segunda-feira, 27 de junho de 2016

Descanse em paz, democracia


Um dos lutadores vestia verde e amarelo, e o outro não vestia vermelho. Não vestia nada, na verdade. Sua nudez deixava evidente sua fragilidade e vulnerabilidade.

A maior parte do público tinha panelas nas mãos. Para que? Vai saber. Para cozinhar é que não era. Essas arquibancadas estavam protegidas por grades, cercas elétricas, alarmes e pit-bulls. Tudo para evitar que fossem atingidas pelo que acontecia dentro do ringue. No entanto, nenhum desses artifícios foi capaz de impedir que o sangue respingasse em todos os espectadores.

A diferença mais notável entre os dois adversários é que o lutador nu era extremamente jovem e magro. Tinha um olhar desorientado, como uma criança que ainda estava aprendendo como sobreviver em sociedade. Ainda estava nos primeiros passos, se consolidando. Era perceptível que tinha poucos anos de vida, enquanto o lutador verde-amarelo era nitidamente experiente. Estava acostumado a ser o dono do ringue na maior parte da história do Brasil.

"Ó pátria amada, idolatrada, salve, salve". O público majoritário cantava alto e tinha a ilusão de que a luta seguia o ritmo da música. Mas não seguia. O lutador verde-amarelo estava completamente alheio à vontade de sua plateia verde-amarela. Eram apenas fantoches. Um mata-leão bem aplicado deixou o lutador nu sem conseguir respirar ou reagir, e os jornalistas presentes levantaram as câmeras imediatamente. Os flashes disparavam, deixando claro quais seriam as próximas manchetes. Quando o lutador nu finalmente conseguiu se defender, nenhuma fotografia foi capturada.

Em um dos rounds, os murros fizeram soar palavras nos auto-falantes. Muitas eram palavras de agradecimento, que citavam Deus, a pátria e família. Pelo aniversário da minha neta, eu dou esse soco. Em memória do general Carlos Alberto Brilhante Ustra, eu dou esse chute. O público vibrava e o som das panelas ficava cada vez mais alto. Tchau, querida.

O golpe final marcou a vitória do lutador verde-amarelo sobre o lutador nu. Descanse em paz, democracia. 

Lucy In The Sky

2 comentários:

  1. Muito bom o texto. Ótima metáfora! Consegui ver: quebra do lead,visão ampla da sociedade e cidadania! Achei legal você ter falado da população tbm!

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  2. Lucy, meu deus, sou completamente apaixonada pelos seus textos. Mas esse foi especial! Achei que não iria gostar de nenhum texto comparando golpe com luta física, mas estava muito enganada. Adorei quando você fala que a democracia é nova, frágil e a falta da atenção dos jornalistas. Gostei também como o lutador verde e amarelo quer ganhar por ele, não pelos seus torcedores. Podemos ter muitas visões históricas do seu texto. Acho que você potencializou os recursos jornalísticos, deu uma visão ampla da realidade, exerceu a cidadania, rompeu com o Lead, evitou definidores primários e - apesar de não ser perene pelos usos de expressões e situações muito atuais - foi extremamente profundo. Parabéns!

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