domingo, 5 de junho de 2016

Zero à esquerda

Antes mesmo de sair da adolescência, descobri que eu era um zero à esquerda.
Andava pelas ruas, via as pessoas que moravam lá e estendiam as mãos. Eu dava tudo que tinha nos bolsos, mas sabia que não tinha ajudado. Não era capaz de ajudar. Ia ao centro da cidade, pegava o metrô lotado no fim da tarde e reparava nas expressões dos rostos. Tanto estresse, tanta pressa, tanto cansaço. Sentia o ar pesado pela dor de cada um, que trabalhou o dia inteiro para sobreviver e dar lucro a alguém. Meu pai dizia que a vida é assim mesmo, essa é a ordem natural das coisas. Se eu estudasse bastante, poderia ser o patrão e não o empregado. 
Então, eu ia à escola, ficava em silêncio, decorava. Olhava para o relógio, esperando a hora passar. Para que? Para passar no vestibular. Meu pai explicou que não tinha vaga para todo mundo porque senão qualquer idiota entraria na faculdade. "Qualquer idiota". Os idiotas eram aqueles que não eram inteligentes. Não tinham dinheiro para ser inteligentes. 
Assistia ao jornal na hora do jantar, e o repórter dizia que alguns morreram na favela. Não dava mais detalhes. Meu pai comentava que estava ótimo, quanto menos bandidos vagabundos, melhor. Discursava que se esforçava muito na empresa e por isso merecia todo o sucesso que tinha. Era verdade: ele chegava tarde em casa todos os dias. Mal nos víamos. Era um sucesso mesmo.  
Uma vez, viajamos juntos de carro. As estradas eram cheias de verde, tão lindas que não dava para desviar os olhos. Tudo aquilo pertencia a alguém. E mesmo assim, só havia o verde. Ninguém morava, ninguém produzia. Terras sem gente, gente sem terra. Fizemos uma trilha e, no meio do caminho, encontramos uma placa: "Proibida a entrada, propriedade particular". Meu pai não quis seguir em frente. Alguém havia comprado a natureza. Ele disse que eu devia aprender desde cedo a importância de respeitar a propriedade.
Pensei em largar tudo. Pensei em queimar meu dinheiro e sair por aí, que nem o cara daquele filme, Into the Wild. Mas como é que se faz pra sobreviver? Se eu tinha sede, tinha que comprar uma água. Se eu tinha fome, tinha que comprar comida. Se eu tinha frio, tinha que comprar um casaco. Isso era tudo que eu havia aprendido sobre sobrevivência.
Nas noites de domingo, gostava de dar uma volta pela cidade que ficava finalmente deserta. Olhava os prédios, o asfalto, a poluição, o lixo. Pensava no por que de tudo aquilo ser necessário, e chegava à conclusão de que não era.
Descobri que não tinha mais jeito. Eu nunca me conformaria. Eu nunca ficaria confortável. Eu nunca teria ambição. Para o meu pai e todos os muitos como ele por aí, eu sempre seria um zero à esquerda. 

Lucy In The Sky

6 comentários:

  1. Eu acho que todos nós somos capazes de ajudar, logicamente que sozinhos não mudaremos o mundo mas podemos mudar nossa casa, nosso bairro, a vizinhança. Mas me lembrei também de uma imagem no facebook que falava o porquê de se estudar e mostrava uma mansão, traduz muito o mito da meritocracia. No seu texto eu observei perenidade, profundidade, exercimento da cidadania e ultrapassou os limites do cotidiano.

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  2. Lucy, gostei do seu texto e a crítica ao mito da meritocracia, com toda a sutileza que utilizou, muito bom. Você apresentou uma visão ampla da realidade, rompeu com o lead, utilizou recurso do jornalismo também. Parabéns pelo texto

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  3. AMEI o seu texto! Muito bem escrito mesmo. Você foi muito além, na minha opinião, de esquerda X direita, fazendo toda uma crítica elaborada ao sistema capitalista! Imagino que todos nós, principalmente em anos de vestibular, acabamos pensando "por que estamos fazendo isso? O que é o dinheiro, afinal?". Fantástico texto! Creio que rompe com toda as estrelas!

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  4. Muito boa a metáfora do título e cumpriu muito bem a proposta dele no texto. Como Helena disse, fez uma crítica muito bem elaborada ao nosso sistema. Desde a marginalização dos favelados, passando pelo esquema seletivo (extremamente absurdo) de introdução nas universidades, até a propriedade privada. Com isso, é notório o exercício de cidadania e visão ampla da realidade. Parabéns.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Adorei seu texto. Uma visão muito interessante do tema, fazendo uma crítica a algo muito maior, que é o capitalismo enquanto sistema. Fora o fato de está muito bem escrito. Eu realmente percebi a presença das sete pontas da estrela no seu texto. Parabéns!

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