segunda-feira, 27 de junho de 2016

Fui apresentado à vida já com um – ou dois – duro golpe. Tem aqueles que nascem chorando o fato de ter findado sua maravilhosa formação dentro de sua mãe, e tem aqueles, como eu, que aceitam de bom grado o fato de ter chegado sua hora de vir ao mundo, porem, por medidas de segurança, são recebidos com um tapa para que chore. Ok, existe um por quê mas não deixa de ser o primeiro “golpe grátis” que a vida me deu.

A minha vida segue seu curso, natural. Recebi amor dos meus pais, recebi sorrisos e é maravilhoso esse mundão à quem fui apresentados. Milhares de possibilidades. Amiguinhos. Cama sempre que quisermos - nossos pais veem isso quase como um alivio. Pra eles é como folga por algumas horas. Até esse instante a vida parece ser mil maravilhas, mas a “mão que dá carinho, também da patada”.

E recebi o mais duro golpe da minha vidas, até o instante: Primeiro dia na escola. Como assim temos acordar cedo e termos que ver nossos pais nos deixar em um lugar que nunca vimos antes, com pessoas estranhas e, o pior, outras crianças? 

“COMO ASSIM NÃO SOU MAIS O “FOFINHO” E CENTRO DAS ATENÇÕES?”, eu pensava. 

Nos primeiros dias parece uma barbárie de nossos pais. O que fizemos? Eles não gostam mais de nós? Eles vão voltar? Não sabemos.

O tempo passa e percebo que algumas daquelas crianças até que são legais. “Obrigado pelos novos amiguinhos, vida!” Agora ir pra escola é legal e divertido – fazer desenhos - ou apenas rabiscos - e receber elogios por eles é realmente muito legal! Nada parece ser ruim e continuamos crescendo e já quero ser igual ao papai, mas eu só tenho três anos ainda, calma.

Cresci, os anos vão passando, e a vida já começou a nos amaciar com alguns golpes mas nada critico até agora. Um raladinho ali, um tombo aqui, tudo normal na infância, até que recebemos o mais duro golpe da vida acadêmica: “Prova de matemática terça-feira, turma!”.

 “Tia, a gente não sabe o que e prova, é de comer?”. Que pavor ter que mostrar que você tem aprendido algo nas aulas, isso nunca aconteceu antes. 

E seguem os golpes durante a vida, mas conforme cresço, percebo que “perder no par ou ímpar” não é tão ruim assim.

Aos onze anos, terminei o primeiro ciclo do fundamental e tive que mudar de escola. Não queria deixar de ver os amigos de sempre, gostava das “tias” que me ensinaram tantas coisas e foram tão legais. 

“E agora? Como vai ser nessa escola nova? Será que vou gostar? Ou pior, será que vão gostar de mim?”

Ok, os primeiros dias não são nada fáceis mas com o tempo a gente se ajusta. Surgem novas amizades, sou mais responsáveis – agora tenho a obrigação de manter seu quarto arrumado e lavar a louça de vez em quando, que “grande responsabilidade”, hein?! – e, terça e quinta, vou pra escolinha de futebol. Agora tenho que estudar pra valer pra passar nas matérias, tenho que levar o cachorro pra passear de vez em quando e nossos pais insistem que temos de manter o quarto arrumado.

“Pais, deem um tempo! O quarto é meu, certo?”

Já um pouco mais velho, uns quatorze para quinze anos, percebo que meus pais já não estão se falando muito, e não rimos mais juntos como antes. Vejo que eles não olham mais um para o outro.

“Pais, o que está acontecendo? Não me deixem sem saber o que está acontecendo!”

Algumas semanas depois do fim das aulas meus pais me dizem que estão “dando um tempo” e que meu pai – SIM O MEU PAI! – iria sair de casa por um tempo para que ele tivesse espaço para pensar e que minha mãe também tivesse tempo pra ela pensar. Nunca antes levei um soco tão forte da vida. Acho que levei uma sequência de socos na verdade, o suficiente para desaprender falar o português mais básico.

