os dias e, quase sempre, entra uma pessoa

vendendo algo. Por que estas histórias diárias de sofrimento não me causa uma

comoção genuína? Não sei, infelizmente essas situações viraram corriqueiras demais,

mas não deveria ser assim, são seres humanos que estão passando fome, não possuem

condições de pagarem o aluguel, enfim.

Sistema, como disse o grande filósofo Capitão Nascimento, o sistema é foda. Um

sistema que se propõe a oferecer o básico para a população, mas ele próprio fica tão

distante desta proposta. “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer

natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros no país a inviolabilidade do

direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. Preferi deixar a

citação sobre a nossa Constituição desta forma somente para lhe fazer uma pergunta,

querido leitor, será que a dona Carolina se sente representada com este o artigo cinco da

nossa Constituição?

Quantas donas Carolinas, Lauras, Franciscas não se sentem pertencentes da nossa

sociedade. Quantos seus Miguéis, Josés, Oswaldos devem possuir esse mesmo

sentimento. Um grave processo de exclusão social, milhares de pessoas não tem nada,

simples assim. Ainda não sei te dizer querido leitor o porquê a história da dona Carolina

me impactou tanto, me fez criar um mundo paralelo em plena aula de oficina de

produção textual, me fez chorar.

De verdade, queria ajudar ela da melhor forma possível, mas também me sinto meio

excluído deste sistema. Veja bem, não estou comparando situações até porque elas são

distintas. Uma senhorinha que contou com a ajuda de um colega nosso para passar a

mensagem que ela não era capaz de transmitir, sem amparo nenhum, sem uma boa rede

de apoio. Talvez seja essas algumas coisas que fizeram eu me envolver tanto com essa

história. Espero que a senhora se recupere desta terrível doença. Que a senhora receba

esse grande abraço virtual dos alunos da oficina de produção textual. Melhoras dona

Carolina.

- Pérolas do Cléber Machado.

4 comentários:

  1. Gostei da sensibilidade da sua crônica. Aproveito também para dizer que são poucos que se sentem incluídos ou representados por esse sistema, Cléber Machado.

    ResponderExcluir
  2. Texto muito bem escrito. Acho que, com sua sensibilidade, você conseguiu traduzir o sentimento de impotência e comoção de toda a turma diante da história de dona Carolina

    ResponderExcluir
  3. Gostei muito do seu texto, achei completo, bem escrito e adorei sua sensibilidade.

    ResponderExcluir