“Como assim dar um tempo? Quanto tempo? NÃO SEJAM IDIOTAS, SEU BOBOS!”

Foi um período difícil. Passei a arrumar a casa, lavar a louça e principalmente dominar a máquina de lavar roupa. Tinha que me virar agora que meu pai não ia estar sempre presente, tinha de passar a ser o homem da casa e agir como tal.

Meus pais passaram seis meses separados até que meu pai finalmente voltou pra casa. Eu via meu pai quase todos os dias, mas fazia tanto tempo que não os via juntos, pai e mãe, sorrindo de novo que mal podia expressar o quão feliz estava e o quão bom era ver que estavam felizes. Que estávamos felizes. 

“Obrigado, vida!”

Me achava forte e confiante quando passei para o ensino médio. Afinal, já havia sentido o peso da vida e principalmente seu conforto, mas a vida é uma caixinha de surpresas.

Nunca me senti assim antes. Era como se não soubesse falar de novo, mas agora era diferente, não mais por medo, mas por “amor”? Seria isso? Não sei, mas assim que eu a vi, tudo parecia menos importante e que vê-la ali, conversando com outras meninas, era a coisa mais interessante do mundo. Seu nome era Maria Antonieta, eu não sei bem, mas parece que esse nome era igual de alguém importante. Cabelos longos e loiros, olhos azuis e um sorriso que fazia meu coração parar e meu estomago tornar-se um ginasta dentro de mim.

Maria Antonieta foi o primeiro “golpe do amor” que levei na vida. Ela era muito gentil e extremamente educada, hoje se a encontrasse certamente a convidaria para um café e iriamos dar risada sobre o passado, mas foi minha primeira rejeição e era difícil aceitar que o que sentimos não significa que os outros são obrigados a sentir o mesmo.

“Obrigado, Maria, aprendi muito com sua rejeição. Também aprendi que o azar foi seu! haha”

Aos dezoito anos, estava no meu último ano no ensino médio e ainda não fazia muita ideia do que eu gostaria de fazer. Mas me esforcei pensando no vestibular. Estudei de verdade, e quando recebi a notícia de que “não estava qualificado” para entrar na faculdade, me achei um completo inútil. A vida estava me dando um sopapo e eu demorei pra reagir. Vi muitos amigos felizes entrado na faculdade, abraçando os pais e agradecendo aos professores por os ajudarem.

Meus pais foram muito pacientes me explicando que haveria outra oportunidade no ano seguinte, mas mesmo assim, sentia que os estava decepcionando.

“Vida, da uma trégua.”

Hoje estou com dezenove, quase vinte anos. Ontem recebi a notícia de que passei no vestibular. O curso vocês tem de descobrir. Quem sabe não consiga um emprego que me permita viajar? Estou ansioso para o que a vida tem a me oferecer a partir de agora. Sinto a mão leve mas estou preparado para os murros que estão por vir. Amanhã vou falar de uma vez por todas que eu estou apaixonado pela Monica, somos muito fã de Legião Urbana, e essa foi a primeira coisa que descobrimos ter em comum.

Como já dizia Balboa: “A vida não é sobre quão duro você é capaz de bater, mas sobre quão duro você é capaz de apanhar e continuar indo em frente.

 

Leo Valdez


2 comentários:

  1. Muito interessante seu texto! As formas que utilizou para marcar a passagem da vida não deixou o texto cansativo e chato. Você realmente mudou o contexto da palavra golpe. Seu texto é bem fiel com com a realidade: ao passar da vida temos situações que consideramos um golpe.Endim, notei perenidade, visão geral e quebra do lead
    H. machado
    Bjs.

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  2. Concordo com a Helena, você saiu do quadrado para falar de golpe. Também gostei das passagens de tempo com essas frases, consegui visualizar um filme em minha cabeça com esse método utilizado. Da estrela, vi o rompimento com o lead, perenidade e ultrapassou os limites do cotidiano. Percebi também que, mesmo vendo os pais passarem por um momento complicado no relacionamento, o personagem não deixou de acreditar no amor.

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